Poemas neste tema
Angústia
Fernando Pessoa
Repousa sobre o trigo
Repousa sobre o trigo
Que ondula um sol parado.
Não me entendo comigo.
Ando sempre enganado.
Tivesse eu conseguido
Nunca saber de mim,
Ter-me-ia esquecido
De ser esquecido assim.
O trigo mexe leve
Ao sol alheio e igual.
Como a alma aqui é breve
Com o seu bem e mal!
12/09/1933
Que ondula um sol parado.
Não me entendo comigo.
Ando sempre enganado.
Tivesse eu conseguido
Nunca saber de mim,
Ter-me-ia esquecido
De ser esquecido assim.
O trigo mexe leve
Ao sol alheio e igual.
Como a alma aqui é breve
Com o seu bem e mal!
12/09/1933
4 812
1
Fernando Pessoa
XIII - Olho os campos, Neera, [1]
Olho os campos, Neera,
Campos, campos, e sofro
Já o frio da sombra
Em que não terei olhos.
A caveira antessinto
Que serei não sentindo,
Ou só quanto o que ignoro
Me incógnito ministre.
E menos ao instante
Choro, que a mim futuro,
Súbdito ausente e nulo
Do universal destino.
25/12/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
Campos, campos, e sofro
Já o frio da sombra
Em que não terei olhos.
A caveira antessinto
Que serei não sentindo,
Ou só quanto o que ignoro
Me incógnito ministre.
E menos ao instante
Choro, que a mim futuro,
Súbdito ausente e nulo
Do universal destino.
25/12/1923 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
2 449
1
Fernando Pessoa
Se eu, ainda que ninguém,
Se eu, ainda que ninguém,
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
Pudesse ter sobre a face
Aquele clarão fugace
Que aquelas árvores têm,
Teria aquela alegria
Que as coisas têm de fora,
Porque a alegria é da hora;
Vai com o sol quando esfria.
Qualquer coisa me valera
Melhor que a vida que tenho –
Ter esta vida de estranho
Que só do sol me viera!
16/09/1933
4 279
1
Fernando Pessoa
Fúria nas trevas o vento
Fúria nas trevas o vento
Num grande som de alongar.
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender.
Raiva nas trevas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.
23/05/1932
Num grande som de alongar.
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender.
Raiva nas trevas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.
23/05/1932
4 887
1
Fernando Pessoa
O frio especial das manhãs de viagem,
O frio especial das manhãs de viagem,
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre.
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre.
2 436
1
Fernando Pessoa
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro –
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.
11/05/1928
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro –
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.
11/05/1928
2 977
1
Fernando Pessoa
CLEARLY NON-CAMPOS!
CLEARLY NON-CAMPOS!
Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido,
Um desejo lúcido de indefinido.
Quatro vezes mudou a estação falsa
No falso ano, no imutável curso
Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde,
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
Nem o último, e acabam.
Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido,
Um desejo lúcido de indefinido.
Quatro vezes mudou a estação falsa
No falso ano, no imutável curso
Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde,
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
Nem o último, e acabam.
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1
Fernando Pessoa
APONTAMENTO
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que era um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no, especialmente, pois não sabem porque ficou ali.
(publicado na Presença, nº 20, Abril-Maio de 1929)
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que era um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no, especialmente, pois não sabem porque ficou ali.
(publicado na Presença, nº 20, Abril-Maio de 1929)
3 398
1
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 2
água sobre a mão quando o
sono se deita, um vértice de
pedra subindo entre o caule
da sombra e a propagação do
medo. a luz provoca a primeira
nostalgia, o íncubo que dispara
como um halo que espera.
sono se deita, um vértice de
pedra subindo entre o caule
da sombra e a propagação do
medo. a luz provoca a primeira
nostalgia, o íncubo que dispara
como um halo que espera.
610
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 9
não há literatura. ainda não se
fala do que vai acontecer. há um
vento agora que lhe seca a pele
mas ele não concebe. este homem
é um fantasma calmo descansando
na margem. ainda não é o sonho,
é uma luz romba e baça fustigada.
fala do que vai acontecer. há um
vento agora que lhe seca a pele
mas ele não concebe. este homem
é um fantasma calmo descansando
na margem. ainda não é o sonho,
é uma luz romba e baça fustigada.
546
Amália Bautista
Xerazade
Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.
592
Amália Bautista
Conheci um dia um homem tão estranho
Conheci um dia um homem tão estranho
que continuo a recordá-lo. Disse
que estava condenado para sempre
a suportar o peso de uma enorme
pedra sobre os seus ombros, e que nunca
a levaria até ao seu destino.
Contive a vontade de lhe dizer
“que achas que faço eu com estes fios?”
que continuo a recordá-lo. Disse
que estava condenado para sempre
a suportar o peso de uma enorme
pedra sobre os seus ombros, e que nunca
a levaria até ao seu destino.
Contive a vontade de lhe dizer
“que achas que faço eu com estes fios?”
502
Amália Bautista
Agora
Agora que o caminho que devo percorrer
é uma passagem elevada sobre uma estrada
que dá medo olhar, porque
me chama o abismo implacável.
