Poemas neste tema
Vida
Martha Medeiros
strip-tease
strip-tease
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia
strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite
strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia
strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite
strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
1 624
Martha Medeiros
o caminho é este
o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
fui.
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
fui.
1 143
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ode À Maneira de Horácio
Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida
1 131
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm
Escuta, Lídia, como os dias correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
1 212
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. Busca
Pelos campos fora
Caminhava sempre
Como se buscasse
Uma presença ausente.
«Onde estás tu morte?
Não te posso ver:
Neste dia de Maio
Com rosas e trigo
É como se tu não
Vivesses comigo.
A ti me enviaram
És tu meu destino
Mas diante da vida
Eu não te imagino
A ti me enviaram
E sei que me esperas
Mas só oiço a verde
Voz das Primaveras
Onde a tua imagem
Onde o teu retrato
Na manhã tão limpa?
Onde a tua imagem
Onde o teu retrato
Nas tardes serenas
Nos frutos redondos
Nas crianças puras
Nas mulheres criando
Com seus gestos vida?
Onde a tua imagem
Ou o teu retrato
Nas coisas que eu amo?
Onde a tua voz
Ou a tua presença
Na voz deste dia?
Aqui onde habito
Há o sol a pique
O mar descoberto
A noite redonda
O instante infinito.
É verdade que passas
Pela cidade às vezes
Nos caixões de chumbo:
Mas viro o meu rosto
Pois não te compreendo
És um pesadelo
Uma coisa inventada
Que o vento desmente
Com suas mãos frescas
E a luz logo apaga.
Onde a tua imagem
Ou o teu retrato
Nas coisas que eu vejo?
É verdade que passas
Pela cidade às vezes
Com teu vestido roxo
Entre velas e incenso:
Mas eu te renego e o vento te nega
Com suas mãos frescas
E eu não te pertenço.
Meu corpo é do sol
Minh’alma é da terra.
Onde está teu rosto
Ou a raiz de ti
Onde procurar-te?
E como te amarei
Tanto que em meus dedos
Tua imagem floresça
E entre as minhas mãos
O teu rosto apareça?»
Caminhava sempre
Como se buscasse
Uma presença ausente.
«Onde estás tu morte?
Não te posso ver:
Neste dia de Maio
Com rosas e trigo
É como se tu não
Vivesses comigo.
A ti me enviaram
És tu meu destino
Mas diante da vida
Eu não te imagino
A ti me enviaram
E sei que me esperas
Mas só oiço a verde
Voz das Primaveras
Onde a tua imagem
Onde o teu retrato
Na manhã tão limpa?
Onde a tua imagem
Onde o teu retrato
Nas tardes serenas
Nos frutos redondos
Nas crianças puras
Nas mulheres criando
Com seus gestos vida?
Onde a tua imagem
Ou o teu retrato
Nas coisas que eu amo?
Onde a tua voz
Ou a tua presença
Na voz deste dia?
Aqui onde habito
Há o sol a pique
O mar descoberto
A noite redonda
O instante infinito.
É verdade que passas
Pela cidade às vezes
Nos caixões de chumbo:
Mas viro o meu rosto
Pois não te compreendo
És um pesadelo
Uma coisa inventada
Que o vento desmente
Com suas mãos frescas
E a luz logo apaga.
Onde a tua imagem
Ou o teu retrato
Nas coisas que eu vejo?
É verdade que passas
Pela cidade às vezes
Com teu vestido roxo
Entre velas e incenso:
Mas eu te renego e o vento te nega
Com suas mãos frescas
E eu não te pertenço.
Meu corpo é do sol
Minh’alma é da terra.
Onde está teu rosto
Ou a raiz de ti
Onde procurar-te?
E como te amarei
Tanto que em meus dedos
Tua imagem floresça
E entre as minhas mãos
O teu rosto apareça?»
2 239
Florbela Espanca
Há de ser luz do sol em tardes quentes
Há de ser luz do sol em tardes quentes,
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!
<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...
<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!
<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...
<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
623
Adélia Prado
Encarnação
Sem quebrantar-me,
forte doçura até os ossos me toma.
Não há estridência em mim.
