Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Pablo Neruda
Eu Vinha de Longe
Eu trazia às costas
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
um saco
de negros sofrimentos,
a noite das minas
de minha pátria.
Quando o carvão
de Lota
na locomotiva
arde,
se põe rubro
e queima
não é fogo,
é sangue,
sangue dos mineiros de minha pátria,
escuro sangue que acusa.
E assim
dobrado
sob meu saco negro
de sangue e de carvão fui transgredindo
os caminhos da Europa,
a lua de prata gasta
pelos olhos humanos,
as velhas pontes quebradas
pela guerra,
as cidades vazias
com suas janelas ocas
e seus escombros onde o pasto cresce,
as urtigas,
o triste saramago,
com medo,
sem raízes.
Assim vaguei pelas ruas bombardeadas
buscando a verde esperança,
até que a encontrei
vestida de água e de ouro
nas margens duplas
de Budapeste um dia.
1 225
Pablo Neruda
O Anjo Dos Pampas
Oh lua inabarcável, nas campinas,
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
1 330
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXIII
Amor, agora nos vamos à casa
onde a trepadeira sobe pelas escadas:
antes que chegues, alcançou teu quarto
o verão nu com pés de madressilva.
Nossos beijos errantes percorreram o mundo:
Armênia, espessa gota de mel desenterrada,
Ceilão, pomba verde, e Yang Tsé separando
com antiga paciência os dias das noites.
E agora, bem-amada, pelo mar crepitante
voltamos como duas aves cegas ao muro,
ao ninho da longínqua primavera,
porque o amor não pode voar sem deter-se:
ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,
a nosso território regressaram os beijos.
onde a trepadeira sobe pelas escadas:
antes que chegues, alcançou teu quarto
o verão nu com pés de madressilva.
Nossos beijos errantes percorreram o mundo:
Armênia, espessa gota de mel desenterrada,
Ceilão, pomba verde, e Yang Tsé separando
com antiga paciência os dias das noites.
E agora, bem-amada, pelo mar crepitante
voltamos como duas aves cegas ao muro,
ao ninho da longínqua primavera,
porque o amor não pode voar sem deter-se:
ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,
a nosso território regressaram os beijos.
1 046
Pablo Neruda
Chegada a Porto Picasso
Desembarquei em Picasso às seis dos dias de outono,
recém
o céu anunciava seu desenvolvimento rosa, olhei ao
redor, Picasso
se estendia e acendia como o fogo do amanhecer. Longe atrás
ficavam as cordilheiras azuis e entre elas levantando-se no vale o Arlequim de cinza.
Eis aqui: eu vinha de Antofagasta e de Maracaibo, eu vinha de Tucumán
e da terceira Patagônia, aquela de dentes gelados roídos pelo trovão, aquela de bandeira submersa na neve perpétua.
E eu então desembarquei, e vi grandes mulheres de cor de maçã
nas margens de Picasso, olhos desmedidos, braços que reconheci:
talvez a Amazônia, talvez era a Forma.
E ao oeste eram saltimbancos desvalidos rodando para o amarelo,
e músicos com todos os quadros da música, e ainda mais,
além a geografia
povoou-se de uma desgarrada emigração de mulheres, de arestas,
de pétalas e chamas,
e no meio de Picasso entre as duas planícies e a árvore de vidro.
vi uma Guernica em que permaneceu o sangue como um
grande rio, cuja corrente
se converteu na taça do cavalo e a lâmpada:
ardente sangue sobe aos focinhos,
úmida luz que acusa para sempre.
Assim, pois, nas terras de Picasso de Sul a Oeste,
toda a vida e as vidas faziam de morada
e o mar e o mundo ali foram acumulando
seu cereal e sua salpicadura.
Encontrei ali o arranhado fragmento
do giz, a casca do cobre,
e a ferradura morta que lá de suas feridas
para a eternidade dos metais cresce,
e vi a terra entrar como o pão nos fornos
e a vi aparecer com um filho sagrado.
