Poemas neste tema
Silêncio
António Ramos Rosa
A Face do Ar
O rosto nu perante o mar.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
Uma cortina de árvores corta o vento.
Um abrigo no extremo, a face do ar.
Onde sossega a sede, um pássaro arde.
O corpo encontra o côncavo do grito.
A pedra une-me à sombra do silêncio.
1 058
António Ramos Rosa
Nenhum Obstáculo Ao Dia
Nenhum obstáculo ao dia.
As crianças jogam o jogo ilimitado
do Presente.
É quase ausente a terra no silêncio.
Eu jogo esta mão alta devagar
numa varanda ou num átrio.
O luxo simples, uma folha de ar
treme e se desfaz. Nenhuma sombra
me ocupa.
O olhar se anula em luz e vácuo.
Eu nada sei. Um animal respira
talvez aqui. Quero desenhar-lhe o gesto
na distância do ombro.
E o bafo escuro se desvanece
sem a linha tépida. Ou talvez não.
Devo inventá-lo por completo. Ou pegá-lo firme.
Móvel animal. Agora surge. E apenas é o ar
que pulsa, ou minha perda.
E se eu experimentar este limite — qual? —
para não me anular no espaço todo?
Eu sou o silêncio. Eu provoco-o. Eu jogo
no ilimite. Sem semelhante algum,
não levo lâmpada. Esposo o instante
de uma terra luminosa em que me apago.
Que folha jorra aqui que não tremule
de não ser nada, nada?
Que resposta que não seja a pergunta
e a sombra dela?
Eu jogo a luz e a sombra deste dia,
e se me apago eu sei que elas não brilham.
Ou brilham e sou eu que me perdi.
As crianças jogam o jogo ilimitado
do Presente.
É quase ausente a terra no silêncio.
Eu jogo esta mão alta devagar
numa varanda ou num átrio.
O luxo simples, uma folha de ar
treme e se desfaz. Nenhuma sombra
me ocupa.
O olhar se anula em luz e vácuo.
Eu nada sei. Um animal respira
talvez aqui. Quero desenhar-lhe o gesto
na distância do ombro.
E o bafo escuro se desvanece
sem a linha tépida. Ou talvez não.
Devo inventá-lo por completo. Ou pegá-lo firme.
Móvel animal. Agora surge. E apenas é o ar
que pulsa, ou minha perda.
E se eu experimentar este limite — qual? —
para não me anular no espaço todo?
Eu sou o silêncio. Eu provoco-o. Eu jogo
no ilimite. Sem semelhante algum,
não levo lâmpada. Esposo o instante
de uma terra luminosa em que me apago.
Que folha jorra aqui que não tremule
de não ser nada, nada?
Que resposta que não seja a pergunta
e a sombra dela?
Eu jogo a luz e a sombra deste dia,
e se me apago eu sei que elas não brilham.
Ou brilham e sou eu que me perdi.
1 044
António Ramos Rosa
Na Solidão Renovada
Com os dentes.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
1 152
António Ramos Rosa
Da Grande Página Aberta do Teu Corpo
Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara
Pela janela vejo um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol
Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara
Pela janela vejo um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol
Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor
589
António Ramos Rosa
Amor da Palavra, Amor do Corpo
a Maria Aliete Galhoz
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
733
António Ramos Rosa
Se Me Detivesse
Se me detivesse
neste quarto em pleno dia
o rumor do silêncio branco
poderia encher
um tronco
de silêncio
até à fronte
Assim seria a curva
branca
do dia
do poema
neste quarto em pleno dia
o rumor do silêncio branco
poderia encher
um tronco
de silêncio
até à fronte
Assim seria a curva
branca
do dia
do poema
1 064
António Ramos Rosa
Até Onde Ou de Onde o Olhar Se Perde
Inesperada e lenta
como sem esforço, lenta
a folha no seu espaço
sem mais que a luz, e verde,
se limita, própria, e se repete
em ramos negros.
No meio o tronco, mas
a seiva não se verte (nem se sente).
