Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Charles Bukowski
Qual a Função de Um Título?
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem em chamas –
pílulas suicidas, veneno de rato, corda, o que quer
que seja...
eles cortam seus braços,
jogam-se das janelas,
arrancam seus olhos das órbitas,
rejeitam o amor
rejeitam o ódio
rejeitam, rejeitam.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos não são capazes de resistir,
eles são as borboletas
eles são as pombas
eles são os pardais,
eles não conseguem levar as coisas adiante
uma rajada alta de chama
enquanto o velho joga damas no parque
uma chama, uma boa chama
enquanto o velho joga damas no parque
ao sol.
os belos são encontrados no canto de um quarto
encolhidos entre aranhas e agulhas e silêncio
e nós nunca poderemos entender por que se
foram, eles eram tão
belos.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem jovens
e deixam os feios entregues às suas feias vidas.
adoráveis e brilhantes: vida e suicídio e morte
enquanto o velho joga damas ao sol
no parque.
os belos morrem em chamas –
pílulas suicidas, veneno de rato, corda, o que quer
que seja...
eles cortam seus braços,
jogam-se das janelas,
arrancam seus olhos das órbitas,
rejeitam o amor
rejeitam o ódio
rejeitam, rejeitam.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos não são capazes de resistir,
eles são as borboletas
eles são as pombas
eles são os pardais,
eles não conseguem levar as coisas adiante
uma rajada alta de chama
enquanto o velho joga damas no parque
uma chama, uma boa chama
enquanto o velho joga damas no parque
ao sol.
os belos são encontrados no canto de um quarto
encolhidos entre aranhas e agulhas e silêncio
e nós nunca poderemos entender por que se
foram, eles eram tão
belos.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem jovens
e deixam os feios entregues às suas feias vidas.
adoráveis e brilhantes: vida e suicídio e morte
enquanto o velho joga damas ao sol
no parque.
1 058
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 026
Charles Bukowski
Amor
amor, ele disse, gás
me beije todo
beije meus lábios
beije meus cabelos
meus dedos
meus olhos meu cérebro
faça-me esquecer
amor, ele disse, gás
ele tinha um quarto no terceiro andar,
rejeitado por uma dúzia de mulheres
35 editores
e por meia dúzia de agências de serviços,
agora eu não estou dizendo que ele valesse alguma
coisa
ele abriu todas as bocas
sem acendê-las
e foi para a cama
algumas horas depois um cara a caminho
do quarto 309
acendeu um charuto no
corredor
e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
uma chama púrpura bailou doze metros no ar
o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso
mas eu precisava dizer
que ele esteve muito bem
naquele dia
me beije todo
beije meus lábios
beije meus cabelos
meus dedos
meus olhos meu cérebro
faça-me esquecer
amor, ele disse, gás
ele tinha um quarto no terceiro andar,
rejeitado por uma dúzia de mulheres
35 editores
e por meia dúzia de agências de serviços,
agora eu não estou dizendo que ele valesse alguma
coisa
ele abriu todas as bocas
sem acendê-las
e foi para a cama
algumas horas depois um cara a caminho
do quarto 309
acendeu um charuto no
corredor
e um sofá voou pela janela
uma parede chacoalhou feito areia molhada
uma chama púrpura bailou doze metros no ar
o cara na cama
não se importou ou deu bola pra isso
mas eu precisava dizer
que ele esteve muito bem
naquele dia
1 232
Charles Bukowski
Eu Estou Morto Mas Sei Que Os Mortos Não São Desse Jeito
os mortos podem dormir
eles não acordam e se enfurecem
eles não têm uma esposa.
o rosto branco dela
como uma flor numa janela
fechada se eleva e
olha para mim.
a cortina fuma um cigarro
e uma mariposa morre num
acidente na autoestrada
enquanto examino as sombras de minhas
mãos.
uma coruja, do tamanho de um relógio de bebê
bate por mim, vamos vamos
ela diz enquanto Jerusalém é arrastada
por saguões manchados por corrimento.
a erva das 5 da manhã é nasal agora
em sussurros de cruzadores e vales
na luz estuprada que traz consigo
os pássaros fascistas.
apago a lâmpada e entro na cama
ao lado dela, ela pensa que estou ali
murmura uma gratidão rósea
enquanto estendo minhas pernas
à medida de um caixão
entro e nado para longe
de sapos e fortunas.
eles não acordam e se enfurecem
eles não têm uma esposa.
o rosto branco dela
como uma flor numa janela
fechada se eleva e
olha para mim.
a cortina fuma um cigarro
e uma mariposa morre num
acidente na autoestrada
enquanto examino as sombras de minhas
mãos.
uma coruja, do tamanho de um relógio de bebê
bate por mim, vamos vamos
ela diz enquanto Jerusalém é arrastada
por saguões manchados por corrimento.
a erva das 5 da manhã é nasal agora
em sussurros de cruzadores e vales
na luz estuprada que traz consigo
os pássaros fascistas.
apago a lâmpada e entro na cama
ao lado dela, ela pensa que estou ali
murmura uma gratidão rósea
enquanto estendo minhas pernas
à medida de um caixão
entro e nado para longe
de sapos e fortunas.
1 224
Charles Bukowski
Uma Soneca E a Paz do Sossego
se você é um homem, Los Angeles é onde você deixa de sê-lo e
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
1 064
Charles Bukowski
Morte de Um Idiota
ele falava com camundongos e pardais
e seu cabelo já era branco quando tinha 16.
seu pai dava-lhe surras todos os dias e sua mãe
acendia velas na igreja.
sua avó vinha enquanto o garoto dormia
e rezava para que o diabo afrouxasse as garras que o
prendiam
enquanto sua mãe ouvia e chorava sobre a
bíblia.
ele parecia não dar bola para as garotas
parecia não dar bola para os jogos dos garotos
não havia muita coisa para que ele desse bola
ele apenas não parecia interessado.
ele tinha uma boca enorme, feia e seus dentes
saltavam para fora
e seus olhos eram pequenos e opacos.
seus ombros eram caídos e suas costas curvas
como se vê num velho.
vivia em nossa vizinhança.
falávamos dele quando nos entediávamos e logo
passávamos para coisas mais interessantes.
era raro ele sair de casa. nós gostaríamos de tê-lo
torturado
mas seu pai
que era um homem descomunal e terrível
já fazia o serviço para
e gente.