Também o galo negro de encefálica espuma
encontrei, com um ramo de arame e arrabaldes,
o gato azul com seu leque de unhas,
o tigre adiantado sobre os esqueletos.
Eu fui reconhecendo as marcas que tremeram
na foz da água em que nasci.
Primeiro foi esta pedra com espinhos, ali onde
sobressaiu, ilusório, o ramo desgarrado
e a madeira em cuja rota genealogia
nascem as bruscas aves de meu fogo natal.
Mas o touro assomou lá dos corredores
no centro terrestre, eu vi sua voz, chegava
escavando as terras de Picasso, cobria
a efígie com os mantos da tinta violeta,
e vi chegar o colo de sua escura catástrofe
e todos os bordados de sua baba invencível.
Picasso de Altamira, Touro do Orinoco,
torres de águas pelo amor endurecidas,
terra de minerais mãos que converteram
como o arado, em parto a inocência do musgo.
Aqui está o touro de quem a cauda arrasta
o sal e a aspereza, e em seu rodo
treme o colar da Espanha com um ruído seco,
como um saco de ossos que a lua derrama.
Oh circo em que a seda continua ardendo
como um esquecimento de papoulas na areia
e já não há senão dia, tempo, terra, destino
para enfrentar, touro do ar desaguado.
Esta corrida tem todo o lilás luto,
a bandeira do vinho que rompeu as vasilhas:
e ainda mais: é a planta de pó do arrieiro
e as acumuladas vestiduras que guardam
o distante silêncio da carnificina.
Sobe Espanha por estas escadas, rugas
de ouro e de fome, e o rosto fechado da cólera
e ainda mais, examinai seu leque: não há pálpebras.
Há uma negra luz que nos fita sem olhos.
Pai da Pomba, que com ela
desprendida na luz chegaste ao dia,
recém-fundada em seu papel de rosa,
recém-limpa de sangue e de orvalho,
na clara reunião das bandeiras.
Paz ou pomba, gesto radiante!
Círculo, reunião do terrestre!
Espiga pura entre as flechas rubras!
Súbita direção da esperança!
Contigo estamos no fundo revolto
da argila, e hoje no duradouro
metal da esperança.
“É Picasso”,
diz a pescadora, atando prata,
e o novo outono arranha
o estandarte
do pastor: o cordeiro que recebe uma folha
do céu em Vallauris,
e ouve passar as agremiações em sua colméia, perto
do mar e sua coroa de cedro simultâneo.
Forte é nossa medida quando
arrojamos — amando o simples homem —
tua brasa na lança, na bandeira.
Não estava nos desígnios do escorpião teu rosto.
Quis morder às vezes e encontrou teu cristal
desmedido,
tua lâmpada sob a terra,
e então?
Então pela margem da terra crescemos,
rumo à outra margem da terra crescemos.
Quem não escuta estes passos ouve teus passos. Ouve
lá da infinidade do tempo este caminho.
Larga é a terra. Não está tua mão sozinha.
Ampla é a luz. Acende-a sobre nós.
recém
o céu anunciava seu desenvolvimento rosa, olhei ao
redor, Picasso
se estendia e acendia como o fogo do amanhecer. Longe atrás
ficavam as cordilheiras azuis e entre elas levantando-se no vale o Arlequim de cinza.
Eis aqui: eu vinha de Antofagasta e de Maracaibo, eu vinha de Tucumán
e da terceira Patagônia, aquela de dentes gelados roídos pelo trovão, aquela de bandeira submersa na neve perpétua.
E eu então desembarquei, e vi grandes mulheres de cor de maçã
nas margens de Picasso, olhos desmedidos, braços que reconheci:
talvez a Amazônia, talvez era a Forma.