Fibrila o que mais próximo
posso chamar silêncio,
ainda assim palavra,
uma interjeição,
o murmúrio adivinhado
de um rio subterrâneo
no útero da mãe quando ela estava feliz
e o meu sangue era o dela
e sua respiração
a minha própria vida.
Quando o espírito vem
é no corpo
que sua língua de fogo quer repouso.
forte doçura até os ossos me toma.
Não há estridência em mim.
Fibrila o que mais próximo
posso chamar silêncio,
ainda assim palavra,
uma interjeição,
o murmúrio adivinhado
de um rio subterrâneo
no útero da mãe quando ela estava feliz
e o meu sangue era o dela
e sua respiração
a minha própria vida.
Quando o espírito vem
é no corpo
que sua língua de fogo quer repouso.
1 277
Adélia Prado
Distrações No Velório
Felipa ainda quente no caixão
e o que me vem à cabeça
é o vasilhame que areava até espelhar.
Com a mesma idade minha, só porque morreu,
não pode empoeirar-se num museu de fósseis
seu modo de arrematar qualquer assunto:
‘É um problema, comadre.’
Existem as costas, o saco e o suportar.
E suportar que realidade tem?
E por que é abstrato, se dói tanto?
Felipa organizava bazares pra mães de periferias:
‘Não têm noção de nada as coitadinhas,
um problema, comadre!’
Felipa, agora, como se diz na poética,
“descansa no seu leito derradeiro”.
Como se não fosse morrer, rezo por sua alma
e demonstro mais contrição que seus parentes,
esforço meu para espantar a cobiça:
Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente
[usava?
Vou fazer um retiro, minha glicose subiu
e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.
Deus, tem piedade de mim.
Peço porque estou viva
e sou louca por açúcar.
e o que me vem à cabeça
é o vasilhame que areava até espelhar.
Com a mesma idade minha, só porque morreu,
não pode empoeirar-se num museu de fósseis
seu modo de arrematar qualquer assunto:
‘É um problema, comadre.’
Existem as costas, o saco e o suportar.
E suportar que realidade tem?
E por que é abstrato, se dói tanto?
Felipa organizava bazares pra mães de periferias:
‘Não têm noção de nada as coitadinhas,
um problema, comadre!’
Felipa, agora, como se diz na poética,
“descansa no seu leito derradeiro”.
Como se não fosse morrer, rezo por sua alma
e demonstro mais contrição que seus parentes,
esforço meu para espantar a cobiça:
Com quem ficará a cruz de ouro que tão raramente
[usava?
Vou fazer um retiro, minha glicose subiu
e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono.
Deus, tem piedade de mim.
Peço porque estou viva
e sou louca por açúcar.
1 169
Adélia Prado
Espasmos No Santuário
Pesam como maus-tratos
as verdades que falo ao dissonante,
ao feio que pede amor.
Um susto me marcou,
como castigo perpétuo me acompanha.
Mesmo que ninguém saiba
se alguma vez gargalhou,
ou minimamente riu,
Jesus falou de Deus:
“Não tenhais medo, pequenino rebanho,
o Pai vos ama.”
Por desventura eu não teria fé?
Então, que nome tem este desejo meu
de beijar o corpo onde a ferida sangra?
Do banco dos neófitos é que rezo.
No Santo dos Santos,
no corpo vivo não toco,
tenho pouca inocência,
nem ao menos sei
se quero convictamente
amansar o coração,
limpar minha língua turva.
Daqui, onde todos descansam,
escuto um fragor de espadas.
Estou viva. É só isto que eu sei.
as verdades que falo ao dissonante,
ao feio que pede amor.
Um susto me marcou,
como castigo perpétuo me acompanha.
Mesmo que ninguém saiba
se alguma vez gargalhou,
ou minimamente riu,
Jesus falou de Deus:
“Não tenhais medo, pequenino rebanho,
o Pai vos ama.”
Por desventura eu não teria fé?
Então, que nome tem este desejo meu
de beijar o corpo onde a ferida sangra?
Do banco dos neófitos é que rezo.
No Santo dos Santos,
no corpo vivo não toco,
tenho pouca inocência,
nem ao menos sei
se quero convictamente
amansar o coração,
limpar minha língua turva.
Daqui, onde todos descansam,
escuto um fragor de espadas.