um dia o garoto morreu. aos 17 ele ainda parecia um
menino. uma morte numa pequena vizinhança é percebida com
vivacidade, e então esquecida em 3 ou 4 dias
depois.
mas a morte deste garoto pareceu ficar em cada um de nós.
chorávamos ao falar disso
com nossas vozes que estavam mudando
às seis da tarde um pouco antes de escurecer
um pouco antes do jantar.
e toda vez que eu dirijo através da vizinhança
mesmo décadas depois
continuo pensando em sua morte
quando já me esqueci de todas as outras mortes
e tudo mais o que acontecera
então.
e seu cabelo já era branco quando tinha 16.
seu pai dava-lhe surras todos os dias e sua mãe
acendia velas na igreja.
sua avó vinha enquanto o garoto dormia
e rezava para que o diabo afrouxasse as garras que o
prendiam
enquanto sua mãe ouvia e chorava sobre a
bíblia.
ele parecia não dar bola para as garotas
parecia não dar bola para os jogos dos garotos
não havia muita coisa para que ele desse bola
ele apenas não parecia interessado.
ele tinha uma boca enorme, feia e seus dentes
saltavam para fora
e seus olhos eram pequenos e opacos.
seus ombros eram caídos e suas costas curvas
como se vê num velho.
vivia em nossa vizinhança.
falávamos dele quando nos entediávamos e logo
passávamos para coisas mais interessantes.
era raro ele sair de casa. nós gostaríamos de tê-lo
torturado
mas seu pai
que era um homem descomunal e terrível
já fazia o serviço para
e gente.
um dia o garoto morreu. aos 17 ele ainda parecia um
menino. uma morte numa pequena vizinhança é percebida com
vivacidade, e então esquecida em 3 ou 4 dias
depois.
mas a morte deste garoto pareceu ficar em cada um de nós.
chorávamos ao falar disso
com nossas vozes que estavam mudando
às seis da tarde um pouco antes de escurecer
um pouco antes do jantar.
e toda vez que eu dirijo através da vizinhança
mesmo décadas depois
continuo pensando em sua morte
quando já me esqueci de todas as outras mortes
e tudo mais o que acontecera
então.
1 205
Charles Bukowski
O Corpo
estive
enforcado aqui
decapitado
há tanto tempo
que o corpo já esqueceu
por que
ou onde ou quando isto
aconteceu
e os dedos dos pés
avançam em sapatos
que não estão nem
aí
e ainda que
os dedos das mãos
fatiem coisas e
segurem coisas e
movam coisas e
toquem
coisas
como
laranjas
maçãs
cebolas
livros
corpos
já não tenho
suficiente certeza
do que essas coisas
são
são em sua maioria
como
lamparina e
névoa
então com frequência as mãos
buscarão pela
cabeça perdida
como as mãos de uma
criança
em volta de uma bola
um bloco
de ar e madeira –
sem dentes
sem partes pensantes
e quando uma janela
se escancara
para uma
igreja
colina
mulher
cachorro
ou algum ser cantante
os dedos da mão
são insensíveis à vibração
porque eles não possuem
ouvidos
insensíveis à cor porque
eles não têm
olhos
insensíveis ao cheiro
por não terem nariz
o país prossegue assim
sem sentido
os continentes
as luzes diurnas e as noites
brilham
nas minhas
unhas sujas
e em algum espelho
meu rosto
um bloco para desaparecer
parte gasta da bola de uma
criança
enquanto todos os lugares se
movem
vermes e aviões
fogos na terra
altas violetas em santidade
minhas mãos deixam tudo ir tudo ir
tudo ir
enforcado aqui
decapitado
há tanto tempo
que o corpo já esqueceu
por que
ou onde ou quando isto
aconteceu
e os dedos dos pés
avançam em sapatos
que não estão nem
aí
e ainda que
os dedos das mãos
fatiem coisas e
segurem coisas e
movam coisas e
toquem
coisas
como
laranjas
maçãs
cebolas
livros
corpos
já não tenho
suficiente certeza
do que essas coisas
são
são em sua maioria
como
lamparina e
névoa
então com frequência as mãos
buscarão pela
cabeça perdida
como as mãos de uma
criança
em volta de uma bola
um bloco
de ar e madeira –
sem dentes
sem partes pensantes
e quando uma janela
se escancara
para uma
igreja
colina
mulher
cachorro
ou algum ser cantante
os dedos da mão
são insensíveis à vibração
porque eles não possuem
ouvidos
insensíveis à cor porque
eles não têm
olhos
insensíveis ao cheiro
por não terem nariz
o país prossegue assim
sem sentido
os continentes
as luzes diurnas e as noites
brilham
nas minhas
unhas sujas
e em algum espelho
meu rosto
um bloco para desaparecer
parte gasta da bola de uma
criança
enquanto todos os lugares se
movem
vermes e aviões
fogos na terra
altas violetas em santidade
minhas mãos deixam tudo ir tudo ir
tudo ir
1 379
Charles Bukowski
Ei, Dolly
ela me deixou há 5 semanas e foi para Utah.
é isto, acho que ela se foi.
dias atrás saí para mandar uma carta para ela
e a vi sentada no banco da parada de ônibus,
era o cabelo dela lá
de costas
e todo o peso desabou de novo sobre mim
apressei o passo e olhei para o seu rosto –
era outra pessoa. sardas, nariz chato, olhos verdes,
nada, nada.
então segui pela Western Avenue indo de bar em bar
e voltei a vê-la na minha frente.
vi aquelas calças coladas, eu conhecia aquele rabo,
e lá estava aquele cabelo de novo,
e o jeito dela de caminhar,
apressei o passo para alcançá-la,
cheguei ao seu lado e olhei seu rosto –
um nariz de índio, olhos azuis, uma boca de sapo –
nada, nada, nada.
então havia uma garota num bar tocando piano.
não era ela mas quando o cabelo caiu de certa maneira,
por um momento, era. e o cabelo tinha o mesmo comprimento
e os lábios eram parecidos mas não os mesmos, e
ela me viu olhando-a enquanto cantava, eu estava bêbado,
claro, ajudou a criar a ilusão, e ela
disse, há alguma em especial que você queira ouvir?
Dolly, eu disse, e ela cantou –
Ei, Dolly...
agora mesmo olhei e ela estava do outro lado da rua.
ela saiu do prédio do outro lado da rua
com um cara loiro e jovem e ficou lá parada de óculos escuros,
e eu pensei, o que ela está fazendo do outro lado da rua de
óculos escuros, e sua risada para mim atravessou a janela
mas ela não me acenou e então entrou no carro com o
jovem, era um carro novo, pequeno e vermelho, caro,
e eles seguiram na direção oeste. desta vez, tenho certeza
que era ela.
