Poemas neste tema
Silêncio
António Ramos Rosa
A Parede Inseparável
A parede inseparável
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
do dia alto
respirando à altura da folhagem.
A vida não é um sonho, é um caminho
um espaço
Coroa de árvores
Radicadas
tronco do abraço
todo o campo vivo
*
Não trago lâmpada nem armas Estou num quarto, não há frio, alongo o ouvido para o silêncio do horizonte
é um dia baço como um pão,
um braço forte e calmo avança
no espaço necessário
quero abarcar lentamente este campo
quase imóvel
em lenta rotação
a terra quente
*
A cor das ilhas nas árvores
a música dos olhos tocando na praça
silenciosamente vivas
respiram-se frescas no espaço
permanecem
música e vinho nos olhos
não as transporto
uma leve película no ar é a nossa fronteira
e eu não pouso nelas
nessa fronteira viva nos tocamos
silêncio
respiração inaudível
luminosa
*
O dia como uma montanha ainda
estática ao sol
a fome e o seu espaço livre
a planta dos pés na terra árida
os olhos entre as pestanas das árvores
livre espaço
o ar sorve-se com todos os poros
o grande animal leve nasce nas veias
nasce tranquilamente
pelos campos
há almofadas de flores a mais
o rio que percorro
com o braço
a luz
na água feliz
*
Os ombros do muro deixam ver
os campos vermelhos
sulcos de dedos grossos
o ar e a seiva interpenetram-se
há fogo no ar
a estrada lisa e dura
o silêncio sobre a sebe
o cotovelo fresco
do rio
*
Um tronco
no meio da estrada
não cintilante
com a crosta rígida
com a força completa
truncada
palavra no espaço à vista
*
Por uma fenda que abri
como uma janela
deixei entrar o dia
entrei no espaço
estou dentro da janela
no quarto do dia
o dia é dia agora
posso abrir a porta
posso abrir o corpo
e deixar pousar
devagar o corpo
no chão do dia
*
Há um país na terra
que a mão tranquila alcança
Há um país onde o corpo
se veste com o corpo
da terra
Com a minha mão calma
percorro o perfil de pedra e terra
comunico respirando
o ar de um corpo vivo
1 008
António Ramos Rosa
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
1 066
António Ramos Rosa
À Luz Crua
Sob as palavras
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
a calma da estátua
ao sol na praça
levantada ofusca
unha de silêncio
pedra morte e sol.
De pó (esquecidos)
anos apagados,
flores sepultas,
rostos desabados,
rastos, tudo palmas
de cal, de muro
surdamente cabem
numa rota solar
— roda de pólen?
Força é de levantar
peso mortal
e rede embaraçada,
névoa sem peso
e ver claro e nu
a descalça e só
sede de beijar
lisa pedra da rua
virgem de tantos pés,
comum, total, já única,
povoada desliza.
584
António Ramos Rosa
É Um Jogo?
É um jogo? Ainda não…
Serei eu? Em que objecto?
Aqui, na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só de lentidão
que abre o espaço para a mão.
… Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, de língua e pulso,
uma carícia da atenção.
E as palavras — afloram pedras
por sobre a água — brilham ao sol.
Jacto de luz: tempo de espaço.
Respiração… Aqui sou eu
um movimento que abre a mão
a todo o corpo e ao horizonte.
É um jogo da atenção.
Serei eu? Em que objecto?
Aqui, na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só de lentidão
que abre o espaço para a mão.
… Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, de língua e pulso,
uma carícia da atenção.
E as palavras — afloram pedras
por sobre a água — brilham ao sol.
Jacto de luz: tempo de espaço.
Respiração… Aqui sou eu
um movimento que abre a mão
a todo o corpo e ao horizonte.
É um jogo da atenção.
1 060
António Ramos Rosa
Ar Unânime
No vento e no fogo, uma única cintilação, o caminho — uma só respiração.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
A alguns metros o mar, plano, as árvores concentradas, um silêncio espesso entre dois passos, a ondulação da serra.
