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Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PRIEST AND HANGMAN

«Burn me that book well, hangman,
        Burn it to the last leaf,
Put at the stake the apostate
        Whose hand of truth was thief.

«Burn his house to the ground, man,
        Starve his children and wife,
His friends disperse, dissever,
        His followers put to the knife.

«His works, his books, his poems
        To fire's oblivion fling;
Let ashes remain of all this.
        Remains there anything?»

«Some that stand by on looking
        Have tears within their eyes.»
«In the stake shall be their ending
        And vain and lone their cries.»

«All's done, my lord.» - «Remaineth
        There aught that was, of theirs?»
«Ashes» - «Throw them to the winds then;
        Still aught of them appears?»

My lord, there still persisteth
        The name they had of good.»
Trouble not; t'will be forgotten
        As their ashes and their blood.»

«Nothing remaineth. - «My lord, yet
        Aught can I not dispel:
Our name that will be ever
        A curse and a living hell.»

We also shall be forgotten
        As these shall cease to be.
What will remain then? -  My lord, still
        The name of Tyranny.»

«That also will remain not.»
        «But the Cause of what we do,
Of this bad world will. «What thou meanest
        My mind cannot construe.»

My lord, I mean 'tis useless
        That all things be crushed and trod.
There will then stand out to be hated
        The accursed name of God»
1 606
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE MAIDEN

A form of Beauty came once to me,
A sweeter thing than earth or sea
Or anything that is Time's contains
Or shows to our heart that has pains.

It went and I rose to seek it afar,
I walked wide and long in my lofty care,
And I asked the passers‑by on the way:
«Have ye seen this maiden? oh, say! oh, say!»

And they cried all: «No, we have felt the wind
Breathe in the blossom things undefined,
We have seen the soft leaves tremble and kiss
As memories thrilled of a vanished bliss.»

I asked a wanderer by the road:
«Hast thou seen the maiden I seek abroad'?»
«No; I have seen the moonlight», he said,
«Rest like a thought on the graves of the dead.»

And I asked of others: «Know ye the maid
Whose beauty but ignored can fade?»
«No», said they; «than skies and flowers
We know naught fairer that is ours.»

And far I went and I asked of all:
None knew her on whom I did call;
They had felt the breathing of lone winds low
Tremble like lips in loves first glow.

They had seen the grass and the trees and flowers
Bloom as things whose life is but hours;
And they had looked back on their little way
And trees and flowers were in decay.

Then I asked a madman who had no home,
And he said: «Alas for thee who dost roam!
Thou must become as I am now
For her thou seekest none can know.

She lives in a region beyond all love
All human sighing far above;
In a palace there on a dream‑wrought throne
She reigns eternally alone.

She maketh the poet's mind to pine,
She seeketh him once with a kiss divine,
And longing eternal follows that kiss
And pain is the blessing of her caress.»
1 584
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Futilidade, irrealidade, (...) estática de toda a arte,

Futilidade, irrealidade, (...) estática de toda a arte,
Condenação dos artistas a não viver!

Ó quem nos dera, Walt,
A terceira coisa, a média entre a arte e vida
A coisa que sentiste, e não seja estática nem dinâmica,
Nem real nem irreal
Nem nós nem os outros —
Mas como até imaginá-la?
Ou mesmo apreendê-la
Mesmo sem a esperança de não a ter nunca?

A dinâmica pura, a velocidade em si,
Aquilo que dê absolutamente as coisas,
Aquilo que chegue tactilmente aos sentidos,
Construamos comboios, Walt, e não os cantemos,
Cavemos e não cantemos, meu velho, o cavador e o campo,

Provemos e não escrevamos,
Amemos e não construamos,
Metamos dois tiros de revólver na primeira cabeça com chapéu
E não façamos onomatopeias inúteis e vãs no nosso verso
No nosso verso escrito em prosa, e depois [....].