Um pouco mais distante é a onda da folhagem,
mais do que as folhas e não um verde espaço,
mas um volume denso e leve,
que nada diz ainda
e vem e vai,
alheio e próximo, e mais alheio
que próximo.
Ou são palavras que tremulam,
ou o visível silêncio
no extremo olhar que não se diz.
Mas se nem próximas nem alheias são
nesse vai-vem tão lento
mais do que a solidão do seu silêncio
algo serão. Quase. Iminentes
na lentidão.
Uma folha? Não.
Nem o seu espaço, nem
o seu contorno nítido.
Só o volume verde escuro,
sem forma quase
e sem distância ou horizonte.
Demasiado perto ou longe.
Um murmúrio de ameaça?
O que dizer? Como
mudar o espaço do olhar?
Digo: a sombra verde.
Será silêncio ou puro ruído?
Não há espaço nem olhar.
Uma folhagem alheia, escura
e sua sombra de ameaça.
Um fogo verde — um tigre?
Que animal me chama?
É desta sombra próxima, longínqua,
que a linguagem surge. E o meu olhar.
O corpo se abre sobre a boca escura.
Eu não sei onde. Mas
se a linguagem surge, é esta
casa, este dia, este corpo
que vos fala? Este o lugar?
Contra o silêncio e o rumor,
nos seus limites a folhagem
tornou-se a árvore, não vista mas a ver-se.
Ou talvez apenas um tremor estremece?
Se a linguagem surge, a árvore vive,
olhar e espaço se reúnem,
se eu vejo a árvore viva
a linguagem surge,
ou só vive a linguagem,
só vive o tremor destas palavras,
só este espaço treme?
Ou o espaço se abre e sou eu que tremo
de um esplendor entrevisto?
Ou o vácuo audível?
Onde estou? Só o tremor
do desejo e eu?
como sem esforço, lenta
a folha no seu espaço
sem mais que a luz, e verde,
se limita, própria, e se repete
em ramos negros.
No meio o tronco, mas
a seiva não se verte (nem se sente).
Um pouco mais distante é a onda da folhagem,
mais do que as folhas e não um verde espaço,
mas um volume denso e leve,
que nada diz ainda
e vem e vai,
alheio e próximo, e mais alheio
que próximo.
Ou são palavras que tremulam,
ou o visível silêncio
no extremo olhar que não se diz.
Mas se nem próximas nem alheias são
nesse vai-vem tão lento
mais do que a solidão do seu silêncio
algo serão. Quase. Iminentes
na lentidão.
Uma folha? Não.
Nem o seu espaço, nem
o seu contorno nítido.
Só o volume verde escuro,
sem forma quase
e sem distância ou horizonte.
Demasiado perto ou longe.
Um murmúrio de ameaça?
O que dizer? Como
mudar o espaço do olhar?
Digo: a sombra verde.
Será silêncio ou puro ruído?
Não há espaço nem olhar.
Uma folhagem alheia, escura
e sua sombra de ameaça.
Um fogo verde — um tigre?
Que animal me chama?
É desta sombra próxima, longínqua,
que a linguagem surge. E o meu olhar.
O corpo se abre sobre a boca escura.
Eu não sei onde. Mas
se a linguagem surge, é esta
casa, este dia, este corpo
que vos fala? Este o lugar?
Contra o silêncio e o rumor,
nos seus limites a folhagem
tornou-se a árvore, não vista mas a ver-se.
Ou talvez apenas um tremor estremece?
Se a linguagem surge, a árvore vive,
olhar e espaço se reúnem,
se eu vejo a árvore viva
a linguagem surge,
ou só vive a linguagem,
só vive o tremor destas palavras,
só este espaço treme?
Ou o espaço se abre e sou eu que tremo
de um esplendor entrevisto?
Ou o vácuo audível?
Onde estou? Só o tremor
do desejo e eu?
1 159
António Ramos Rosa
A Pobreza de Certas Palavras
É para ouvires o som de um buraco,
certas palavras despidas, certas palavras pobres:
o som de um buraco.
