Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Fernando Pessoa
AN IDYLL OF TO‑DAY
She
If every tear of mine were gold
And every sigh a tear,
Wouldst thou not then with kisses bold
Entrap them falling clear?
If at each word I spoke of love
Pearls rained from out the air,
How pleasant would to thee then prove
To hear me speak for e'er!
He
If at each look of love I cast
A cheque were signed and made,
If each tear's ending were the last
Touch of received and paid;
If each soft glance were a banknote
And the same every sigh.
Wouldst thou not have me learn by rote
Love's shows of misery?
Both
What can we do? What are we both
But beings of our time?
Gold is the meat of living's broth,
The vowel of the rhyme.
Even a token sad and old.
A certain price will woo.
Our love would but be true as gold
If we were gold all through.
If every tear of mine were gold
And every sigh a tear,
Wouldst thou not then with kisses bold
Entrap them falling clear?
If at each word I spoke of love
Pearls rained from out the air,
How pleasant would to thee then prove
To hear me speak for e'er!
He
If at each look of love I cast
A cheque were signed and made,
If each tear's ending were the last
Touch of received and paid;
If each soft glance were a banknote
And the same every sigh.
Wouldst thou not have me learn by rote
Love's shows of misery?
Both
What can we do? What are we both
But beings of our time?
Gold is the meat of living's broth,
The vowel of the rhyme.
Even a token sad and old.
A certain price will woo.
Our love would but be true as gold
If we were gold all through.
1 342
Fernando Pessoa
THE CLOWN
Through this mad mind relentless vaults
A grim ides weird and wild
With a meaning wilder than human fears
A clown in grotesque somersaults;
And I weep at him as a child
In a man's hard tears.
There is no roof, there is no floor;
Horror! no space is known in all!
‑ Relentlessly I see he vaults! ‑
There is the clown and nothing more,
Who ceaselessly doth rise and fall ‑
The clown in grotesque somersaults.
Relentless, how relentlessly
In me, who seek what means each thing,
This spaceless vision neatly vaults!
My legs to vault almost forget me.
What awful meaning can this bring
The clown in grotesque somersaults.
A grim ides weird and wild
With a meaning wilder than human fears
A clown in grotesque somersaults;
And I weep at him as a child
In a man's hard tears.
There is no roof, there is no floor;
Horror! no space is known in all!
‑ Relentlessly I see he vaults! ‑
There is the clown and nothing more,
Who ceaselessly doth rise and fall ‑
The clown in grotesque somersaults.
Relentless, how relentlessly
In me, who seek what means each thing,
This spaceless vision neatly vaults!
My legs to vault almost forget me.
What awful meaning can this bring
The clown in grotesque somersaults.
1 682
Fernando Pessoa
Ânsia infinda
Ânsia infinda
De reaver o direito à sensação,
Que é humano em mim e que esquecido tinha;
Ânsia de vã paixão que muito parte
Do (...) desesperado sofrimento;
Ânsia de sentir e (...)
E antes de ser amado que de amar.
Mas ah, não sei se já — estranho ser (
Volver eu posso à vida, pois me sinto
Estranho ao mundo, à vida e aos olhares,
Um Incapaz de ser irmão. Dum salto
Queria reaver meu natural
Como homem. E depois? Depois não sei.
Ah, nem no sonho, forte pensamento,
Me deixas, seco e argumentador.
É necessário pois não pensar mais.
Mas não; não pode ser, a abdicação.
Mas o quê — abdicar do pensamento
Em proveito da mera sensação?
De reaver o direito à sensação,
Que é humano em mim e que esquecido tinha;
Ânsia de vã paixão que muito parte
Do (...) desesperado sofrimento;
Ânsia de sentir e (...)
E antes de ser amado que de amar.
Mas ah, não sei se já — estranho ser (
Volver eu posso à vida, pois me sinto
Estranho ao mundo, à vida e aos olhares,
Um Incapaz de ser irmão. Dum salto
Queria reaver meu natural
Como homem. E depois? Depois não sei.
Ah, nem no sonho, forte pensamento,
Me deixas, seco e argumentador.
É necessário pois não pensar mais.
Mas não; não pode ser, a abdicação.
Mas o quê — abdicar do pensamento
Em proveito da mera sensação?
