Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Charles Bukowski
Os Professores
sentado com os professores
falamos sobre Allen Tate
e John Crow Ransom
os tapetes estão limpos e
as mesas da cafeteria brilham
e então circulam conversas
sobre verbas e trabalhos em
progresso
e há até uma
lareira.
o piso da cozinha está
bem encerado
e eu recém havia
jantado
depois de ter bebido até as
3 da manhã
após a leitura
da noite passada
agora lá vou eu outra vez
numa faculdade próxima.
estou em pleno Arkansas em
janeiro
alguém chega a mencionar
Faulkner
vou ao banheiro
e vomito o
jantar
ao sair
lá estão eles em seus casacos e sobretudos
esperando na cozinha.
devo entrar em
15 minutos.
haverá um bom público
eles me dizem.
falamos sobre Allen Tate
e John Crow Ransom
os tapetes estão limpos e
as mesas da cafeteria brilham
e então circulam conversas
sobre verbas e trabalhos em
progresso
e há até uma
lareira.
o piso da cozinha está
bem encerado
e eu recém havia
jantado
depois de ter bebido até as
3 da manhã
após a leitura
da noite passada
agora lá vou eu outra vez
numa faculdade próxima.
estou em pleno Arkansas em
janeiro
alguém chega a mencionar
Faulkner
vou ao banheiro
e vomito o
jantar
ao sair
lá estão eles em seus casacos e sobretudos
esperando na cozinha.
devo entrar em
15 minutos.
haverá um bom público
eles me dizem.
1 146
Charles Bukowski
Eu
mulheres não sabem como amar,
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
ela me disse.
você sabe como amar
mas mulheres só querem
parasitar.
sei disso porque sou
mulher.
hahaha, eu ri.
por isso não se preocupe por ter terminado
com Susan
porque ela apenas irá parasitar
outro homem.
falamos um pouco mais
então eu me despedi
desliguei o telefone
fui ao banheiro
e mandei uma boa merda de cerveja
basicamente pensando, bem,
continuo vivo
e tenho a capacidade de expelir
sobras do meu corpo.
e poemas.
e enquanto isso acontecer
serei capaz de lidar com
traição
solidão
unhas encravadas
gonorreia
e o boletim econômico do
caderno de finanças.
com isso
me levantei
me limpei
dei a descarga
e então pensei:
é verdade:
eu sei como
amar.
ergui minhas calças e caminhei
para a outra peça.
1 224
Charles Bukowski
Esta Noite
“seus poemas sobre as garotas ainda estarão por aí
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
daqui a 50 anos quando as garotas já tiverem ido”,
meu editor me telefona.
caro editor:
parece que as garotas já se
foram.
entendo o que o senhor diz
mas me dê uma mulher verdadeiramente viva
nesta noite
cruzando o piso em minha direção
e o senhor pode ficar com todos os poemas
os bons
os maus
ou qualquer outro que eu venha a escrever
depois deste.
entendo o que o senhor diz.
O senhor entende o que eu digo?
1 284
Charles Bukowski
Este Poeta
este poeta andou bebendo durante 2 ou 3 dias e ele entrou no palco e olhou para a plateia e
imediatamente soube que iria fazer aquilo. ha via um piano de cauda no palco
e ele foi até lá,
abriu a tampa e vomitou dentro. então fech ou a tampa e fez sua leitura.
eles tiveram
que remover as cordas do piano e limpar o interior para en tão recolocá-las.
posso entender
por que nunca voltaram a convidá-lo. mas espalhar para
outras universidades que ele era um poeta
que gostava de vomitar em pianos de cauda não foi justo.
eles jamais consideraram a qualidade de sua leitura. conheço esse poeta: ele é como todos nós: vomitará em qualquer lugar por dinheiro.
imediatamente soube que iria fazer aquilo. ha via um piano de cauda no palco
e ele foi até lá,
abriu a tampa e vomitou dentro. então fech ou a tampa e fez sua leitura.
eles tiveram
que remover as cordas do piano e limpar o interior para en tão recolocá-las.
posso entender
por que nunca voltaram a convidá-lo. mas espalhar para
outras universidades que ele era um poeta
que gostava de vomitar em pianos de cauda não foi justo.
eles jamais consideraram a qualidade de sua leitura. conheço esse poeta: ele é como todos nós: vomitará em qualquer lugar por dinheiro.
