Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Fernando Pessoa
A Inocência Perdida
Tinha um campo alegre,
Mas no ardor da febre
Devastei-o, e então
Semeei-lhe amores
E nasceram flores
De desilusão,
Tinha um barco lindo que pela água ia,
Como nuvem branda pelo brando céu
Carreguei-o d'oiro que o labor trazia
E soçobrou logo que vogar queria
E eu fiquei nas ondas sem o barco meu.
A jarra preciosa está partida
E nada valem os fragmentos seus;
A imagem do templo está caída;
Partiu-se. Era de barro. Os seus crentes,
perdeu-os.
Junta os fragmentos da jarra divina
E a jarra não fazem;
Mas no ardor da febre
Devastei-o, e então
Semeei-lhe amores
E nasceram flores
De desilusão,
Tinha um barco lindo que pela água ia,
Como nuvem branda pelo brando céu
Carreguei-o d'oiro que o labor trazia
E soçobrou logo que vogar queria
E eu fiquei nas ondas sem o barco meu.
A jarra preciosa está partida
E nada valem os fragmentos seus;
A imagem do templo está caída;
Partiu-se. Era de barro. Os seus crentes,
perdeu-os.
Junta os fragmentos da jarra divina
E a jarra não fazem;
1 599
Fernando Pessoa
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
625
Fernando Pessoa
THE BELLS
Ring, bells, ring - ring out clear!
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
What does it matter? My childhood's glee -
You cannot call it back to me.
Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
You cannot call it back to me.
Though you sing but your set melody,
Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
Speaking of what I know not, sing
To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.
In the wordless speech of your own
Ring out, wild bells, ring out!
Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
Then I was unconscious; now I am mad.
Ring out bells! Your sadness that stings
Has a sob as an inner sound.
I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
Ye bring not anything to me.
Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
Full of dreams of agony.
All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
1 444
Fernando Pessoa
A CRIME
Do you know the crime I committed
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
1 583
Fernando Pessoa
Deixa que um momento pense
Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
1 398
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [b]
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 555
Fernando Pessoa
Um dia / Pensei na fama e em mim o sonho veio
Um dia
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
1 356
Fernando Pessoa
LITTLE BIRD
Poet
Little bird, sing me a sweet song deep
Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
More than far away.
Sing me a song of the things thou knew'st
And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
What is merely fair.
Bird
Young, too young hither I was brought
From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
Can I sing of these?
Poet
Sing, little bird, sing me that song -
None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
But for what was never here.
Sing me, sing me that song, little bird;
I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
Till then bliss doth sting.
Bird
To breathe that singing I have no might;
Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
That thy tears do flow.
But thou, thou sing'st in woe, in ill,
And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
Shadows vague of it.
Poet
Ay, little bird, let us sing in all weather
A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
Truly goes away.
Little bird, sing me a sweet song deep
Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
More than far away.
Sing me a song of the things thou knew'st
And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
What is merely fair.
Bird
Young, too young hither I was brought
From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
Can I sing of these?
Poet
Sing, little bird, sing me that song -
None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
But for what was never here.
Sing me, sing me that song, little bird;
I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
Till then bliss doth sting.
Bird
To breathe that singing I have no might;
Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
That thy tears do flow.
But thou, thou sing'st in woe, in ill,
And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
Shadows vague of it.
Poet
Ay, little bird, let us sing in all weather
A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
Truly goes away.
1 604
Fernando Pessoa
No meio das grandezas e das glórias
No meio das grandezas e das glórias
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
Das alegrias, luzes (...)
Do inconsciente universo natural,
Abre-se ao pensamento de repente
Negro abismo profundo e (...)
E uma vacuidade transcendente
Absorve negramente o mundo inteiro,
Numa sufocação arrepiada
De terror íntimo, de terror vago
Tudo se esvai da mente e só lhe fica
Um vazio tão negro, tão profundo
Um poço de compreensão tão cercado
Que a alma de horror quer não viver não só
Pelo horror, mas também por esse horror
Transcender o universo e aparecer
Em lugar dele ao fundo pensamento
Subitamente.
Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a dor de não saber
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
É isto que me alheia, que me traz
Sempre mostrado em mim como um terror...
E maior terror há-o?