1 606
Fernando Pessoa
Ah, que extraordinário,
Ah, que extraordinário,
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
2 183
Fernando Pessoa
Que fútil toda essa tristeza
Que fútil toda essa tristeza
Que uns vagos versos vácuos dão,
Num modo de nem sim nem não,
A quente e abstracta singeleza
De se sentir o coração!
Que uns vagos versos vácuos dão,
Num modo de nem sim nem não,
A quente e abstracta singeleza
De se sentir o coração!
937
Fernando Pessoa
Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.
Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer...
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.
Olho analiticamente sem querer, o que romantizo sem querer...
1 605
Fernando Pessoa
A alma humana é porca como um ânus
A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!
1 612
Fernando Pessoa
0 pensamento é enterrado vivo
0 pensamento é enterrado vivo
No mundo e ali sufoca.
Sufoco em pensamento ao existir.
Oh, horror! Oh inferno verdadeiro
Passado no frio âmago desta alma
Que se encolhe e arrepia de pavor
Como querendo desaparecer
E é consciente sempre de ter vulto
Para o pavor tomar. Oh sumo horror
Que o universo (...)
Sufoco em alma! Suma-se-me a vida
E a consciência e eu deixe de pensar
De fitar o mistério e sem querer
Compreender-lhe o horror! Abra-me o sonho
Ou a loucura a tenebrosa porta
Que a treva é menos negra que esta luz.
O terror desvaria-me, o terror
De me sentir vivo e ter o mundo
Fechado a laços de compreensão
Na minha alma gelada de pavor.
No mundo e ali sufoca.
Sufoco em pensamento ao existir.
Oh, horror! Oh inferno verdadeiro
Passado no frio âmago desta alma
Que se encolhe e arrepia de pavor
Como querendo desaparecer
E é consciente sempre de ter vulto
Para o pavor tomar. Oh sumo horror
Que o universo (...)
Sufoco em alma! Suma-se-me a vida
E a consciência e eu deixe de pensar
De fitar o mistério e sem querer
Compreender-lhe o horror! Abra-me o sonho
Ou a loucura a tenebrosa porta
Que a treva é menos negra que esta luz.
O terror desvaria-me, o terror
De me sentir vivo e ter o mundo
Fechado a laços de compreensão
Na minha alma gelada de pavor.
1 380
Fernando Pessoa
Por aqueles, minha mãe
Por aqueles, minha mãe, que morreram, que caíram na batalha...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Sete vezes sete vezes murcharão as flores no jardim
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo
Dlôn — ôn — on — on...
E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos [...] com esperança...
Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito?
Dlôn...
Quem sabe qual dos desconhecidos monos ai é o teu filho
Dlôn...
Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança...
Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos...
Ele hoje pertence a uma podridão [...] in France.
Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...
Olha, ele não é nada no geral holocausto da história
Dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Sete vezes sete vezes murcharão as flores no jardim
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo
Dlôn — ôn — on — on...
E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos [...] com esperança...
Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito?
Dlôn...
Quem sabe qual dos desconhecidos monos ai é o teu filho
Dlôn...
Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança...
Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos...
Ele hoje pertence a uma podridão [...] in France.
Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...
Olha, ele não é nada no geral holocausto da história
Dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
1 326
Fernando Pessoa
Sinto esse frio coração eu mesmo
Sinto esse frio coração eu mesmo
Admirado de ser um coração,
Tão frio está! Já o sonho
Porque quis fingir para mim mesmo
Esquecê-lo
Admirado de ser um coração,
Tão frio está! Já o sonho
Porque quis fingir para mim mesmo
Esquecê-lo
1 619
Fernando Pessoa
Meu coração, bandeira içada
Meu coração, bandeira içada
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinges...
Meu coração algema partida.
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinges...
Meu coração algema partida.
1 386
Fernando Pessoa
E assim estou, pensando mais que todos,
E assim estou, pensando mais que todos,
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
Braços cruzados (...) além da fé,
E raciocínio, e assim sem alegria
Nem dúvida, além delas, da tristeza
De quem aqui chegou, tornado apenas.
Não tenho, não, já dúvida ou alegria
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressara,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui onde ninguém
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia
Chegou. E aqui me quedo consolado
Nesta perene desolação.
1 215
Fernando Pessoa
UMA VOZ: Dorme grande inconsolável
Dorme grande inconsolável
Da vida, na escuridão.
Não chores — que nada é estável...
Não sentes a minha mão,
Calma sobre a tua fronte?
Dorme, e que a noite te conte
Ilusões ao coração!
