Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Charles Bukowski
Um Livrinho Grátis de 25 Páginas
matando por uma cerveja morrendo
pela vida e por causa da vida
numa tarde ventosa em Hollywood
escutando música sinfônica no meu radinho vermelho
sobre o chão.
um amigo disse,
“tudo o que você precisa fazer é ir lá fora e se deitar
na calçada
alguém aparece e o recolhe
alguém tomará conta de você”.
olhei pela janela para a calçada
vejo uma coisinha maravilhosa caminhando na calçada
ela não se deitaria ali,
somente em lugares especiais para pessoas especiais com $$$$ especiais
e
maneiras especiais
enquanto eu estou matando por uma cerveja numa tarde ventosa em
Hollywood,
nada como uma bela jovem que rebola e passa por você na
calçada
rebolando e passando em frente à sua janela faminta
está vestida nos melhores trajes
não dá bola para o que você diz
para sua aparência e o que você faz
contanto que você não se ponha em seu
caminho, e deve ser porque ela não caga ou
não tem sangue
ela deve ser uma nuvem, amigo, o modo como passa flutuando pela gente.
estou enjoado demais para me deitar
as calçadas me assustam
a maldita cidade inteira me assusta,
o que me tornarei
o que já me tornei
me assusta.
ah, a bravata se foi
a grande corrida através do centro se foi
numa tarde ventosa em Hollywood
meu rádio estala e cospe sua música suja
cortando um chão cheio de garrafas de cerveja vazias.
agora escuto uma sirene
ela se aproxima
a música para
o homem no rádio diz,
“vamos mandar um livrinho de 25 páginas grátis para você:
ENFRENTANDO OS CUSTOS DA UNIVERSIDADE”.
a sirene fenece dentro das montanhas de caixa de papelão
e eu olho outra vez através da janela enquanto o pulso cerrado de
uma nuvem carregada se impõe...
o vento balança as plantas lá fora
espero pelo entardecer espero pela noite espero sentado numa cadeira
junto à janela...
o cozinheiro apanha e joga na água
o caranguejo ainda vivo
vermelho-rosa e salgado e de peito sólido e
o jogo
continua
venham me pegar.
pela vida e por causa da vida
numa tarde ventosa em Hollywood
escutando música sinfônica no meu radinho vermelho
sobre o chão.
um amigo disse,
“tudo o que você precisa fazer é ir lá fora e se deitar
na calçada
alguém aparece e o recolhe
alguém tomará conta de você”.
olhei pela janela para a calçada
vejo uma coisinha maravilhosa caminhando na calçada
ela não se deitaria ali,
somente em lugares especiais para pessoas especiais com $$$$ especiais
e
maneiras especiais
enquanto eu estou matando por uma cerveja numa tarde ventosa em
Hollywood,
nada como uma bela jovem que rebola e passa por você na
calçada
rebolando e passando em frente à sua janela faminta
está vestida nos melhores trajes
não dá bola para o que você diz
para sua aparência e o que você faz
contanto que você não se ponha em seu
caminho, e deve ser porque ela não caga ou
não tem sangue
ela deve ser uma nuvem, amigo, o modo como passa flutuando pela gente.
estou enjoado demais para me deitar
as calçadas me assustam
a maldita cidade inteira me assusta,
o que me tornarei
o que já me tornei
me assusta.
ah, a bravata se foi
a grande corrida através do centro se foi
numa tarde ventosa em Hollywood
meu rádio estala e cospe sua música suja
cortando um chão cheio de garrafas de cerveja vazias.
agora escuto uma sirene
ela se aproxima
a música para
o homem no rádio diz,
“vamos mandar um livrinho de 25 páginas grátis para você:
ENFRENTANDO OS CUSTOS DA UNIVERSIDADE”.
a sirene fenece dentro das montanhas de caixa de papelão
e eu olho outra vez através da janela enquanto o pulso cerrado de
uma nuvem carregada se impõe...
o vento balança as plantas lá fora
espero pelo entardecer espero pela noite espero sentado numa cadeira
junto à janela...
o cozinheiro apanha e joga na água
o caranguejo ainda vivo
vermelho-rosa e salgado e de peito sólido e
o jogo
continua
venham me pegar.