O sopro que ouvires, não o ouves, não é o sopro da árvore.
Aqui esqueceu-se o peso das pedras.
Por isso outras palavras: as que sobram.
Não as que restam.
Não será um grito. Certas palavras, só.
A quebra muda, nem sequer um baque.
Eis o que elas produzem depois de ti:
o som de um buraco.
Entre nós: não o ouvido. Certas palavras mais pobres,
obsessivas, mortas.
Persistem. Morrem.
certas palavras despidas, certas palavras pobres:
o som de um buraco.
O sopro que ouvires, não o ouves, não é o sopro da árvore.
Aqui esqueceu-se o peso das pedras.
Por isso outras palavras: as que sobram.
Não as que restam.
Não será um grito. Certas palavras, só.
A quebra muda, nem sequer um baque.
Eis o que elas produzem depois de ti:
o som de um buraco.
Entre nós: não o ouvido. Certas palavras mais pobres,
obsessivas, mortas.
Persistem. Morrem.
1 071
António Ramos Rosa
No Lugar da Árvore
No lugar da árvore. Longa e ampla.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
Tronco, não obstáculo,
roda única sem rumor.
Minha mão de silêncio sem espanto.
Fazes-me maior
perto do ar.
Toda a leveza do ouvido, rede aérea,
onde sorrio e vejo
os animais claros do dia.
Próximo estou do justo
centro da coluna.
O corpo surdo e denso, só com o vinho do ar.
Desço ao nível da pedra,
pedra clara e sem canto.
Pousada, a árvore dá-me a pausa
a partir do chão.
Um pacto
de fiel invenção.
Já afasto os meus passos.
O timbre das palavras será o deste solo.
575
António Ramos Rosa
Órbita de Verão — 2
Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio
do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante.
1 035
António Ramos Rosa
Perto do Mar
A água de uma floresta
onde todos os pássaros são dedos submersos
O lugar dos corpos
até ao fundo arde
Podemos subir descer
perto do mar
a longa escada verde inteira e leve
até à beira das grandes pedras
onde o silêncio da terra
cresceu à altura das árvores
unânime sabor enorme das folhas que nas mãos
se enrolam frescas
somos quase a água de um segredo
como se nascêssemos
com os punhos rolados no mar
o solo até à boca
os ossos vivos no abraço
a cinza verde que se sorve é a seiva
de um ar ardente e novo
para uns lábios juntos
no silêncio das palavras jovens
Vivos entre as hastes pelos olhos
os elos do ar ligam-nos a um corpo único
todas as gavetas se dissolvem
e delas sai a pomba da água unida
cujo bico aponta o sol na clareira
Animais do sol levíssimos
propagamo-nos no azul da terra
nos verdes claros nos castanhos densos nos negros
comemos os frutos das cores dadas
as pedras as pinhas as agulhas
cantando quase o mar
Cai a noite
sobre um muro branco
a plenitude da folhagem no silêncio
nos nós verdes inundados pela sombra
não nos perdemos entre as árvores e as espigas
sentindo o áspero gosto das pedras
o pó miúdo e solto sobre as faces
o grande sorvo fresco da aragem
noite ou mar
por um caminho em que as estrelas se dispersam
como as palavras de um texto
os lábios sobram do excesso suave e grande
e soletram no silêncio do ar nocturno
onde todos os pássaros são dedos submersos
O lugar dos corpos
até ao fundo arde
Podemos subir descer
perto do mar
a longa escada verde inteira e leve
até à beira das grandes pedras
onde o silêncio da terra
cresceu à altura das árvores
unânime sabor enorme das folhas que nas mãos
se enrolam frescas
somos quase a água de um segredo
como se nascêssemos
com os punhos rolados no mar
o solo até à boca
os ossos vivos no abraço
a cinza verde que se sorve é a seiva
de um ar ardente e novo
para uns lábios juntos
no silêncio das palavras jovens
Vivos entre as hastes pelos olhos
os elos do ar ligam-nos a um corpo único
todas as gavetas se dissolvem
e delas sai a pomba da água unida
cujo bico aponta o sol na clareira
Animais do sol levíssimos
propagamo-nos no azul da terra
nos verdes claros nos castanhos densos nos negros
comemos os frutos das cores dadas
as pedras as pinhas as agulhas
cantando quase o mar
Cai a noite
sobre um muro branco
a plenitude da folhagem no silêncio
nos nós verdes inundados pela sombra
não nos perdemos entre as árvores e as espigas
sentindo o áspero gosto das pedras
o pó miúdo e solto sobre as faces
o grande sorvo fresco da aragem
noite ou mar
por um caminho em que as estrelas se dispersam
como as palavras de um texto