Dorme, dorme, eu vou cantar-te
Melodias d'além-céu,
E a solidão há-de amar-te
Que por enquanto és só meu...
Dorme e apaga o pensamento...
Se pensar é um tormento,
Ninguém como tu sofreu.
Hei-de envolver-te no manto
Que a Dor teceu para ti;
A Vida causa-te espanto
E a Morte não te sorri.
Deixa, deixa que assim seja:
Minha boca, quando beija,
Chama o coração a si.
Da vida, na escuridão.
Não chores — que nada é estável...
Não sentes a minha mão,
Calma sobre a tua fronte?
Dorme, e que a noite te conte
Ilusões ao coração!
Dorme, dorme, eu vou cantar-te
Melodias d'além-céu,
E a solidão há-de amar-te
Que por enquanto és só meu...
Dorme e apaga o pensamento...
Se pensar é um tormento,
Ninguém como tu sofreu.
Hei-de envolver-te no manto
Que a Dor teceu para ti;
A Vida causa-te espanto
E a Morte não te sorri.
Deixa, deixa que assim seja:
Minha boca, quando beija,
Chama o coração a si.
1 392
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [c]
ODE MARCIAL
Ai de ti, ai de ti, ai de nós!
Por detrás destas leis inexplicáveis, foges da vida
Haverá alguma ternura divina que compense isto tudo?
Ainda tens o berço dele a um canto, em casa...
Ainda tens guardados os fatinhos dele, de pequeno...
Ainda tens numa gaveta alguns brinquedos partidos...
Agora, sim, agora, vai olhá-los e chora sobre eles...
Não sabes onde é a sepultura do teu filho...
Foi o n.º qualquer coisa do regimento um tal,
Morreu lá para a [...] em qualquer parte... morreu...
O filho que tu tiveste ao peito, que amamentaste e que criaste...
Que remexera no teu ventre...
O rapazote feito que dizia graças e tu rias tanto...
Agora ele é podridão... Bastou em linha alemã
Um bocado de chumbo, do tamanho dum prego, e a tua vida é triste...
Receberas um prémio do [Estado?]. Disse que o teu filho foi um herói...
(Ninguém sabe, de resto, se ele foi herói ou não)
É um enigma p'ra a história...
“Morreram 20, cem homens na batalha de tal...” Ele era um deles...
E o teu coração de mãe sangrou tanto por esse herói de que a história não disse nada...
O acontecimento mais importante da guerra foi aquele para ti...
Ai de ti, ai de ti, ai de nós!
Por detrás destas leis inexplicáveis, foges da vida
Haverá alguma ternura divina que compense isto tudo?
Ainda tens o berço dele a um canto, em casa...
Ainda tens guardados os fatinhos dele, de pequeno...
Ainda tens numa gaveta alguns brinquedos partidos...
Agora, sim, agora, vai olhá-los e chora sobre eles...
Não sabes onde é a sepultura do teu filho...
Foi o n.º qualquer coisa do regimento um tal,
Morreu lá para a [...] em qualquer parte... morreu...
O filho que tu tiveste ao peito, que amamentaste e que criaste...
Que remexera no teu ventre...
O rapazote feito que dizia graças e tu rias tanto...
Agora ele é podridão... Bastou em linha alemã
Um bocado de chumbo, do tamanho dum prego, e a tua vida é triste...
Receberas um prémio do [Estado?]. Disse que o teu filho foi um herói...
(Ninguém sabe, de resto, se ele foi herói ou não)
É um enigma p'ra a história...
“Morreram 20, cem homens na batalha de tal...” Ele era um deles...
E o teu coração de mãe sangrou tanto por esse herói de que a história não disse nada...
O acontecimento mais importante da guerra foi aquele para ti...
1 294
Fernando Pessoa
Cantos, sois sombras da minha alma. Todos
Cantos, sois sombras da minha alma. Todos
Sois ilusões; minha alma canta em vós
Pedindo esse descanso que não tem.
Fugir de mim não posso.
VOZ LÍMPIDA:
Venho d'além das estrelas,
Sou mais bela do que elas,
Cantar-te, Fausto,
Canções mais tristes que o mundo,
Cheias dum vagar profundo,
Té sorrir teu coração
Exausto.
Esta minha melodia
Fará abrir, como dia
No seu raiar,
Teu coração entornando
O seu fel antigo e brando
Como uma flor[?] e a ilusão
Voltar.
