Poemas neste tema
Solidão
Fernando Pessoa
Seja: / Já que este audaz e imenso pensamento
Seja:
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
832
Fernando Pessoa
A vida é má e o pensamento é mau,
A vida é má e o pensamento é mau,
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.
Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.
Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.
Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...
Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!
(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.
Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.
Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.
Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.
Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...
Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!
(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
1 005
Fernando Pessoa
SONG OF THE LEPER
He was a nauseous leper
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
Was the grass.
And the leper sang this song:
«The leper is excluded from his race,
The leper is driven out,
The leper is thrust out
From hall and street and way;
He must not show his face
Where human beings may.
For him there are whips and stones;
He cannot even stay
Where mongrels fight for bones
And are allowed to play.
«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
But the leper is accurst
And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.
«The toad, the newt, the viper
Are tolerate and borne,
But the vile and nauseous leper
Makes vomit in deep scorn;
Repugnance is for him
Inevitably born
«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
Upon the wind they stray,
The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.
And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:
«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»
«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.
«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
Was the grass.
And the leper sang this song:
«The leper is excluded from his race,
The leper is driven out,
The leper is thrust out
From hall and street and way;
He must not show his face
Where human beings may.
For him there are whips and stones;
He cannot even stay
Where mongrels fight for bones
And are allowed to play.
«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
But the leper is accurst
And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.
«The toad, the newt, the viper
Are tolerate and borne,
But the vile and nauseous leper
Makes vomit in deep scorn;
Repugnance is for him
Inevitably born
«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
Upon the wind they stray,
The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.
And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:
«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»
«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.
«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
1 623
Fernando Pessoa
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
2 164
Fernando Pessoa
IN THE STREET
I pass before the windows lit
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
1 556
Fernando Pessoa
(Depois do amor — na treva)
Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 326
Fernando Pessoa
Ah qualquer cousa,
(after useless discussion)
Ah qualquer cousa,
Ou sono ou sonho, sem doer isole
O meu já isolado coração!
Se as palavras que eu diga nunca podem
Levar aos outros mais do que o sentido
Que essas palavras neles têm, e [existo]
[Por] fora do que digo, oculto nele
Como o esqueleto nesta carne minha,
Invisível estrutura do visível,
Diferente e essencial...
Cai sobre mim, apagamento meu!
Querer querer, inútil pedra ao mar!
Saco p'ra colher vento, cesto de água,
Caçador só do uivar dos lobos longe...
Ah qualquer cousa,
Ou sono ou sonho, sem doer isole
O meu já isolado coração!
Se as palavras que eu diga nunca podem
Levar aos outros mais do que o sentido
Que essas palavras neles têm, e [existo]
[Por] fora do que digo, oculto nele
Como o esqueleto nesta carne minha,
Invisível estrutura do visível,
Diferente e essencial...
Cai sobre mim, apagamento meu!
Querer querer, inútil pedra ao mar!
Saco p'ra colher vento, cesto de água,
Caçador só do uivar dos lobos longe...
1 213
Fernando Pessoa
UMA VOZ: Quando a noite suave! desce
Quando a noite suave! desce
— Sombra de mãos em perdão —
Ó mão da Tristeza tece,
O Manto da Solidão.
Tece-o qual uma mentira,
Que o meu triste coração
Quer vesti-lo p'ra cobrir
O nu da desilusão.
OUTRA VOZ:
Enche a taça da minha alma
Da bebida do sofrer
Que transborde fria e calma
Sobre a mão do esquecer;
Do que dá o amargor
Às lágrimas ... Quero ver
Se encontro aí mais amor
Para a bebê-lo morrer.
TERCEIRA VOZ:
Cava-me a cova profunda,
Quero em sossego dormir;
Não na terra — é pouco funda;
Vai a minha cova abrir
Do sonho na solidão
E põe ao meu
Por laje o meu coração
Que inda não soube sorrir.
UMA VOZ TRISTE:
Um canto e outros, mas tudo triste,
Soluços qu'rendo-se a si esquecer;
A lira velha disso que existe
Tem sons que fazem estremecer.
Um canto e outros, mas tudo vago
Como a íntima alma do soluçar
Que monstro mira (...) lago
Que faz as águas leve vibrar?
Um canto e outros, mas tudo inútil
As mãos descola vai a lira ao chão;
O canto é meio febril e fútil
De fingir vida na solidão.
— Sombra de mãos em perdão —
Ó mão da Tristeza tece,
O Manto da Solidão.
