Poemas neste tema
Animais e Natureza
Marina Colasanti
No túmulo de inox
Morto
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
resseco
o inseto
jaz sobre o fogão e
me recebe quando tiro a panela.
Ainda há pouco
eu lhe admirava a beleza na janela
exata esmeralda
lançando ao ar o acento
das antenas.
No túmulo de inox
encontro um inseto calcinado
invólucro de inseto
para sempre imóvel
com o rigor das patas.
Chamado pela chama
saltou do vidro onde pousava
vivo verde contra o verde jardim.
A panela cozinhava lenta a sopa
para a cerimônia da ceia;
debaixo do barro
cumpria-se em silêncio
o ritual
de sedução e morte.
1 075
Marina Colasanti
Talvez saiba
Meu braço é uma extensão imensa
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
longa colina plana
que o cotovelo rompe
e que o pulso ameaça.
E nessa geografia pulsante
floresta dos meus finos pelos
um inseto desbrava
o áspero chão.
Menos que um ponto
malvisível
sinto o peso nenhum das patas filiformes
pousando em alternância
sobre a pele.
O inseto vai
e talvez saiba aonde
a cabeça examina um lado e outro
os olhos indistintos deste nada
caçam atentos.
Tudo é perigo no seu curto tempo
e no peito
se é peito que se chama
o escuro mais escuro desse corpo
um coração bombeia
em puro medo.
1 155
Marina Colasanti
Como nada
No quinto degrau
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
1 209
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 087
Marina Colasanti
Verde deserto
Na praia de Essauíra
os cameleiros
tocam as suas montadas
mar adentro.
Verdes dunas que as patas estilhaçam
espumas
e o ondear
em volutas
dos pescoços.
Atrás das trincheiras das lentes
olhares turistas
sequestram camelos pisando nas conchas.
No fundo de areia
passadas esmagam estrelas.
Inverte-se em águas
o céu beduino.
os cameleiros
tocam as suas montadas
mar adentro.
Verdes dunas que as patas estilhaçam
espumas
e o ondear
em volutas
dos pescoços.
Atrás das trincheiras das lentes
olhares turistas
sequestram camelos pisando nas conchas.
No fundo de areia
passadas esmagam estrelas.
Inverte-se em águas
o céu beduino.
984
Marina Colasanti
NEGRAS MIGRANTES
No hotel Schönbrunn em Viena
gralhas me acordam de manhã
com seu alarido,
e os sinos de uma igreja
de campanário em ponta como um bico.
Por um instante, latina que sou,
acreditei fossem gansos
no arbóreo capitólio dos Habsburgo.
Equívoco. Aves guardias não são
essas negras migrantes.
Abandonam a Rússia no princípio
do inverno deixando atrás de si
neve e silêncio
e vêm valsar aqui com duro passo.
Breve nevará em Viena, e as gralhas
exatas silhuetas sobre o branco
terão trocado um frio
por outro frio.
Ao contrário das andorinhas
quando o inverno acabar
sua ausência
trará a primavera
Fiena 1995
gralhas me acordam de manhã
com seu alarido,
e os sinos de uma igreja
de campanário em ponta como um bico.
Por um instante, latina que sou,
acreditei fossem gansos
no arbóreo capitólio dos Habsburgo.
Equívoco. Aves guardias não são
essas negras migrantes.
Abandonam a Rússia no princípio
do inverno deixando atrás de si
neve e silêncio
e vêm valsar aqui com duro passo.
Breve nevará em Viena, e as gralhas
exatas silhuetas sobre o branco
terão trocado um frio
por outro frio.
Ao contrário das andorinhas
quando o inverno acabar
sua ausência
trará a primavera
Fiena 1995
984
Marina Colasanti
CASA EM MEIO AO CAMPO
A casa abandonada
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
973
Marina Colasanti
UCCELLO, EM VÔO
Paolo, chamado Uccello
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
1 109
Marina Colasanti
Inquebrantada linhagem
Por onde vou, no jardim,
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
972
Marina Colasanti
BRUSIO
Mosconi sul rampicante rosa
pelosi
fra petali e foglie
più che insetti si direbbero
scuri pistilli in volo.
pelosi
fra petali e foglie
più che insetti si direbbero
scuri pistilli in volo.
1 040
Marina Colasanti
De cinza a cinza
Há um momento no lago
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não é de neblina
e que não é de chuva
que é água em suspensão
sem que água seja
antigo respirar de
boi ou burro.
Calam-se as sombras
cegam-se os contornos.
Tudo se iguala
no deslizar macio
de cinza a cinza.
O gume longínquo de um voo
já nada corta.
O grito perdido do trem
se afoga no túnel.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 203
Marina Colasanti
DOMENICA A CERTALDO
Domenica a Certaldo
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
1 018
Marina Colasanti
JARDINAGEM ABAIXO DO EQUADOR
Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
1 058
Marina Colasanti
EM QUE TUDO
Cachorro preto contra
o muro branco
cerejeiras em flor
a lua no alto.