Poema que esculpisse em Móvel e Eterno a escultura,
Poema que (...)se palavras
Que (...) ritmo o canto, a dança e (...)
Poema que fosse todos os poemas,
Que dispensasse bem outros poemas,
Poema que dispensasse a Vida.
Irra, faço o que quero, estorça o que estorça no meu ser central,
Force o que force em meus nervos industriados a tudo,
Maquine o que maquine no meu cérebro furor e lucidez,
Sempre me escapa a coisa em que eu penso,
Sempre me falta a coisa que (...) e eu vou ver se me falta,
Sempre me falta, em cada cubo, seis faces,
Quatro lados em cada quadrado do que quis exprimir,
Três dimensões na solidez que procurei perpetuar...
Sempre um comboio de criança movido a corda, a corda,
Terá mais movimento que os meus versos estáticos e lidos,
Sempre o mais verme dos vermes, a mais química célula viva
Terá mais vida, mais Deus, que toda a vida dos meus versos,
Nunca como os duma pedra todos os vermelhos que eu descreva,
Nunca como numa música todos os ritmos que eu sugira!
Nunca como (...)
Eu nunca farei senão copiar um eco das coisas,
O reflexo das coisas reais no espelho baço de mim.

A morte de tudo na minha sensibilidade (que vibra tanto!)
A secura real eterna do rio lúcido da minha imaginação!
Quero cantar-te e não posso cantar-te, Walt!
Quero dar-te o canto que te convenha,
Mas nem a ti, nem a nada, — nem a mim, ai de mim! — dou um canto...
Sou um surdo-mudo berrando em voz alta os seus gestos,
Um cego fitando à roda do olhar um invisível-tudo

Assim te canto, Walt, dizendo que não posso cantar-te!
Meu velho comentador da multiplicidade das coisas,
Meu camarada em sentir nos nervos a dinâmica marcha
Da perfeita físico-química da
Da energia fundamental da aparência das coisas para Deus,
Da distinta forma de sujeito e objecto para além da vida

Andamos a jogar às escondidas com a nossa intenção...
Fazemos arte e o que queremos fazer afinal é a vida.
O que queremos fazer já está feito e não está em nós fazê-Io,
E fá-lo o [...] melhor do que nós, mais de perto,
Mais instintivamente [...]
Sim, se o que nos poemas é o que vibra e fala,
4O mais casto gesto da vida é mais sensual que o mais sensual dos poemas,
Porque é feito por alguém que vive, porque é (...) porque é Vida.
1 496
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN [b]

SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN

Portugal — Infinito, onze de Junho de 1915
Hé lá, á — á — á — á!
De aqui, de Portugal, de onde a Europa olha a América,
De onde tu teres existido é um efeito complexo,
Consciente de estar à vista, no palco para a plateia que é no auge.
Saúdo-te deliberadamente, saúdo-te
Desde o princípio de te saudar, como é próprio de ti.

Hé-lá Walt, old boy, meu velho arado das almas,
Hé-lá meu condottiere da sensualidade autêntica
Pirata do teu próprio génio,
Filho-pródigo da tua inspiração!

Ó sempre moderno e eterno; cantor dos concretos absolutos
Concubina fogosamente [...] do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te pela diversidade das coisas,
Sexualidade... etc.

Tu, o homem-mulher-criança-natureza-máquinas!
Tu, o p'ra-dentro, tu o p'ra-fora, tu o ao-lado de tudo!
Fulcro-sensualidade ao serviço do infinito, escada
Até não haver fim a subir, — e subir!

Saúdo-te e chamo
A tomar parte em mim na saudação que te faço
Tudo quanto cantaste ou desejaste cantar.
Ervas, árvores, flores, a natureza dos campos...
Homens, lutas, tratados — a natureza das almas...
Os artifícios, que dão sabor ao que não é artifício
As coisas naturais que valem sem valor dado,
As profissões com que o homem se interessa por ter vontade
As grandes ambições, as grandes raivas, as pálpebras
Descidas sobre a inutilidade metafísica de viver...
Chamo a mim, para os levar até ti,
Como a mãe chama a criança para a sentir ser
A totalidade dispersa do que interessa ao mundo...
Ah, que nada me fique de fora das algibeiras
Quando vou procurar-te.
Que nada me esqueça, se te saúdo, que nada
Falte, nem o faltar esqueça,
Porque faltar é uma coisa — faltar.