Tece-o qual uma mentira,
Que o meu triste coração
Quer vesti-lo p'ra cobrir
O nu da desilusão.
OUTRA VOZ:
Enche a taça da minha alma
Da bebida do sofrer
Que transborde fria e calma
Sobre a mão do esquecer;
Do que dá o amargor
Às lágrimas ... Quero ver
Se encontro aí mais amor
Para a bebê-lo morrer.
TERCEIRA VOZ:
Cava-me a cova profunda,
Quero em sossego dormir;
Não na terra — é pouco funda;
Vai a minha cova abrir
Do sonho na solidão
E põe ao meu
Por laje o meu coração
Que inda não soube sorrir.
UMA VOZ TRISTE:
Um canto e outros, mas tudo triste,
Soluços qu'rendo-se a si esquecer;
A lira velha disso que existe
Tem sons que fazem estremecer.
Um canto e outros, mas tudo vago
Como a íntima alma do soluçar
Que monstro mira (...) lago
Que faz as águas leve vibrar?
Um canto e outros, mas tudo inútil
As mãos descola vai a lira ao chão;
O canto é meio febril e fútil
De fingir vida na solidão.
1 379
Fernando Pessoa
O BIBLIÓFILO
Ó ambições!... Como eu quisera ser
Um pobre bibliófilo parado
Sobre o eterno fólio desdobrado
E sem mais na consciência de viver.
Podia a primavera enverdecer
E eu sempre sobre o livro recurvado
Sorriria a um arcaico pecado
A uma medieval moça e qualquer.
A vida não perdia nem ganhava
Nada por mim, nenhum gesto meu dava
Um gesto mais ao seu profundo
E eu lia, a testa contra a luz acesa.
Sem nada querer ser como a beleza
E sem nada ter sido como o mundo
Um pobre bibliófilo parado
Sobre o eterno fólio desdobrado
E sem mais na consciência de viver.
Podia a primavera enverdecer
E eu sempre sobre o livro recurvado
Sorriria a um arcaico pecado
A uma medieval moça e qualquer.
A vida não perdia nem ganhava
Nada por mim, nenhum gesto meu dava
Um gesto mais ao seu profundo
E eu lia, a testa contra a luz acesa.
Sem nada querer ser como a beleza
E sem nada ter sido como o mundo
1 442
Fernando Pessoa
EXISTÊNCIA: Vaga noção abstracta,
Vaga noção abstracta,
Inda sou mais que tu!
Em mim é visto nu
(E compreende-o ninguém)
O Mistério (...) cru
Que mundo e vida têm.
Sou nome vago e simples
Mas menor verdade sou
Ninguém já me abraçou
(Compreendeu-me ninguém)
Meu nome quem achou
Não pôde ir mais além.
Inda sou mais que tu!
Em mim é visto nu
(E compreende-o ninguém)
O Mistério (...) cru
Que mundo e vida têm.
Sou nome vago e simples
Mas menor verdade sou
Ninguém já me abraçou
(Compreendeu-me ninguém)
Meu nome quem achou
Não pôde ir mais além.
1 321
Fernando Pessoa
OS EMIGRADOS
OS EMIGRADOS
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
985
Fernando Pessoa
Para quê te falar? Ninguém me irmana
Para quê te falar? Ninguém me irmana
Os pensamentos na compreensão.
Sou só por ser supremo, e tudo em mim
É maior.
Os pensamentos na compreensão.
Sou só por ser supremo, e tudo em mim
É maior.
1 278
Fernando Pessoa
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.
1 154
Fernando Pessoa
Ah as horas indecisas
Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
1 391
Fernando Pessoa
Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espectáculo que vejo: vejo-o.
E exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele,
E é esse o sentimento que me liga à manhã que aparece.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espectáculo que vejo: vejo-o.
E exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele,
E é esse o sentimento que me liga à manhã que aparece.
1 440
Fernando Pessoa
Talvez quem vê bem não sirva para sentir
Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.
1 659
Fernando Pessoa
X - Aconteceu-me do alto do infinito
X
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
827
Fernando Pessoa
IX - Meu coração é um pórtico partido
IX
Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.
Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,
Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...
Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.
Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,
Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...
1 665
Fernando Pessoa
Quem me dera, quando fores
Quem me dera, quando fores
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.
1 567
Fernando Pessoa
Eu vi ao longe um navio
Eu vi ao longe um navio
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.
1 250
Fernando Pessoa
Quantas vezes a memória
Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
1 287
Fernando Pessoa
Baila em teu pulso delgado
Baila em teu pulso delgado
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
1 351