é isto, acho que ela se foi.
dias atrás saí para mandar uma carta para ela
e a vi sentada no banco da parada de ônibus,
era o cabelo dela lá
de costas
e todo o peso desabou de novo sobre mim
apressei o passo e olhei para o seu rosto –
era outra pessoa. sardas, nariz chato, olhos verdes,
nada, nada.
então segui pela Western Avenue indo de bar em bar
e voltei a vê-la na minha frente.
vi aquelas calças coladas, eu conhecia aquele rabo,
e lá estava aquele cabelo de novo,
e o jeito dela de caminhar,
apressei o passo para alcançá-la,
cheguei ao seu lado e olhei seu rosto –
um nariz de índio, olhos azuis, uma boca de sapo –
nada, nada, nada.
então havia uma garota num bar tocando piano.
não era ela mas quando o cabelo caiu de certa maneira,
por um momento, era. e o cabelo tinha o mesmo comprimento
e os lábios eram parecidos mas não os mesmos, e
ela me viu olhando-a enquanto cantava, eu estava bêbado,
claro, ajudou a criar a ilusão, e ela
disse, há alguma em especial que você queira ouvir?
Dolly, eu disse, e ela cantou –
Ei, Dolly...
agora mesmo olhei e ela estava do outro lado da rua.
ela saiu do prédio do outro lado da rua
com um cara loiro e jovem e ficou lá parada de óculos escuros,
e eu pensei, o que ela está fazendo do outro lado da rua de
óculos escuros, e sua risada para mim atravessou a janela
mas ela não me acenou e então entrou no carro com o
jovem, era um carro novo, pequeno e vermelho, caro,
e eles seguiram na direção oeste. desta vez, tenho certeza
que era ela.
1 177
Charles Bukowski
Queimando E Queimando E Queimando
eu costumava cruzar com um holandês num bar da Filadélfia
ele botava 3 ovos crus na cerveja,
71, ainda
trabalhando,
forte,
e então eu sentava ali
a 4 ou 5 bancos de distância dele
em meus 20
assustado
suicida
mal-amado.
bem, você sabe, as mágoas se reproduzem
as mágoas
queimando e queimando e queimando,
então alguma outra coisa toma o seu
lugar.
não estou dizendo que seja bom
mas é com certeza
mais confortável,
e em muitas noites agora
penso naquele velho holandês –
é como rever quase uma vida
inteira –
ainda assim me lembro dele lá
meu mestre, então e
agora.
ele botava 3 ovos crus na cerveja,
71, ainda
trabalhando,
forte,
e então eu sentava ali
a 4 ou 5 bancos de distância dele
em meus 20
assustado
suicida
mal-amado.
bem, você sabe, as mágoas se reproduzem
as mágoas
queimando e queimando e queimando,
então alguma outra coisa toma o seu
lugar.
não estou dizendo que seja bom
mas é com certeza
mais confortável,
e em muitas noites agora
penso naquele velho holandês –
é como rever quase uma vida
inteira –
ainda assim me lembro dele lá
meu mestre, então e
agora.
1 008
Charles Bukowski
Nota Para Uma Senhora Que Esperava Rupert Brooke
quê, o que você esperava? um colegial ceceando Donne? ou
um amante mais prático enchendo-a com o fedor da Vida?
sou um tolo não um cavalheiro: cruzo a Brooklyn Bridge
com Crane de pijama, mas o suicídio não funciona quando se fica velho:
há cada vez menos a matar.
então entre a pele e as costeletas de cordeiro, as enfermas gravatas
de outros armários, eu tramo tramas redondas como laranjas
preenchidas com a música de meu habilidoso resmungar.
Brooke? não. sou um macaco com uma azeitona perdida no
circo de areia de sua risada, primatas de circo, tigres de circo,
dementes financistas de circo trepando com suas secretárias antes
das 5:15... e o que você esperava?
uma face rosada driblando as cores de Picasso em seu cérebro seco?
então, o quarto estava azul com a fumaça de minha fervura, diabos,
um mar insensível
e eu sinto dedos baratinados até a última parte de seu suco,
sinto através de vinhas espinhentas amaldiçoando seu nome,
nenhum cavalheiro
nenhum cavalheiro,
o amor rejeitado como mordida de cobra,
a varanda zunindo de moscas, zunindo de moscas
e mentiras, e sua boca vermelha que gritava,
suas lâmpadas que gritavam
quebrando como contas em atraso:
BÊBADO! BÊBADO DE NOVO!
AH, SEU IDIOTA!
então, Yeats, Keats, bicos de seios... nada além de um damasco!
o que, o que houve com a Espanha? meu bom Lorca?
a revolução? é preciso juntar-se à brigada!
deixe-me sair daqui!
um amante mais prático enchendo-a com o fedor da Vida?
sou um tolo não um cavalheiro: cruzo a Brooklyn Bridge
com Crane de pijama, mas o suicídio não funciona quando se fica velho:
há cada vez menos a matar.
então entre a pele e as costeletas de cordeiro, as enfermas gravatas
de outros armários, eu tramo tramas redondas como laranjas
preenchidas com a música de meu habilidoso resmungar.
Brooke? não. sou um macaco com uma azeitona perdida no
circo de areia de sua risada, primatas de circo, tigres de circo,
dementes financistas de circo trepando com suas secretárias antes
das 5:15... e o que você esperava?
uma face rosada driblando as cores de Picasso em seu cérebro seco?
então, o quarto estava azul com a fumaça de minha fervura, diabos,
um mar insensível
e eu sinto dedos baratinados até a última parte de seu suco,
sinto através de vinhas espinhentas amaldiçoando seu nome,
nenhum cavalheiro
nenhum cavalheiro,
o amor rejeitado como mordida de cobra,
a varanda zunindo de moscas, zunindo de moscas
e mentiras, e sua boca vermelha que gritava,
suas lâmpadas que gritavam
quebrando como contas em atraso:
BÊBADO! BÊBADO DE NOVO!
AH, SEU IDIOTA!
então, Yeats, Keats, bicos de seios... nada além de um damasco!
o que, o que houve com a Espanha? meu bom Lorca?
a revolução? é preciso juntar-se à brigada!
deixe-me sair daqui!
