Poemas neste tema
Angústia
Herberto Helder
81
que não há nenhuma tecnologia paradisíaca,
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
miraculosamente até
ao desastre da beleza
mas com que estranheza se habita o mundo,
olhando de viés o outro lado das linhas,
onde se emaranha o nome profano que se inventa
como se fosse o inominável, movido,
oh inebriamento!
miraculosamente até
ao desastre da beleza
559
Herberto Helder
40
a madeira trabalhamo-la às escondidas,
e com o barro e o ferro às escondidas reluzimos no escuro,
o Deus que há-de vir não veio ainda,
a água não sobe ao rosto,
não sobe com luz ao rosto como devia e não trabalhamos com
água coada e fogo,
quebrou-se a enxuta substância da terra,
e então o Deus que há-de vir não há-de vir nunca
e com o barro e o ferro às escondidas reluzimos no escuro,
o Deus que há-de vir não veio ainda,
a água não sobe ao rosto,
não sobe com luz ao rosto como devia e não trabalhamos com
água coada e fogo,
quebrou-se a enxuta substância da terra,
e então o Deus que há-de vir não há-de vir nunca
1 047
Herberto Helder
49
do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento
1 072
Herberto Helder
Ao Vento Deste Outono
d’après Issa
ao vento deste outono
avanço
para que inferno?
ao vento deste outono
avanço
para que inferno?
628
Herberto Helder
Elegia Múltipla - Vii
Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,
alterosa e quente na minha mão
sufocada. Agora mesmo na europa
começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida
percorrida por um álcool penetrante, é a imediata
atenção ao misterioso trabalho da idade.
Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais
sombrios da carne, sobre um vasto segredo.
Será apenas isto, um ponto móvel
da eternidade, isto — a sufocação veloz e profunda
da vida inteira na minha garganta? E depois
o acender das luzes, bruxelas como uma câmara
de archotes e ao alto as ameias
enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande
memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.
Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilónia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer. Tenho
vinte e nove bocas urdindo
a falsa doçura da confusão. Os países constroem
a torre sombria do amor. Dá-me a tua mão
pensativa e antiga, deixa que se queime ainda um instante
a loucura masculina
da minha vida. Pensa um pouco na beleza
ignota das coisas: peixes, flores, o sono terrível
das pessoas ou o seu respirar
que arde e brilha e se apaga à superfície
das lágrimas ocultas. Pensa um pouco no sorriso
rapidíssimo
que jamais desaparece do silêncio, na candeia
que cobre com agulhas de ouro os escombros
dos lírios. E por cima de tudo estende
a tua pequena mão eterna. Cai
tu própria na treva quente da minha
cega mão masculina de vinte
e nove
anos. Tenho vinte e nove anos ou uma onda
inesperada que me estremece a carne ou a minha garganta
cheia de sangue actual — amanhã morrerei.
Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas
velozes, pedras que pareciam
imortais. Eram casas que se levantavam
sobre o meu coração. Vi que tomavam
animais feridos, flores imaturas, objectos
breves, imagens instantâneas e perdidas. Faziam
alguma coisa eterna. Era gente
de vinte e nove anos que se despedia dolorosa
pormenorizada
violentamente de uma parte da sua carne, a parte
mais iluminada da sua
carne de vinte e nove anos. Amanhã
morrerei.
vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti,
amanhã morrerei.
Talvez eu comece a morrer na tua mão direita,
alterosa e quente na minha mão
sufocada. Agora mesmo na europa
começa a vagarosa iluminação das giestas. É a minha vida
percorrida por um álcool penetrante, é a imediata
atenção ao misterioso trabalho da idade.
Vinte e nove anos agora, na europa, sobre os canais
sombrios da carne, sobre um vasto segredo.
Será apenas isto, um ponto móvel
da eternidade, isto — a sufocação veloz e profunda
da vida inteira na minha garganta? E depois
o acender das luzes, bruxelas como uma câmara
de archotes e ao alto as ameias
enevoadas dos astros? Devo olhar com uma grande
memória aquilo que acaba na violência triste
do poema.