A terra, com o calor do sol, pedras de cinza viva, frescor espalhado de ervas, abraço à roda do chão.
Um grilo vivo, o voo dum pássaro, no sono do ar, a pupila brilha.
As nuvens planam, as sombras respiram.
Da margem — ponto silencioso sob a luz morna e arrepios de brisa, no silêncio da água plana sob a luz — e outra face do céu.
Presença imóvel ao ar, ao mar, à montanha, mais fundo na imobilidade, ó retina!
Tosco tronco magro — inflas a uma respiração sem sobressalto e o arrepio de um voo sublinha a ondulação unânime.
1 204
António Ramos Rosa
De Coincidência Em Incoincidência
É um quadrado quase perfeito
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.
Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.
Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.
Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.
Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
650
António Ramos Rosa
Fuga Ou Retorno
Fuga ou retorno — tudo pode ser.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
639
António Ramos Rosa
Sequência
Palpita sobre a página
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
1 038
António Ramos Rosa
Diálogo Imóvel
No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
1 065
António Ramos Rosa
Transcrição da Terra
Para um jardim sem flores
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
1 195
António Ramos Rosa
O Aparato Silencioso Das Coisas
As coisas surgem vivas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
1 002
António Ramos Rosa
Presentificação
O que quer a sombra
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro
bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
— nada sabe —
movimentos próximos,
surto que começa
alarga… Eis um muro
bem firme.
Eis a terra ou sua sombra,
o moinho arbitrário: alguém que espera.
Eis a firmeza operária:
o que me quer, este abraço
que vos chega,
ou esta nuvem espaçada, este intervalo:
onde nada sussurra.
*
Como se o mapa limpo,
ouvido agora aberto,
onde o mar se espelha para um olhar que o absorva,
afirma-se no vago:
o horizonte de sempre,
luz de múltiplos dedos,
pedras solares.
*
Nada me separa
neste vau, nada me distingue:
a luminosa fome,
a gula dum sol sedoso,
passear neste silêncio,
acordar de leve
uma luz preciosa e lenta
que se escuta.
*
Como quem desce, pára e são ossos,
é uma presença inerte de pedra,
um grande campo de dejectos, latas,
e o sol brilha cruamente,
um galo súbito maravilhoso.
*
Descer à inércia de uma sombra,
de um hausto reparador,
onde se propaga lenta, obscura, qualquer claridade,
um sinal se forma de fome e suavidade,
o barro desenhado, a mão no bojo:
olhar assim, comer, pousar, romper.
559
António Ramos Rosa
Entre o Silêncio E o Sol
Escutando os estalidos das pedras ao sol
num quarto onde a terra se debruça
abolimos as vozes demasiado rápidas
recuperamos um pouco a lentidão da terra
navegamos na secura ondulada
*
A paisagem estremece com os frutos
na clareira há um espaço de fresca ausência
de entre a cinza um rumor baixo
aligeira-se ao rés da terra
*
Caminho com palavras sobre a terra dura
cada palavra abre uma porta de ar
quem eu chamo me chama
contra a fronte
da terra
*
Exactamente o branco
a página
do mar
que se ergue em ondas ombros
sob a palma da mão
num quarto onde a terra se debruça
abolimos as vozes demasiado rápidas
recuperamos um pouco a lentidão da terra
navegamos na secura ondulada
*
A paisagem estremece com os frutos
na clareira há um espaço de fresca ausência
de entre a cinza um rumor baixo
aligeira-se ao rés da terra
*
Caminho com palavras sobre a terra dura
cada palavra abre uma porta de ar
quem eu chamo me chama
contra a fronte
da terra
*
Exactamente o branco
a página
do mar
que se ergue em ondas ombros
sob a palma da mão
1 110
António Ramos Rosa
Onde Ainda É Possível
A maravilha, onde a maravilha já perfeitamente deposta, na memória árida, onde luziu ela? Não luz agora nas faces agrestes, no testemunho voluntarioso das fés das parangonas. Não luz na solidão nem na amizade, não luz já no amor nem na poesia. A maravilha, nem na pobreza nem no chão nem na aridez nem na esperança. Um vazio se abre, e é vazio, um branco... aí respiras... aí onde ainda é vazio, onde ainda é pobreza, onde ainda é possível.
