Poemas neste tema
Recomeço e Renascimento
José Saramago
Venho de Longe, Longe
Venho de longe, longe, e canto surdamente
Esta velha, tão velha, canção de rimas tortas,
E dizes que a cantei a outra gente,
Que outras mãos me abriram outras portas:
Mas, amor, eu venho neste passo
E grito, da lonjura das estradas,
Da poeira mordida e do tremor
Das carnes maltratadas,
Esta nova canção com que renasço.
Esta velha, tão velha, canção de rimas tortas,
E dizes que a cantei a outra gente,
Que outras mãos me abriram outras portas:
Mas, amor, eu venho neste passo
E grito, da lonjura das estradas,
Da poeira mordida e do tremor
Das carnes maltratadas,
Esta nova canção com que renasço.
1 214
José Saramago
Ainda Agora É Manhã
Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.
1 502
José Saramago
Secreto Como Um Seixo
Secreto como um seixo, e oferecido
Com a branda ternura que o envolve,
É este o corpo, de luz anunciada.
Quantos anos viveste, em sombra ausente,
Geraram longamente a hora, o gesto,
Que da noite do seixo, alma da pedra,
Lança o grito solar como um protesto.
Com a branda ternura que o envolve,
É este o corpo, de luz anunciada.
Quantos anos viveste, em sombra ausente,
Geraram longamente a hora, o gesto,
Que da noite do seixo, alma da pedra,
Lança o grito solar como um protesto.
992
Vinicius de Moraes
Na Esperança de Teus Olhos
Eu ouvi no meu silêncio o prenúncio de teus passos
Penetrando lentamente as solidões da minha espera
E tu eras, Coisa Linda, me chegando dos espaços
Como a vinda impressentida de uma nova primavera.
Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas
Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara
Cada gesto que fazias semeava uma esperança
E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.
Ai de mim, eu pus-me a amar-te, pus-me a amar-te mais ainda
Porque a vida no meu peito se fizera num deserto
E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda
Como a fonte inacessível que de súbito está perto.
Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto
Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos
E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto
Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.
Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada
Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas
E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada
Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.
E é por isso que eu te peço: resta um pouco em minha vida
Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas
E de ti eu só quisera fosses minha primavera
E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas...
Penetrando lentamente as solidões da minha espera
E tu eras, Coisa Linda, me chegando dos espaços
Como a vinda impressentida de uma nova primavera.
Vinhas cheia de alegria, coroada de guirlandas
Com sorrisos onde havia burburinhos de água clara
Cada gesto que fazias semeava uma esperança
E existiam mil estrelas nos olhares que me davas.
Ai de mim, eu pus-me a amar-te, pus-me a amar-te mais ainda
Porque a vida no meu peito se fizera num deserto
E tu apenas me sorrias, me sorrias, Coisa Linda
Como a fonte inacessível que de súbito está perto.
Pelas rútilas ameias do teu riso entreaberto
Fui subindo, fui subindo no desejo de teus olhos
E o que vi era tão lindo, tão alegre, tão desperto
Que do alburno do meu tronco despontaram folhas novas.
Eu te juro, Coisa Linda: vi nascer a madrugada
Entre os bordos delicados de tuas pálpebras meninas
E perdi-me em plena noite, luminosa e espiralada
Ao cair no negro vórtice letal de tuas retinas.
E é por isso que eu te peço: resta um pouco em minha vida
Que meus deuses estão mortos, minhas musas estão findas
E de ti eu só quisera fosses minha primavera
E só espero, Coisa Linda, dar-te muitas coisas lindas...
1 533
José Saramago
Paisagem Com Figuras
Não há muito que ver nesta paisagem:
Alagadas campinas, ramos nus
De salgueiros e choupos eriçados:
Raízes descobertas que trocaram
O natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e caminhamos,
A romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
Somos nele os primeiros.
Alagadas campinas, ramos nus
De salgueiros e choupos eriçados:
Raízes descobertas que trocaram
O natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e caminhamos,
A romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
Somos nele os primeiros.