Estamos nos quartos, há flores nas mesas. De babilónia
partem rios. Por detrás das cortinas,
despeço-me. Amanhã vou morrer. Tenho
vinte e nove bocas urdindo
a falsa doçura da confusão. Os países constroem
a torre sombria do amor. Dá-me a tua mão
pensativa e antiga, deixa que se queime ainda um instante
a loucura masculina
da minha vida. Pensa um pouco na beleza
ignota das coisas: peixes, flores, o sono terrível
das pessoas ou o seu respirar
que arde e brilha e se apaga à superfície
das lágrimas ocultas. Pensa um pouco no sorriso
rapidíssimo
que jamais desaparece do silêncio, na candeia
que cobre com agulhas de ouro os escombros
dos lírios. E por cima de tudo estende
a tua pequena mão eterna. Cai
tu própria na treva quente da minha
cega mão masculina de vinte
e nove
anos. Tenho vinte e nove anos ou uma onda
inesperada que me estremece a carne ou a minha garganta
cheia de sangue actual — amanhã morrerei.
Vi um dia alguém tomar nas mãos, entre faúlhas
velozes, pedras que pareciam
imortais. Eram casas que se levantavam
sobre o meu coração. Vi que tomavam
animais feridos, flores imaturas, objectos
breves, imagens instantâneas e perdidas. Faziam
alguma coisa eterna. Era gente
de vinte e nove anos que se despedia dolorosa
pormenorizada
violentamente de uma parte da sua carne, a parte
mais iluminada da sua
carne de vinte e nove anos. Amanhã
morrerei.
728
Herberto Helder
O Poema - Vi
Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.
Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.
Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.
— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
1 341
Herberto Helder
Pedras Quadradas, Árvores Vermelhas, Atmosfera
pedras quadradas, árvores vermelhas, atmosfera,
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
1 025
Herberto Helder
As Luzes Todas Apagadas
as luzes todas apagadas
— e se alguém está no escuro e súbito reluz lá dentro,
alguém fremente?
— e se alguém está no escuro e súbito reluz lá dentro,
alguém fremente?
1 509
Herberto Helder
Saio Hoje Ao Mundo
saio hoje ao mundo,
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
1 131
Herberto Helder
Dos Trabalhos do Mundo Corrompida
dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
que servidões carrega a minha vida
1 152
Herberto Helder
— Oh Coração Escarpado
— oh coração escarpado,
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite
1 107
Herberto Helder
Hoje, Que Eu Estava Conforme Ao Dia Fundo
hoje, que eu estava conforme ao dia fundo,
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então cai abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara safra
— nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada
fui-me a reler alguns dos meus poemas,
e então cai abaixo de mim mesmo,
e era só o que faltava:
sáfara safra
— nem as mãos me serviam,
nem a dor escrita e lida me serve para nada
794
Herberto Helder
Só Quanto Ladra Na Garganta, Sofreado, Curto, Cortado
só quanto ladra na garganta, sofreado, curto, cortado,
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
1 077
Eduardo Pitta
A noite toda a selva
A noite toda a selva
dissolvendo-se em sândalo
e esquecimento.
Casas, degraus a prumo, águas
despedaçadas. Equilíbrio precário
num fio de luz.
Sob uma lâmina de mica
um veneno espera por nós
em Trieste.
dissolvendo-se em sândalo
e esquecimento.
Casas, degraus a prumo, águas
despedaçadas. Equilíbrio precário
num fio de luz.
Sob uma lâmina de mica
um veneno espera por nós
em Trieste.
578
Herberto Helder
Os Ritmos 14
Não se sabe bem então como é.
Como ciência rudimentar existe o terror, máquina apocalíptica do pressentimento.
Este saber desordenado instala-se no sonho, é aí que trepida um velho motor furioso.
É o coração, imagine-se — um órgão de profecia.
As altas coisas anunciadas vão à procura de personagens, e então aparecem o Pai e a Mãe: rostos demoníacos.
Conseguiram desprender-se da idade, da podridão, do crime de se haver amado a sua morte.
São figuras para todas as traições.
É terrível ser o filho, isto sabe-se — é a maligna sabedoria, enquanto pode não ser esquecida.
Com os labirintos dá-se isto: há que percorrê-los.
Então os pais agarram na infidelidade, cada um pelo seu lado, devorando-a.