*
Não cantes vitorioso nem a galope: deixa as palavras virem ao nível do seu vagaroso peso, do seu chão de água. Planas, não cantarão. Não dirão a segurança de uma esperança invejosa e dura. Caídas, quase neutras, um vento de pobreza as percorre, pobre mistério da sua existência, da sua breve espessura trémula.
*
Não cantes vitorioso nem a galope: deixa as palavras virem ao nível do seu vagaroso peso, do seu chão de água. Planas, não cantarão. Não dirão a segurança de uma esperança invejosa e dura. Caídas, quase neutras, um vento de pobreza as percorre, pobre mistério da sua existência, da sua breve espessura trémula.
1 220
António Ramos Rosa
Espaço a Espaço
Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 145
António Ramos Rosa
O Fogo Me Inunda
Aí, no fogo, onde o gesto começa e a força rompe. A mão percorre o lombo, o dia cheio, as palavras esvaem-se no céu. Sopra uma árvore. Um tinido breve, uma cadeia de nomes, a brancura no silêncio que ondula. Viver é exalar esta frescura, colmá-la na planície. Ergue-se a crista até ao silêncio do céu, o espaço se abre à anunciação do vazio, um nome canta, chia, tudo é montanha livre, raça, inundação.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
1 120
António Ramos Rosa
Animal Olhar
Meus olhos não fabricam
a realidade ou tu:
limpos barcos,
novidade acesa como a terra viva,
movimento de braços, amálgama
exacta duna.
Meus olhos não fabricam mas encontram.
A terra que se enche já vem cheia,
o hálito começa na claridade do céu.
Os homens dançam por vezes.
Este momento é teu.
*
Ó calmo olhar animal
da terra ao mar, popa
de espuma.
O mundo é natural, ridente, quando o verde rompe,
animal olhar.
Não estou só: porque te acendo entre as pedras,
abarco tua altura larga e teu ombro,
essência da fome visual e braço e nome.
*
Do teu calor me nutro e fortifico,
no silêncio da tua espera.
Brilha o teu tecido circular,
a terra é um átrio: o mar é perto.
Há passos de mulher descalça.
O mundo é novo.
A terra clara.
*
Eu sou o homem que te ama e escuta
concentradamente no calor dum muro.
Cerrado, oiço a tua unidade plural,
vejo teus dedos grossos,
tuas marcas fêmeas, tua elegância dolorosa.
Teus seios me nutrem, olhando-te.
*
Mastigo-te, raiz, e quase te oiço.
Construo um músculo verbal em teu ouvido,
alimento-me do teu mar visual e lento:
renasço pouco a pouco no teu horizonte dado.
Revejo-me num corpo ao pé do mar.
*
Silêncio no teu olhar, na tua boca.
Em tua língua primitiva o mar se olha.
É o deserto e falas, boca brusca
de ignorado alento.
Não te construo, constróis-me, construo-te
construo-te, mar,
parede pura,
criada.
*
Aqui onde o sol se acende em carne,
onde a casa é um nome de mar,
e os frutos e os espelhos
amadurecem o corpo solidário:
É Verão.
Aqui tu és
lenta verdade no sossego do sangue:
circulação de nomes e de peixes.
*
Aqui, à fome dos nomes e dos seres,
respondes, corpo do mar, coluna real
e teus acidentes se cumprem como ondas.
Aqui te palpo, vela, aqui te vejo, pomo,
formas meus braços, se te enleio,
desato simplesmente os teus anéis,
bebo-te sem te extinguir e sem me esperares.
Amanhã serás tu, sendo já hoje.
*
Recebendo-te como outra, outra nasces
e a ti mesma te igualas, porque és mar.
Teu corpo denso se aproxima, ora se afasta.