OUTRA:
Eu chorarei sobre ti
Lágrimas de redenção.
Os meus cabelos compridos
Em que tantos envolvi
Tua face envolverão.
Nunca mais tu sentirás
Dentro em ti a sensação
De desolada desgraça;
És meu e comigo virás
Para a terra da ilusão.
No meu seio de luar
Ganharás como um perdão
Por tanta mágoa. Teus olhos
Dormirão, e ao acordar
Outra vez se cerrarão,
Ao sono te voltarão.
(Fausto continua dormindo. A luz da lâmpada esvai-se lentamente e apaga-se. Noite e silêncio.)
Sois ilusões; minha alma canta em vós
Pedindo esse descanso que não tem.
Fugir de mim não posso.
VOZ LÍMPIDA:
Venho d'além das estrelas,
Sou mais bela do que elas,
Cantar-te, Fausto,
Canções mais tristes que o mundo,
Cheias dum vagar profundo,
Té sorrir teu coração
Exausto.
Esta minha melodia
Fará abrir, como dia
No seu raiar,
Teu coração entornando
O seu fel antigo e brando
Como uma flor[?] e a ilusão
Voltar.
OUTRA:
Eu chorarei sobre ti
Lágrimas de redenção.
Os meus cabelos compridos
Em que tantos envolvi
Tua face envolverão.
Nunca mais tu sentirás
Dentro em ti a sensação
De desolada desgraça;
És meu e comigo virás
Para a terra da ilusão.
No meu seio de luar
Ganharás como um perdão
Por tanta mágoa. Teus olhos
Dormirão, e ao acordar
Outra vez se cerrarão,
Ao sono te voltarão.
(Fausto continua dormindo. A luz da lâmpada esvai-se lentamente e apaga-se. Noite e silêncio.)
1 528
Fernando Pessoa
MY LIFE
I
Duty calls on me; I must fight against
That which 'tis duty unto all to fight.
Therefore, oh, illness of my will that stain'st
My mind - oh, leave me free to seek the right!
Take me from the vile sleep of purpose cold,
Give me an impulse to do good, to make
A struggle for the new against the old
Ere time my useless life away may take.
Keen is my feeling of the suffering
Of men and nations, keen into despair;
But not a will to speak it doth it bring,
Moveless I rest, not like a thing too fair,
But like a stagnant water full of filth,
A bog of will, inactive and alone,
Unopen unto Learning's fresh and tilth
And locked from doing good as men have done.
Pain ever, pain for ever! pain, oh pain!
Pain filling all my life like time or change.
Woe that goes from an inner waking strain
Unto the sleepiness of fears most strange.
Despair and horror, madness lone that feels
Its own too bitter taste until it quails,
The horror of a mind that fails and reels
And knows full well how far it reels and fails.
I sorrow for the past and at the future,
On that which never was I weep and pine,
Upon the things that never were in Nature,
On those that are and never shall be mine.
The sadness of the pleasure that has been,
The sorrow of the pain that once we had,
The ache of that which in dim visions seen
Leaves but an echo to make itself sad.
The knowledge that a dream is nothing more,
The science that our life is less than this:
It passes as it, and the bliss it wore
Was at its best the shadow of a bliss.
I ponder on the fates of men and things,
Thereat my soul grows dark and feeble grows,
To find Thought's body weighing on the wings
Which Fancy opens over fields and snows.
I ponder upon evil and on good
And both in life irrational I see,
One because it exists not, yet it should,
The other since it is and should not be.
Nothing is clear unto me; all is dark,
All is confusion to my Thought's o'er‑much;
Alas for him who thinks in life to work
Having cast far away Convention's crutch.
He finds that Custom, the least thing of all,
Is king and queen and law and creed and faith,
That Custom goes not further than our pall,
That Custom is with us past our own death.
I mourn that there are thrones, prisons and tumbs,
And yet to see all ill I am half glad:
That there are deaths, decays and rots and dooms,
A gladness whose eyes sparkle, because mad.
I weep all times the limits close that must
Deep souls ununderstood in living pen,
But weeping deeply wake to the disgust
That I weep for myself in other men.
My tears are for myself; so that they teach
To know men's ineradicable woe,
What matter what high point of pain they reach?
Haply their birth one day they 'll cease to know.
And that I shall forget this pain of mine
Forget myself - ah, would that it could be!
