Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Manuel Bandeira
José Cláudio
Da outra vida,
Moreno,
Olha-me de face,
Com o bonito sorriso Pontual
Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.
Olha-me de face,
Bem de face,
Com os olhos leais,
Moreno.
Conta-me o que tens visto,
Que músicas ouves agora.
Lembras-te ainda do cheiro dos bangiês de Pernambuco?
Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?
Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?
Do pastoril de Cícero?
Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?
(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,
Moreno.)
O espanto que nos deixaste!
Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!
Todavia,
Não te lamento não:
A vida,
Esta vida,
Carlos já disse,
Não presta.
Mas o vazio de quem
Eras marido e filho?
— Filho único, Moreno.
Moreno,
Olha-me de face,
Com o bonito sorriso Pontual
Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.
Olha-me de face,
Bem de face,
Com os olhos leais,
Moreno.
Conta-me o que tens visto,
Que músicas ouves agora.
Lembras-te ainda do cheiro dos bangiês de Pernambuco?
Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?
Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?
Do pastoril de Cícero?
Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?
(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,
Moreno.)
O espanto que nos deixaste!
Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!
Todavia,
Não te lamento não:
A vida,
Esta vida,
Carlos já disse,
Não presta.
Mas o vazio de quem
Eras marido e filho?
— Filho único, Moreno.
931
Manuel Bandeira
Minha Terra
Saí menino de minha terra.
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus...
É hoje uma bonita cidade!
Meu coração ficava pequenino.
Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.
Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus...
É hoje uma bonita cidade!
Meu coração ficava pequenino.
Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.
Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!
3 023
Manuel Bandeira
O Desmemoriado de Vigário Geral
Lembrava-se, como se fosse ontem, isto é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol de que extinta constelação. Não obstante preferia que fosse na estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos — o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era tão horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos — o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era tão horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
702
Manuel Bandeira
Do Que Dissestes...
Do que dissestes, alma fria,
Já nada vos acode mais?...
Éramos sós... Fora chovia...
Quanta ternura em mim havia!
(Em vós também... Por que o negais?)
Hoje, contudo, nem me olhais...
Pobre de mim! Por que seria?
Acaso arrependida estais
Do que dissestes?
É bem possível que o estejais...
O amor é cousa fugidia...
Eu, no entretanto, que em tal dia
Gozei momentos sem iguais,
Eu não me esquecerei jamais
Do que dissestes.
Já nada vos acode mais?...
Éramos sós... Fora chovia...
Quanta ternura em mim havia!
(Em vós também... Por que o negais?)
Hoje, contudo, nem me olhais...
Pobre de mim! Por que seria?
Acaso arrependida estais
Do que dissestes?
É bem possível que o estejais...
O amor é cousa fugidia...
Eu, no entretanto, que em tal dia
Gozei momentos sem iguais,
Eu não me esquecerei jamais
Do que dissestes.
1 180
Marina Colasanti
Tão clara a água
Naquele verão
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
1 033
Marina Colasanti
Era um jardim
Macacos se fartam
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
1 065
Manuel Bandeira
Ruço
Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
1 113
Marina Colasanti
Todo campo de trigo
Cheguei tarde demais
o trigo foi ceifado
e esta estrada navega
em campos glabros
doces dorsos leoninos
espraiados sobre a falsa savana.
Todo campo de trigo
é o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em qualquer tempo
pássaros e papoulas junto aos talos
fugir de asas
filas de formigas
e o serralhar dos grilos sol adentro.
Todo campo de trigo é
o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em outros corpos.
E a carícia de pluma das espigas
o apartar-se das hastes contra o peito
o fino farfalhar daqueles campos
que atravessei com passos de menina
chegam-me intactos
dos trigais despidos
que cruzo agora
sem sair do carro.
Ravello, 2001
o trigo foi ceifado
e esta estrada navega
em campos glabros
doces dorsos leoninos
espraiados sobre a falsa savana.
Todo campo de trigo
é o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em qualquer tempo
pássaros e papoulas junto aos talos
fugir de asas
filas de formigas
e o serralhar dos grilos sol adentro.
Todo campo de trigo é
o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em outros corpos.
E a carícia de pluma das espigas
o apartar-se das hastes contra o peito
o fino farfalhar daqueles campos
que atravessei com passos de menina
chegam-me intactos
dos trigais despidos
que cruzo agora
sem sair do carro.
Ravello, 2001
1 144
Manuel Bandeira
Elegia para Minha Mãe
Nesta quebrada de montanha, donde o mar
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!
Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.
Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)
Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.
No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!
Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.
Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),
Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!
Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.
Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)
Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.
No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!
Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.
Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),
Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
2 477
Manuel Bandeira
Volta
Enfim te vejo. Enfim no teu
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!
Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!
Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
1 071
Marina Colasanti
O gosto que se foi
Quando eu era menina
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
985
Marina Colasanti
Tempos de medo
Durante a guerra
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
1 185
Marina Colasanti
Porque era moda
Ela tinha uma peruca no banheiro
- no tempo em que usávamos perucas -
e rolos espalhados no mármore da pia.
Tanto tempo passado
volto a encontrá-la e
diante dos seus cabelos lisos me pergunto
em que gaveta
em que caixa
em que tumba de papelão ou pano
terão ido parar aqueles cachos
aqueles também cabelos
cortados um dia de outra mulher
por preço vil.
- no tempo em que usávamos perucas -
e rolos espalhados no mármore da pia.
Tanto tempo passado
volto a encontrá-la e
diante dos seus cabelos lisos me pergunto
em que gaveta
em que caixa
em que tumba de papelão ou pano
terão ido parar aqueles cachos
aqueles também cabelos
cortados um dia de outra mulher
por preço vil.
1 086
Marina Colasanti
Por ser meu pai
Agradeço
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas
por onde se escoaram nossos bens
nossas dispersas casas
nossas terras
mãos pontuais
dando ao vento
a herança avita
os quadros
os papéis
a identidade
mas com as quais
ridente
soube agarrar a vida
e transmiti-la.
por ser meu pai
o louco
e não o probo
por ser o perdulário
e não o avaro
que tudo conservou.
Agradeço a meu pai
as mãos abertas
por onde se escoaram nossos bens
nossas dispersas casas
nossas terras
mãos pontuais
dando ao vento
a herança avita
os quadros
os papéis
a identidade
mas com as quais
ridente
soube agarrar a vida
e transmiti-la.
1 362
Marina Colasanti
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 124
Marina Colasanti
Naquela praça
Era um banheiro o que eu queria
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
1 107
Marina Colasanti
De quem hoje penso
Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
1 102
Marina Colasanti
Migração
Crescem
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
1 206
Marina Colasanti
Da Passeggiata Archeologica, em Roma
A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.
Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.
A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.
A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
1 002
Marina Colasanti
Chamava-se Gina
Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
1 219
Marina Colasanti
UM DOS ÚLTIMOS DA SUA ESPÉCIE
Chamava-se Giulio e era conde
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.
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Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
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Marina Colasanti
PALAZZO D'ACCURSIO
De que cor era a porta
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.
Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.
Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.
Bolonha 1994
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.
Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.
Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.
Bolonha 1994
746
Marina Colasanti
Na tumba da senhora Dai
Na tumba de Dai
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
chinesa aristocrata
de antiga dinastia
foram desenterradas duas estátuas
de contadores de histórias
e também seus tambores.
Não foram encontradas
nos escombros
as histórias com que a senhora Dai
embalava seu sono.
As palavras
tão mais leves que a argila
ninguém aprisionou.
Silenciosos
os tambores ecoam
na eternidade.
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