Sabe-se, entretanto, que a infidelidade não pode ser de duas pessoas, porque tem de haver sempre traidor e traído.
É uma regra — foi banida a verdade dupla.
O papel monumental pertence à mulher — é sempre assim, sempre.
Possui a grandeza do destino, ela — é a terra, a sua cegueira superior, a clarividência.
E quando trai, com o corpo curvo e receptivo como a terra, é-lhe concedido o direito da mentira redonda — ela é a terra.
O pai parece ter morrido, sepultado nos terrenos da angústia — símbolo arcaico, metáfora pulverizada pela tremenda força compressora da terra — a dúplice, a ambígua, a feminina, a pactuante e protectora do filho atormentado pela embriaguez dos crimes.
E a mulher escreve no pergaminho: minha é a inocência.
E o filho recebe o legado — deita-se para dormir com ele, encosta-o ao coração, essa palavra de inocência que circula na circulação do sangue dele, o filho adormecido.
As justiças elegeram os pelotões de execução que esperam fora das câmaras, no pátio, em frente do muro onde se encostará o condenado, para receber no coração negro a bala libertadora.
Bastará talvez que o filho desenrole a palavra escrita pela mulher: inocência.
Nunca o fará, e chora pela última vez, enche o último instante com o valor duplo da inocência — palavra onde se juntaram mãe e filho, os amantes no crime.
A mãe é aquela face do enigma, no centro do labirinto, face da catástrofe, luz horrível que se recolhe como um ramo de flores venenosas.
Resta ao filho caminhar lentamente com a sua festa negra: o segredo que se não revela, o amor maldito, incesto, canto da sua glória tenebrosa.
E quando todos se meteram pelos anos dentro, caíram de podres, desapareceram, e os lugares foram esquecidos, e os tempos, e os antigos modos de trair e mentir e criar um enigma — então fica o filho, o órfão, com a verdadeira morte instalada no seu coração de homem, para com essa morte poder gritar:
Eu sou o crime, levanto-me com o meu crime, e então sou inocente, e atravesso o mundo para instaurar os novos lugares, o silêncio e as palavras sem culpa.
Como ciência rudimentar existe o terror, máquina apocalíptica do pressentimento.
Este saber desordenado instala-se no sonho, é aí que trepida um velho motor furioso.
É o coração, imagine-se — um órgão de profecia.
As altas coisas anunciadas vão à procura de personagens, e então aparecem o Pai e a Mãe: rostos demoníacos.
Conseguiram desprender-se da idade, da podridão, do crime de se haver amado a sua morte.
São figuras para todas as traições.
É terrível ser o filho, isto sabe-se — é a maligna sabedoria, enquanto pode não ser esquecida.
Com os labirintos dá-se isto: há que percorrê-los.
Então os pais agarram na infidelidade, cada um pelo seu lado, devorando-a.
Sabe-se, entretanto, que a infidelidade não pode ser de duas pessoas, porque tem de haver sempre traidor e traído.
É uma regra — foi banida a verdade dupla.
O papel monumental pertence à mulher — é sempre assim, sempre.
Possui a grandeza do destino, ela — é a terra, a sua cegueira superior, a clarividência.
E quando trai, com o corpo curvo e receptivo como a terra, é-lhe concedido o direito da mentira redonda — ela é a terra.
O pai parece ter morrido, sepultado nos terrenos da angústia — símbolo arcaico, metáfora pulverizada pela tremenda força compressora da terra — a dúplice, a ambígua, a feminina, a pactuante e protectora do filho atormentado pela embriaguez dos crimes.
E a mulher escreve no pergaminho: minha é a inocência.
E o filho recebe o legado — deita-se para dormir com ele, encosta-o ao coração, essa palavra de inocência que circula na circulação do sangue dele, o filho adormecido.
As justiças elegeram os pelotões de execução que esperam fora das câmaras, no pátio, em frente do muro onde se encostará o condenado, para receber no coração negro a bala libertadora.
Bastará talvez que o filho desenrole a palavra escrita pela mulher: inocência.
Nunca o fará, e chora pela última vez, enche o último instante com o valor duplo da inocência — palavra onde se juntaram mãe e filho, os amantes no crime.
A mãe é aquela face do enigma, no centro do labirinto, face da catástrofe, luz horrível que se recolhe como um ramo de flores venenosas.
