Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Fernando Pessoa
Sexto: D. DINIS
SEXTO
D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
09/02/1934
D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
09/02/1934
6 147
Fernando Pessoa
O decorrer dos dias
ACTO IV
O decorrer dos dias
E todo o subjectivo e objectivo
Envelhecer de tudo não me dói
Por sentido, mas sim por ponderado;
Nem ponderado dói, mas apavora.
Tudo tem as raízes na treva
Do mistério e eu sou disso sempre
Demasiado consciente, muito
Atento ao substancial de existir
E à imanência do mistério em tudo.
Cada coisa pra mim é porta aberta
Por onde vejo a mesma escuridão.
Quanto mais olho mais eu compreendo
De quanto é escura aquela escuridão;
E quanto mais o compreendo mais
Me sinto escuro em o compreender .
Desde que despertei para a consciência
Do abismo da morte que me cerca,
Não mais ri nem chorei, porque passei,
Na monstruosidade do sofrer,
Muito além da loucura da que ri
Ou da que chora, monstruosamente
Consciente de tudo e da consciência
Que de tudo horrivelmente tenho.
Todas as máscaras que a alma humana
Para si mesma usa, eu arranquei...
A própria dúvida, trementemente
Arranquei eu de mim, e inda depois
Outra máscara (...) arranquei
Mas o que vi então – essa nudez
Da consciência em mim, como relâmpago
Que tivesse uma voz e uma expressão,
Gelou-me para sempre em outro ser
Do mesmo antes, (...) eu.
Assim a própria dúvida, o horror
Do mistério do mundo já de mim
Foram em alma passados, mais além
Fui, e isso que encontrei e em que me falou
Como que o ser, isso que não tem nome
Claramente e pavidamente vi.
Vi e não compreendi; só compreendi
Que não há forma de pensar ou crer,
De imaginar, sonhar ou de sentir,
Nem rasgo de (...) loucura
Que ouse pôr a alma humana frente a frente
Com isso que uma vez visto e sentido
Me mudou, qual se ao universo o sol
Falhasse súbito, sem duração
No acabar, e num momento tudo
Fosse luz, fosse treva numa como
Que mudança por mais que imediata
Estranha ao tempo. Compreendi
Mas o quê? Quando vi e compreendi
Compreendendo, só na incompreensão
Eu encontro o terror disso que foi
Essa revelação.
Tudo que toma forma ou ilusão
De forma nas palavras não consegue
Dar-me sequer, cerrado em mim o olhar
Do pensamento, a ilusão de ser
Uma expressão disso que não se exprime,
Nem por dizer que não se exprime. Vida,
Ideia, Essência, Transcendência, Ser,
Tudo quanto de vago e prenhe de tudo
Possa ocorrer ao sonho de pensar
Inda que fundamente concebido
Nem pelo horror desse impossível deixa
Transver sombra ou lembrança do que é.
Com que realidade o mundo é sonho.
Com que ironia mais que tudo amarga
Me não confrange fria e negramente
Esta infinita pretensão a ser!
E vi e compreendi, ó alma, e como
Que de compreender morri em mim.
Não há memória que criada fosse
Para servir a ver o que então vi,
Mais fundamente do que em pura alma
Ou consciência pura. E inda que mais
Eu torne a compreender e a ver rasgado
O véu do Inominável Templo, eu
Tornarei sempre a não saber que vi.
A própria consciência abstracta e pura
Não tem poder para ser consciência
Para essa mais do que revelação...
Oh, horror! Oh, horror! Sinto outra vez
Essa frieza precursora n'alma
Da suprema intuição. Ah, não poder
Fora do ser ou do sentir esconder-me!
Ah, não poder gritar, pedir, deixar-me!
Ah, qualquer coisa mais do que uma luz
Vou sentindo que vai breve raiar
De dentro em dentro no (...) ser...
Aproximar (...) da minha alma.
Morte! Treva! (...) a mim! a mim!
(Com um grito pavoroso Fausto atira-se de encontro à parede dando com a cabeça umas duas três vezes até cair no chão inanimado)
FAUSTO:
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto; não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me, arde
Como uma coisa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar. Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
E...e...