1 002
Charles Bukowski
As Cortinas Balançam E As Pessoas Caminham Ao Longo da Tarde Aqui E Em Berlim E Em Nova York E No México
eu espero pela vida como em uma gravidez, ponho o estetoscópio
na barriga
mas tudo o que escuto agora é
o piano batendo seus dentes através de áreas do meu
cérebro
(alguém nesta vizinhança gosta de
Gershwin o que é ruim demais
para
mim)
e a mulher se senta atrás de mim
senta ali senta ali
e segue acendendo cigarros
e agora as enfermeiras deixam o hospital aqui perto
e elas usam vestidos que estão nus ao sol
para alegrar aos mortos e aos moribundos e aos médicos
mas isso em nada me
ajuda
se eu as pudesse rasgar com gemidos de deleite isto
nem acrescentaria nem levaria
nada
agora agora
uma buzina soa um verão
cansado como um gladíolo que desiste e se escora em uma
casa e
as garrafas que esvaziamos estrangulariam as
sensibilidades... de Deus
agora eu ergo os olhos e vejo meu rosto no espelho:
se eu pudesse ao menos matar o homem que matou o
homem
mais do que as xícaras de café e os charutos me
liquidaram mais do que eu mesmo me
liquidei
a loucura surge como um rato saído do aparador e
eles me estendem uma fotografia da
lua
a mulher atrás de mim tem uma filha que se apaixona
por homens de barba e sandálias e boinas
que fumam cachimbos e arrumam os cabelos com cuidado e
jogam xadrez e falam continuamente de
alma e de Arte
isto é bom o suficiente: é preciso amar
alguma coisa
agora as águas do senhorio lá fora derramando sobre
as plantas uma falsa chuva
Gershwin terminou e agora parece
Greig
ah, é tudo tão comum e difícil! impossível!
desejo que alguém possa se tornar uma amora
selvagem
mas não
suponho que será
o mesmo: uma cerveja e depois outra
cerveja e depois outra
cerveja
talvez depois uma garrafinha de
uísque
três charutos – fumaça fumaça sim fumaça
debaixo do sol elétrico da noite
escondido aqui entre estas paredes com esta mulher e sua
vida enquanto
os policiais estão retirando os bêbados das
ruas
não sei por quanto tempo ainda posso
aguentar
mas continuo pensando
ó! meu deus!
o
gladíolo se empertigará e
cheio de
cor como uma
flecha apontando para o
sol
Cristo tremerá como
marmelada
meu gato terá o aspecto que Gandhi certa vez
teve
tudo tudo
mesmo os azulejos do banheiro masculino na
Union Station serão
verdadeiros
todos os espelhos espalhados por aí
finalmente refletindo rostos de verdade
rosas
florestas
nunca mais policiais
nunca mais
eu.
na barriga
mas tudo o que escuto agora é
o piano batendo seus dentes através de áreas do meu
cérebro
(alguém nesta vizinhança gosta de
Gershwin o que é ruim demais
para
mim)
e a mulher se senta atrás de mim
senta ali senta ali
e segue acendendo cigarros
e agora as enfermeiras deixam o hospital aqui perto
e elas usam vestidos que estão nus ao sol
para alegrar aos mortos e aos moribundos e aos médicos
mas isso em nada me
ajuda
se eu as pudesse rasgar com gemidos de deleite isto
nem acrescentaria nem levaria
nada
agora agora
uma buzina soa um verão
cansado como um gladíolo que desiste e se escora em uma
casa e
as garrafas que esvaziamos estrangulariam as
sensibilidades... de Deus
agora eu ergo os olhos e vejo meu rosto no espelho:
se eu pudesse ao menos matar o homem que matou o
homem
mais do que as xícaras de café e os charutos me
liquidaram mais do que eu mesmo me
liquidei
a loucura surge como um rato saído do aparador e
eles me estendem uma fotografia da
lua
a mulher atrás de mim tem uma filha que se apaixona
por homens de barba e sandálias e boinas
que fumam cachimbos e arrumam os cabelos com cuidado e
jogam xadrez e falam continuamente de
alma e de Arte
isto é bom o suficiente: é preciso amar
alguma coisa
agora as águas do senhorio lá fora derramando sobre
as plantas uma falsa chuva
Gershwin terminou e agora parece
Greig
ah, é tudo tão comum e difícil! impossível!
desejo que alguém possa se tornar uma amora
selvagem
mas não
suponho que será
o mesmo: uma cerveja e depois outra
cerveja e depois outra
cerveja
talvez depois uma garrafinha de
uísque
três charutos – fumaça fumaça sim fumaça
debaixo do sol elétrico da noite
escondido aqui entre estas paredes com esta mulher e sua
vida enquanto
os policiais estão retirando os bêbados das
ruas
não sei por quanto tempo ainda posso
aguentar
mas continuo pensando
ó! meu deus!
o
gladíolo se empertigará e
cheio de
cor como uma
flecha apontando para o
sol
Cristo tremerá como
marmelada
meu gato terá o aspecto que Gandhi certa vez
teve
tudo tudo
mesmo os azulejos do banheiro masculino na
Union Station serão
verdadeiros
todos os espelhos espalhados por aí
finalmente refletindo rostos de verdade
rosas
florestas
nunca mais policiais
nunca mais
eu.