Vá! Vá! Tudo! O natural e o humano!
Vá, o que parte! vá, o que fica! vá o que lembra e o que esquece!
Tu tens direito a ser saudado por tudo
E eu, porque o vejo,
Tenho o direito a encanar a voz em tudo saudar-te
1 736
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CRISTO: A sonhar eu venci mundos,

A sonhar eu venci mundos,
Minha vida um sonho foi.
Cerra teus olhos profundos
Para a verdade que dói.
A Ilusão é mãe da vida:
Fui doido e tido por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.

Cheio de dor e de susto
Toda a vida delirei,
E assim fui ao céu sem custo,
Nem por que lá fui eu sei.
Meu egoísmo e vã preguiça
Um choroso amor gerou;
De ser Deus tive a cobiça,
Vê se sou Deus ou não sou!

Como tu eu não fui nada,
E vales mais do que eu;
Nada eu. De alucinada
Minha alma a si se envolveu
Na inconsciência profunda
Que nunca deixa infeliz
Ser de todo — e assim se funda
Uma fé — vê quem o diz.
Assim sou e em meu nome
Inda muitos o serão;
Um Deus — supremo renome,
E doido! — suma abjecção.

                CORO DE VOZES MÁSCULAS:

Através de ferro e fogo
        Por ti iremos
Ver a pugna. Por teu Nome logo
        Iremos.
No combate, na fogueira,
        Cessaremos
Mortos, mortos.

               BUDA:

O meu sonho foi incompleto
Por isso eu compreendi
Que sofrer é o nome do trajecto
Que o mundo faz de si a si.

                GOETHE:

Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência
E não pouca.
Maravilha do inconsciente!
Em sonhos sonhos criei
E o mundo atónito sente
Como é belo o que lhe dei.

               SHAKESPEARE:

E é loucura a inspiração!

               VOZES:

Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!
1 654
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem

E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem
Sofrendo, ter verdadeiramente a concentração de sofrer,
É que a vida não crê na morte, é que a morte é nada.

Embandeira em arco, a todas as cores, ao vento
Sob o grande céu luminoso e azul da terra...
Danças e cantos,
Músicas alacres,
Ruídos de risos e falas, e conversas banais,
Acolham a morte que vem, porque a morte não vem,
E a vida sente em todas as suas veias,
O corpo acha em tudo o que nele é alma,
Que a vida é tudo, e a morte é nada, e que o abismo
É só a cegueira de ver,
Que tudo isto não pode existir e deixar de existir,
Porque existir é ser, e ser não se reduz ao nada.
Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz,
Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente,
Se todo este mundo natural, social, intelectual,
Estes corpos nus por baixo das vestes naturais,
Se isto é ilusão, porque é que isto está aqui?
Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!
Se isto não é, porque é que é?
Se isto não pode ser, então porque pôde ser?

Acolhei-a, ao chegar,
A ela, à Morte, a esse erro da vista,
Com os cheiros dos campos, e as flores cortadas trazidas ao colo,
Com as romarias e as tardes pelas estradas,
Com os ranchos festivos, e os lares contentes,
Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa,
Com todo o vasto mar movimentado da vida.

Acolhei-a sem medo,
Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre,
Acolhe o viajante que há-de chegar no comboio de Além.
Acolhei-a contentes,
Crianças cantando de riso, corpos de jovens em fogo,
Alegria rude e natural das tabernas,
E os braços e os beijos e os sorrisos das raparigas.

Embandeira em arco a cores de sangue e verde,
Embandeira em arco a cores de luz e de fogo,
Que a morte é a vida que veio mascarada,
E o além será isto, isto mesmo, noutro presente
Não sei de que novo modo diversamente.
Gritai às alturas,
Gritos pelos vales,
Que a morte não tem importância nenhuma,
Que a morte é um [suposto?],
Que a morte é um (...)
E que se tudo isto é um sonho, é a morte um sonho também.
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