Forgotten like the drunkard in his wine
Or like the pauper in his misery.
'Twere madness, but sweet madness, better than
The waking, fully living consciousness
That unto a full unity doth span
The many woes and throes of my distress.
'Twere madness but 'twere better than to know
That evil is the source of life and thought,
For to feel madness is the greatest woe
That upon human consciousness is wrought.
To feel excluded, miserable, lone,
A leper deep at heart, having for sore
His being, is a misery past moan
'Tis better all to have and to ignore.
'Tis better? - nay, who knows? the mystery
Of consciousness and knowledge who can find?
In madness and in thought what things may be?
How far is horror deep within the mind?
II
This is my life; what will the future be?
With horror I grow sick past sighs and tears,
To think how life is torture unto me,
How Thought is father of strange cares and fears.
Yesterday one spoke to me of my youth.
Youth? Life? Twelve years I had of happiness;
The seven since then have been without ruth -
Twelve years of sleep and seven of distress.
Time, I grow sick of thee! Sounds, motions, things,
I feel a tiredness before your eyes...
Give me, oh Dream of mine! thy purest wings
That I may take from solitude my cries,
That I may seek the Heaven of this life -
Death, mother of hall things that seem to be.
Die thus the hand that could not serve for strife,
The brain that strained and toiled with misery!
III
Life - what is Life? Death - what is Death? My brain
Feels as I think on this, as one that reads
Far into dusk lifts up his eyes with pain,
Aching and dim; and my heart slowly bleeds.
IV
To work? I cannot. To be gay? I've lost
Long, long ago all laughter save a base
Mirth where Despair with Apathy incrust,
That has the scent of rots and of decays.
To do good? all desire tends unto it
But al1 my will is feeble before all:
I am become a bult for my Thought's wit
Which is no wit but Consciousness all gall.
And what avails it e'er to toil or trouble,
To make my torture of my life and thought?
Is not all life the slander‑fair soap‑bubble
That by a child in empty mind is wrought?
And what avails all verse, all art and song,
All that doth make a body for itself?
My heart is keen to feel al1 human wrong,
I careless, as one born to ease and pelf.
And what avails it ever to grow pale
Over the mute and endless lore of old
Until the wearied senses strain and fail
And the worn heart is passionless and cold?
Avails it anything? It avails not.
Let me sleep then: give me a grave for bed
In the earth's heart where I not life nor thought
But rottenness and peace my have instead.
Duty calls on me; I must fight against
That which 'tis duty unto all to fight.
Therefore, oh, illness of my will that stain'st
My mind - oh, leave me free to seek the right!
Take me from the vile sleep of purpose cold,
Give me an impulse to do good, to make
A struggle for the new against the old
Ere time my useless life away may take.
Keen is my feeling of the suffering
Of men and nations, keen into despair;
But not a will to speak it doth it bring,
Moveless I rest, not like a thing too fair,
But like a stagnant water full of filth,
A bog of will, inactive and alone,
Unopen unto Learning's fresh and tilth
And locked from doing good as men have done.
Pain ever, pain for ever! pain, oh pain!
Pain filling all my life like time or change.
Woe that goes from an inner waking strain
Unto the sleepiness of fears most strange.
Despair and horror, madness lone that feels
Its own too bitter taste until it quails,
The horror of a mind that fails and reels
And knows full well how far it reels and fails.
I sorrow for the past and at the future,
On that which never was I weep and pine,
Upon the things that never were in Nature,
On those that are and never shall be mine.
The sadness of the pleasure that has been,
The sorrow of the pain that once we had,
The ache of that which in dim visions seen
Leaves but an echo to make itself sad.
The knowledge that a dream is nothing more,
The science that our life is less than this:
It passes as it, and the bliss it wore
Was at its best the shadow of a bliss.
I ponder on the fates of men and things,
Thereat my soul grows dark and feeble grows,
To find Thought's body weighing on the wings
Which Fancy opens over fields and snows.
I ponder upon evil and on good
And both in life irrational I see,
One because it exists not, yet it should,
The other since it is and should not be.
Nothing is clear unto me; all is dark,
All is confusion to my Thought's o'er‑much;
Alas for him who thinks in life to work
Having cast far away Convention's crutch.
He finds that Custom, the least thing of all,
Is king and queen and law and creed and faith,
That Custom goes not further than our pall,
That Custom is with us past our own death.