os lábios sobram do excesso suave e grande
e soletram no silêncio do ar nocturno
1 103
António Ramos Rosa
No Trabalho da Folha
É por um outro incompreensível
poema
que escrevo
contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga
E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa
Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros
As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis
Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço
Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se
Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço
Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra
Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
poema
que escrevo
contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga
E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa
Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros
As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis
Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço
Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se
Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço
Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra
Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
589
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra
Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
1 015
António Ramos Rosa
A Língua Árida
Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
1 042
António Ramos Rosa
Iminência
Corda tensa bem viva,
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
998
António Ramos Rosa
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
1 053
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 000
António Ramos Rosa
Um Rastro
Tangível mão quase, olho que não vês.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
1 181
António Ramos Rosa
É Um Jogo?
É um jogo? Ainda não…
Serei eu? Em que objecto?
Aqui, na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só de lentidão
que abre o espaço para a mão.
… Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, de língua e pulso,
uma carícia da atenção.
E as palavras — afloram pedras
por sobre a água — brilham ao sol.
Jacto de luz: tempo de espaço.
Respiração… Aqui sou eu
um movimento que abre a mão
a todo o corpo e ao horizonte.
É um jogo da atenção.
Serei eu? Em que objecto?
Aqui, na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só de lentidão
que abre o espaço para a mão.
… Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, de língua e pulso,
uma carícia da atenção.
E as palavras — afloram pedras
por sobre a água — brilham ao sol.
Jacto de luz: tempo de espaço.
Respiração… Aqui sou eu
um movimento que abre a mão
a todo o corpo e ao horizonte.
É um jogo da atenção.
1 047
António Ramos Rosa
Bater o Metal
É para bater e para ver. Para bater e para ver. Para bater. Para bater na fronte do silêncio. Bater na fronte. Bater.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
Com um músculo reteso sobre o silêncio. Sobre a casa. É para a parede, para a mesa, para a árvore. É para a mão. Para a boca. Para bater na boca, nos dentes, nos olhos. É para bater. Bater.
É para bater. Em ti ou no sono. É para bater aqui. Aqui. Com as sílabas, com os ossos, os nervos, as têmporas. Aqui. A pedra da cabeça, o martelo nos nervos, nos ossos, nos tímpanos. É para bater, bater.
É para que soe o metal, o metal dos ossos e da língua, o metal da parede, o metal verde, o metal do calafrio, o metal do osso, o metal dos dentes. É para o metal sob o sono. É para que soe o metal lúcido, límpido, mortal. É para bater o metal. O metal.
É para bater o combate. O puro combate do osso. É para bater uma veia viva, uma parede salva, um ouvido limpo, uma altura de chão, uma boca, um átrio.
É para bater, bater, bater. Até acordar, até morrer, até ser? Até nascer. É para bater, bater, bater até à fronte, ao corpo inteiro, à raiz viva. Até à língua do metal.
É para bater o fogo, para bater o sangue, o pão claro, o vento novo. É para uma pedra, para um pulso, para uma terra, para um ventre, para uma palavra.
1 179
António Ramos Rosa
Imóveis, Enquanto a Luz Declina…
Imóveis, enquanto a luz declina,
harmoniosas plantas unidas no repouso, religião lisa.
Mútuos barcos embalados completam-se
sobre o solo inefável que atingiram.