1 155
Manuel Bandeira
Saudação a Murilo Mendes
Saudemos Murilo Medina Celi Monteiro Mendes que menino invadiu o céu na cola do cometa de Halley.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
Saudemos Murilo
Grande poeta
Conciliador de contrários
Incorporador do eterno ao contingente
Saudemos Murilo
Grande amigo da Poesia
Da poesia em Cristo
E em Lúcifer
Antes da queda
Saudemos Murilo
Grande amigo da Música
Especialmente grande amigo de Mozart
Que lhe apareceu um dia
Vestido de casaca azul
Saudemos Murilo
Grande amigo das Belas-Artes
Descobridor do falecido Cícero
(Hoje reencarnado num pintor abstracionista que vive em Paris onde o chamam Diás).
Saudemos Murilo
Para quem a amizade é também uma das Belas-Artes
Murilo grande amigo de seus amigos
Delicado fiel atento amigo de seus amigos
Saudemos Murilo
Grande marido dessa encantadora Maria da Saudade
Portuguesa e brasileira
Como seu nome
Invenção de dois poetas
Saudemos Murilo
Antitotalitarista antipassadista antiburocratista
Anti tudo que é pau ou que é pífio
Saudemos o grande poeta
Perenemente em pânico
E em flor.
1 172
Charles Bukowski
Lamentando E Se Queixando
ela escreve: você vai
se lamentar e se queixar
em seus poemas
sobre como eu trepei
com 2 caras na semana passada.
eu te conheço.
ela escreve para me
dizer que meu sensor
estava certo –
ela recém tinha trepado
com um terceiro cara
mas ela sabe que não
quero saber com quem, nem por que
nem como. ela encerra sua
carta, “com amor”.
ratos e baratas
triunfaram novamente.
aí vem ele correndo
com uma lesma em sua
boca, entoando
velhas canções de amor.
feche as janelas
lamente
feche as portas
queixe-se.
se lamentar e se queixar
em seus poemas
sobre como eu trepei
com 2 caras na semana passada.
eu te conheço.
ela escreve para me
dizer que meu sensor
estava certo –
ela recém tinha trepado
com um terceiro cara
mas ela sabe que não
quero saber com quem, nem por que
nem como. ela encerra sua
carta, “com amor”.
ratos e baratas
triunfaram novamente.
aí vem ele correndo
com uma lesma em sua
boca, entoando
velhas canções de amor.
feche as janelas
lamente
feche as portas
queixe-se.
1 116
Charles Bukowski
O Que Eles Querem
Vallejo escrevendo sobre
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cérebro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
– é isso o que eles querem:
o danado dum show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranquilos
seguros
admiradores de
carnavais.
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cérebro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
– é isso o que eles querem:
o danado dum show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranquilos
seguros
admiradores de
carnavais.
1 247
Charles Bukowski
Blue Cheese E Chili
essas mulheres supostamente deveriam aparecer
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
e me ver
mas elas nunca
vêm.
há aquela com uma enorme cicatriz ao longo
da barriga.
há a outra que escreve poemas
e liga às 3 da manhã, dizendo,
“eu te amo”.
há a que dança com uma
jiboia
e escreve a cada quatro
semanas, dizendo
que virá.
e a 4ª que alega dormir
sempre
com meu último livro
debaixo do
travesseiro.
bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili.
essas mulheres são boas de cabeça e de
corpo, excelentes dentro ou fora da cama,
perigosas e fatais, é
claro...
mas por que todas têm de viver
lá no norte?
sei que um dia elas irão
chegar, mas duas ou três
no mesmo dia, e
vamos sentar e conversar
e então todas irão embora
juntas.
um outro qualquer as terá
e eu caminharei por aí
em meu short surrado
fumando cigarros demais
e tentando extrair algum
drama
de nenhum progresso
de fato.