Resta ao filho caminhar lentamente com a sua festa negra: o segredo que se não revela, o amor maldito, incesto, canto da sua glória tenebrosa.
E quando todos se meteram pelos anos dentro, caíram de podres, desapareceram, e os lugares foram esquecidos, e os tempos, e os antigos modos de trair e mentir e criar um enigma — então fica o filho, o órfão, com a verdadeira morte instalada no seu coração de homem, para com essa morte poder gritar:
Eu sou o crime, levanto-me com o meu crime, e então sou inocente, e atravesso o mundo para instaurar os novos lugares, o silêncio e as palavras sem culpa.
1 060
Eduardo Pitta
Duramente aprendemos
Duramente aprendemos.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
O caos e a memória
delida.
Palavras poucas, e gastas.
656
Herberto Helder
Os Ritmos 13
Atravessei depressa a juventude.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
Tinha duas coisas — a alegria e o terror.
Percorri-os sem tomar fôlego.
Quando cheguei ao outro lado, encontrava-me em frente da maturidade — estupefacto.
Não conhecia os nomes nem as subtilezas.
Falando com certas pessoas, eu dizia: conheci a alegria e o terror.
Elas sorriam.
Parece que eram sábias.
Ou estúpidas.
Nada sei disso.
Encontrei um homem louco que tinha uma frota de quebra-gelos no sul da Itália.
Contou-me também que descobrira um processo novo de prever os terramotos.
Construíra uma casa no meio da planície — dizia ele — e criara veados a toda a volta.
Quando se aproximava um tremor de terra, os veados vinham para junto da casa, de cornos trémulos.
Era uma planície de cornos trémulos.
Encontro pessoas assim: loucas, sérias — gente total.
Falam-me destas coisas, ou de dinheiro, progresso, política e felicidade.
Vê-se como me encontro desorientado, com a minha idade e as coisas que são dela ou não são.
Fui aos psicanalistas e mandaram-me deitar num divã.
Tenho a alegria ou o terror — por onde devo começar?
Fale do que quiser — diziam.
Eu estava de olhos abertos, deitado, na obscuridade do gabinete.
Ainda assim, distinguia bem uma reprodução medíocre das Musas Inquietantes, de Chirico, na parede em frente.
Representa a Piazza Vecchia, em Florença, com o Palácio Palatino ao fundo, bastante vermelho.
O céu tem a cor das garrafas verdes.
Representa chaminés de fábricas.
A atmosfera é de ameaçadora suspensão.
No espaço essencial, representa as terríveis figuras inspiradoras.
São estátuas que o não imitam, possuem mantos pregueados.
Espalham-se em volta os frios objectos do seu jogo.
Um bastão cilíndrico, paralelepípedos de cor, um cubo azul onde se senta a mulher de pedra branca, com seu escudo rubro ao lado.
A cabeça de uma das estátuas tem a forma de grande pêra ou bola de rugby.
Outra não tem cabeça.
No pescoço decepado, que não sangra, floresce um rebento negro.
Poderia segurar nas mãos a sua própria cabeça de cautchou.
Disse que o céu é tremendamente verde.
Sim, há uma figura disfarçada na sombra.
Esta ameaça total ou suspeita, ou longamente elaborada pergunta, suspende-se sobre abismos trementes.
Julgo que se poderia enlouquecer, olhando essas linhas vivas e áridas durante vinte e quatro horas.
Eu disse: tive um sonho.
Dei-lhe um nome, dou um nome a todos os meus sonhos.
Este chama-se — Os Animais Domésticos.
Era uma sala de teatro.
Ao fundo, em vez das portas de entrada e saída, havia uma esplanada no passeio de uma rua larga, com árvores, movimento e um céu vibrante por cima.
A plateia estava cheia de pessoas que conversavam umas com as outras, levantavam-se, sentavam-se — trocavam de lugares.
Eu encontrava-me no palco, deitado, com a cabeça no colo de uma velha sentada no chão.
Uma telefonia monstruosa, ocupando quase todo o palco, emitia uma louca canção — violenta, insuportável.
Um jovem mexia nos botões da telefonia.
A mesma canção violenta — sempre, sempre.