Embalam-se, embalam-se longos sob a luz
na extensão curvando o seu volume vivo.
Alimentam-se, bebem-se devagar, consomem-se
inextinguivelmente.
Acenderam a lâmpada dentro da qual se vêem,
sobre o mesmo tapete voam imóveis flores.
Viajam na imobilidade.
Soberania vegetal. Diadema após o festim.
Não o sabiam antes, o imprevisível sim.
O que não tem princípio, porque é o princípio e o fim,
porque é o centro da teia que entretecem,
onde estão, onde repousam, solo onde irradiam longos.
Não falam. Como falar dentro de uma lâmpada? Ciciam.
Renovam-se de onda a onda, o mesmo é o novo ser.
Respiram prolongados. Não cessam. Recomeçam
na incandescência suave. Têm a febre do dia.
Regressaram. Regressam. Estão donde partem.
Onde retornam. Circulam sem se mover.
Longamente calmos, abraçam-se como jorros
bebendo-se mutuamente sem nunca se confundirem,
e por isso retornam, incessante roda
que é o seu estar sob o repouso da luz.
harmoniosas plantas unidas no repouso, religião lisa.
Mútuos barcos embalados completam-se
sobre o solo inefável que atingiram.
Embalam-se, embalam-se longos sob a luz
na extensão curvando o seu volume vivo.
Alimentam-se, bebem-se devagar, consomem-se
inextinguivelmente.
Acenderam a lâmpada dentro da qual se vêem,
sobre o mesmo tapete voam imóveis flores.
Viajam na imobilidade.
Soberania vegetal. Diadema após o festim.
Não o sabiam antes, o imprevisível sim.
O que não tem princípio, porque é o princípio e o fim,
porque é o centro da teia que entretecem,
onde estão, onde repousam, solo onde irradiam longos.
Não falam. Como falar dentro de uma lâmpada? Ciciam.
Renovam-se de onda a onda, o mesmo é o novo ser.
Respiram prolongados. Não cessam. Recomeçam
na incandescência suave. Têm a febre do dia.
Regressaram. Regressam. Estão donde partem.
Onde retornam. Circulam sem se mover.
Longamente calmos, abraçam-se como jorros
bebendo-se mutuamente sem nunca se confundirem,
e por isso retornam, incessante roda
que é o seu estar sob o repouso da luz.
1 012
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 027
António Ramos Rosa
Entre a Parede E o Silêncio
Entre a parede e o silêncio
há talvez uma palavra
que eu tenho de formar.
Ou não há nada e eu quero
não me perder.
Entretanto… a luz pode surgir.
O dia é claro. A parede nua.
E mal respiro. Perco o meu dia.
Tudo é instantâneo ou não,
fulgura ou não,
ou vale a pena ou não
— mas poderei expor-me ainda mais
como uma pedra nua?
Aspiro ao instante exacto
em que a palavra surja.
Quero o olhar mais limpo,
a linguagem sem véus como a parede.
E esse momento em que eu seria eu,
o movimento entre mim e o dia.
Poderei caminhar, dizer bom dia
se o tiver dito ou o souber dizer
pelas palavras mesmas que disser,
por essa única que soube ou não formar.
há talvez uma palavra
que eu tenho de formar.
Ou não há nada e eu quero
não me perder.
Entretanto… a luz pode surgir.
O dia é claro. A parede nua.
E mal respiro. Perco o meu dia.
Tudo é instantâneo ou não,
fulgura ou não,
ou vale a pena ou não
— mas poderei expor-me ainda mais
como uma pedra nua?
Aspiro ao instante exacto
em que a palavra surja.
Quero o olhar mais limpo,
a linguagem sem véus como a parede.
E esse momento em que eu seria eu,
o movimento entre mim e o dia.
Poderei caminhar, dizer bom dia
se o tiver dito ou o souber dizer
pelas palavras mesmas que disser,
por essa única que soube ou não formar.
1 065
António Ramos Rosa
Transcrição da Terra
Para um jardim sem flores
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
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