Tempo e Passagem
Ruy Belo
A primeira palavra
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera.
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
a superfície do tempo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia
Nuvens telhados ramagens e Dezembro
Apaixonada estou dentro do tempo
Que me abriga com canto e com imagens
Tão abrigada estou dentro da hora
Que nem lamento já a tarde antiga
Tudo se torna presente e se demora
Será que o dia me pede que eu o diga?
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Noite E a Casa
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo
A noite reúne a casa a seu destino
Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento
O vazio caminha em seus espaços vivos
Ruy Belo
Do sono da desperta Grécia
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 47 e 48 | Editorial Presença Lda., 1981
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cada Dia É Mais Evidente Que Partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudade nem terror que baste.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Biografia
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Breve Encontro
Moradas habitadas
Nelas mora
Em memória e demora
O nosso breve encontro com a vida
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nunca Mais Te Darei o Tempo Puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.
Sophia de Mello Breyner Andresen
As mortas
Um halo em redor do seu sorriso
E tudo no seu ser era indeciso
Tocando de infinito o tempo breve.
Tudo quanto floresce delas vem,
Pois ficaram dispersas na paisagem.
Esquecidas de si não são ninguém,
Mas vagabundas são em cada imagem.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 88 | Edições Ática, 1974
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ali, Então
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo
(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)
Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido
E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nocturno
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.
Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Brisa
Que palavra de amor
A noite de Maio em si recebe e perde?
Desenha-te o luar como uma estátua
Que no tempo não fica
Quem poderá deter
O instante que não pára de morrer?
Manuel António Pina
Escrito de memória
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando-
te atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Manuel António Pina
Pura coincidência
Estares; ou seres;
a palavra ou a frase,
a dúvida ou o sentido,
para isso terias, no entanto, que reaprender tudo,
reaprender a chorar, a perceber,
reaprender a reaprender;
porque talvez, afinal, seja tudo simples,
o efeito suceda à causa e a vida
encare apenas a sua própria face
(embora verdadeiramente isso não tenha
[demasiada importância);
terias que saber (e não o saber)
que dias e esperança,
incredulidade e medo,
tempo e lugar, carne e espírito
são sombras que nenhum
corpo e nenhuma luz consomem;
reaprender a ironia;
por fim, como uma imagem desfocada
recentrando-se, estarias tão perto ou tão longe
que a tua existência coincidiria,
transparente e pura coincidência
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 285 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Voyager
do azul ao vermelho, da música ao fogo!
Por que não encontra o sangue o seu lugar
entre os dispersos mundos?
Perde o viajante
o caminho do regresso.
No cristal do coração,
que nenhum sono embacia,
fulgem imagens de imagens
de frios sonhos desfeitos.
Algum país voltado para fora
lhe abrirá as vastas portas
e ele repousará enfim
sem noite e sem memória.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 131 (escrito a 9 Novembro 1983)| Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
É apenas um pouco tarde
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 7 (escrito em 1969) | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Outras coisas
Outras coisas no entanto
o amor e o desamor e também a
morte que nas coisas morre subitamente
o lugar onde vais de súbito
De súbito faltas-me debaixo dos pés
e noutros lugares De ti é possível dizer
que te ausentaste para parte incerta
deixando tudo no teu lugar
Está tudo na mesma Também a mim
tempo não me falta lugar sim
Onde cairás morta, flor da infância?
De súbito faltam-me as palavras
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 18 | Assírio & Alvim, 2012
Bruno Kampel
Noite em claro
deliram perguntas
que roem as unhas
das horas que passam
e estas insones
qual arame farpado
bordam respostas de pedra
que convidam ao quebranto
que doem sem clemência
que ferem sem vergonha
e morrem sem vontade
enquanto a madrugada
esvai-se gota a gota
e o perfil da aurora
entre um bocejo e outro
pendura-se nos olhos
da noite que agoniza
ao passo que a alvorada
cumprindo seu destino
floresce pontualmente
e inventa um novo dia.