I mourn that there are thrones, prisons and tumbs,
And yet to see all ill I am half glad:
That there are deaths, decays and rots and dooms,
A gladness whose eyes sparkle, because mad.
I weep all times the limits close that must
Deep souls ununderstood in living pen,
But weeping deeply wake to the disgust
That I weep for myself in other men.
My tears are for myself; so that they teach
To know men's ineradicable woe,
What matter what high point of pain they reach?
Haply their birth one day they 'll cease to know.
And that I shall forget this pain of mine
Forget myself - ah, would that it could be!
Forgotten like the drunkard in his wine
Or like the pauper in his misery.
'Twere madness, but sweet madness, better than
The waking, fully living consciousness
That unto a full unity doth span
The many woes and throes of my distress.
'Twere madness but 'twere better than to know
That evil is the source of life and thought,
For to feel madness is the greatest woe
That upon human consciousness is wrought.
To feel excluded, miserable, lone,
A leper deep at heart, having for sore
His being, is a misery past moan
'Tis better all to have and to ignore.
'Tis better? - nay, who knows? the mystery
Of consciousness and knowledge who can find?
In madness and in thought what things may be?
How far is horror deep within the mind?
II
This is my life; what will the future be?
With horror I grow sick past sighs and tears,
To think how life is torture unto me,
How Thought is father of strange cares and fears.
Yesterday one spoke to me of my youth.
Youth? Life? Twelve years I had of happiness;
The seven since then have been without ruth -
Twelve years of sleep and seven of distress.
Time, I grow sick of thee! Sounds, motions, things,
I feel a tiredness before your eyes...
Give me, oh Dream of mine! thy purest wings
That I may take from solitude my cries,
That I may seek the Heaven of this life -
Death, mother of hall things that seem to be.
Die thus the hand that could not serve for strife,
The brain that strained and toiled with misery!
III
Life - what is Life? Death - what is Death? My brain
Feels as I think on this, as one that reads
Far into dusk lifts up his eyes with pain,
Aching and dim; and my heart slowly bleeds.
IV
To work? I cannot. To be gay? I've lost
Long, long ago all laughter save a base
Mirth where Despair with Apathy incrust,
That has the scent of rots and of decays.
To do good? all desire tends unto it
But al1 my will is feeble before all:
I am become a bult for my Thought's wit
Which is no wit but Consciousness all gall.
And what avails it e'er to toil or trouble,
To make my torture of my life and thought?
Is not all life the slander‑fair soap‑bubble
That by a child in empty mind is wrought?
And what avails all verse, all art and song,
All that doth make a body for itself?
My heart is keen to feel al1 human wrong,
I careless, as one born to ease and pelf.
And what avails it ever to grow pale
Over the mute and endless lore of old
Until the wearied senses strain and fail
And the worn heart is passionless and cold?
Avails it anything? It avails not.
Let me sleep then: give me a grave for bed
In the earth's heart where I not life nor thought
But rottenness and peace my have instead.
1 692
Fernando Pessoa
O horror sórdido do que, a sós consigo,
Não será melhor
Não fazer nada?
Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo
Para um naufrágio sem água?
Não será melhor
Colher coisa nenhuma
Nas roseiras sonhadas,
E jazerei quieto, a pensar no exílio dos outros,
Nas primaveras por haver?
Não será melhor
Renunciar, como um rebentar de bexigas populares
Na atmosfera das feiras,
A tudo
Sim, a tudo,
Absolutamente a tudo?
Não fazer nada?
Deixar tudo ir de escantilhão pela vida abaixo
Para um naufrágio sem água?
Não será melhor
Colher coisa nenhuma
Nas roseiras sonhadas,
E jazerei quieto, a pensar no exílio dos outros,
Nas primaveras por haver?
Não será melhor
Renunciar, como um rebentar de bexigas populares
Na atmosfera das feiras,
A tudo
Sim, a tudo,
Absolutamente a tudo?
1 292
Fernando Pessoa
FAUSTO: Reza por mim Maria
FAUSTO:
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (...)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d'amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas...).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p'ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar... Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará... Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim... Não... Eu choro apenas de te ver
Triste e (...) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto...
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d'amor, eu não sei como, seja
Indiferença... Não... ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê...
Mas amo-te... Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não...
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te... Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te... Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor... Eu, pois, nunca amarei...
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N'alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!
Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade...
Em tudo... Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti... Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.