1 143
Manuel Bandeira
Improviso
Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
1 360
Manuel Bandeira
Helena Maria
Helena Maria:
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
1 417
Manuel Bandeira
À Maneira de Alberto de Oliveira
Esse que em moço ao Velho Continente
Entrou de rosto erguido e descoberto,
E ascendeu em balão e, mão tenente,
Foi quem primeiro o sol viu mais de perto;
Águia da Torre Eiffel, da Itu contente
Rebento mais ilustre e mais diserto,
Ê o florão que nos falta (e não no tente
Glória maior), Santos Dumont Alberto!
Ah que antes de morrer, como soldado
Que mal-ferido da refrega a poeira
Beija do chão natal, me fora dado
Vê-lo (tal Febo esplende e é luz e é dia)
Na que chamais de Letras Brasileira,
Ou melhor nome tenha, Academia.
Entrou de rosto erguido e descoberto,
E ascendeu em balão e, mão tenente,
Foi quem primeiro o sol viu mais de perto;
Águia da Torre Eiffel, da Itu contente
Rebento mais ilustre e mais diserto,
Ê o florão que nos falta (e não no tente
Glória maior), Santos Dumont Alberto!
Ah que antes de morrer, como soldado
Que mal-ferido da refrega a poeira
Beija do chão natal, me fora dado
Vê-lo (tal Febo esplende e é luz e é dia)
Na que chamais de Letras Brasileira,
Ou melhor nome tenha, Academia.
1 128
Manuel Bandeira
Agradecendo Doces a Stella Leonardos
1. Doces de açúcar e gemas
São teus versos, e teus doces
Sabem a poemas: não fosses
Toda doce em cada poema!
2. Pouco e coco rimam, sim,
Mas quando o coco é o seu coco,
Que, por mais que seja, é pouco
(Pelo menos para mim!).
3. Não veio doce, mas veio
Verso seu, que me é tão doce
Como se doce ele fosse:
Mais que doce: doce e meio!
São teus versos, e teus doces
Sabem a poemas: não fosses
Toda doce em cada poema!
2. Pouco e coco rimam, sim,
Mas quando o coco é o seu coco,
Que, por mais que seja, é pouco
(Pelo menos para mim!).
3. Não veio doce, mas veio
Verso seu, que me é tão doce
Como se doce ele fosse:
Mais que doce: doce e meio!
1 423
Manuel Bandeira
À Maneira de Augusto Frederico Schmidt
I
Daqui a trezentos anos
Não existirei mais.
Outros amarão e serão amados,
Outros terão livrarias católicas,
Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais:
Eu não existirei mais.
Seja, não importa, Senhor!
Sou um pobre gordo.
Mas sei que eles também não serão felizes.
Eu sim, o serei então.
Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos,
Não existir mais.
II
Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo.
Porém de repente será talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo não vi,
Com estrelas de um brilho incrível,
De uma pureza incalculável, incrível.
A poesia voltará de novo ao meu coração
Como a chuva caindo na terra queimada.
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes.
A poesia voltará de novo, única solução para mim,
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as soluções terem falhado:
O amor, os seguros, a água, a borracha.
A poesia voltará de novo, consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas de virgem,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.
Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente.
Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto,
A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido.
À poesia cairá em mim como um raio.
Daqui a trezentos anos
Não existirei mais.
Outros amarão e serão amados,
Outros terão livrarias católicas,
Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais:
Eu não existirei mais.
Seja, não importa, Senhor!
Sou um pobre gordo.
Mas sei que eles também não serão felizes.
Eu sim, o serei então.
Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos,
Não existir mais.
II
Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo.
Porém de repente será talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo não vi,
Com estrelas de um brilho incrível,
De uma pureza incalculável, incrível.
A poesia voltará de novo ao meu coração
Como a chuva caindo na terra queimada.
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes.
A poesia voltará de novo, única solução para mim,
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as soluções terem falhado:
O amor, os seguros, a água, a borracha.
A poesia voltará de novo, consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas de virgem,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.
Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente.
Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto,
A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido.
À poesia cairá em mim como um raio.
1 446
Manuel Bandeira
A Guimarães Rosa
Não permita Deus que eu morra
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
1 523
Manuel Bandeira
Resposta a Carlos Drummond de Andrade
À mão que o dispensa deve
O laurel sua virtude.
Grato, mas junto sou rude
De quem Claro Enigma escreve.
O laurel sua virtude.
Grato, mas junto sou rude
De quem Claro Enigma escreve.