1 011
José Saramago
Nesta Rasa Pobrezas
Nesta rasa pobreza que ficou
De jardins floridos, de searas
Como espelhos do sol ao meio-dia,
Quem esperaria que nascessem nardos
E que as romãs abertas mostrariam
Corações lapidados e auroras?
Mas todo o tempo é tempo começado,
E a terra adivinhada, transparente,
Cobre a fonte serena e misteriosa
Que torna a sede ardente.
De jardins floridos, de searas
Como espelhos do sol ao meio-dia,
Quem esperaria que nascessem nardos
E que as romãs abertas mostrariam
Corações lapidados e auroras?
Mas todo o tempo é tempo começado,
E a terra adivinhada, transparente,
Cobre a fonte serena e misteriosa
Que torna a sede ardente.
954
Vinicius de Moraes
Soneto No Sessentenário de Rafael Alberti
A luminosa lágrima que verte
Hoje de ti saudosa a tua Espanha
Quero bebê-la em forma de champanha
Na mesma taça em que bebeste, Alberti.
E brindaremos para que desperte
Num ímpeto feroz de touro em sanha
Sedenta de viver a tua Espanha
Que um mau toureiro derrotou inerte.
Beberemos, irmão, por que bem haja
Teu povo malferido, e que reaja
E do encontro final, rútilo e forte
Reste na arena o touro sobranceiro
E pela arena, o sangue do toureiro
Conte que a vida renasceu da morte.
Petrópolis, 10/12/1962
Hoje de ti saudosa a tua Espanha
Quero bebê-la em forma de champanha
Na mesma taça em que bebeste, Alberti.
E brindaremos para que desperte
Num ímpeto feroz de touro em sanha
Sedenta de viver a tua Espanha
Que um mau toureiro derrotou inerte.
Beberemos, irmão, por que bem haja
Teu povo malferido, e que reaja
E do encontro final, rútilo e forte
Reste na arena o touro sobranceiro
E pela arena, o sangue do toureiro
Conte que a vida renasceu da morte.
Petrópolis, 10/12/1962
1 239
Vinicius de Moraes
Soneto da Madrugada
Pensar que já vivi à sombra escura
Desse ideal de dor, triste ideal
Que acima das paixões do bem e do mal
Colocava a paixão da criatura!
Pensar que essa paixão, flor de amargura
Foi uma desventura sem igual
Uma incapacidade de ternura
Nunca simples e nunca natural!
Pensar que a vida se houve de tal sorte
Com tal zelo e tão íntimo sentido
Que em mim a vida renasceu da morte!
Hoje me libertei, povo oprimido
E por ti viverei meu ódio forte
Nesse misterioso amor perdido.
Desse ideal de dor, triste ideal
Que acima das paixões do bem e do mal
Colocava a paixão da criatura!
Pensar que essa paixão, flor de amargura
Foi uma desventura sem igual
Uma incapacidade de ternura
Nunca simples e nunca natural!
Pensar que a vida se houve de tal sorte
Com tal zelo e tão íntimo sentido
Que em mim a vida renasceu da morte!
Hoje me libertei, povo oprimido
E por ti viverei meu ódio forte
Nesse misterioso amor perdido.
1 203
Vinicius de Moraes
Agonia
No teu grande corpo branco depois eu fiquei.
Tinha os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti — eras como um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem calma
Que me havias dado há tanto tempo
Mas tudo era estéril e monstruoso e sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.
Depois foi o sono, o escuro, a morte.
Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente
Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.
Tinha os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti — eras como um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem calma
Que me havias dado há tanto tempo
Mas tudo era estéril e monstruoso e sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.
Depois foi o sono, o escuro, a morte.
Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente
Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.
1 487
Martha Medeiros
de um rali que escapei
de um rali que escapei
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha
1 149
Martha Medeiros
strip-tease
strip-tease
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia
strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite
strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia
strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite
strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
1 641
Sophia de Mello Breyner Andresen
És Como a Terra-Mãe Que Nos Devora
Prendendo a nossa vida no seu peso.