1 212
Charles Bukowski
O Tordo Azul
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
1 239
Charles Bukowski
Nenhuma Sorte Nisso
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
1 319
Charles Bukowski
Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim
esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?
ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse
que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 109
Charles Bukowski
Um Lugar Pra Relaxar
ser um jovem tolo e pobre e feio
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
637
Charles Bukowski
Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove
você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.
não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.
nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.
não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.
eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!
a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.
eu sigo...
529
Charles Bukowski
Poema de Amor
lugar nenhum e meio
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
1 172
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 091
Charles Bukowski
Vacas na Aula de Arte
bom tempo
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
é como
boas mulheres -
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável: se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo. uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado
estou bebendo esta noite no Spangler's
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali, estou bebendo no Spangler's
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo -
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe, é o que devo
decidir:
matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?
livros... como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?
(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)
pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.
o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.
1 299
Charles Bukowski
A Costureira
minha primeira esposa fazia seus próprios vestidos,
e eu achava isso legal.
eu a via com frequência sentada diante de sua
máquina de costura
montando um novo vestido.
estávamos ambos trabalhando e eu achava
ótimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
então certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuário,
falando que ela parecia
“cafona”.
“você acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem é esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“você não pode, ele é homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortá-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles não lhe caíam nem de longe tão bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegância.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
você gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“você fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“não, mas o que você prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a máquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.
e eu achava isso legal.
eu a via com frequência sentada diante de sua
máquina de costura
montando um novo vestido.
estávamos ambos trabalhando e eu achava
ótimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
então certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuário,
falando que ela parecia
“cafona”.
“você acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem é esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“você não pode, ele é homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortá-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles não lhe caíam nem de longe tão bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegância.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
você gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“você fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“não, mas o que você prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a máquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.
1 171
Charles Bukowski
Todas as Perdas...
eu disse a ela na cama então
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
1 218
Charles Bukowski
Quatro e Meia da Manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões,
e gatos sonhando
com passarinhos vermelhos
e estes sonhando com
minhocas,
e as minhocas sonhando
os ossos do
meu amor,
e eu não posso dormir,
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e dirão:
e vão procurar por mim
no estaleiro
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente,
no meio das garrafas e da
luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como
40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
1 358
Charles Bukowski
Um Mágico Desaparecido
eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
952
Charles Bukowski
Cometi Um Erro
me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
1 115
Charles Bukowski
Para Aquelas 3
enlouquecendo
sentado de bobeira ouvindo valsas
de Chopin, tendo dormido com 3 mulheres diferentes
em 3 diferentes estados
em duas semanas, o ritmo tem sido
difícil, sentado em bares de aeroporto
de mãos dadas com lindas mulheres
que leram Tolstói, Turguêniev e
Bukowski.
espantoso quão completamente uma mulher pode dar seu
amor – quando quer
fazer isso.
agora as mulheres estão longínquas
e fico aqui sentado de pés descalços
barba por fazer, bebendo cerveja e
ouvindo essas valsas
de Chopin, e
pensando em cada uma das mulheres
e me pergunto se elas pensam em mim
ou será que eu sou só um livro de poemas
perdido no meio de outros livros de poemas?
perdido no meio de Turguêniev e Tolstói.
não importa. elas deram o bastante.
quando tocarem meu livro agora
vão reconhecer os contornos do meu corpo
vão reconhecer minha risada e meu amor e
minha tristeza.
meus agradecimentos.
sentado de bobeira ouvindo valsas
de Chopin, tendo dormido com 3 mulheres diferentes
em 3 diferentes estados
em duas semanas, o ritmo tem sido
difícil, sentado em bares de aeroporto
de mãos dadas com lindas mulheres
que leram Tolstói, Turguêniev e
Bukowski.
espantoso quão completamente uma mulher pode dar seu
amor – quando quer
fazer isso.
agora as mulheres estão longínquas
e fico aqui sentado de pés descalços
barba por fazer, bebendo cerveja e
ouvindo essas valsas
de Chopin, e
pensando em cada uma das mulheres
e me pergunto se elas pensam em mim
ou será que eu sou só um livro de poemas
perdido no meio de outros livros de poemas?
perdido no meio de Turguêniev e Tolstói.
não importa. elas deram o bastante.
quando tocarem meu livro agora
vão reconhecer os contornos do meu corpo
vão reconhecer minha risada e meu amor e
minha tristeza.
meus agradecimentos.