E ao oeste eram saltimbancos desvalidos rodando para o amarelo,
e músicos com todos os quadros da música, e ainda mais,
além a geografia
povoou-se de uma desgarrada emigração de mulheres, de arestas,
de pétalas e chamas,
e no meio de Picasso entre as duas planícies e a árvore de vidro.
vi uma Guernica em que permaneceu o sangue como um
grande rio, cuja corrente
se converteu na taça do cavalo e a lâmpada:
ardente sangue sobe aos focinhos,
úmida luz que acusa para sempre.
Assim, pois, nas terras de Picasso de Sul a Oeste,
toda a vida e as vidas faziam de morada
e o mar e o mundo ali foram acumulando
seu cereal e sua salpicadura.
Encontrei ali o arranhado fragmento
do giz, a casca do cobre,
e a ferradura morta que lá de suas feridas
para a eternidade dos metais cresce,
e vi a terra entrar como o pão nos fornos
e a vi aparecer com um filho sagrado.
Também o galo negro de encefálica espuma
encontrei, com um ramo de arame e arrabaldes,
o gato azul com seu leque de unhas,
o tigre adiantado sobre os esqueletos.
Eu fui reconhecendo as marcas que tremeram
na foz da água em que nasci.
Primeiro foi esta pedra com espinhos, ali onde
sobressaiu, ilusório, o ramo desgarrado
e a madeira em cuja rota genealogia
nascem as bruscas aves de meu fogo natal.
Mas o touro assomou lá dos corredores
no centro terrestre, eu vi sua voz, chegava
escavando as terras de Picasso, cobria
a efígie com os mantos da tinta violeta,
e vi chegar o colo de sua escura catástrofe
e todos os bordados de sua baba invencível.
Picasso de Altamira, Touro do Orinoco,
torres de águas pelo amor endurecidas,
terra de minerais mãos que converteram
como o arado, em parto a inocência do musgo.
Aqui está o touro de quem a cauda arrasta
o sal e a aspereza, e em seu rodo
treme o colar da Espanha com um ruído seco,
como um saco de ossos que a lua derrama.
Oh circo em que a seda continua ardendo
como um esquecimento de papoulas na areia
e já não há senão dia, tempo, terra, destino
para enfrentar, touro do ar desaguado.
Esta corrida tem todo o lilás luto,
a bandeira do vinho que rompeu as vasilhas:
e ainda mais: é a planta de pó do arrieiro
e as acumuladas vestiduras que guardam
o distante silêncio da carnificina.
Sobe Espanha por estas escadas, rugas
de ouro e de fome, e o rosto fechado da cólera
e ainda mais, examinai seu leque: não há pálpebras.
Há uma negra luz que nos fita sem olhos.
Pai da Pomba, que com ela
desprendida na luz chegaste ao dia,
recém-fundada em seu papel de rosa,
recém-limpa de sangue e de orvalho,
na clara reunião das bandeiras.
Paz ou pomba, gesto radiante!
Círculo, reunião do terrestre!
Espiga pura entre as flechas rubras!
Súbita direção da esperança!
Contigo estamos no fundo revolto
da argila, e hoje no duradouro
metal da esperança.
“É Picasso”,
diz a pescadora, atando prata,
e o novo outono arranha
o estandarte
do pastor: o cordeiro que recebe uma folha
do céu em Vallauris,
e ouve passar as agremiações em sua colméia, perto
do mar e sua coroa de cedro simultâneo.
Forte é nossa medida quando
arrojamos — amando o simples homem —
tua brasa na lança, na bandeira.
Não estava nos desígnios do escorpião teu rosto.
Quis morder às vezes e encontrou teu cristal
desmedido,
tua lâmpada sob a terra,
e então?
Então pela margem da terra crescemos,
rumo à outra margem da terra crescemos.
Quem não escuta estes passos ouve teus passos. Ouve
lá da infinidade do tempo este caminho.
Larga é a terra. Não está tua mão sozinha.
Ampla é a luz. Acende-a sobre nós.
1 204
Pablo Neruda
Eu Saí de Minha Pátria
Cruzei as cordilheiras a cavalo.
Um tiranete, um bailarino vendia
minha pátria com metais e mineiros,
e enchia de paredes e prisões
o recinto ocupado pela aurora.
