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Literatura e Palavras

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A WINTER DAY

I

'Tis a void winter day, sad as a moan.
A sense of loneliness, as of a stone
Upon a grave, or of a rock in sea
Rests like a mighty shadow over me.
I am unnerved, unminded by the pall
Of solemn clouds that, weighty over all,
Curtail the vision; and upon mine ear

The City's rumble brings despair and fear
To crush my spirit free and wild.
        The rain,
Reiterated horribly, again
Beast with its drops at my cold window‑pane
With such a sound as makes us know it cold.
The world is ghostly, undaylike and old,
And weary passengers, with cautious tread,
Yet hurried, walk within the streets soul‑dead
In the unkindness of their hue of lead.

The streets are streamlets, and perpetual
A sound of little waters, on roof, on wall,
Down in the streets, in pipes, in window‑glass
And into rooms doth wetly come and pass.
        All is the rain's.
All is pale wetness, darkness inly cold,
A sentiment of waste things and of old
Making all things exterior sorrows, pains;
And all we hear and feel and know and see
Is wrapt around as with a masking cloak
In inconceivable monotony.

All in the houses and up from the street
Is a long watery shuffle of heavy feet,
A sound of drenched garments, and a sense
Of a sad chillness, latently intense.
Through cracks in doors and windows a gust cold
Of wind penetrates like a memory of old
Times to make freeze my body, ill reclined
Upon a couch, a sufferer with my mind.

Life in the streets is sad, a monotone
More dull than usual ordinariness:
Business and work have lost their usual stress,
The vender's cries are each of them a moan
Grotesque, desolate, as forlorn and half‑dead
Hearts might produce which make a war (?) attempt
At talking normally, as if they not bled.
Half‑childish urchins, gloriously unkempt
Laugh at the water that cart‑wheels upshed.

The muddy urchins in the streets that play
Make shades of envy in my soul to stay.
Couples, some newly‑married, others not,
Who in the commonness of their no‑thought

Have a deep happiness I would not have,
A joy to which I would prefer the grave,
Pass in the street. some gay and some sedate.
I feel me no like men in any way.
I envy those - I speak true - without hate
And without admiration, isolate (?).
I would that l were happy as they are
But not with that their happiness. Thus far
Such living as theirs is were unto me
Misery, penury, monotony.

Alas for all who dream! Alas for us,
Poor poets, more or less mad, more or less
Foolish! In this consists true happiness!
In knowing how to be monotonous.
Happy are they who can see without sorrow
        To‑day yield us to‑morrow
And yet to‑morrow and to‑day to them
Different days because different days,
Which are to me (save that they pass) the same.

II

The view I have of this cold winter day,
The deep depression that makes my thoughts stray
Is but a symbol and a synthesis
Of what my life perpetually is.

How deep my thoughts in pain and sadness are!
How wreck'd my soul in its intense despair!
How desolate, disconsolately mute
My heart is of the words that like scents shoot
From the full flower of true youthfulness!
How locked am I within my own distress!
How in the tragic circle soul‑confined
        Of my abhorred self!
Not one ambition leads me - power nor pelf,
No wish for fame, no love of poor mankind.
But I am weary, desolate and cold
E'vn as this winter day. I have grown old
In watching dreams go by and pass away
        Leaving a memory pure and bright
        Of aught that was and died as light
Without the living horror of decay.

Is this thy life, irresolute soul of mine?
How pale the sun of thy sad morn doth shine!
How it forebodes the cloudiness that comes
Outstretched wings of the storm whose muffled drums
Of warning in the paling day are heard
Deep in the distance lesseningly blurred.

Thou look'st not death nor evil in the face
Poor soul despairing in life's troubled race!
All forms of life, all things have been to thee
Mutations of eternal misery.
All years, all homes to thee have been
In the same drama many a change of scene.
Thou hast not learned to live, but thou dost cling
Madly to life (dreading Death's night severe),
As if life or the world were anything!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não leio já; queria abrir um livro

Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...

Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...

Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
766
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CUL DE LAMPE

CUL DE LAMPE

Pouco a pouco,
Sem que qualquer coisa me falte,
Sem que qualquer coisa me sobre,
Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição,
Vou andando parado,
Vou vivendo morrendo,
Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser.
Vou sendo tudo menos eu.
Acabei.

Pouco a pouco,
Sem que ninguém me falasse
(Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?),
Sem que ninguém me escutasse
(Que importa quanto disse e me ouviram dizer?)
Sem que ninguém me quisesse
(Que importa o que disse quem me disse que queria?),
Muito bem...
Pouco a pouco,
Sem nada disso,
Sem nada que não seja isso,
Vou parando,
Vou parar,
Acabei.

Qual acabei!
Estou farto de sentir e de fingir em pensar,
E não acabei ainda.
Ainda estou a escrever versos.
Ainda estou a escrever.
Ainda estou.

(Não, não vou acabar
Ainda...
Não vou acabar.
Acabei.)

Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela?
E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive
E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível.

Que mais querem? Acabei.
Nem falta o canário da vizinha ó manhã de outro tempo,
Nem som (cheio de cesto) do padeiro na escada
Nem os pregões que não sei já onde estão —
Nem o enterro (ouço as vozes) na rua,
Nem trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão
Nem... quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável!
Afinal, agora tudo cocaína...
Meu amor infância!
Meu passado bibe!
Meu repouso pão com manteiga boa à janela!
Basta, que já estou cego para o que vejo!
Arre, acabei!
Basta!
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MARIA: Amo como o amor ama.

Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...

Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.

Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
Se me faltas, (...)

Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas
Quando deves amar-me. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
O Alguém pra te falar de quem tu amas.
Diz-me porque é que o amor te faz ser triste?
Canso-te? Posso eu cansar-te se amas?
Ninguém no mundo amou como tu amas.
Sinto que me amas, mas que a nada amas,
E não sei compreender isto que sinto.
Dize-me qualquer palavra mais sentida
Que essas palavras que, como se as perderas,
                                                               buscas
E encontras cinzas.

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.

Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m'o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m'o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo.

Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.

Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!

                FAUSTO:
Compreendo-te tanto que não sinto.
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?
                MARIA:
Para que queres compreender
Se dizes qu'rer sentir?
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