Reza por mim Maria
MARIA:
(Rezo por ti? Sim rezarei. Mas o que tens?)
FAUSTO:
Reza por mim e diz a Deus (...)
Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d'amor sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado,
A fazê-lo um milagre de beleza.
Reza por mim e diz: Oh Deus, meu Deus,
Fazei-o inda feliz esse a quem amo
(Se é que me amas...).
MARIA:
Inda duvidas, meu amor?
FAUSTO:
Dize: Fazei feliz esse a quem amo
E que, qual condenado pela vida,
Arrasta a grilheta da dor,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas p'ra chorar,
Que, tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar... Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará... Choras? Fiz-te chorar?
MARIA:
Sim... Não... Eu choro apenas de te ver
Triste e (...) sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh dize-me, partilha
Comigo a tua dor que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto...
FAUSTO:
Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
MARIA:
Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Temes talvez que o meu acanhamento,
Que vem d'amor, eu não sei como, seja
Indiferença... Não... ah não o creias!
Eu não tenho a viveza, nem a ardência
Que algumas têm, tremo de mim mesma
Do meu amor, mas eu não sei por quê...
Mas amo-te... Se te amo, porque hás-de
Tu duvidar de mim?
Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto,
Se o amor, este amor como eu sinto,
Pode dizer-se sem o duvidar
Se o que eu sinto em minha alma quando te vejo
Quando sinto o teu passo, quando penso
Em ti, amor, em ti, se olhares, beijos
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Se eu não posso
Gritar:amor, amor, ardentemente
E desmedidamente, e a voz em fogo,
É que em mim mesmo, nasce-me um pudor
De o dizer muito alto (mas não creias
Que é por amar-te pouco, que só é
De amar-te muito e amar-te como te amo)
Se isto não faço, não duvides, não...
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor fala não, não aprendi,
Porque o amor não fala, não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor, ao menos este amor que eu sinto.
Não sei, não sei dizer-te... Não duvides!
Eu pareço talvez fria aos teus olhos;
Não duvides que eu sofra muito, muito
Por duvidares
E eu amo-te... Meu Deus, como eu te amo!
FAUSTO (aparte):
Como eu sinto de ouvi-la e de sentir
(Sentir pelo meu pensamento) quanto
É aquele amor e como ele é amor,
Minha alma fria, meu coração frio!
Aquilo é amor... Eu, pois, nunca amarei...
Que ela fala e eu compreendo (se compreendo!
Quanto ela ama, como ela fala amor).
Nada sinto em mim que nasça, surja
E vá de encontro ao seu amor. Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N'alma, na minha desconsolação.
Como me sinto falso, falso a mim mesmo,
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor
(aparte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra!
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!
Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar de mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Durante em honras, amor, felicidade...
Em tudo... Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti... Como és bela! Não, não chores,
Quero falar ternura e não o sei;
Tenho a alma fria — oh raiva! é impossível.
1 445
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [a]
SAUDAÇÃO
Um comboio de criança movido a corda, puxado a cordel
Tem mais movimento real do que os nossos versos...
Os nossos versos que não têm rodas
Os nossos versos que não se deslocam
Os nossos versos que, nunca lidos, não saem para fora do papel.
(Estou farto — farto da vida, farto da arte —,
Farto de não ter coisas, a menos ou a medo —
Rabo-leva da minha respiração chagando a minha vida,
Fantoche absurdo de feira da minha ideia de mim.
Quando é que parte o último comboio?)
Sei que cantar-te assim não é cantar-te — mas que importa?
Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te,
Sei que é cantar-me a mim — mas cantar-me a mim é cantar-te a ti
Sei que dizer que não posso cantar é cantar-te, WaIt, ainda...
Um comboio de criança movido a corda, puxado a cordel
Tem mais movimento real do que os nossos versos...
Os nossos versos que não têm rodas
Os nossos versos que não se deslocam
Os nossos versos que, nunca lidos, não saem para fora do papel.
(Estou farto — farto da vida, farto da arte —,
Farto de não ter coisas, a menos ou a medo —
Rabo-leva da minha respiração chagando a minha vida,
Fantoche absurdo de feira da minha ideia de mim.
Quando é que parte o último comboio?)
Sei que cantar-te assim não é cantar-te — mas que importa?
Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te,
Sei que é cantar-me a mim — mas cantar-me a mim é cantar-te a ti
Sei que dizer que não posso cantar é cantar-te, WaIt, ainda...