Saltei pelas gargantas arranhadas
da natureza galopando
sob um silêncio de arvoredo escuro.
De repente os gélidos pombais
da geleira despenhavam força,
plumas glaciais, puro poderio:
de repente terra e árvores se tornaram
áspera adversidade e cicatrizes,
talha-mares de súbita madeira,
impenetrável densidade tecida
como uma catedral, entre as folhas,
ou titânico sal resvaladiço,
ou desdentado cinturão de pedra.
Ainda mais, desci de repente
a terra vertical, e os ginetes
cindiam com suas tochas o caminho,
onde esperava o deus vertiginoso
de um novo rio desbordando espadas,
despenhando sua música secreta
sobre a hostilidade da espessura.
Um tiranete, um bailarino vendia
minha pátria com metais e mineiros,
e enchia de paredes e prisões
o recinto ocupado pela aurora.
Saltei pelas gargantas arranhadas
da natureza galopando
sob um silêncio de arvoredo escuro.
De repente os gélidos pombais
da geleira despenhavam força,
plumas glaciais, puro poderio:
de repente terra e árvores se tornaram
áspera adversidade e cicatrizes,
talha-mares de súbita madeira,
impenetrável densidade tecida
como uma catedral, entre as folhas,
ou titânico sal resvaladiço,
ou desdentado cinturão de pedra.
Ainda mais, desci de repente
a terra vertical, e os ginetes
cindiam com suas tochas o caminho,
onde esperava o deus vertiginoso
de um novo rio desbordando espadas,
despenhando sua música secreta
sobre a hostilidade da espessura.
1 136
Pablo Neruda
Outro
De tanto andar uma região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
1 453
Pablo Neruda
De Uma Viagem
De uma viagem volto ao mesmo ponto,
por quê?
Por que não volto aonde antes vivi,
ruas, países, continentes, ilhas,
onde tive e estive?
Por que será este lugar a fronteira
que me elegeu, que tem este recinto
senão um látego de ar vertical
sobre meu rosto, e umas flores negras
que o longo inverno morde e despedaça?
Ai, que me assinalam:
— este é o preguiçoso,
o senhor enferrujado,
daqui não se moveu,
deste duro recinto
foi ficando imóvel
até que endureceram seus olhos
e cresceu-lhe uma hera no olhar.
por quê?
Por que não volto aonde antes vivi,
ruas, países, continentes, ilhas,
onde tive e estive?
Por que será este lugar a fronteira
que me elegeu, que tem este recinto
senão um látego de ar vertical
sobre meu rosto, e umas flores negras
que o longo inverno morde e despedaça?
Ai, que me assinalam:
— este é o preguiçoso,
o senhor enferrujado,
daqui não se moveu,
deste duro recinto
foi ficando imóvel
até que endureceram seus olhos
e cresceu-lhe uma hera no olhar.
1 306
Pablo Neruda
IX - Os homens
Nos ensinaram a respeitar a igreja,
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
1 125
Pablo Neruda
Desde Dobris a Aurora
Em dobris, junto a Praga,
conversando com
Jorge Amado,
meu companheiro de anos e de lutas:
De onde
vens agora?
Eu, dos largos rios
da Guatemala e México,
do fulgor verde
do rio Doce, adentro.
Levava
fogo de aves selvagens,
orvalho
de foz.
Contei-lhe meus caminhos.
Ele regressava
da Bulgária, trazia
luz de roseiras vermelhas
no peito,
e contou-me as coisas,
os homens, as empresas,
o socialismo em marcha
naquela
terra eriçada, agora construtora.
Era tarde, as brasas
ardiam
na lareira de pedra.
Fora
o vento removia sussurrando
as folhas das faias.
Juntos peregrinamos,
perseguidos,
e eis que aqui a paz
nos reunia.
Tínhamos
pão,
luz,
fogo,
terra,
castelo.
Não eram só nossos,
eram de todos.