1 177
Manuel Bandeira
Dedicatórias da Primeira Edição
A MOUSSY EJO
Malungo, malungulungo,
Malungo, malungulô.
Com todo o amor do malungo
Para Moussy e para Jo.
A RACHEL
À grande e cara Rachel
Mando este livro, no qual
Ruim é a parte do Manuel,
Ótima a do João Cabral.
A SANTA ROSA
Quem é malungo, malunga.
Se não presta este Mafuá,
Ponha, meu Santa, um calunga
No ante-rosto, e prestará.
A VINÍCIUS
Penico é também cabungo,
Ma foi! São tais exercícios
Cabungagens que o malungo
Envia ao caro Vinícius.
A PRUDENTE
Malungo Manuel envia
Isto ao malungo Prudente.
Sei que é mofina a poesia,
Mas que papel excelente!
A ALFONSO REYES
No es Pegaso, sino un matungo
El caballo de mi poesía:
Simple homenaje del malungo
Al maestro de Cortesia.
A MURILO E SAUDADE
Murilo de olhos de santo,
Saudade de olhos de mel,
Pode não ter grande encanto,
Mas é vosso este Manuel.
A CARPEAUX
Malungo, malungulungo,
Malungo, malunguló.
Homenagem do malungo
A Otto Maria Carpeaux.
A LAURO ESCOREL
Maus versos em bom papel,
Aqui vai, Lauro Escorel,
O mafuá do Manuel.
A MARIA
Malungo Manuel envia
Isto à malunga Maria.
A MURILO MIRANDA
Bandeira manda a Miranda,
Ao fino, ao raro editor
Esta versalhada, e manda-a
Pela edição, que é um primor.
A HOMERO ICAZA SÁNCHEZ
— Are you Homer?
— Oh no! Pm Icaza Sánchez.
— Then a malungo?
— Definitely!
— Well, here you are!
A LÊDO IVO
Lêdo, amor com amor se
paga. Por isso, neste quarteto, retribuo com o Mafuá
o Acontecimento do Soneto.
Malungo, malungulungo,
Malungo, malungulô.
Com todo o amor do malungo
Para Moussy e para Jo.
A RACHEL
À grande e cara Rachel
Mando este livro, no qual
Ruim é a parte do Manuel,
Ótima a do João Cabral.
A SANTA ROSA
Quem é malungo, malunga.
Se não presta este Mafuá,
Ponha, meu Santa, um calunga
No ante-rosto, e prestará.
A VINÍCIUS
Penico é também cabungo,
Ma foi! São tais exercícios
Cabungagens que o malungo
Envia ao caro Vinícius.
A PRUDENTE
Malungo Manuel envia
Isto ao malungo Prudente.
Sei que é mofina a poesia,
Mas que papel excelente!
A ALFONSO REYES
No es Pegaso, sino un matungo
El caballo de mi poesía:
Simple homenaje del malungo
Al maestro de Cortesia.
A MURILO E SAUDADE
Murilo de olhos de santo,
Saudade de olhos de mel,
Pode não ter grande encanto,
Mas é vosso este Manuel.
A CARPEAUX
Malungo, malungulungo,
Malungo, malunguló.
Homenagem do malungo
A Otto Maria Carpeaux.
A LAURO ESCOREL
Maus versos em bom papel,
Aqui vai, Lauro Escorel,
O mafuá do Manuel.
A MARIA
Malungo Manuel envia
Isto à malunga Maria.
A MURILO MIRANDA
Bandeira manda a Miranda,
Ao fino, ao raro editor
Esta versalhada, e manda-a
Pela edição, que é um primor.
A HOMERO ICAZA SÁNCHEZ
— Are you Homer?
— Oh no! Pm Icaza Sánchez.
— Then a malungo?
— Definitely!
— Well, here you are!
A LÊDO IVO
Lêdo, amor com amor se
paga. Por isso, neste quarteto, retribuo com o Mafuá
o Acontecimento do Soneto.
629
Manuel Bandeira
Retruque a Guimarães Rosa
Respondo a Guimarães Rosa
Em pé de romance assim:
Vou pedir ao Maçarico,
Vou pedir ao Miguilim
Que a mano Rosa eles digam:
— "Rosa, não seja ruim.