Estou viva. É só isto que eu sei.
868
Adélia Prado
Pomar
Os açúcares das frutas
me arrombaram um jardim
a meio caminho de trincar nos dentes
a doce areia, seus cristais de mel.
À vibração do que chamamos vida,
onde os adjetivos todos desintegram-se,
o Senhor da vida olhava-me
como olham os reis
as servas com quem se deitam.
Desde agora, pensei, basta dizer
‘os açúcares das frutas’
e o jardim se abrirá
sob o mesmo poder da antífona sagrada:
“Ó portas, levantai vossos frontões!”
me arrombaram um jardim
a meio caminho de trincar nos dentes
a doce areia, seus cristais de mel.
À vibração do que chamamos vida,
onde os adjetivos todos desintegram-se,
o Senhor da vida olhava-me
como olham os reis
as servas com quem se deitam.
Desde agora, pensei, basta dizer
‘os açúcares das frutas’
e o jardim se abrirá
sob o mesmo poder da antífona sagrada:
“Ó portas, levantai vossos frontões!”
1 178
Adélia Prado
A Criatura
Domingo escuro, sensação de desterro, a vida difícil.
Sofre-se muito e cada vez mais,
também porque as vigílias são mais longas.
Ainda que durmas, deves-te levantar e cuidar da vida,
sujeitar-te à pouca destreza de um corpo
que não aprende as sutilezas da alma
e a todo instante perturba-te o repouso.
Precisas comer, limpar-te, mostrar-te apresentável
a quem chama na porta, salvar-te com compostura
do teu destino metabólico,
dormir na própria cruz sem sobressaltos,
como um bebê brincando com suas fezes.
Ó meu Deus, dizer o que disse
e não ter dúvidas de que escrevi um poema
é saber na carne: verdadeiramente
dar-Vos graças é meu dever e salvação.
Sofre-se muito e cada vez mais,
também porque as vigílias são mais longas.
Ainda que durmas, deves-te levantar e cuidar da vida,
sujeitar-te à pouca destreza de um corpo
que não aprende as sutilezas da alma
e a todo instante perturba-te o repouso.
Precisas comer, limpar-te, mostrar-te apresentável
a quem chama na porta, salvar-te com compostura
do teu destino metabólico,
dormir na própria cruz sem sobressaltos,
como um bebê brincando com suas fezes.
Ó meu Deus, dizer o que disse
e não ter dúvidas de que escrevi um poema
é saber na carne: verdadeiramente
dar-Vos graças é meu dever e salvação.
1 825
Adélia Prado
Jó Consolado
Desperta, corpo cansado;
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
1 259
Adélia Prado
O Enfermo
O doente quer ir-se
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
1 134
Adélia Prado
Esporte Radical
Só tenho cinco reais
pra misturar com farinha a confiança
de que para Deus são iguais
banquete e fome.
Glórias a Ele que só sabe o que faz
quando eu mesma Lhe digo.
Se não peço o pão nosso,
me deixa na penúria,
relendo com desaponto o Livro Santo.
Tomo liberdades, jogo no sanitário
o remédio de tarja preta
para ver no que dá.
Gosto de quem me bate,
é como estar na igreja destelhada,
o padre morto,
o Livro Santo queimado.
pra misturar com farinha a confiança
de que para Deus são iguais
banquete e fome.
Glórias a Ele que só sabe o que faz
quando eu mesma Lhe digo.
Se não peço o pão nosso,
me deixa na penúria,
relendo com desaponto o Livro Santo.
Tomo liberdades, jogo no sanitário
o remédio de tarja preta
para ver no que dá.
Gosto de quem me bate,
é como estar na igreja destelhada,
o padre morto,
o Livro Santo queimado.
701
Adélia Prado
A Escrivã Na Cozinha
Só Deus pode dar nome à obra completa
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo pra torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas pra dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo pra torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas pra dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
1 471
Adélia Prado
Rua do Comércio
Quase fora da loja a balconista
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
1 266
Adélia Prado
Dádivas
Como boas senhoras brincam as marrecas,
falsas mofinas debicando nos filhos.
Ruflares, respingos, grasnares,
que bom estar no mundo
a esta hora do dia!