Não queríamos
falar. O vento
falava por nós.
Estendia-se
no bosque,
voava
com as folhas desprendidas.
O vento
ia ensinando,
cantando
o que nós éramos,
éramos e tínhamos.
A claridade terrestre
nos rodeava.
Solene era o silêncio.
Longos haviam sido os caminhos.
E a aurora batia as janelas
de novo
para ir conosco pelo mundo.
conversando com
Jorge Amado,
meu companheiro de anos e de lutas:
De onde
vens agora?
Eu, dos largos rios
da Guatemala e México,
do fulgor verde
do rio Doce, adentro.
Levava
fogo de aves selvagens,
orvalho
de foz.
Contei-lhe meus caminhos.
Ele regressava
da Bulgária, trazia
luz de roseiras vermelhas
no peito,
e contou-me as coisas,
os homens, as empresas,
o socialismo em marcha
naquela
terra eriçada, agora construtora.
Era tarde, as brasas
ardiam
na lareira de pedra.
Fora
o vento removia sussurrando
as folhas das faias.
Juntos peregrinamos,
perseguidos,
e eis que aqui a paz
nos reunia.
Tínhamos
pão,
luz,
fogo,
terra,
castelo.
Não eram só nossos,
eram de todos.
Não queríamos
falar. O vento
falava por nós.
Estendia-se
no bosque,
voava
com as folhas desprendidas.
O vento
ia ensinando,
cantando
o que nós éramos,
éramos e tínhamos.
A claridade terrestre
nos rodeava.
Solene era o silêncio.
Longos haviam sido os caminhos.
E a aurora batia as janelas
de novo
para ir conosco pelo mundo.
1 160
Pablo Neruda
Epílogo - o Canto Repartido
Entre a cordilheira
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
1 288
Pablo Neruda
XXIV - A ilha
Adeus, adeus, ilha secreta, rosa
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
1 212
Pablo Neruda
Desastres
Quando cheguei a Curacautin
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
1 184
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
576
Pablo Neruda
Manhã Com Ar
Do ar livre prisioneiro vai
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
1 029
Pablo Neruda
XII. Adeus
Lord Cochrane, adeus! Teu navio retorna ao combate
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
1 231
Pablo Neruda
Manhã - II
Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.
1 305
Pablo Neruda
XI. Triunfo
Valdívia! A pólvora varreu as insígnias da Espanha!
Callao! As proas do Chile do Sul roubaram os ovos da águia!
E foram abertos os mares à viagem de todos os homens!
Abriu-se como caixa de música o globo oceânico,
as ilhas da Polinésia Sagrada e Secreta surgiram cantando e bailando
e um búzio institui na costa selvagem o mel, a verdade e o aroma das profecias.
Callao! As proas do Chile do Sul roubaram os ovos da águia!
E foram abertos os mares à viagem de todos os homens!
Abriu-se como caixa de música o globo oceânico,
as ilhas da Polinésia Sagrada e Secreta surgiram cantando e bailando
e um búzio institui na costa selvagem o mel, a verdade e o aroma das profecias.
909
Pablo Neruda
Regresso
Amor meu, no mar navegamos de volta à raça,
à herança, ao vulcão e ao recinto, ao idioma adormecido
que nos saía pela cabeleira nas terras alheias:
o mar palpitava como uma nutriz repleta,
os seios atlânticos sustêm o mínimo navio dos passageiros
e apenas sorriem os desconhecidos bebendo substâncias geladas,
trombones e missas e máscaras, comidas rituais, rumores,
cada um se amarra a seu olvido com sua predileta corrente
e os cochichos do dissimulado de orelha furtiva
o cesto de ferro nos leva apalpando e cortando o oceano.