Há um perfume de uma noite inextinguível
nas tuas coxas claras.
*
Oiço-te ampla sob os ruídos.
Vária e verde, tapete derramado
sobre os ombros: acordas.
Não te peço qualquer nome, tu és banho
de calor fecundo, ondulação de frutos
sobre a mesa de pedra em que te aceito.
*
Em tua boca respiram as janelas.
Tua música de muros e varandas
abre-se ao céu e às ténues páginas.
*
Vejo-te abundante e a minha sede cresce,
obscura ainda, renascente já.
Quero claramente reconhecer-me em ti.
Entrego-me sem espelhos, amálgama,
no teu silêncio me envolvo e te circundo.
És mais exacta, mais dura, mais viva.
A tua recusa cresce como um céu
por sobre o muro.
*
Aconteceram hoje palavras como folhas
na tua nuca de silêncio.
Como pássaros que ainda mais dizem o céu,
como pedras que ainda mais dizem a terra,
aconteceram hoje palavras que disseram
o nosso encontro em fuga.
*
O que sei de ti: ignorância
conquistada, lábios que se movem,
forma de vertigem declinada,
aridez, aridez: cabeça rente
às perspectivas fechadas.
O que sei: ocupação de ti, nunca ocupada,
aberta, ignorada, sempre viva,
ó encontrada!
*
O que sei de ti é olhar e não te ver,
é fuga abrupta, mar que se fecha sob pálpebras,
pupila violenta, larga lâmina,
facilidade pura
sem rede, sem degraus: só verde, extensa,
ramificada parede de sol,
perpétuo lar do instante amadurecido,
virgem, verde, real,
alento que respiro,
brilho, beijo na pedra.
*
Teus nomes, tua mesa
onde disponho os copos:
à luz demasiado crua e logo ténue
as palavras serão simples, vagarosas.
Entre nós, quantas paredes repercutem
esta dureza aguda.
Um corpo desenhado nos seus ossos.
Um olhar entre o gume da faca
e a simplicidade do pão.
Uma fala justa.
*
Às vezes sinto-te entre o sol e o papel,
às vezes oiço-te quase respirar
nas tranquilas coisas repousadas,
mas sempre estou a procurar-te.
Não te detenho nem fiel te sou,
às vezes, simplesmente, sem que o queira
e de tanto te querer, já o sou,
roda rodando no meu pulso,
ao lento baile em que a visão começa.
*
Sou pobre antes de ti. Pobre, regresso
a esta mão póstuma, a este olhar difuso.
Pobre te quero, te saúdo ainda.
A ti voltarei, nudez com veias,
mais do que pobre, aceso e nu à mesa.
*
É sobre o silêncio e sobre a noite,
sobre a miséria, sobre o ventre, sobre o amor,
mas ainda mais sobre o corpo inominado:
sobre a fome, sobre a luz do corpo exacto,
o corpo brando e duro: o corpo intacto,
o corpo pleno e vivo à luz das ruas:
pão descoberto, aberto, sem fissuras.
*
É pão e onda e tem sabor a terra
e tem sabor a mar.
Até aos ombros coluna e fogo alto,
forma palpável do sol desenrolada,
ao olhar, às mãos, à língua,
a luz que se fez corpo
e baila nas calçadas.
*
Respiração e fome conjugadas
no abraço sem nuvens,
pão de sol comido língua a língua,
ó novo alento, ó nova criatura,
sempre a que nasce doutra e é mais pura.
*
Defronte os ombros nus,
o espaço aberto: uns braços longos.
Defronte: um corpo. Serenidade.
Eu tudo sei do corpo ao dia,
da terra ao espaço, de mim a ti.
Eu tudo sei e assim descubro
a luz, a água, o pão, o corpo:
habito a terra, habito mais,
contra mim mesmo descanso e nasço.
*
Esta ciência de inocência e água
se toco, delicado, ou pão ou página,
ou corpo, ou fruto, ou verde folha,
este pisar que é duro e leve,
a frescura e a sombra, o ar, a luz
— tudo me dás, tudo te dou, tudo nos damos.