1 091
Charles Bukowski
Vivendo
quero dizer, apenas dormi
acordei com uma mosca no cotovelo e
eu a batizei de Benny
então a matei
e então me levantei e fui ver a caixa de
correspondência
e havia algum tipo de aviso do
governo
mas já que não havia ninguém em guarda entre os arbustos
com uma baioneta
eu o rasguei
e voltei para a cama e fiquei olhando para o teto
e pensei, realmente gosto disso,
vou ficar assim deitado por mais uns dez
minutos
e ali fiquei por mais dez minutos
e pensei,
isso não faz sentido, tenho tantas coisas a
fazer mas ficarei deitado aqui por mais
meia hora,
e me estiquei
estiquei
e fiquei vendo o sol atravessar as pequenas folhas de uma árvore
lá fora, e não tive nenhum pensamento mirabolante,
não tive nenhum pensamento imortal,
e essa foi a melhor parte
e ficou um pouco quente
e eu me livrei da coberta e segui dormindo –
mas um sonho dos diabos:
eu estava de volta ao trem
de volta àquela viagem circular de 5 horas,
sentado junto à janela,
vencendo o mesmo triste oceano, a China lá fora murmurando
peculiaridades no fundo de meu
cérebro, e então alguém sentou ao meu lado
e falou sobre cavalos
uma conversa cheia de naftalina que me rasgou em dois como a
morte, e então lá estava eu
de novo: os cavalos correndo como alguma coisa vista numa
tela e os jóqueis com rostos muito brancos
e não importava quem finalmente
vencesse e todo mundo o
sabia. o retorno dos cavalos no sonho era igual
ao retorno na realidade:
toneladas negras de noite ao redor
as mesmas montanhas envergonhadas de estarem
ali, o mesmo mar outra vez, outra vez,
o trem avançando como um caralho através de um olho de
agulha
e eu tive que levantar e ir até o banheiro
e eu odiava ter de levantar e ir até o banheiro
porque alguém tinha jogado papel no vaso, algum otário tinha jogado
papel ali de novo e a porra não daria
descarga, e quando eu voltasse
ninguém tinha nada para fazer senão olhar para a minha
cara
e eu estava tão cansado
que eles souberam isso ao ver meu rosto
que eu os
odiava
e que eles me odiavam
e queriam
me matar
mas não o faziam.
despertei mas como não havia ninguém
na minha cama
para me dizer que agia
errado
dormi mais um
pouco.
quando acordei desta vez
era quase
noite. as pessoas vinham chegando do trabalho.
me levantei e me sentei numa cadeira e fiquei olhando eles
entrarem. eles não pareciam muito bem.
mesmo as jovens garotas não pareciam tão bem como à hora que
partiram.
e os homens entravam: assassinos com machadinhas, homicidas, ladrões, fraudadores,
o time inteiro, e seus rostos eram mais horrendos que quaisquer
máscaras de halloween jamais divisadas.
encontrei uma aranha azul num canto e a matei com uma
vassoura.
olhei um pouco mais para as pessoas e então me cansei e
parei de olhar e resolvi fritar uns dois ovos e me sentei
e tomei um pouco de chá com pão.
me senti bem.
depois tomei um banho e voltei para a
cama.
acordei com uma mosca no cotovelo e
eu a batizei de Benny
então a matei
e então me levantei e fui ver a caixa de
correspondência
e havia algum tipo de aviso do
governo
mas já que não havia ninguém em guarda entre os arbustos
com uma baioneta
eu o rasguei
e voltei para a cama e fiquei olhando para o teto
e pensei, realmente gosto disso,
vou ficar assim deitado por mais uns dez
minutos
e ali fiquei por mais dez minutos
e pensei,
isso não faz sentido, tenho tantas coisas a
fazer mas ficarei deitado aqui por mais
meia hora,
e me estiquei
estiquei
e fiquei vendo o sol atravessar as pequenas folhas de uma árvore
lá fora, e não tive nenhum pensamento mirabolante,
não tive nenhum pensamento imortal,
e essa foi a melhor parte
e ficou um pouco quente
e eu me livrei da coberta e segui dormindo –
mas um sonho dos diabos:
eu estava de volta ao trem
de volta àquela viagem circular de 5 horas,
sentado junto à janela,
vencendo o mesmo triste oceano, a China lá fora murmurando
peculiaridades no fundo de meu
cérebro, e então alguém sentou ao meu lado
e falou sobre cavalos
uma conversa cheia de naftalina que me rasgou em dois como a
morte, e então lá estava eu
de novo: os cavalos correndo como alguma coisa vista numa
tela e os jóqueis com rostos muito brancos
e não importava quem finalmente
vencesse e todo mundo o
sabia. o retorno dos cavalos no sonho era igual
ao retorno na realidade:
toneladas negras de noite ao redor
as mesmas montanhas envergonhadas de estarem
ali, o mesmo mar outra vez, outra vez,
o trem avançando como um caralho através de um olho de
agulha
e eu tive que levantar e ir até o banheiro
e eu odiava ter de levantar e ir até o banheiro
porque alguém tinha jogado papel no vaso, algum otário tinha jogado
papel ali de novo e a porra não daria
descarga, e quando eu voltasse
ninguém tinha nada para fazer senão olhar para a minha
cara
e eu estava tão cansado
que eles souberam isso ao ver meu rosto
que eu os
odiava
e que eles me odiavam
e queriam
me matar
mas não o faziam.
despertei mas como não havia ninguém
na minha cama
para me dizer que agia
errado
dormi mais um
pouco.
quando acordei desta vez
era quase
noite. as pessoas vinham chegando do trabalho.
me levantei e me sentei numa cadeira e fiquei olhando eles
entrarem. eles não pareciam muito bem.
mesmo as jovens garotas não pareciam tão bem como à hora que
partiram.
e os homens entravam: assassinos com machadinhas, homicidas, ladrões, fraudadores,
o time inteiro, e seus rostos eram mais horrendos que quaisquer
máscaras de halloween jamais divisadas.
encontrei uma aranha azul num canto e a matei com uma
vassoura.
olhei um pouco mais para as pessoas e então me cansei e
parei de olhar e resolvi fritar uns dois ovos e me sentei
e tomei um pouco de chá com pão.
me senti bem.
depois tomei um banho e voltei para a
cama.
1 112
Charles Bukowski
Classe
esses garotos têm classe
tinham de fazer reis
a partir de velhos decrépitos
enrolando cigarros
em quartos tão pequenos
a ponto de tornar reconhecível
uma singela sombra;
para eles
tudo se apagara
como uma luz sob a
porta
ainda assim
eles reconhecem e
suportam a ausência;
tapeados e reduzidos a
zero
eles esperam pela morte
com a paciente temperança da
mãe que ensina seu filho
a comer;
para eles, tudo
se perdeu
como uma rosa na boca
de um porco;
o incêndio das cidades
deve ter sido
como isso.
mas como caminhões de lixo
sacolejando com amor
esses garotos
podem
se erguer como Lorca
da beira da estrada
com mais um poema,
se erguer como
Lázaro para
lançar um olhar para
as mulheres ainda vivas,
e então
se embebedar
embebedar
até que tudo
se faça em pedaços
mais uma vez
em imensa tristeza.
tinham de fazer reis
a partir de velhos decrépitos
enrolando cigarros
em quartos tão pequenos
a ponto de tornar reconhecível
uma singela sombra;
para eles
tudo se apagara
como uma luz sob a
porta
ainda assim
eles reconhecem e
suportam a ausência;
tapeados e reduzidos a
zero
eles esperam pela morte
com a paciente temperança da
mãe que ensina seu filho
a comer;
para eles, tudo
se perdeu
como uma rosa na boca
de um porco;
o incêndio das cidades
deve ter sido
como isso.
mas como caminhões de lixo
sacolejando com amor
esses garotos
podem
se erguer como Lorca
da beira da estrada
com mais um poema,
se erguer como
Lázaro para
lançar um olhar para
as mulheres ainda vivas,
e então
se embebedar
embebedar
até que tudo
se faça em pedaços
mais uma vez
em imensa tristeza.