Depois levantei-me e desci para a plateia, misturando-me às pessoas, falando com elas, indo de aqui para ali.
De repente, encontrei-me na esplanada, despedindo-me de uma mulher que ia para a Suíça.
Vou para a Suíça, adeus.
Levantei-me para dar-lhe um beijo de despedida, e disse-lhe: adeus, viaja, viaja, faz bem viajar — a Suíça.
Sim, sim, sim, disse ela, sim.
Eu estava de pé, com a mão dela entre as minhas, e dizia-lhe: viaja, viaja, é muito instrutivo.
Sim, sim, dizia ela, e afastava-se, sim, dizia afastando-se, sim, sim.
Sentei-me e ouvi ao longe o grito da mulher: sim, de avião, sim, sim.
Respondi: a Suíça.
Reparei de súbito que conservava nas minhas a mão da mulher.
Fiquei preocupado.
Como se arranjará ela na Suíça, sem a mão direita?
Então atirei a mão para o ar.
A mão voou rapidamente em direcção à Suíça.
Resolvi passear pela cidade.
Mas, antes, fui espreitar para dentro da sala.
Na voz grave de um homem, a rádio transmitia agora o boletim meteorológico.
Previsão para amanhã: tempestade de areia no deserto, tempestade de neve no pólo, maremoto no mar, terramoto na terra, muita luz, muita treva.
Eu andava à procura pelas ruas.
Era uma cidade confusa, de casas muito baixas, sem portas, com grandes janelas.
Junto de cada janela, no interior, uma cama desfeita.
Eu espreitava para dentro destas casas de um só piso.
Todas as camas estavam vazias, menos uma, onde se encontrava uma criança de colo, nua, uma menina.
Uma menina.
Uma menina alarmante.
Tinha um sexo de mulher, cheio de pêlos eriçados.
Tirei então a criança da cama, pela janela, e levando-a ao colo voltei para o teatro, através das ruas vazias.
Pensava: é horrível, horrível.
É uma espécie de glória negra.
É bela e horrível.
É bela, bela, bela.
É horrivelmente bela.
É uma espécie de negro, negro triunfo.
No teatro, a criança transformou-se num enorme ramo de cravos negros que estremeciam nos meus braços, tremiam, pareciam respirar, viver tremulamente, cheios de seiva negra.
Comecei a colocar um cravo na cabeça de cada pessoa da plateia, como se cada cabeça fosse a boca de uma jarra.
Estavam agora no palco duas pessoas vestidas de espelho, em frente uma da outra, de perfil para a plateia, fazendo uma com o lado esquerdo do corpo aquilo que a outra fazia com o direito, numa simultaneidade rigorosa.
A cabeça de uma das figuras era branca e a da outra era negra.
A telefonia transmitia uma canção vertiginosa, e os cravos negros que eu ainda tinha nas mãos transformaram-se em fumo.
As minhas mãos estavam cobertas de sangue.
Então a música parou abruptamente, e a mesma voz que lera o boletim meteorológico disse no meio de um silêncio total:
Nascido para o inferno.
1 068
Alice Vieira
Taxidermias
(para o Frederico Klumb, por ocasião de um tropeço-comum)
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
697
Matilde Campilho
Sagetrieb
Inverno que queres matar-me ao chapadão
encher-me a cabeça de domingos
e alinhar meu olho aos escaparates
desenhados pelo maldito imperador
que abandonou os sorvetes e os 5 sóis
Vais ver se eu não dou cabo te ti primeiro
encher-me a cabeça de domingos
e alinhar meu olho aos escaparates
desenhados pelo maldito imperador
que abandonou os sorvetes e os 5 sóis
Vais ver se eu não dou cabo te ti primeiro
1 151
Fernando Fitas
Os inquisidores silêncios
Os inquisidores silêncios
emergem
do mais fundo
como duas lâminas
dilacerando o tempo
Limitando o espaço
só o sonho
resta.
emergem
do mais fundo
como duas lâminas
dilacerando o tempo
Limitando o espaço
só o sonho
resta.
621
Martim Soares
Meu Coraçom Senhor Atal
Meu coraçom senhor atal
me faz amar de que eu hei
todo quant'eu haver cuidei
des aquel dia em que a vi:
ca sempr'eu dela atendi
desej'e coita, ca nom al.