Agora que a esperança está morta
como um pássaro atirado do ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
onde olhar, onde pôr os olhos,
que não encontre os olhos da morte?
é uma passagem elevada sobre uma estrada
que dá medo olhar, porque
me chama o abismo implacável.
Agora que a esperança está morta
como um pássaro atirado do ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
onde olhar, onde pôr os olhos,
que não encontre os olhos da morte?
720
Amália Bautista
Dragões
Chegou a hora de matar o dragão,
de acabar para sempre com este monstro
de fauces terríveis e olhos de fogo.
Há que matar este dragão e todos
que à sua volta se reproduzem.
O dragão da culpa e o do espanto,
o do remorso estéril, o do ódio,
o que sempre devora a esperança,
o do medo, do frio, da angústia.
Há que matar também o que nos esmaga
de bruços contra o chão,
imóveis, cobardes, quebrados, sem raízes.
Que o sangue de todos inunde
cada parte da casa
até nos chegar à cinta.
E quando essa pilha de monstros
for só um monte de vísceras
e olhos abertos para o vazio,
enfim poderemos trepar, montar-nos sobre eles,
chegar às janelas, abri-las ou quebrá-las,
deixar entrar a luz, a chuva, o vento
e tudo o que estava retido
atrás dos vidros.
de acabar para sempre com este monstro
de fauces terríveis e olhos de fogo.
Há que matar este dragão e todos
que à sua volta se reproduzem.
O dragão da culpa e o do espanto,
o do remorso estéril, o do ódio,
o que sempre devora a esperança,
o do medo, do frio, da angústia.
Há que matar também o que nos esmaga
de bruços contra o chão,
imóveis, cobardes, quebrados, sem raízes.
Que o sangue de todos inunde
cada parte da casa
até nos chegar à cinta.
E quando essa pilha de monstros
for só um monte de vísceras
e olhos abertos para o vazio,
enfim poderemos trepar, montar-nos sobre eles,
chegar às janelas, abri-las ou quebrá-las,
deixar entrar a luz, a chuva, o vento
e tudo o que estava retido
atrás dos vidros.
494
Amália Bautista
Ela
Ela sou eu também. Mesmo sem querer,
mesmo não querendo uma nem outra,
somos uma só e a mesma. Mas ela trai-me
quando escreve por mim, quando não se conforma,
quando quer tudo.
Ela, a das lágrimas de raiva,
a que nunca te beija com meus lábios.
mesmo não querendo uma nem outra,
somos uma só e a mesma. Mas ela trai-me
quando escreve por mim, quando não se conforma,
quando quer tudo.
Ela, a das lágrimas de raiva,
a que nunca te beija com meus lábios.
634
Amália Bautista
Desconheço ainda que crime fiz
Desconheço ainda que crime fiz,
o que estou a pagar com este exílio.
Lembro-me apenas de tecer a teia
entre os ramos de uma frondosa árvore
que crescia no centro do jardim.
Estava cheia de frutos dourados
e pelo seu tronco andava uma serpente.
o que estou a pagar com este exílio.
Lembro-me apenas de tecer a teia
entre os ramos de uma frondosa árvore
que crescia no centro do jardim.
Estava cheia de frutos dourados
e pelo seu tronco andava uma serpente.
132
Amália Bautista
Ondas
Sei que me estou a afogar, mas ao menos
consigo manter de fora a cabeça.
De modo que, por favor,
não venhas tu fazer ondas.
consigo manter de fora a cabeça.
De modo que, por favor,
não venhas tu fazer ondas.
700
Isabel Mendes Ferreira
da viagem secreta
da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé.
715
Marcelo Montenegro
Literatura comparada
Quando o MUNDO é um cruzamento
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PA Zé sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PA Zé sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
1 084
Isabel Mendes Ferreira
elegia
elegia _____________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
sempre que regressam as dúvidas são sempre outras. irrepetíveis e moldáveis pela diferente respiração de outro momento e ainda outro. mesmo que no mesmo instante. somos tão pouco no diário da vida fruída.
por isso me aguardo na ilusão do inverno que é prisma e drama estalactite e agonia. dissonância quase amável de todos os contrastes.
__________________"É-me interdito conjugar todos os verbos."________________
581
Fernando Guerreiro
[poema sem título]
O corpo sobe e desce
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis –
de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.
Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida –
que já nada prende
aos limites do conhecido.
832
Daniel Francoy
SABER ESCAVAR
Havia terra neles, e
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestígios argênteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, não se percebe)
e sem murmúrio de mar diluído
nas negras artérias da madrugada.
escavavam.
Paul Celan
Saber escavar, escavar sempre
a terra podre e depois escavar
a sombra espessa. Respirar fundo
a noite escura, a noite sem vento,
sem vestígios argênteos do luar
(mesmo um luar imundo, encardido
de poeira e fumo, não se percebe)
e sem murmúrio de mar diluído
nas negras artérias da madrugada.
1 328
Herberto Helder
4E
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.
1 124
Herberto Helder
(É Uma Dedicatória)
Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.
— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.
— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
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