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em mim
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para levantar mas retrai-se.)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
O decorrer dos dias
E todo o subjectivo e objectivo
Envelhecer de tudo não me dói
Por sentido, mas sim por ponderado;
Nem ponderado dói, mas apavora.
Tudo tem as raízes na treva
Do mistério e eu sou disso sempre
Demasiado consciente, muito
Atento ao substancial de existir
E à imanência do mistério em tudo.
Cada coisa pra mim é porta aberta
Por onde vejo a mesma escuridão.
Quanto mais olho mais eu compreendo
De quanto é escura aquela escuridão;
E quanto mais o compreendo mais
Me sinto escuro em o compreender .
Desde que despertei para a consciência
Do abismo da morte que me cerca,
Não mais ri nem chorei, porque passei,
Na monstruosidade do sofrer,
Muito além da loucura da que ri
Ou da que chora, monstruosamente
Consciente de tudo e da consciência
Que de tudo horrivelmente tenho.
Todas as máscaras que a alma humana
Para si mesma usa, eu arranquei...
A própria dúvida, trementemente
Arranquei eu de mim, e inda depois
Outra máscara (...) arranquei
Mas o que vi então – essa nudez
Da consciência em mim, como relâmpago
Que tivesse uma voz e uma expressão,
Gelou-me para sempre em outro ser
Do mesmo antes, (...) eu.
Assim a própria dúvida, o horror
Do mistério do mundo já de mim
Foram em alma passados, mais além
Fui, e isso que encontrei e em que me falou
Como que o ser, isso que não tem nome
Claramente e pavidamente vi.
Vi e não compreendi; só compreendi
Que não há forma de pensar ou crer,
De imaginar, sonhar ou de sentir,
Nem rasgo de (...) loucura
Que ouse pôr a alma humana frente a frente
Com isso que uma vez visto e sentido
Me mudou, qual se ao universo o sol
Falhasse súbito, sem duração
No acabar, e num momento tudo
Fosse luz, fosse treva numa como
Que mudança por mais que imediata
Estranha ao tempo. Compreendi
Mas o quê? Quando vi e compreendi
Compreendendo, só na incompreensão
Eu encontro o terror disso que foi
Essa revelação.
Tudo que toma forma ou ilusão
De forma nas palavras não consegue
Dar-me sequer, cerrado em mim o olhar
Do pensamento, a ilusão de ser
Uma expressão disso que não se exprime,
Nem por dizer que não se exprime. Vida,
Ideia, Essência, Transcendência, Ser,
Tudo quanto de vago e prenhe de tudo
Possa ocorrer ao sonho de pensar
Inda que fundamente concebido
Nem pelo horror desse impossível deixa
Transver sombra ou lembrança do que é.
Com que realidade o mundo é sonho.
Com que ironia mais que tudo amarga
Me não confrange fria e negramente
Esta infinita pretensão a ser!
E vi e compreendi, ó alma, e como
Que de compreender morri em mim.
Não há memória que criada fosse
Para servir a ver o que então vi,
Mais fundamente do que em pura alma
Ou consciência pura. E inda que mais
Eu torne a compreender e a ver rasgado
O véu do Inominável Templo, eu
Tornarei sempre a não saber que vi.
A própria consciência abstracta e pura
Não tem poder para ser consciência
Para essa mais do que revelação...
Oh, horror! Oh, horror! Sinto outra vez
Essa frieza precursora n'alma
Da suprema intuição. Ah, não poder
Fora do ser ou do sentir esconder-me!
Ah, não poder gritar, pedir, deixar-me!
Ah, qualquer coisa mais do que uma luz
Vou sentindo que vai breve raiar
De dentro em dentro no (...) ser...
Aproximar (...) da minha alma.
Morte! Treva! (...) a mim! a mim!
(Com um grito pavoroso Fausto atira-se de encontro à parede dando com a cabeça umas duas três vezes até cair no chão inanimado)
FAUSTO:
Febre! Febre! Estou trémulo de febre
E de delírio, e ainda assim é grato
Tudo isto; não sei que se passa
Sem propósito de passar e... não, não, não...
Fiquei fingindo que fujo... Fugirei...
Onde estou? O que foi? que faço aqui?