Faça a vontade do bardo,
Ainda que bardo chinfrim!"
E eu secundo: Mano Rosa,
Rosa, rosai, rosae, rose,
Vou aos meus dias pôr um fim.
Antes, porém, me prometa,
Pelo Senhor do Bonfim,
Que à minha futura vaga
Você se apresenta, sim?
Muito saudar a Riobaldo,
Igualmente a Diadorim!
Em pé de romance assim:
Vou pedir ao Maçarico,
Vou pedir ao Miguilim
Que a mano Rosa eles digam:
— "Rosa, não seja ruim.
Faça a vontade do bardo,
Ainda que bardo chinfrim!"
E eu secundo: Mano Rosa,
Rosa, rosai, rosae, rose,
Vou aos meus dias pôr um fim.
Antes, porém, me prometa,
Pelo Senhor do Bonfim,
Que à minha futura vaga
Você se apresenta, sim?
Muito saudar a Riobaldo,
Igualmente a Diadorim!
942
Manuel Bandeira
Bélgica
Bélgica dos canais de labor perseverante,
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia...
Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingênua vela branca...
Mais de uma vela nova... mais de uma vela virgem...
Bélgica das velas brancas e virgens!
Bélgica dos velhos paços municipais,
Umidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.
Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.
Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
* Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta...
Bélgica dos carrilhões católicos.
Bélgica dos poetas iniciadores,
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados de Flandres.
Bélgica das velas ingênuas e virgens.
Que a usura das cousas, tempo afora,
Tempo adiante,
Fez para agora e para jamais
Canais de infinita, enternecida poesia...
Bélgica dos canais, Bélgica de cujos canais
Saiu ao mar mais de uma ingênua vela branca...
Mais de uma vela nova... mais de uma vela virgem...
Bélgica das velas brancas e virgens!
Bélgica dos velhos paços municipais,
Umidos da nostalgia
De um nobre passado irrevocável.
Bélgica dos pintores flamengos.
Bélgica onde Verlaine escreveu Sagesse.
Bélgica das beguines,
Das humildes beguines de mãos postas, em prece,
Sob os toucados de linho simbólicos.
* Bélgica de Malines.
Bélgica de Bruges-a-morta...
Bélgica dos carrilhões católicos.
Bélgica dos poetas iniciadores,
Bélgica de Maeterlinck
(La Mort de Tintagiles, Pelléas et Mélisande.)
Bélgica de Verhaeren e dos campos alucinados de Flandres.
Bélgica das velas ingênuas e virgens.
1 095
Manuel Bandeira
Saudação a Vinícius de Moraes
Marcus Vinícius
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
À tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais:
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
Esta tetinha)
Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
— Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
À tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais:
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
Esta tetinha)
Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
— Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!
1 483
Manuel Bandeira
Petição Ao Prefeito
Governador desta cidade,
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
1 110
Manuel Bandeira
À Maneira de E.e. Cummings
Thank you for the exquisite jam
Th
an
k you
too
) or also (
for the
71
Cumm
ings"
po? e! ms!!
An
d now —
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
"Lullaby
"Sleep on and on..."
Xaire, Elisabeth.
Th
an
k you
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) or also (
for the
71
Cumm
ings"
po? e! ms!!
An
d now —
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
"Lullaby
"Sleep on and on..."
Xaire, Elisabeth.
1 196
Manuel Bandeira
Adivinha
O animal deu nome às ilhas:
Estas deram nome à ave.
O animal como se chama?
Como se chamam as ilhas?
E como se chama a ave?
— Responda, senhor ou dama.
Estas deram nome à ave.
O animal como se chama?
Como se chamam as ilhas?
E como se chama a ave?
— Responda, senhor ou dama.
1 215
Manuel Bandeira
Lêdo Ivo
Pronuncie-se, não no exato
Padrão parnasiano Lêdo Ivo,
Mas Lêdo Ivo, com o hiato
Docemente nuncupativo.
Padrão parnasiano Lêdo Ivo,
Mas Lêdo Ivo, com o hiato
Docemente nuncupativo.
1 125
Manuel Bandeira
A Jorge Medauar
Há trinta anos (tanto corre
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
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