à herança, ao vulcão e ao recinto, ao idioma adormecido
que nos saía pela cabeleira nas terras alheias:
o mar palpitava como uma nutriz repleta,
os seios atlânticos sustêm o mínimo navio dos passageiros
e apenas sorriem os desconhecidos bebendo substâncias geladas,
trombones e missas e máscaras, comidas rituais, rumores,
cada um se amarra a seu olvido com sua predileta corrente
e os cochichos do dissimulado de orelha furtiva
o cesto de ferro nos leva apalpando e cortando o oceano.
1 037
Pablo Neruda
Tarde - LXXIV
O caminho molhado pela água de agosto
brilha como se fosse cortado em lua cheia,
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.
Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e pescados.
O vapor das ilhas combate a comarca,
palpita o mar sobre a luz do Chile.
Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
as folhas, o inverno mascara sua estirpe
e só cegos somos, sem cessar, somente.
Somente sujeitos ao leito sigiloso
do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, da natureza caem as lágrimas.
brilha como se fosse cortado em lua cheia,
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.
Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e pescados.
O vapor das ilhas combate a comarca,
palpita o mar sobre a luz do Chile.
Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
as folhas, o inverno mascara sua estirpe
e só cegos somos, sem cessar, somente.
Somente sujeitos ao leito sigiloso
do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, da natureza caem as lágrimas.
963
Pablo Neruda
Introdução a Meu Tema
Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
1 137
Pablo Neruda
XVIII - Os homens
Como algo que sai da água, algo desnudo, invicto,
pálpebra de platina, crepitação de sal,
alga, peixe trêmulo, espada viva,
eu, apartado, me separo
da ilha separada, vou embora
envolto em luz
e ainda que pertença aos rebanhos,
aos que entram e saem em manadas,
ao turismo igualitário, à prole,
confesso minha tenaz aderência ao terreno
solicitado pela aurora da Oceania.
pálpebra de platina, crepitação de sal,
alga, peixe trêmulo, espada viva,
eu, apartado, me separo
da ilha separada, vou embora
envolto em luz
e ainda que pertença aos rebanhos,
aos que entram e saem em manadas,
ao turismo igualitário, à prole,
confesso minha tenaz aderência ao terreno
solicitado pela aurora da Oceania.
1 192
Pablo Neruda
Serenata de Paris
Formosa é a Rua da Huchette, pequena como uma romã
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.
Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.
Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.
Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.
Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
533
Pablo Neruda
XX - A ilha
De outro lugares (Ceilão, Orenoco, Valdívia)
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
1 113
Pablo Neruda
País
És minha pátria e compreendo teu canto e teu pranto
e toco o contorno de tuas tricolores guitarras chorando e cantando
porque sou um punhado de pó de tua cordilheira
e vivo em teu amor o suplício: de condecorar teus tormentos.
Vou contar-te a história de alguns, de algumas, de ninguém,
ouvindo a chuva que rompe seus rombos de vidro e se perde,
vou contar-te a história daquele ou do filho daquele
ou de ninguém, de todos, porque este destino de greda
nos faz no forno do povo parelhos, parentes profundos:
temos cabeças de cântaro e com olhos de boi generoso
os pés mais urgentes, as pernas que mudam de terra e de rio,
as mãos famintas e a cor da aveia queimada,
nós chilenos de costa e de monte, de chuva ou sequeiro,
somos quase sempre os mesmos errantes dispostos à
viagem do ouro.
e toco o contorno de tuas tricolores guitarras chorando e cantando
porque sou um punhado de pó de tua cordilheira
e vivo em teu amor o suplício: de condecorar teus tormentos.
Vou contar-te a história de alguns, de algumas, de ninguém,
ouvindo a chuva que rompe seus rombos de vidro e se perde,
vou contar-te a história daquele ou do filho daquele
ou de ninguém, de todos, porque este destino de greda
nos faz no forno do povo parelhos, parentes profundos:
temos cabeças de cântaro e com olhos de boi generoso
os pés mais urgentes, as pernas que mudam de terra e de rio,
as mãos famintas e a cor da aveia queimada,
nós chilenos de costa e de monte, de chuva ou sequeiro,
somos quase sempre os mesmos errantes dispostos à
viagem do ouro.
732