1 265
Charles Bukowski
O Tempo Está Quente Na Parte de Trás do Meu Relógio
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
1 001
Charles Bukowski
Zoo
os elefantes estão empanados com lama e cansados
e os rinocerontes não se movem
as zebras são estúpidos caules mortos
e os leões não rugem
os leões não se importam
os abutres estão empanturrados
os crocodilos não se movem
e havia um tipo estranho de macaco,
me esqueço o nome,
estava num compartimento lá em cima, este macho,
cobriu a fêmea e fez o serviço,
terminou,
deitou-se sobre as costas e arreganhou os dentes,
e eu disse à minha namorada,
vamos lá, pelo menos alguma coisa aconteceu.
de volta ao lar falamos sobre isso.
o zoo é um lugar triste, eu disse,
tirando a minha roupa.
apenas aqueles 2 macacos pareciam felizes, ela disse,
tirando também ela as
roupas.
você viu aquela expressão no rosto do macaco macho?
perguntei.
depois de tudo você fica bem parecido, ela
disse.
mais tarde no espelho eu vi
um estranho tipo de macaco. e
me perguntei sobre as girafas e sobre os
rinocerontes, e sobre os elefantes, especialmente sobre os
elefantes.
teremos de ir ao zoológico mais uma
vez.
e os rinocerontes não se movem
as zebras são estúpidos caules mortos
e os leões não rugem
os leões não se importam
os abutres estão empanturrados
os crocodilos não se movem
e havia um tipo estranho de macaco,
me esqueço o nome,
estava num compartimento lá em cima, este macho,
cobriu a fêmea e fez o serviço,
terminou,
deitou-se sobre as costas e arreganhou os dentes,
e eu disse à minha namorada,
vamos lá, pelo menos alguma coisa aconteceu.
de volta ao lar falamos sobre isso.
o zoo é um lugar triste, eu disse,
tirando a minha roupa.
apenas aqueles 2 macacos pareciam felizes, ela disse,
tirando também ela as
roupas.
você viu aquela expressão no rosto do macaco macho?
perguntei.
depois de tudo você fica bem parecido, ela
disse.
mais tarde no espelho eu vi
um estranho tipo de macaco. e
me perguntei sobre as girafas e sobre os
rinocerontes, e sobre os elefantes, especialmente sobre os
elefantes.
teremos de ir ao zoológico mais uma
vez.
1 156
Charles Bukowski
John Dillinger E Le Chasseur Maudit
é uma desgraça, e simplesmente não é o estilo, mas não estou nem aí:
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram de intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma desgraça que também
carrocinhas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no corredor... tudo isso me excita com a fria calma
de uma lápide; em nenhum lugar, talvez, haja santuário exceto
em ouvir falar que houve antes outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras, enfermeiras, garçonetes, prostitutas
poetas... ainda que
eu considere que o estalar dos gelos na forma seja importante
ou um rato farejando uma lata de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar noturno entupido de asquerosos navios
que entram pela cuidadosa teia de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que tocam você e o abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir longas distâncias sem nenhuma razão
dormir drogado entre janelas abertas que
rasgam e golpeiam sua camisa como um pássaro assustado,
e sempre os semáforos, sempre vermelhos,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pancadarias, fardos:
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão morto como uma beterraba;
carretas vermelhas, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons rapazes mandando porrada um no outro
em algum estádio de segunda cheio de fumaça urrante,
mas a maior parte do tempo, nem aí, eu sentado aqui
com a boca cheia de dentes podres,
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brontë (Emily, hoje);
e ouvindo A bruxa do meio-dia do Dvorak
ou Le Chasseur Maudit do Franck,
de fato não estou nem aí pra nada, e isso é uma desgraça:
venho recebendo cartas de um jovem poeta
(muito jovem, ao que parece) me dizendo que algum dia
serei seguramente reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma má conduta: hoje caminhei ao sol pelas ruas
desta cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, para depois voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que sorria um sorriso horrendo;
ela já estava morta, e em toda a parte eu me lembrava de cabos:
cabos de telefone, cabos da rede elétrica, cabos para rostos elétricos
encurralados como peixes dourados no aquário e sorrindo,
e os pássaros já se foram, nenhum dos pássaros a fim de cabos
ou sorrisos de cabos
e eu fecho minha porta (finalmente)
mas através das janelas seguia tudo igual:
uma buzina soou, alguém riu, outro deu a descarga,
e então de um jeito estranho
pensei em todos os cavalos numerados
que se foram ao som do grito,
como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não importarão muita coisa
senão como uma questão exposta, um problema,
como pôr o lixo para fora,
e ainda que eu tenha guardado as cartas do jovem poeta
não acredito nelas
mas feito as
palmeiras enfermas
e o pôr do sol
eu de vez em quando as olho.
635
Charles Bukowski
Domingo Antes do Meio-Dia
os galhos se quebram, os pássaros caem, os prédios ardem,
as putas resistem,
as bombas se empilham,
entardecer, manhã, noite,
manteiga de amendoim,
falcões de manteiga de amendoim,
a chuva respirando como lírios do topo de minha cabeça,
pinças pinças
beijos como grampos de aço
bocas cheias de mariposas,
chupadores com cabeça de hidra,
Flórida sob a lua cheia,
tubarão com a boca cheia de homem
homem com a boca cheia de manteiga de amendoim, chuva
chuva espiando as entranhas das horas cinzentas,
cavalos sonhando com cavalos,
flores sonhando com flores,
cavalos correndo com pedaços de horas cinzentas de minha adorada carne,
pães queimando, a Espanha inteira em chamas e
cidades a sonhar com crateras,
bombas maiores que os miolos de qualquer criatura,
vindo abaixo
são os cucos dos relógios galos?
