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Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE BELLS

Ring, bells, ring - ring out clear!
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
        Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
        What does it matter? My childhood's glee -
        You cannot call it back to me.

Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
        Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
        You cannot call it back to me.

        Though you sing but your set melody,
        Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
        Speaking of what I know not, sing
        To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.

        In the wordless speech of your own
        Ring out, wild bells, ring out!
        Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
        Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
        Then I was unconscious; now I am mad.

Ring out bells! Your sadness that stings
        Has a sob as an inner sound.
        I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
        Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
        Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
        Ye bring not anything to me.

        Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
        Full of dreams of agony.
        All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
        For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [b]

Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?

Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão

Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 555
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

LITTLE BIRD

Poet

Little bird, sing me a sweet song deep
        Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
        More than far away.

Sing me a song of the things thou knew'st
        And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
        What is merely fair.

Bird

Young, too young hither I was brought
        From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
        Can I sing of these?

Poet

Sing, little bird, sing me that song -­
        None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
        But for what was never here.

Sing me, sing me that song, little bird;
        I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
        Till then bliss doth sting.

Bird

To breathe that singing I have no might;
        Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
        That thy tears do flow.

But thou, thou sing'st in woe, in ill,
        And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
        Shadows vague of it.

Poet

Ay, little bird, let us sing in all weather
        A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
        Truly goes away.
1 604
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO: O casamento

A separação  (...)    em si
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
                [ANTÓNIO?]
                        Sim, mas os génios?
                FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.

Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
                        Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.

Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
                                Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
1 980