1 607
Fernando Pessoa
FAREWELL
Farewell, farewell for ever,
I cannot more remain;
Far wider things our hearts do sever
Than continent or main -
Pride and distaste and inaptness
To feel each other's joy, distress.
Farewell, farewell for ever;
Be it not said by thee
My heart was weaker, thy heart braver
In mutual misery
But parted were we, be it said,
As are the living from the dead.
Farewell, farewell for ever,
Since love left not behind
Nor even friendship nor endeavour
Nor sorrow mad or kind.
'Tis fit indeed those souls be parted
That cannot e'er be broken-hearted.
Farewell, farewell for ever;
'Tis time this thing were done,
When love is cold which was a fever
And vulgar as a stone,
When life from woe to woe doth flee
And change itself is misery.
I cannot more remain;
Far wider things our hearts do sever
Than continent or main -
Pride and distaste and inaptness
To feel each other's joy, distress.
Farewell, farewell for ever;
Be it not said by thee
My heart was weaker, thy heart braver
In mutual misery
But parted were we, be it said,
As are the living from the dead.
Farewell, farewell for ever,
Since love left not behind
Nor even friendship nor endeavour
Nor sorrow mad or kind.
'Tis fit indeed those souls be parted
That cannot e'er be broken-hearted.
Farewell, farewell for ever;
'Tis time this thing were done,
When love is cold which was a fever
And vulgar as a stone,
When life from woe to woe doth flee
And change itself is misery.
1 666
Fernando Pessoa
THE CURTAIN
A curtain hides the mystery
That in the world is known to be,
Mute-horrid as impending thunder,
From eyes unsensual that would see
Behind it things for more than wonder -
A curtain past whose living folds
His court of shadows Horror holds.
And he that curtain who shall part
But in his mind, will feel the heart
Grow weak before the irony
That Nothingness pains more the heart
Than things that are or seem to be,
That Nothingness can give a fear,
A sorrow nothing can give here.
That in the world is known to be,
Mute-horrid as impending thunder,
From eyes unsensual that would see
Behind it things for more than wonder -
A curtain past whose living folds
His court of shadows Horror holds.
And he that curtain who shall part
But in his mind, will feel the heart
Grow weak before the irony
That Nothingness pains more the heart
Than things that are or seem to be,
That Nothingness can give a fear,
A sorrow nothing can give here.
1 469
Fernando Pessoa
Puseram-me uma tampa —
Puseram-me uma tampa —
Todo o céu.
Puseram-me uma tampa.
Que grandes aspirações!.
Que magnas plenitudes!
E algumas verdadeiras...
Mas sobre todas elas
Puseram-me um tampa.
Como a um daqueles penicos antigos —
Lá nos longes tradicionais da província —
Uma tampa.
Todo o céu.
Puseram-me uma tampa.
Que grandes aspirações!.
Que magnas plenitudes!
E algumas verdadeiras...
Mas sobre todas elas
Puseram-me um tampa.
Como a um daqueles penicos antigos —
Lá nos longes tradicionais da província —
Uma tampa.
1 609
Fernando Pessoa
E o sentimento de que a vida passa
E o sentimento de que a vida passa
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
1 431
Fernando Pessoa
THE ACURSED POET
Here the accursed poet lies,
Hid far from the pure blue skies;
Mixed with mud filth he lies
At the bottom of the stream.
He dreamed many a strange dream.
He loved mankind but he did nought
For mankind's good. Vain was his thought.
He would be loved and he was not.
The sun in morn or evening glow
Can reach him not where deep he lies
With mud and filth far from the skies.
He ached to feel, he ached to know.
He did aspire to what should last
Beyond the time that did it show.
Full of the giant city's waste
The river over him doth flow.
Dark over him flows the river.
Down to him no light can go.
Damn'd be he for ever!
Hid far from the pure blue skies;
Mixed with mud filth he lies
At the bottom of the stream.
He dreamed many a strange dream.
He loved mankind but he did nought
For mankind's good. Vain was his thought.
He would be loved and he was not.
The sun in morn or evening glow
Can reach him not where deep he lies
With mud and filth far from the skies.
He ached to feel, he ached to know.
He did aspire to what should last
Beyond the time that did it show.
Full of the giant city's waste
The river over him doth flow.
Dark over him flows the river.
Down to him no light can go.
Damn'd be he for ever!
1 432