1 035
Charles Bukowski
Notificação
os cisnes se afogam em água imunda,
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidão,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidão,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.
1 196
Charles Bukowski
Todo o Meu Amor É Dedicado a Ela (Para A.M.)
astutamente armado com argumentos para o papa
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razões para minha morte e meu viver;
é um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aí o dia é uma merda e a merda é para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minúsculo café
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francês.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor é dedicado a ela
mas não há jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo às plantas, com minha mente:
não dá pra vocês me amarem?
não dá pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada é verdade?
eu olho à minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resíduo embaixo de uma
cadeira; é bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
você todo.
plantas, repito, vocês não podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocásia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso é tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razões para minha morte e meu viver;
é um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aí o dia é uma merda e a merda é para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minúsculo café
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francês.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor é dedicado a ela
mas não há jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo às plantas, com minha mente:
não dá pra vocês me amarem?
não dá pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada é verdade?
eu olho à minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resíduo embaixo de uma
cadeira; é bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
você todo.
plantas, repito, vocês não podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocásia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso é tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.
979
Charles Bukowski
Apenas Uma Noite
a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
1 027
Charles Bukowski
Quente
há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
1 218
Charles Bukowski
Meu Amigão
para um garoto de 21 anos em Nova Orleans eu não valia grande
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
coisa: eu tinha um quartinho escuro que cheirava a
mijo e morte
no entanto eu só queria permanecer ali, e havia
duas garotas animadas no fim do corredor que
ficavam batendo na minha porta e gritando “Levante!
Há coisas boas lá fora!”
“Vão embora”, eu lhes dizia, mas isso só as incentivava
mais ainda, elas deixavam bilhetes embaixo da minha porta e
fixavam flores com fita adesiva na
maçaneta.
eu vivia à base de vinho barato e cerveja verde e
demência...
eu acabei conhecendo um velho do quarto
ao lado, de algum modo eu me sentia velho como
ele; ele tinha os pés e os tornozelos inchados e não conseguia
amarrar seus sapatos.
todo dia por volta da uma da tarde nós saíamos juntos para
dar uma caminhada e era uma caminhada muito
lenta: cada passo era doloroso para
ele.
quando chegávamos ao meio-fio eu o ajudava
a subir e descer
agarrando um ombro
e a parte de trás do
cinto, nós conseguíamos.
eu gostava dele: ele nunca me questionava sobre
o que eu estava ou não estava
fazendo.
ele deveria ter sido meu pai, e eu gostava
muitíssimo do que ele dizia o tempo
todo: “Nada vale a
pena”.
ele era um
sábio.
aquelas mocinhas deveriam ter
deixado para ele
os bilhetes e as
flores.
1 127
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 178
Charles Bukowski
Nossa Risada É Silenciada Pelo Sofrimento Deles
enquanto a criança atravessa a rua enquanto mergulhadores de águas profundas
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
mergulham enquanto os pintores pintam –
o bom combate contra chances terríveis é a vin-
dicação e a glória enquanto a andorinha ascende rumo
à lua –
está tão escuro agora com a tristeza das
pessoas
elas foram enganadas, elas foram levadas a esperar o
máximo quando nada é
prometido
agora mocinhas choram sozinhas em pequenas salas
velhos brandem raivosamente suas bengalas contra
visões enquanto
damas penteiam seus cabelos enquanto
formigas buscam a sobrevivência
a história nos cerca
e as nossas vidas
afundam furtivamente
na
vergonha.
699
Charles Bukowski
A Morte de Uma Esplêndida Vizinhança
havia um lugar perto da Western Ave.
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.
aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.
entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.
depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.
quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.
aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.
entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.
depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.
quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
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Charles Bukowski
De Um Cão Velho Em Seu Porre
ah, meu amigo, é terrível, pior
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
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