Arde-me a alma toda, arde-me, arde
Como uma coisa que arde.
(foge de casa)
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo,
Como tu vives... Corta-me o sorriso
Ou te apunhalo! De que te ris? Não rias!
Dá-me já, dá-me, dá-me filtros (...)
Com que eu me esqueça.
(estende a mão)
Dá cá, não importa
Falar. Tudo é inútil.
(arranca-lhe o frasco da mão)
Atordoar-me-á isto a alma toda
Toda até dentro, muito dentro, velho?
VELHO:
Não te compreendo, mas se é esqueceres
Que queres, bebe.
FAUSTO:
Quero, quero, vamos,
Esqueçamo-nos. Tens algo de mais forte
Para mais do que esquecer; depressa, diz.
VELHO:
Mal te compreendo, mas não tenho.
FAUSTO:
Este
Quer (...) fins.
(bebe sofregamente)
E dormirei, ó velho,
Acabará em mim parte de mim
E viverei morto para viver
E...e...
(cai no chão)
VELHO:
Estranha e horrível criatura!
O que de temor me faz. Todas espécies
De homens conheço, por ciência
Sei ler os vícios íntimos e os crimes
Nos olhares. Mas este... Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem parece
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d'alma,
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usa «esquecer
A vida», «mais do que esquecer» «em mim
Acabará então parte de mim»
Que significam? Não sei, mas sinto
Que condizem secreta e intimamente
Com esse íntimo ser que eu não conheço.
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esqueça ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
No teu intimo (...) desejar.
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma, obra interior de paz
E que ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmutada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
(Vai para levantar mas retrai-se.)
Não; dorme onde caíste e que o filtro
Sem sonho ou (...) de alteração
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens
(exit)
4 588
Fernando Pessoa
Canta onde nada existe
Canta onde nada existe
O rouxinol para seu bem,
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também
Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem Ser imaginação.
Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever!
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver...
07/12/1933
O rouxinol para seu bem,
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também
Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem Ser imaginação.
Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever!
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver...
07/12/1933
4 565
Fernando Pessoa
Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito muitos versos,
Muitas coisas a rimar,
Dadas em ritmos diversos
Ao mundo e ao seu olvidar.
Nada sou, ou fui de tudo.
Quanto escrevi ou pensei
É como o filho de um mudo –
«Amanhã eu te direi».
E isto só por gesto e esgar,
Feito de nadas em dedos
Como uma luz ao passar
Por onde havia arvoredos.
12/04/1934
Muitas coisas a rimar,
Dadas em ritmos diversos
Ao mundo e ao seu olvidar.
Nada sou, ou fui de tudo.
Quanto escrevi ou pensei
É como o filho de um mudo –
«Amanhã eu te direi».
E isto só por gesto e esgar,
Feito de nadas em dedos
Como uma luz ao passar
Por onde havia arvoredos.
12/04/1934
3 793
Fernando Pessoa
Do fundo do fim do mundo
Do fundo do fim do mundo
Vieram-me perguntar
Qual era o anseio fundo
Que me fazia chorar.
E eu disse: «É esse que os poetas
Têm tentado dizer
Em obras sempre incompletas
Em que puseram seu ser.»
E assim com um gesto nobre
Respondi a quem não sei
Se me houve por rico ou pobre.
14/07/1934
Vieram-me perguntar
Qual era o anseio fundo
Que me fazia chorar.
E eu disse: «É esse que os poetas
Têm tentado dizer
Em obras sempre incompletas
Em que puseram seu ser.»
E assim com um gesto nobre
Respondi a quem não sei
Se me houve por rico ou pobre.
14/07/1934
4 085
Fernando Pessoa
No fundo do pensamento
No fundo do pensamento
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar.
Se eu o pudesse tornar
Em palavras de dizer
Todos haviam de achar
O que ele está a esconder.
Todos haviam de ter
No fundo do pensamento
A novidade de haver
Um cantar velado e lento.
E cada um, desatento
Da vida que tem que achar
Teria o contentamento
De ouvir esse meu cantar.
17/03/1931
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar.
Se eu o pudesse tornar
Em palavras de dizer
Todos haviam de achar
O que ele está a esconder.