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
1 541
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Estes Os Dias do Novo Estio Deslumbrado
Quando depomos as grades e as barreiras
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
Como um vestido que foi usado contra o frio
São estes os dias em que a ferocidade depõe as suas armas
1 069
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cânon
Sombrios profetas do exílio abandonai vosso vestido de cinza
Pois o Filho do Homem na véspera da sua morte
Se sentou à mesa entre os homens
E abençoou o pão e o vinho e os repartiu
E aquele que pôs com ele a mão no prato o traiu
E uma noite inteira no horto agonizou sozinho
Pois os seus amigos tinham adormecido
E no tribunal esteve só como todos os acusados da terra
E muitos o renegaram
E à hora do suplício ouviu o silêncio do Pai
Porém ao terceiro dia ergueu-se do túmulo
E partilhou a sua ressurreição com todos os homens
1993
Pois o Filho do Homem na véspera da sua morte
Se sentou à mesa entre os homens
E abençoou o pão e o vinho e os repartiu
E aquele que pôs com ele a mão no prato o traiu
E uma noite inteira no horto agonizou sozinho
Pois os seus amigos tinham adormecido
E no tribunal esteve só como todos os acusados da terra
E muitos o renegaram
E à hora do suplício ouviu o silêncio do Pai
Porém ao terceiro dia ergueu-se do túmulo
E partilhou a sua ressurreição com todos os homens
1993
1 285
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viagem
Naquele tempo era o Kaos
E as palavras do poema não irrompiam já como palmeiras
Por isso abandonou a cidade — o país natal
País perdendo dia a dia o seu rosto:
A pintura a cair das paredes — cães
Farejando o lixo —
Brutais os gestos — obscenas as palavras
De cada coisa a beleza destroçada
Por isso se evadiu e para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente
E era um país de tigres e palmeiras
Como em longínquo cismar adolescente
E as palavras do poema não irrompiam já como palmeiras
Por isso abandonou a cidade — o país natal
País perdendo dia a dia o seu rosto:
A pintura a cair das paredes — cães
Farejando o lixo —
Brutais os gestos — obscenas as palavras
De cada coisa a beleza destroçada
Por isso se evadiu e para Oriente
Navegou e de noite e lentamente
E um novo dia se abriu em sua frente
E era um país de tigres e palmeiras
Como em longínquo cismar adolescente
1 408
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Opaco
Recuperei a minha memória da morte da lacuna da perca e do desastre
O opaco regressou de seu abismo antigo
A sombra de Ingrina não toca nem sequer as minhas mãos
O opaco regressou de seu abismo antigo
A sombra de Ingrina não toca nem sequer as minhas mãos
1 164
Sophia de Mello Breyner Andresen
Maria Helena Vieira da Silva Ou o Itinerário Inelutável
Minúcia é o labirinto: muro por muro
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia —
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável —
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens
Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto
Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia —
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável —
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens
Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto
Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio
1 410
Sophia de Mello Breyner Andresen
Grécia 72
De novo os Persas recuarão para os confins do seu império
Afundados em distância confundidos com o vento
De novo o dia será liso sobre a orla do mar
Nada encobrirá a pura manhã da imanência
Afundados em distância confundidos com o vento
De novo o dia será liso sobre a orla do mar
Nada encobrirá a pura manhã da imanência
1 261
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ariane Em Naxos
Tu Teseu que abandonadas amadas
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul
Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu
E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul
Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu
E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
1 369
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fechei À Chave
Fechei à chave todos os meus cavalos
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
1 355
Sophia de Mello Breyner Andresen
Projecto Ii
Esta foi sua empresa: reencontrar o limpo
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio
Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso
Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos
Do dia primordial. Reencontrar a inteireza
Reencontrar o acordo livre e justo
E recomeçar cada coisa a partir do princípio
Em sua empresa falharam e o relato
De sua errância erros e derrotas
De seus desencontros e desencontradas lutas
É moroso e confuso
Porém restam
Do quebrado projecto de sua empresa em ruína
Canto e pranto clamor palavras harpas
Que de geração em geração ecoam
Em contínua memória de um projecto
Que sem cessar de novo tentaremos
1 099
Sophia de Mello Breyner Andresen
Esgotei o Meu Mal, Agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.
Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.
Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
1 632