Nuno Júdice
Trabalho de casa
as águas caem sobre as águas, sob a espuma redundante
de ideias brancas? Aqui me afundo até ao próprio
fundo de mim próprio, aqui onde os gestos humanos
da despedida e do amor não têm outro sentido
além do que nasce das próprias águas: efémeros,
como o tempo, e como o tempo presos ao que, cada um de nós,
ignora do outro. Acendo cigarros nos cigarros,
respirando o fumo húmido das origens, vigiando
a transparência que se desfaz no intervalo das folhas,
quando o vento as empurra para a estrada, pergunto
de onde vem a minha saudade de ti, e até onde
vai o meu desejo de te ouvir, de novo, à minha frente,
enquanto as horas passam como se não tivessem de passar,
e os teus lábios bebem todo o tempo da minha vida. Como
se o desejo não se esgotasse, também ele, como
estas águas que acabam em cada instante em que se renovam,
trazendo as chuvas eternas do norte para dentro de poços
sem fundo, até ao fundo dos lagos mais subterrâneos,
puxando com a sua negra densidade os meus
impulsos de treva: cama obscura para onde desço
quando adormeço. Mas tu, com os teus braços de raiz aérea,
puxas-me para esse cimo de montanha onde o silêncio
se transforma em sílaba - a sílaba inicial
do mundo, a interrogação do gesto nascente de todas as
origens, o soluço de um suicídio de murmúrios,
percorrida pela única percepção inútil: a da vida
que se esvai no instante do amor. E encostamo-nos à pedra
abstracta do horizonte, a que nos deixou sem voz quando
as grutas do litoral se abriram; para que a pedra nos beba,
gota a gota, todo o sangue. Então, é nas suas veias
que correm as nossas pulsações. E afastamo-nos, devagar,
para que a terra viva através de nós
uma existência puramente interior, despida
do fulgor animal das manhãs. Sentamo-nos
no mais longínquo dos quartos, de janelas fechadas, e
abraçamo-nos com o rumor de primaveras clandestinas,
com o inverno nos olhos.
Nuno Júdice | "Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX" | Angelus Novus & Cotovia, 2003
Nuno Júdice
Correspondência
exigente, o vento que as empurra. Depois,
as nuvens passam e volta o sol, com o azul
imutável das manhãs de outono, monótono e distante
como quem o olha, ao sair de casa, sem
tempo para pensar no tempo.
As nuvens, no entanto, continuam
o seu caminho: umas, desfazem-se em água
sobre campos vazios, ou descem para as grandes
cidades para as abraçar com um tédio
enevoado. As que me interessam, porém,
são as que sobem para norte, e ficam
mais frias à medida que as pressões continentais
abrandam o seu curso, Então, param
em dias cinzentos; e, por fim, escurecem
a tua alma, quando as olhas, e te apercebes
de que se aproxima um inverno
de solidão.
A não ser que leias, nesse obscuro céu,
esta carta que te mando.
Manuel António Pina
As escadas
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.
Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanescem-se como terras estrangeiras.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 359 | Assirio & Alvim, 2012
Bruno Kampel
Nova Era
suar de angústia
chorar de ternura
tocar olhando
dizer calando?
Poderão os inquilinos do futuro
morrer de amor e renascer
pedir perdão por não saber
tender a mão sem exigir
gritar verdades sem temor?
Descobrirá o amanhã entrante
que herda carícias impotentes
promessas incumpridas
mentiras verdadeiras
e instantes decisivos?
Quererão os dias vindouros
escancarar a porta à esperança
ler o testamento do passado
e entender, e entender, e entender?...
Já veremos quanto saberá o futuro
já ouviremos o que dirão seus anos
e o que farão seus filhos
e suas máquinas
e seus líderes
e suas bombas
e seus hinos.
Já teremos tempo de saber
se o que sabe tem gosto a esperança
se o que diz ensina o caminho
se o que oferece vale o seu preço.
As respostas virão cravadas
no horizonte cibernético
no firmamento internáutico
na ignorância terapéutica
ocultando o essencial
do vital
do letal
do fatal.
Veremos o que queiram?...
Faremos o que digam?...
Seremos migalhas errantes
sobre a toalha do tempo?...
Nuno Júdice
Domingo no campo
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.
Fernando Pessoa
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.