1 335
Fernando Pessoa
HORA MORTA
Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...
Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)
Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...
Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há
Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...
Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)
Por que lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...
Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há
Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?
1 525
Fernando Pessoa
Com teu gesto pintado e exagerado
Com teu gesto pintado e exagerado
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludineo em dirigir
Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência (...) vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu gesto ensinado a conseguir.
Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...
Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quem é que fica dentro ... (Abre a tua boca!)
1 067
Fernando Pessoa
Ah qualquer cousa,
(after useless discussion)
Ah qualquer cousa,
Ou sono ou sonho, sem doer isole
O meu já isolado coração!
Se as palavras que eu diga nunca podem
Levar aos outros mais do que o sentido
Que essas palavras neles têm, e [existo]
[Por] fora do que digo, oculto nele
Como o esqueleto nesta carne minha,
Invisível estrutura do visível,
Diferente e essencial...
Cai sobre mim, apagamento meu!
Querer querer, inútil pedra ao mar!
Saco p'ra colher vento, cesto de água,
Caçador só do uivar dos lobos longe...
Ah qualquer cousa,
Ou sono ou sonho, sem doer isole
O meu já isolado coração!
Se as palavras que eu diga nunca podem
Levar aos outros mais do que o sentido
Que essas palavras neles têm, e [existo]
[Por] fora do que digo, oculto nele
Como o esqueleto nesta carne minha,
Invisível estrutura do visível,
Diferente e essencial...
Cai sobre mim, apagamento meu!
Querer querer, inútil pedra ao mar!
Saco p'ra colher vento, cesto de água,
Caçador só do uivar dos lobos longe...
1 213
Fernando Pessoa
MEANINGLESS LlNES
I became good, and was despised.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
I became bad; I hated was.
If good or bad I was not prized,
In good or evil, equal loss.
I became bad and good by turns,
And thus did but unite two ills.
The spleen that now within me burns
Therefrom, nor good nor evil stills.
1 368
Fernando Pessoa
FAUSTO: O casamento
A separação (...) em si
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
[ANTÓNIO?]
Sim, mas os génios?
FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.
Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.
Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
[ANTÓNIO?]
Sim, mas os génios?
FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.
Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.
Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
1 980
Fernando Pessoa
UMA VOZ: Quando a noite suave! desce
Quando a noite suave! desce
— Sombra de mãos em perdão —
Ó mão da Tristeza tece,
O Manto da Solidão.
Tece-o qual uma mentira,
Que o meu triste coração
Quer vesti-lo p'ra cobrir
O nu da desilusão.
OUTRA VOZ:
Enche a taça da minha alma
Da bebida do sofrer
Que transborde fria e calma
Sobre a mão do esquecer;
Do que dá o amargor
Às lágrimas ... Quero ver
Se encontro aí mais amor
Para a bebê-lo morrer.
TERCEIRA VOZ:
Cava-me a cova profunda,
Quero em sossego dormir;
Não na terra — é pouco funda;
Vai a minha cova abrir
Do sonho na solidão
E põe ao meu
Por laje o meu coração
Que inda não soube sorrir.
UMA VOZ TRISTE:
Um canto e outros, mas tudo triste,
Soluços qu'rendo-se a si esquecer;
A lira velha disso que existe
Tem sons que fazem estremecer.
Um canto e outros, mas tudo vago
Como a íntima alma do soluçar
Que monstro mira (...) lago
Que faz as águas leve vibrar?
Um canto e outros, mas tudo inútil
As mãos descola vai a lira ao chão;
O canto é meio febril e fútil
De fingir vida na solidão.
— Sombra de mãos em perdão —
Ó mão da Tristeza tece,
O Manto da Solidão.
Tece-o qual uma mentira,
Que o meu triste coração
Quer vesti-lo p'ra cobrir
O nu da desilusão.
OUTRA VOZ:
Enche a taça da minha alma
Da bebida do sofrer
Que transborde fria e calma
Sobre a mão do esquecer;
Do que dá o amargor
Às lágrimas ... Quero ver
Se encontro aí mais amor
Para a bebê-lo morrer.
