Poemas neste tema
Serenidade e Paz Interior
António Ramos Rosa
Sedentos de Repouso E do Início
Sedentos de repouso e do início
buscando a esperança nas vogais
outro sentido sentindo ao nível do ar
saboreando o simples na densidade límpida.
buscando a esperança nas vogais
outro sentido sentindo ao nível do ar
saboreando o simples na densidade límpida.
1 127
António Ramos Rosa
Gravitação Total Em Torno
Gravitação total em torno
de um contorno adormecido, forma ausente
de uma dança germinal que se retrai,
carícia de um sono imaculado.
de um contorno adormecido, forma ausente
de uma dança germinal que se retrai,
carícia de um sono imaculado.
1 022
António Ramos Rosa
Entre Mar E Sombra a Delícia
Entre mar e sombra a delícia
de um vento que abre um espaço original.
de um vento que abre um espaço original.
528
António Ramos Rosa
Habitando a Paciência da Ondulada
Habitando a paciência da ondulada
sombra vibramos numa rede
de veemências suaves de sabores secretos
e sentimos a terra deslizando connosco.
sombra vibramos numa rede
de veemências suaves de sabores secretos
e sentimos a terra deslizando connosco.
994
António Ramos Rosa
Generosa É a Lentidão Que Rasga
Generosa é a lentidão que rasga
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
975
António Ramos Rosa
Já Não Há Desespero Onde Desperta
Já não há desespero onde desperta
o sabor da atenção. A vigília
abre a estância à cabeleira clara.
Suave é a sombra do intacto arcano.
o sabor da atenção. A vigília
abre a estância à cabeleira clara.
Suave é a sombra do intacto arcano.
1 048
António Ramos Rosa
Sem Desígnios Sem Pedir Transparências
Sem desígnios sem pedir transparências
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
1 082
António Ramos Rosa
Sentindo o Liso da Madeira, o Bosque
Sentindo o liso da madeira, o bosque
submerso, tranquilamente acesos,
continuando na corrente verde e côncava
outra forma do silêncio na morada
com o silêncio denso sobre as pálpebras.
submerso, tranquilamente acesos,
continuando na corrente verde e côncava
outra forma do silêncio na morada
com o silêncio denso sobre as pálpebras.
1 160
António Ramos Rosa
No Côncavo da Sombra Sem Domínio
No côncavo da sombra sem domínio
aderindo ao integral inominado
a inocência flui apagando o seu fluxo
na igualdade do incontido fundo.
aderindo ao integral inominado
a inocência flui apagando o seu fluxo
na igualdade do incontido fundo.
1 067
António Ramos Rosa
Celebração da Terra
Desenhar o sono e o volume da cabeça
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
1 032
António Ramos Rosa
O Lugar
a Lídia Jorge
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
1 092
António Ramos Rosa
Na Extrema Claridade
Leve prodígio vegetações
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
1 152
António Ramos Rosa
Uma Felicidade Nos Dedos
Uma felicidade nos dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
1 136
António Ramos Rosa
Não Deusas Habitam Este Átrio
Não deusas habitam este átrio
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde
A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura Já não vejo
a montanha na altura escrevo
na rarefacção do texto inexorável
Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde
A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura Já não vejo
a montanha na altura escrevo
na rarefacção do texto inexorável
Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
1 013
António Ramos Rosa
O Movimento do Repouso
O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
1 203
António Ramos Rosa
Casa Entre Árvores
Casa entre árvores
tranquila próxima
na transparência
opaca e azul opaca
E azul
tranquila próxima
na transparência
opaca e azul opaca
E azul
1 081
António Ramos Rosa
A Sombra do Vento
A sombra do vento
a sombra e o vento
para respirar
no vento na sombra
a sombra e o vento
para respirar
no vento na sombra
568
António Ramos Rosa
73. Perdido o Centro, Perdida a Rosa
73
Perdido o centro, perdida a rosa
quando a vulnerável lâmpada, quando
apagado for o sinal dilacerado
a interrupção dos sinais será a fuga
ou o apaziguamento das imagens vivas
os animais caminhando musicais
as pedras mais vivas do que as mãos
no entanto mais vivas do que as pedras
quando apagada a terra os olhos lentos
verão serenamente o esplendor do muro.
Perdido o centro, perdida a rosa
quando a vulnerável lâmpada, quando
apagado for o sinal dilacerado
a interrupção dos sinais será a fuga
ou o apaziguamento das imagens vivas
os animais caminhando musicais
as pedras mais vivas do que as mãos
no entanto mais vivas do que as pedras
quando apagada a terra os olhos lentos
verão serenamente o esplendor do muro.
1 078
António Ramos Rosa
Imergir No Não Saber,…
Imergir no não saber, no sono de água contornando o bordo de uma pedra leve, lisa, prosseguir na facilidade de quem nada no sono, nada, até tocar a pedra, quase, ilegível, e pronunciá-la obscura, na densidade, nova.
1 243
António Ramos Rosa
Um Sorriso No Silêncio
a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
521
António Ramos Rosa
Estas Palavras
Como quem grava a cabeça silenciosa
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
1 070