*
E a terra mais próxima e as ervas
e os bichos translúcidos entre pedras,
a serena eclosão dos nomes, cabeleira
sobre o corpo fresco, intenso e nu.
Verdade ainda mais próxima dos tranquilos campos,
paz que se alonga às searas por um corpo amado,
renhidamente amado entre a verdura
na noite de estrelas claras e estáticas.
*
Sóbrio o teu corpo me pede
penetração: nomes puros:
os de boca, braços, mãos
sobre a terra e sobre os muros.
Sóbrio o teu corpo me pede
nomes justos, nomes duros:
os de terra, fogo e punhos,
claros, acres, escuros.
a realidade ou tu:
limpos barcos,
novidade acesa como a terra viva,
movimento de braços, amálgama
exacta duna.
Meus olhos não fabricam mas encontram.
A terra que se enche já vem cheia,
o hálito começa na claridade do céu.
Os homens dançam por vezes.
Este momento é teu.
*
Ó calmo olhar animal
da terra ao mar, popa
de espuma.
O mundo é natural, ridente, quando o verde rompe,
animal olhar.
Não estou só: porque te acendo entre as pedras,
abarco tua altura larga e teu ombro,
essência da fome visual e braço e nome.
*
Do teu calor me nutro e fortifico,
no silêncio da tua espera.
Brilha o teu tecido circular,
a terra é um átrio: o mar é perto.
Há passos de mulher descalça.
O mundo é novo.
A terra clara.
*
Eu sou o homem que te ama e escuta
concentradamente no calor dum muro.
Cerrado, oiço a tua unidade plural,
vejo teus dedos grossos,
tuas marcas fêmeas, tua elegância dolorosa.
Teus seios me nutrem, olhando-te.
*
Mastigo-te, raiz, e quase te oiço.
Construo um músculo verbal em teu ouvido,
alimento-me do teu mar visual e lento:
renasço pouco a pouco no teu horizonte dado.
Revejo-me num corpo ao pé do mar.
*
Silêncio no teu olhar, na tua boca.
Em tua língua primitiva o mar se olha.
É o deserto e falas, boca brusca
de ignorado alento.
Não te construo, constróis-me, construo-te
construo-te, mar,
parede pura,
criada.
*
Aqui onde o sol se acende em carne,
onde a casa é um nome de mar,
e os frutos e os espelhos
amadurecem o corpo solidário:
É Verão.
Aqui tu és
lenta verdade no sossego do sangue:
circulação de nomes e de peixes.
*
Aqui, à fome dos nomes e dos seres,
respondes, corpo do mar, coluna real
e teus acidentes se cumprem como ondas.
Aqui te palpo, vela, aqui te vejo, pomo,
formas meus braços, se te enleio,
desato simplesmente os teus anéis,
bebo-te sem te extinguir e sem me esperares.
Amanhã serás tu, sendo já hoje.
*
Recebendo-te como outra, outra nasces
e a ti mesma te igualas, porque és mar.
Teu corpo denso se aproxima, ora se afasta.
Há um perfume de uma noite inextinguível
nas tuas coxas claras.
*
Oiço-te ampla sob os ruídos.
Vária e verde, tapete derramado
sobre os ombros: acordas.
Não te peço qualquer nome, tu és banho
de calor fecundo, ondulação de frutos
sobre a mesa de pedra em que te aceito.
*
Em tua boca respiram as janelas.
Tua música de muros e varandas
abre-se ao céu e às ténues páginas.
*
Vejo-te abundante e a minha sede cresce,
obscura ainda, renascente já.
Quero claramente reconhecer-me em ti.
Entrego-me sem espelhos, amálgama,
no teu silêncio me envolvo e te circundo.
És mais exacta, mais dura, mais viva.
A tua recusa cresce como um céu
por sobre o muro.
*
Aconteceram hoje palavras como folhas
na tua nuca de silêncio.