TERCEIRA VOZ:
Cava-me a cova profunda,
Quero em sossego dormir;
Não na terra — é pouco funda;
Vai a minha cova abrir
Do sonho na solidão
E põe ao meu
Por laje o meu coração
Que inda não soube sorrir.
UMA VOZ TRISTE:
Um canto e outros, mas tudo triste,
Soluços qu'rendo-se a si esquecer;
A lira velha disso que existe
Tem sons que fazem estremecer.
Um canto e outros, mas tudo vago
Como a íntima alma do soluçar
Que monstro mira (...) lago
Que faz as águas leve vibrar?
Um canto e outros, mas tudo inútil
As mãos descola vai a lira ao chão;
O canto é meio febril e fútil
De fingir vida na solidão.
1 379
Fernando Pessoa
Diferentemente o mesmo
Diferentemente o mesmo
Ligado a um meu passado estranho e vago
Por um negrume e continuar de dor.
Ligado a um meu passado estranho e vago
Por um negrume e continuar de dor.
1 312
Fernando Pessoa
Lágrimas, chorar-vos-ei
Lágrimas, chorar-vos-ei
E a vida em vós, pouco a pouco,
E chorando ficarei
Num silêncio d'alma louco.
E a vida em vós, pouco a pouco,
E chorando ficarei
Num silêncio d'alma louco.
2 059
Fernando Pessoa
Ah as horas indecisas
Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
1 392
Fernando Pessoa
Memórias de pensar vivem em mim
Memórias de pensar vivem em mim
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
Desordenadamente desconexas
Num atordoamento do meu ser.
A lucidez horrorosa d'outrora
(E outrora era ontem) já não tenho;
Mas sinto-a, não sei como, nesta surda
Nocturna confusão aglomerada
De (...) e porções de pensamento.
Como se um horror (...) que no dia
Enchesse de turvo a terra em sol
Não acabasse, mas confusamente
Rumorejasse silenciosamente
Na perturbada paz da noite.
1 467
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera, [2]
Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
Verdes campos, e sinto
Que um dia virá a hora
Em que não mais os olhe.
Tranquilo, apenas gozo,
Como brincando, o orgulho
Da serena tristeza
Filha da clara visão.
1 397
Fernando Pessoa
O som contínuo da chuva
O som contínuo da chuva
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.
[...]
1 555
Fernando Pessoa
VII - Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
VII
Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu doirado assomo...
Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloriola com ter
A árvore do meu uso o único pomo...
Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,
Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...
Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu doirado assomo...
Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloriola com ter
A árvore do meu uso o único pomo...
Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,
Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...
1 320
Fernando Pessoa
ANTÍNOO - T
Era em Adriano fria a chuva fora.
Jaz morto o jovem
No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,
Aos olhos rasos de Adriano, cuja dor é medo,
A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa.
Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite
Lá fora. A chuva cai como um exausto alarme
Da Natureza em acto de matá-lo.
Memória de que el' foi não dava já deleite,
Deleite no que el' foi era morto e indistinto.
Ó mãos que já apertaram as de Adriano quentes,
Cuja frieza agora as sente frias!
Ó cabelo antes preso p'lo penteado justo!
Ó olhos algo inquietantemente ousados!
Ó simples macho corpo feminino qual
O aparentar-se um deus à humanidade!
Os lábios cujo abrir vermelho titilava
Os sítios da luxúria com tanta arte viva!
Ó dedos que hábeis eram no de não ser dito!
Ó língua que na língua o sangue audaz tornava!
[...]
Jaz morto o jovem
No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,
Aos olhos rasos de Adriano, cuja dor é medo,
A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa.
Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite
Lá fora. A chuva cai como um exausto alarme
Da Natureza em acto de matá-lo.
Memória de que el' foi não dava já deleite,
Deleite no que el' foi era morto e indistinto.
Ó mãos que já apertaram as de Adriano quentes,
Cuja frieza agora as sente frias!
Ó cabelo antes preso p'lo penteado justo!
Ó olhos algo inquietantemente ousados!
Ó simples macho corpo feminino qual
O aparentar-se um deus à humanidade!
Os lábios cujo abrir vermelho titilava
Os sítios da luxúria com tanta arte viva!
Ó dedos que hábeis eram no de não ser dito!
Ó língua que na língua o sangue audaz tornava!
[...]
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