Todos haviam de ter
No fundo do pensamento
A novidade de haver
Um cantar velado e lento.
E cada um, desatento
Da vida que tem que achar
Teria o contentamento
De ouvir esse meu cantar.
17/03/1931
4 242
Fernando Pessoa
Que suave é o ar! Como parece
Que suave é o ar! Como parece
Que tudo é bom na vida que há!
Assim meu coração pudesse
Sentir essa certeza já.
Mas não; ou seja a selva escura
Ou seja um Dante mais diverso,
A alma é literatura
E tudo acaba em nada e verso.
06/11/1932
Que tudo é bom na vida que há!
Assim meu coração pudesse
Sentir essa certeza já.
Mas não; ou seja a selva escura
Ou seja um Dante mais diverso,
A alma é literatura
E tudo acaba em nada e verso.
06/11/1932
4 462
Fernando Pessoa
Meus versos são meu sonho dado.
Meus versos são meu sonho dado.
Quero viver, não sei viver,
Por isso, anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.
O que salvamos, o perdemos.
O que pensamos, já o fomos.
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.
Se alguém sabe sentir meu canto
Meu canto eu saberei sentir.
Viverei com minha alma tanto
Tanto quanto antes vivi.
04/08/1930
Quero viver, não sei viver,
Por isso, anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.
O que salvamos, o perdemos.
O que pensamos, já o fomos.
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.
Se alguém sabe sentir meu canto
Meu canto eu saberei sentir.
Viverei com minha alma tanto
Tanto quanto antes vivi.
04/08/1930
4 011
Fernando Pessoa
Cai chuva do céu cinzento
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
15/11/1930
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
15/11/1930
5 373
Fernando Pessoa
Já ouvi doze vezes dar a hora
Já ouvi doze vezes dar a hora
No relógio que diz que é meio-dia
A toda a gente que aqui perto mora.
(O comentário é do Camões agora:)
«Tanto que espera! Tanto que confia!»
Como o nosso Camões, qualquer podia
Ter dito aquilo, até outrora.
E ainda é uma grande coisa a ironia.
08/03/1931
No relógio que diz que é meio-dia
A toda a gente que aqui perto mora.
(O comentário é do Camões agora:)
«Tanto que espera! Tanto que confia!»
Como o nosso Camões, qualquer podia
Ter dito aquilo, até outrora.
E ainda é uma grande coisa a ironia.
08/03/1931
4 219
Fernando Pessoa
Já não vivi em vão
Já não vivi em vão
Já escrevi bem
Uma canção.
A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?
Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.
07/05/1927
Já escrevi bem
Uma canção.
A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?
Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.
07/05/1927
5 007
Fernando Pessoa
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.
Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.
E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
– E claramente os meus sonetos.
02/09/1922
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.
Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.
E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
– E claramente os meus sonetos.
02/09/1922
3 776
Fernando Pessoa
GOMES LEAL
GOMES LEAL
Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.
Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inúteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.
(Cancioneiro, Maio de 1930)
Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.
Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inúteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.
(Cancioneiro, Maio de 1930)
4 369
Fernando Pessoa
Vivem em nós inúmeros;
Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos,
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
13/11/1935
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos,
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
13/11/1935
2 375
Fernando Pessoa
Severo narro. Quanto sinto, penso.
Severo narro. Quanto sinto, penso.
Palavras são ideias.
Múrmuro, o rio passa, e o que não passa,
Que é nosso, não do rio.
Assim quisesse o verso: meu e alheio
E por mim mesmo lido.
16/06/1932
Palavras são ideias.
Múrmuro, o rio passa, e o que não passa,
Que é nosso, não do rio.
Assim quisesse o verso: meu e alheio
E por mim mesmo lido.
16/06/1932
2 742
Fernando Pessoa
A nada imploram tuas mãos já coisas,
A nada imploram tuas mãos já coisas,
Nem convencem teus lábios já parados,
No abafo subterrâneo
Da húmida imposta terra.
Só talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
Te ergue qual eras, hoje
Cortiço apodrecido.
E o nome inútil que teu corpo morto
Usou, vivo, na terra, como uma alma,
Não lembra. A ode grava,
Anónimo, um sorriso.