Como pássaros que ainda mais dizem o céu,
como pedras que ainda mais dizem a terra,
aconteceram hoje palavras que disseram
o nosso encontro em fuga.
*
O que sei de ti: ignorância
conquistada, lábios que se movem,
forma de vertigem declinada,
aridez, aridez: cabeça rente
às perspectivas fechadas.
O que sei: ocupação de ti, nunca ocupada,
aberta, ignorada, sempre viva,
ó encontrada!
*
O que sei de ti é olhar e não te ver,
é fuga abrupta, mar que se fecha sob pálpebras,
pupila violenta, larga lâmina,
facilidade pura
sem rede, sem degraus: só verde, extensa,
ramificada parede de sol,
perpétuo lar do instante amadurecido,
virgem, verde, real,
alento que respiro,
brilho, beijo na pedra.
*
Teus nomes, tua mesa
onde disponho os copos:
à luz demasiado crua e logo ténue
as palavras serão simples, vagarosas.
Entre nós, quantas paredes repercutem
esta dureza aguda.
Um corpo desenhado nos seus ossos.
Um olhar entre o gume da faca
e a simplicidade do pão.
Uma fala justa.
*
Às vezes sinto-te entre o sol e o papel,
às vezes oiço-te quase respirar
nas tranquilas coisas repousadas,
mas sempre estou a procurar-te.
Não te detenho nem fiel te sou,
às vezes, simplesmente, sem que o queira
e de tanto te querer, já o sou,
roda rodando no meu pulso,
ao lento baile em que a visão começa.
*
Sou pobre antes de ti. Pobre, regresso
a esta mão póstuma, a este olhar difuso.
Pobre te quero, te saúdo ainda.
A ti voltarei, nudez com veias,
mais do que pobre, aceso e nu à mesa.
*
É sobre o silêncio e sobre a noite,
sobre a miséria, sobre o ventre, sobre o amor,
mas ainda mais sobre o corpo inominado:
sobre a fome, sobre a luz do corpo exacto,
o corpo brando e duro: o corpo intacto,
o corpo pleno e vivo à luz das ruas:
pão descoberto, aberto, sem fissuras.
*
É pão e onda e tem sabor a terra
e tem sabor a mar.
Até aos ombros coluna e fogo alto,
forma palpável do sol desenrolada,
ao olhar, às mãos, à língua,
a luz que se fez corpo
e baila nas calçadas.
*
Respiração e fome conjugadas
no abraço sem nuvens,
pão de sol comido língua a língua,
ó novo alento, ó nova criatura,
sempre a que nasce doutra e é mais pura.
*
Defronte os ombros nus,
o espaço aberto: uns braços longos.
Defronte: um corpo. Serenidade.
Eu tudo sei do corpo ao dia,
da terra ao espaço, de mim a ti.
Eu tudo sei e assim descubro
a luz, a água, o pão, o corpo:
habito a terra, habito mais,
contra mim mesmo descanso e nasço.
*
Esta ciência de inocência e água
se toco, delicado, ou pão ou página,
ou corpo, ou fruto, ou verde folha,
este pisar que é duro e leve,
a frescura e a sombra, o ar, a luz
— tudo me dás, tudo te dou, tudo nos damos.
*
E a terra mais próxima e as ervas
e os bichos translúcidos entre pedras,
a serena eclosão dos nomes, cabeleira
sobre o corpo fresco, intenso e nu.
Verdade ainda mais próxima dos tranquilos campos,
paz que se alonga às searas por um corpo amado,
renhidamente amado entre a verdura
na noite de estrelas claras e estáticas.
*
Sóbrio o teu corpo me pede
penetração: nomes puros:
os de boca, braços, mãos
sobre a terra e sobre os muros.
Sóbrio o teu corpo me pede
nomes justos, nomes duros:
os de terra, fogo e punhos,
claros, acres, escuros.