os galos se postam junto à cerca
os galos são manteiga de amendoim cantarolante,
a CHAMA se erguerá alta, a chama será grande,
beije beije beije
até que tudo suma,
espero que hoje chova, espero
que os jatos morram, espero
que o gato encontre um rato, espero
não ver isso, espero
que chova, espero
que tudo soma daqui,
espero por uma ponte, um peixe, um cacto em algum lugar
empertigando os pelos da barba até o meio-dia
sonho flores e cavalos
os galhos se quebram os pássaros caem e os prédios
ardem, minha puta caminha pelo quarto e
me sorri.
as putas resistem,
as bombas se empilham,
entardecer, manhã, noite,
manteiga de amendoim,
falcões de manteiga de amendoim,
a chuva respirando como lírios do topo de minha cabeça,
pinças pinças
beijos como grampos de aço
bocas cheias de mariposas,
chupadores com cabeça de hidra,
Flórida sob a lua cheia,
tubarão com a boca cheia de homem
homem com a boca cheia de manteiga de amendoim, chuva
chuva espiando as entranhas das horas cinzentas,
cavalos sonhando com cavalos,
flores sonhando com flores,
cavalos correndo com pedaços de horas cinzentas de minha adorada carne,
pães queimando, a Espanha inteira em chamas e
cidades a sonhar com crateras,
bombas maiores que os miolos de qualquer criatura,
vindo abaixo
são os cucos dos relógios galos?
os galos se postam junto à cerca
os galos são manteiga de amendoim cantarolante,
a CHAMA se erguerá alta, a chama será grande,
beije beije beije
até que tudo suma,
espero que hoje chova, espero
que os jatos morram, espero
que o gato encontre um rato, espero
não ver isso, espero
que chova, espero
que tudo soma daqui,
espero por uma ponte, um peixe, um cacto em algum lugar
empertigando os pelos da barba até o meio-dia
sonho flores e cavalos
os galhos se quebram os pássaros caem e os prédios
ardem, minha puta caminha pelo quarto e
me sorri.
1 242
Charles Bukowski
O Caminho
assassinado nos becos da terra
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
congelado à morte contra mastros de bandeiras
penhorado por mulheres
educado na escuridão para a escuridão
vomitando em privadas entupidas
em quartos de aluguel tomados por ratos e baratas
não surpreende que raramente cantemos
dia ou tarde ou noite
as guerras inúteis
os anos inúteis
os amores inúteis
e eles nos perguntam,
por que você bebe tanto?
bem, suponho que os dias sejam feitos
para serem desperdiçados
os anos e os amores são feitos
para serem desperdiçados.
não podemos chorar, e ajuda sorrir –
é como deixar brotar
sonhos, ideais
venenos
não nos peça para cantar,
as risadas cantam por nós,
você percebe, era uma piada de mau gosto
Cristo deveria ter rido na cruz
isto teria petrificado seus assassinos
agora há mais assassinos do que nunca
e eu escrevo poemas para eles.
1 172
Charles Bukowski
O Beijo de Boa-Noite Aos Vermes
sereno demais para morrer mas não para
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
1 676
Charles Bukowski
Lírios No Meu Cérebro
os lírios assaltam meu cérebro
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
por deus por deus
como as tropas de assalto nazistas
você acha que estou ficando
perturbado?
seu suéter azul
com os peitos pendendo
soltos, e
eu penso vagamente em Cristo
na cruz, não sei
porquê, e em casquinhas
de sorvete. neste dia de julho
lírios assaltam meu cérebro
lembraria disto
mas
somente se eu tivesse uma
câmera
ou um cachorro grande caminhando ao meu
lado. os cachorros grandes tornam as coisas
concretas
não é verdade?
um cachorrão para franzir seu
nariz ranhento
como este lago usurpado em
sua clara superfície
por um vento rápido e
esperto.
você está aqui, mas eu estou triste outra
vez. sinto minhas costelas de costeleta de porco
sobre meu coração de costeleta de cordeiro ugh
ingênuos e dedicados
intestinos, pênis prostrado
bexiga de goma de mascar
fígado se transformando em gordura
como uma velha rameira de rua
bunda vergonhosa
ouvidos práticos
mãos que parecem mariposas
nariz de peixe-espada
boca de desabamento de terras e
o resto. o resto:
lírios no meu cérebro
esperando por melhores tempos
lembrando de velhos tempos:
Capone e os diamantes
Charlie Chaplin
Laurel e Hardy
Clara Bow
o resto.
nunca aconteceu
mas parecia possível
houve tempos em que o apodrecimento
parou
aguardando como um bonde pela abertura
do sinal.
agora eu
como um desses marginais de filme
(lírios lá bem alto)
tomo sua mão
e nós seguimos em frente
para alugar um barco
para afundar. eu respiro o vento, flexiono meus músculos
mas apenas minha pança
se move de mansinho.
entramos
o motor agita o
lodo.
os prédios da cidade
mergulham como bocas de
avestruzes
e esvaziam
nossos cérebros
ainda assim o sol
aparece
zap! zap! zap!
germes brilhantes rastejam por nossas
carnes gretadas. minha
eu sinto como se estivesse na
igreja: tudo
fede. seguro as laterais emborrachadas
de toda a parte
minhas bolas são bolas de neve
vejo o repicar dos sinos da malária
homens velhos indo para a
cama, entrando em Fords modelo-T
enquanto os peixes nadam abaixo de nós
cheios de palavrões e macarronada
e palavras cruzadas
e a minha morte, a sua e
a das crianças
de ressaca.
1 146
Charles Bukowski
A Casa
estão construindo uma casa
meia quadra abaixo
e eu fico aqui sentado
com as persianas baixadas
escutando os ruídos,
os martelos batendo nos pregos,
tac tac tac tac,
então escutei os pássaros, e
tac tac tac
e vou para a cama,
puxo as cobertas até a altura da garganta;
eles estão erguendo essa casa
há um mês, e logo ela estará ocupada com
suas pessoas... dormindo, comendo,
amando, vagando por ali,
mas de algum modo
agora
isso não está certo,
parece loucura,
homens caminham sobre o telhado com pregos em suas bocas
e eu leio sobre Castro e Cuba
e à noite passo caminhando por ali
e a ossatura da casa está à mostra
e lá dentro posso ver os gatos a caminhar
daquele jeito que os gatos caminham,
e então um garoto surge em uma bicicleta,
e a casa continua inacabada
e pela manhã os homens
voltarão
caminhando pela casa
com seus martelos,
parece que as pessoas não deveriam mais erguer casas
que deveriam parar de trabalhar
e se sentar em pequenas peças
em segundos andares
sob lâmpadas elétricas sem pantalhas;
parece que há muito a esquecer
e muito a não fazer
e nos armazéns, mercados, bares
as pessoas estão cansadas, elas não querem
se mover, e eu fico lá à noite
e olho através dessa casa e a
casa não quer ser construída;
por suas laterais consigo ver as colinas púrpuras
e as primeiras luzes do entardecer,
e faz frio
e eu abotoo meu casaco
e fico ali olhando através da casa
e os gatos param e olham para mim
até que fico constrangido
e sigo na direção norte pela calçada
onde comprarei
cigarros e cerveja
para depois retornar ao meu quarto.