[...]
me faz amar de que eu hei
todo quant'eu haver cuidei
des aquel dia em que a vi:
ca sempr'eu dela atendi
desej'e coita, ca nom al.
[...]
344
João Soares Coelho
Pero M'eu Hei Amigos, Nom Hei Ni Um Amigo
Pero m'eu hei amigos, nom hei ni um amigo
com que falar ousasse a coita que comigo
hei, nem ar hei a quem ous'en mais dizer; e digo:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir.
Vi eu viver coitados, mas nunca tam coitado
viveu com'hoj'eu vivo, nen'o viu home nado,
des quando fui u fui. E aque vo-lo recado:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
A coita que eu prendo nom sei quem atal prenda,
que me faz fazer sempre dano de mia fazenda;
tod'aquest'entend'eu, e quem mais quiser entenda:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
De cousas me nam guardo, mais pero guardar-m'-ia
de sofrer a gram coita que sofri, dê'lo dia
des que vi o que vi, e mais nom vos en diria:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
com que falar ousasse a coita que comigo
hei, nem ar hei a quem ous'en mais dizer; e digo:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir.
Vi eu viver coitados, mas nunca tam coitado
viveu com'hoj'eu vivo, nen'o viu home nado,
des quando fui u fui. E aque vo-lo recado:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
A coita que eu prendo nom sei quem atal prenda,
que me faz fazer sempre dano de mia fazenda;
tod'aquest'entend'eu, e quem mais quiser entenda:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
De cousas me nam guardo, mais pero guardar-m'-ia
de sofrer a gram coita que sofri, dê'lo dia
des que vi o que vi, e mais nom vos en diria:
de mui bom grado querria a um logar ir
e nunca m'end'ar vĩir!
571
João Soares Coelho
Ora Nom Sei No Mundo Que Fazer
Ora nom sei no mundo que fazer,
nem hei conselho, nem mi o quis Deus dar,
ca nom quis El, u me nom quis guardar,
e nom houv'eu, de me guardar, poder.
Ca díx'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca nom fora tam gram cousa dizer,
se se mi a mim bem houvess'a parar
a mia fazenda; mas quem Deus guardar
nom quer, nom pode guardado seer.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
E mal dia eu entom nom morri
quand'esto dix'e quando vi os seus
olhos; pero nom dixi mais, par Deus,
e[u] esto dixi, em mal dia por mim.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca des aquel dia 'm que a eu vi
(que nom visse) daquestes olhos meus,
nom perdi coita, ca nom quiso Deus,
nem perderei, ca eu mi o mereci.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
nem hei conselho, nem mi o quis Deus dar,
ca nom quis El, u me nom quis guardar,
e nom houv'eu, de me guardar, poder.
Ca díx'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca nom fora tam gram cousa dizer,
se se mi a mim bem houvess'a parar
a mia fazenda; mas quem Deus guardar
nom quer, nom pode guardado seer.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
E mal dia eu entom nom morri
quand'esto dix'e quando vi os seus
olhos; pero nom dixi mais, par Deus,
e[u] esto dixi, em mal dia por mim.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
Ca des aquel dia 'm que a eu vi
(que nom visse) daquestes olhos meus,
nom perdi coita, ca nom quiso Deus,
nem perderei, ca eu mi o mereci.
Ca dix'eu ca morria por alguém,
e dereit'hei de lazerar por en.
745
D. Dinis
Valer-Vos-Ia, Amig'e
Valer-vos-ia, amig'e [meu bem],
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe daquest'e nom al:
mia madre, que vos há mortal
desamor; e, com este mal,
de morrer nom mi pesa[ria].
Valer-vos-ia, par Deus, meu bem,
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe de vos nom valer:
mia madre, que end'há poder
e vos sabe gram mal querer;
e por en mia morte queria.
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe daquest'e nom al:
mia madre, que vos há mortal
desamor; e, com este mal,
de morrer nom mi pesa[ria].
Valer-vos-ia, par Deus, meu bem,
se eu ousasse, mais vedes quem
me tolhe de vos nom valer:
mia madre, que end'há poder
e vos sabe gram mal querer;
e por en mia morte queria.
673