1 268
António Ramos Rosa
O Espaço Livre
Desocupado, livre,
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
1 303
António Ramos Rosa
Princípio de Estação
Venho do sol (uma cortina de bruma
envolve o dia). Testemunha
de uma solidão fresca, sem recordar,
sem esperar, volto a olhar no espaço mudo.
O cheiro a chão lavado.
Uma direcção entre vagas sensações.
Não existe uma pergunta. Suspenso, avanço
entre vazios.
*
Não penso ou penso: que há?
Entretanto, o dia prossegue pardamente.
É tinta e não seiva o que escorre do aparo,
mas impregno o que escrevo de algo mais
que não existe ainda, que aspiro apenas
a ser a face densa, aberta, impenetrável
e real.
*
Não surpreender apenas por
gosto dum fulgor ou excesso.
As paredes oferecem uma face percorrida
de mil sulcos. A procura é infinita
neste silêncio das coisas junto à terra.
Desprendido, olho um muro ou o firmamento.
A poeira é deliciosa quando fresca.
envolve o dia). Testemunha
de uma solidão fresca, sem recordar,
sem esperar, volto a olhar no espaço mudo.
O cheiro a chão lavado.
Uma direcção entre vagas sensações.
Não existe uma pergunta. Suspenso, avanço
entre vazios.
*
Não penso ou penso: que há?
Entretanto, o dia prossegue pardamente.
É tinta e não seiva o que escorre do aparo,
mas impregno o que escrevo de algo mais
que não existe ainda, que aspiro apenas
a ser a face densa, aberta, impenetrável
e real.
*
Não surpreender apenas por
gosto dum fulgor ou excesso.
As paredes oferecem uma face percorrida
de mil sulcos. A procura é infinita
neste silêncio das coisas junto à terra.
Desprendido, olho um muro ou o firmamento.
A poeira é deliciosa quando fresca.
1 007
António Ramos Rosa
Ocupação do Espaço
Assim te insurges, leal, frente ao silêncio.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
743
António Ramos Rosa
Para Respirar Um Pouco
Na tábua em que escrevo
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
um clarão de ervas crespas
alvoroça o cinzento.
Posso escrever: manhã, um pouco de água,
porque o vento sopra deste lado
da lâmpada.
Um pouco de água
só,
falta-me a alegria rápida,
punhal que se estende,
precipitados passos na varanda branca
ou um punho fechado sobre o papel.
*
Alegria, força, clamor
evidência sonora,
ao espaço amplio a minha voz
de doloroso insecto
crepitante
num quarto
de poeira rasa.
Alegria como o vento, nasces
de que boca
vasta como o vento?
Entornada enfusa nas ortigas
verde-esquecida,
de ti nasce o clamor surdo,
a força com que escrevo no silêncio.
E já respiro um pouco…
*
De constrangidas lâmpadas
violentadas, débeis
— respira a noite debruçada sobre
que muro?
De pequenas navalhas esverdeadas
crepita este silêncio
onde um homem se afoga sob o chapéu
em passos mansos, suburbanos
na lentidão delida e unânime
um homem moribundo caminhante?
Num país velho, sem antiguidade pura
morre-se à míngua de uma palavra nova,
num país que soçobra e subsiste, longe,
longe, mas aqui.
*
Motor na sombra,
intervalo brusco
— boca que sopra
num corpo elástico.
Sem luvas entro
nos antros de argila,
como a poeira
e o verde espesso.
Por sobre a terra
poema, és lâmpada
de água e de pedra,
de insectos duros.
Esplende pobre
— semente alada
que a mão desfaz
e um puro olhar orvalha.
*
Uma palavra qualquer,
uma, à experiência,
uma, um novo gosto
de respirar,
para dizer não
um não claro
e o sim a esse não
e entre o sim e o não
— uma palavra para respirar.
*
Preciso de um punho
pequeno, mas duro,
minucioso e negro,
polido,
de certa densidade,
lento como a água,
plenamente eficaz.
1 205
António Ramos Rosa
Poema de Duas Faces
Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
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António Ramos Rosa
Um Dia Perfeito. Um Ombro…
Um dia perfeito
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
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