De maneira perfeita tudo é bom,
até mulheres boçais amam gerânios,
não se tem certeza de que vamos morrer,
velhas se consentem em suas vulvas,
agradecendo a Deus por seus maridos.
Até eu, pudica, arrisco: Ei, baby!
Meu corpo me ama e quer reciprocidade.
São os relógios
o mais obsoleto dos inventos.
falsas mofinas debicando nos filhos.
Ruflares, respingos, grasnares,
que bom estar no mundo
a esta hora do dia!
De maneira perfeita tudo é bom,
até mulheres boçais amam gerânios,
não se tem certeza de que vamos morrer,
velhas se consentem em suas vulvas,
agradecendo a Deus por seus maridos.
Até eu, pudica, arrisco: Ei, baby!
Meu corpo me ama e quer reciprocidade.
São os relógios
o mais obsoleto dos inventos.
1 111
Adélia Prado
Como Um Parente Meu, Um Riobaldo
Olho grande deve ter Deus,
para enxergar de um só lance
de Grão-Mogol até Córrego Dantas,
passando por Diamantina, Curvelo
e outros vastos espaços de só pedras,
mato, rio sem nada na beira
e gentes, barranco, aranha saindo de buraco
onde ninguém pôs sentido
e mais meu tropel fugindo da vista d’Ele.
Queria, ainda que em tico à toa de tempo,
gozar chefia de minha própria pessoa,
apreciar um descanso. E o que não relatei:
tatarana no avesso das folhas e os mortos,
os defuntos nossos que andaram na terra
falando nome de lugares, contando histórias
como se não fossem morrer.
Deus há! E pode que haja o diabo,
o que não tem é morte.
O olho de quem só tem um
não deixaria reinando o esvoaçante esqueleto
com sua foice afiada.
Queria fazer sem medo o que Ele me obriga a fazer:
obedecer por gosto Sua poderosa vontade,
sem entristecer de nódia o pano branco da alegria.
para enxergar de um só lance
de Grão-Mogol até Córrego Dantas,
passando por Diamantina, Curvelo
e outros vastos espaços de só pedras,
mato, rio sem nada na beira
e gentes, barranco, aranha saindo de buraco
onde ninguém pôs sentido
e mais meu tropel fugindo da vista d’Ele.
Queria, ainda que em tico à toa de tempo,
gozar chefia de minha própria pessoa,
apreciar um descanso. E o que não relatei:
tatarana no avesso das folhas e os mortos,
os defuntos nossos que andaram na terra
falando nome de lugares, contando histórias
como se não fossem morrer.
Deus há! E pode que haja o diabo,
o que não tem é morte.
O olho de quem só tem um
não deixaria reinando o esvoaçante esqueleto
com sua foice afiada.
Queria fazer sem medo o que Ele me obriga a fazer:
obedecer por gosto Sua poderosa vontade,
sem entristecer de nódia o pano branco da alegria.
989
Adélia Prado
Mural
Recolhe do ninho os ovos
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.
1 541
Adélia Prado
Mulher Ao Cair da Tarde
Ó Deus,
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
1 593
Adélia Prado
O Tesouro Escondido
Tanto mais perto quanto mais remoto,
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
1 589
Adélia Prado
Meditação do Rei No Meio de Sua Tropa
Só à conta de biógrafos pertencem
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejos,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejos,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.
850
Adélia Prado
Viação São Cristóvão
Não quero morrer nunca,
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
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Adélia Prado
A Discípula
Bendita a espécie extinta,
a que voltou ao repouso em sua origem
e não peregrina mais,
benditos todos que no cativeiro
por ânsia de eternidade multiplicam-se,
bendito o modo como tudo é feito.
Ancestrais, luxuoso nome
para quem apenas errou antes de nós!
Benditos,
bendita a hora da tarde
em que uma serva repousa
descansada de dor e de consolo.
a que voltou ao repouso em sua origem
e não peregrina mais,
benditos todos que no cativeiro
por ânsia de eternidade multiplicam-se,
bendito o modo como tudo é feito.
Ancestrais, luxuoso nome
para quem apenas errou antes de nós!
Benditos,
bendita a hora da tarde
em que uma serva repousa
descansada de dor e de consolo.
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