05/1927 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
Nem convencem teus lábios já parados,
No abafo subterrâneo
Da húmida imposta terra.
Só talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
Te ergue qual eras, hoje
Cortiço apodrecido.
E o nome inútil que teu corpo morto
Usou, vivo, na terra, como uma alma,
Não lembra. A ode grava,
Anónimo, um sorriso.
05/1927 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
2 233
Fernando Pessoa
REGRESSO AO LAR
REGRESSO AO LAR (END OF THE BOOK)
Há quanto tempo não escrevo um soneto.
Mas não importa: escrevo este agora.
Sonetos são infância, e, nesta hora,
A minha infância é só um ponto preto,
Que num imóvel e fatal trajecto
Do comboio que sou me deita fora.
E o soneto é como alguém que mora
Há dois dias em tudo que projecto.
Graças a Deus, ainda sei que há
Catorze linhas a cumprir iguais
Para a gente saber onde é que está...
Mas onde a gente está, ou eu, não sei...
Não quero saber mais de nada mais
E berdamerda para o que saberei.
Há quanto tempo não escrevo um soneto.
Mas não importa: escrevo este agora.
Sonetos são infância, e, nesta hora,
A minha infância é só um ponto preto,
Que num imóvel e fatal trajecto
Do comboio que sou me deita fora.
E o soneto é como alguém que mora
Há dois dias em tudo que projecto.
Graças a Deus, ainda sei que há
Catorze linhas a cumprir iguais
Para a gente saber onde é que está...
Mas onde a gente está, ou eu, não sei...
Não quero saber mais de nada mais
E berdamerda para o que saberei.
3 205
Fernando Pessoa
GAZETILHA
GAZETILHA
Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.
Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
(publicado na Presença, nº 18, Janeiro de 1929)
Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.
Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
(publicado na Presença, nº 18, Janeiro de 1929)
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Fernando Pessoa
«THE TIMES»
«THE TIMES»
Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do Times, claro, inclassificável, lido,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...
...............................................................................
Santo Deus!... E talvez a tenha tido!
16/08/1928
Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do Times, claro, inclassificável, lido,
Supondo (coitado!) que ia ter influência no mundo...
...............................................................................
Santo Deus!... E talvez a tenha tido!
16/08/1928
2 946
Fernando Pessoa
AH, UM SONETO...
AH, UM SONETO...
Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...
No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas – esta é boa! – era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...
(publicado na Presença, nº 34, Fevereiro de 1932)
Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...
No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas – esta é boa! – era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...
(publicado na Presença, nº 34, Fevereiro de 1932)
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Fernando Pessoa
RETICÊNCIAS
RETICÊNCIAS
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem – um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...
15/05/1929
Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem – um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim se faz a vida!
Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafísica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distracção de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...
15/05/1929
2 974
Fernando Pessoa
MARINETTI, ACADÉMICO
Lá chegam todos, lá chegam todos...
Qualquer dia, salvo venda, chego eu também...
Se nascem, afinal, todos para isso...
Não tenho remédio senão morrer antes,
Não tenho remédio senão escalar o Grande Muro...
Se fico cá, prendem-me para ser social...
Lá chegam todos, porque nasceram para Isso,
E só se chega ao Isso para que se nasceu...
Lá chegam todos...
Marinetti, académico...
As Musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho,
Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,
E a tua dinâmica, sempre um bocado italiana, f-f-f-f-f-f-f-f.....
Qualquer dia, salvo venda, chego eu também...
Se nascem, afinal, todos para isso...
Não tenho remédio senão morrer antes,
Não tenho remédio senão escalar o Grande Muro...
Se fico cá, prendem-me para ser social...
Lá chegam todos, porque nasceram para Isso,
E só se chega ao Isso para que se nasceu...
Lá chegam todos...
Marinetti, académico...
As Musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho,
Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,
E a tua dinâmica, sempre um bocado italiana, f-f-f-f-f-f-f-f.....
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Fernando Pessoa
A espantosa realidade das coisas
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
(Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
(Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
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Fernando Pessoa
Às vezes tenho ideias felizes,
Às vezes tenho ideias, felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
18/12/1934
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
18/12/1934
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