E são quatro da tarde neste inverno
de sol
em que tudo estremece
e é tão parado
o muro branco
cerejeiras em flor
a lua no alto.
E são quatro da tarde neste inverno
de sol
em que tudo estremece
e é tão parado
1 289
Marina Colasanti
Pela janela aberta
Se deitada de costas
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
1 177
Marina Colasanti
A todos igualmente
Aquele homem tinha um zoológico
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
1 143
Marina Colasanti
VERDE, PORÉM
Por que será que
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?
928
Marina Colasanti
TARDE FRIA
Frio
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
1 147
Marina Colasanti
DÚVIDA POSTA À MESA
Li em algum lugar
que no Tour d'Argent
em Paris
a servir coxa de galinha
só à esquerda.
Com a direita a galinha esgravata
em busca de alimento
tornando-a musculosa
enquanto a esquerda
apoio inoperante
se conserva macia.
Desde então
toda vez que uma coxa de galinha
vem terminar sua vida
no meu prato
pergunto-me se
esquerda
se direita
ou se a galinha não seria canhota.
que no Tour d'Argent
em Paris
a servir coxa de galinha
só à esquerda.
Com a direita a galinha esgravata
em busca de alimento
tornando-a musculosa
enquanto a esquerda
apoio inoperante
se conserva macia.
Desde então
toda vez que uma coxa de galinha
vem terminar sua vida
no meu prato
pergunto-me se
esquerda
se direita
ou se a galinha não seria canhota.
1 102
Marina Colasanti
PORQUINHOS-DA-INDIA
O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta
No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
foi a primeira namorada
do poeta
No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
1 102
Marina Colasanti
NO PARQUE HELLBRUNN AO ANOITECER
Para Gigi Reisner
Altos altos pinheiros
verdes falésias
e ao fundo
este caminho que escorre como água.
Um cisne ajeita penas sobre o gelo do lago
única mancha clara na neblina que vem
trazendo a noite.
Trancados na rija silhueta dos capotes
escuros troncos de perdidas folhas
apressamos o passo em busca de um portão
que já se fecha.
Ninguém passa por nós.
Longe
no teatro de pedra em meio ao bosque
uma coruja chama
sem resposta.
Salzburg 1995
Altos altos pinheiros
verdes falésias
e ao fundo
este caminho que escorre como água.
Um cisne ajeita penas sobre o gelo do lago
única mancha clara na neblina que vem
trazendo a noite.
Trancados na rija silhueta dos capotes
escuros troncos de perdidas folhas
apressamos o passo em busca de um portão
que já se fecha.
Ninguém passa por nós.
Longe
no teatro de pedra em meio ao bosque
uma coruja chama
sem resposta.
Salzburg 1995
895
Marina Colasanti
ORÁCULO E PRIMAVERA
Pessegueiros em flor, pessegueiros
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estremecendo as folhas
dos seus olhos?
Pessegueiros em flor, pessegueiros
se chover hoje à noite
sobre Delfos
a chuva terá gosto de sal
e amanhã entre as flores
cintilarão escamas.
Delfos 1988
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estremecendo as folhas
dos seus olhos?
Pessegueiros em flor, pessegueiros
se chover hoje à noite
sobre Delfos
a chuva terá gosto de sal
e amanhã entre as flores
cintilarão escamas.
Delfos 1988
1 253
Marina Colasanti
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas florestas
ou baleias
fez-se fossil.
Agora escuro
destaca-se dos outros.,
visitante já morto
enterrado na boca.
Lamento apenas
que entre dentina e esmalte
não tenha aprisionado
algum inseto.
abelha ou mosca
marcando em transparência
a data de uma vida
que se foi.
992
Marina Colasanti
DEPOIS DA CHUVA E ANTES DA NOITE
Que doce é essa montanha
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente
a neblina desponta
coleando espirais entre as encostas
e em algum ponto
um som de cachoeira se enovela.
A mata toda estala
de tantas leves patas
tantas asas
e o lento acomodar de terra e tocas.
Na moita de bambus
mais um broto se lança
agudo prumo procurando o alto.
A tarde deita em pregas as suas sombras.
E na distância
cães esparsos latem
escorraçando o escuro que se expande.
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente
a neblina desponta
coleando espirais entre as encostas
e em algum ponto
um som de cachoeira se enovela.
A mata toda estala
de tantas leves patas
tantas asas
e o lento acomodar de terra e tocas.
Na moita de bambus
mais um broto se lança
agudo prumo procurando o alto.
A tarde deita em pregas as suas sombras.
E na distância
cães esparsos latem
escorraçando o escuro que se expande.
1 017