meia quadra abaixo
e eu fico aqui sentado
com as persianas baixadas
escutando os ruídos,
os martelos batendo nos pregos,
tac tac tac tac,
então escutei os pássaros, e
tac tac tac
e vou para a cama,
puxo as cobertas até a altura da garganta;
eles estão erguendo essa casa
há um mês, e logo ela estará ocupada com
suas pessoas... dormindo, comendo,
amando, vagando por ali,
mas de algum modo
agora
isso não está certo,
parece loucura,
homens caminham sobre o telhado com pregos em suas bocas
e eu leio sobre Castro e Cuba
e à noite passo caminhando por ali
e a ossatura da casa está à mostra
e lá dentro posso ver os gatos a caminhar
daquele jeito que os gatos caminham,
e então um garoto surge em uma bicicleta,
e a casa continua inacabada
e pela manhã os homens
voltarão
caminhando pela casa
com seus martelos,
parece que as pessoas não deveriam mais erguer casas
que deveriam parar de trabalhar
e se sentar em pequenas peças
em segundos andares
sob lâmpadas elétricas sem pantalhas;
parece que há muito a esquecer
e muito a não fazer
e nos armazéns, mercados, bares
as pessoas estão cansadas, elas não querem
se mover, e eu fico lá à noite
e olho através dessa casa e a
casa não quer ser construída;
por suas laterais consigo ver as colinas púrpuras
e as primeiras luzes do entardecer,
e faz frio
e eu abotoo meu casaco
e fico ali olhando através da casa
e os gatos param e olham para mim
até que fico constrangido
e sigo na direção norte pela calçada
onde comprarei
cigarros e cerveja
para depois retornar ao meu quarto.
1 146
Charles Bukowski
Nenhuma Lady Godiva
ela chegou bêbada a minha casa
montada num veado rampante em frente à varanda:
tantas mulheres querem salvar o mundo
mas não são capazes de cuidar das próprias cozinhas,
mas de mim...
entramos e então acendi três velas
vermelhas
servi o vinho e tomei algumas notas sobre
ela:
latitude atrás,
longitude na
frente. e o
resto. fantás-
tico. uma mulher assim
poderia encontrar
uma zínia em Hot Springs
Arkansas.
comemos carne de veado por três semanas.
então ela dormiu com o senhorio para ajudar a pagar
o aluguel.
então arrumei um emprego para ela como garçonete.
eu dormia o dia inteiro e quando ela chegava em casa
eu estava cheio daquela brilhante conversação que ela
tanto
adorava.
certa noite ela morreu de um jeito rápido deixando o mundo
bastante parecido com o que sempre
fora.
agora eu me levanto cedo e
desço até o setor de cargas e espero por
repolhos
laranjas
batatas
caírem dos caminhões ou serem
descartados.
à tarde já comi alguma coisa e acabo dormindo
sonhando em pagar o aluguel
com pedaços numerados de plástico
emitidos por um mundo
melhor.
montada num veado rampante em frente à varanda:
tantas mulheres querem salvar o mundo
mas não são capazes de cuidar das próprias cozinhas,
mas de mim...
entramos e então acendi três velas
vermelhas
servi o vinho e tomei algumas notas sobre
ela:
latitude atrás,
longitude na
frente. e o
resto. fantás-
tico. uma mulher assim
poderia encontrar
uma zínia em Hot Springs
Arkansas.
comemos carne de veado por três semanas.
então ela dormiu com o senhorio para ajudar a pagar
o aluguel.
então arrumei um emprego para ela como garçonete.
eu dormia o dia inteiro e quando ela chegava em casa
eu estava cheio daquela brilhante conversação que ela
tanto
adorava.
certa noite ela morreu de um jeito rápido deixando o mundo
bastante parecido com o que sempre
fora.
agora eu me levanto cedo e
desço até o setor de cargas e espero por
repolhos
laranjas
batatas
caírem dos caminhões ou serem
descartados.
à tarde já comi alguma coisa e acabo dormindo
sonhando em pagar o aluguel
com pedaços numerados de plástico
emitidos por um mundo
melhor.
606
Charles Bukowski
Cerveja
não sei quantas garrafas de cerveja
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres –
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”
a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe muito pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.
enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.
bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.
cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
consumi esperando que as coisas
melhorassem.
não sei quanto vinho e uísque
e cerveja
principalmente cerveja
consumi depois
de rompimentos com mulheres –
esperando o telefone tocar
esperando o som dos passos,
e o telefone nunca toca
antes que seja tarde demais
e os passos nunca chegam
antes que seja tarde demais.
quando meu estômago já está saindo
pela boca
elas chegam frescas como flores de primavera:
“mas que diabos você está fazendo?
vai levar três dias antes que você possa me comer!”
a mulher é durável
vive sete anos e meio a mais
que o homem, bebe muito pouca cerveja
porque sabe como ela é ruim para a
aparência.
enquanto enlouquecemos
elas saem
dançam e riem
com caubóis cheios de tesão.
bem, há a cerveja
sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja
e quando você pega uma
as garrafas caem através do fundo úmido
do saco de papel
rolando
tilintando
cuspindo cinza molhada
e cerveja choca,
ou então os sacos caem às 4 horas
da manhã
produzindo o único som em sua vida.
cerveja
rios e mares de cerveja
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
1 771
Charles Bukowski
Loucura
não bato com meus punhos nas paredes
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.
a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.
eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.
ela é velha, quase tão velha quanto eu.
ela se foi, ainda chorosa...
na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.
“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”
eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.
“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”
“sim.”
“vamos lá, cara, não foda com a gente.”
“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”
os dois contornaram o pátio.
“esta porta aqui?”
“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”
eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
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