Poemas neste tema

Ética e Moral

Luís Gama

Luís Gama

Lá Vai Verso!

Quero também ser poeta,
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS

Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.

As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.

Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.

Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!

Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.

Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.

Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;

Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.

Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.

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Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.19-20. (Últimas gerações, 4
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

A que morreu às portas de Madrid

A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a sorte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois de um saque - antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre «champagne», aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

Nota: A.P.Braga tem uma canção (não publicada) com
este poema.

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Raimundo Correia

Raimundo Correia

Conselhos

Vogar mais não vale a pena,
Amarra o barco a esta bóia;
Não traves por outra Helena
Segunda guerra de Tróia.

Ouve um conselho de amigo:
Deixa de muito escolher;
Eu das mulheres só digo
O que ouço a todos dizer.

Dizem de Cora que, quando
Entra nos bailes, namora,
Valsa demais, e, valsando
A perna mostra, e... não cora;

Nem por ver, dessa maneira,
Que a perna que mostra, em vão,
Não é de osso e carne inteira,
Mas metade de... algodão.

De Pacífica, que à-toa
Sem razão se assanha e briga;
E de Modesta (perdoa)!
Que traz o rei na barriga...

Prudência — em nada é cordata;
Benigna — maus modos tem;
E ao noivo de Fortunata
A sorte grande não vem.

Os papalvos certos ficam
De que não são, nem metade
Do que seus nomes indicam,
Severa e Felicidade:

Aquela — vale um pagode;
E desta outra o vulgo diz,
Que é feliz, como se pode
Na desgraça ser feliz;

Plácida — é plácida e mansa,
Como onça ou como leoa;
E é, bem sabes, Esperança
O desespero em pessoa.

Inocência — de pecados
Está cheia, como vês;
Diferentes namorados
Tem Constância, em cada mês;

Muito avara é — Generosa;
Angélica — é muito ingrata;
E até, com língua maldosa,
Dizem que Branca é... mulata.

Rosa é bela? Embora o seja,
(Se nos espinhos não for)
Semelhante, há lá quem veja,
Mulher-rosa à rosa-flor?!

E pois, que inda em tempo chego
Com meus conselhos: — se queres
Ter na vida mais sossego,
Deixa em sossego as mulheres.

Ao pé da letra as não tomes,
Porque as mulheres estão,
Até com seus próprios nomes,
Em viva... contradição.


Poema integrante da série Poesias Avulsas.

In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.335-337
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nesta Hora

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade
Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida
O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe
A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados
Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar
Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
— Sob o ausente olhar silente de atenção —
Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste
20 de Maio de 1974
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

eu queria tanto

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois


Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).
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Gonçalves de Magalhães

Gonçalves de Magalhães

Napoleão em Waterloo

Tout na manqué que quand tout avait
réussi.
Napoleão em S. Helena (memorial).

Eis aqui o lugar onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o Sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zenite haviam ambos;
Ambos iguais no brilho; ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!

Waterloo! ... Waterloo! ... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.

O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sangüíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo! ... Waterloo! ... dizendo, passam.

Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que coa ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais, ordens ditava!
O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.

Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,

O sibilo das balas que gemiam.
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — Águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo!
Assombrando as Nações coas largas asas,
Por que se nivelou aqui cos homens?

Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo,
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.

Pela última vez coa espada em punho,
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio!...
Mas invencível mão lhe toca o peito!
É a mão do Senhor! barreira ingente;
Basta, guerreiro, Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.
Eram poucos, é certo; mas que importa?

Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.

Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos
Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.

Eram os poucos que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!

Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.

Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte:
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?

Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.

O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!

Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármor,
Onde o raio batia, e recuava!

Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!

Da Liberdade foi o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.

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Horácio Dídimo

Horácio Dídimo

O Homem da Cadeira de Balanço

precisamos criar juízo
cumprir as determinações
e tomar enérgicas providências

precisamos coibir os abusos
respeitar os sinais do tempo
e outras normas regulamentares

precisamos ficar calados
diante de certas coisas
porque assim é melhor

precisamos evitar as mãos magras das visitas
os olhos noturnos dos gatos
e o apelo da verdade.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Catarina Eufémia

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
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Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

Versos a um coveiro

Numerar sepulturas e carneiros
Reduzir carnes podres a algarismos
- Tal é, sem complicados silogismoos,
A aritmética hedionda dos coveiros.

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!

7 889 4
José Craveirinha

José Craveirinha

Terra de Canaã

Não, piloto Israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
as belas palavras do Cântico dos Cânticos.

E voa mais baixo.
Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.
Voa mais baixo. Desce ainda mais baixo piloto hebreu.
Desce até Eichman. Voa até ao fundo dos ascos.
Acelera até os motores e as bombas de fósforo
contigo oscularem sofregamente o chão sagrado.

Foi para este holocausto que sobreviveste
ao teu genocídio nos tempos da Nazilandia?
Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã?
Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?"
4 650 3
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Casa Térrea

Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre
Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás — como se diz — a casa térrea —
Construirás a partir do fundamento
4 177 3
Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

O revólver

de trazer por casa
Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente ,uma,duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.

Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio,mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.

Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...

4 562 3
Bocage

Bocage

Soneto Ditado na Agonia

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vã figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo; a língua quasi fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... a santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!.

3 262 3
Wisława Szymborska

Wisława Szymborska

A mulher de Lot

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.


(tradução de Regina Przybycien)


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Luís Filipe Maçarico

Luís Filipe Maçarico

REQUIEM POR UM CHOUPO

Era uma cidade com aromas de viagem,
Aquela onde um dia fui criança,
Esta noite estrangularam outra árvore habituada
A ver-me passar, e ninguém se importou com o assunto.
E eu que varri muitas folhas derramadas dessa farta
cabeleira num Outono já distante estremeci
com o ruído seco do velho choupo a morrer.
Aconselharam-me a ficar calado: Não há tempo para escutar
canções de melros entre ramagens.
Mas sou teimoso! Ridículo é aceitar que o alcatrão
vença e os anestesiados se dirijam cada vez mais velozes
para a sua verdade infeliz!
Então peguei no meu caderno de emoções
e escrevi com uma lágrima de raiva:
Quando a cidade não ama
As suas árvores, que medalha
deverá um Poeta pôr no peito
dos que a governam?
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Marcolino Candeias

Marcolino Candeias

Breve Discurso aos Meus Amigos

Meus amigos de escola meus amigos de liceu e de universidade
que juntos fizemos a maqueta de um novo mundo
meus amigos de pândega meus amigos das touradas da minha adolescência
que uns aos outros nos embriagámos de tanta esperança.
Oh meus amigos de café de cerveja gelada e coração fervente
que resolvíamos a paz e a guerra e inventávamos a justiça social
todos os meus amigos das artes que sonhávamos até ao clímax da fúria
a utopia suprema
e expurgámos do mal todo o universo para o fazer só de beleza.
Meus amigos da ciência
que em serões enchíamos de generosidade as retortas do progresso
em que inventámos novas energias e as novas maravilhas do paraíso terrestre
e por que não
dos meus amigos os melhor penteadinhos das ideias então apenas futuros
hoje consagrados já vedetas mesmo fragatas e cruzadores da política
-- se é que na política meu Deus aqui pra nós o Senhor acha que?
Ah todos os meus amigos sem falhar nenhum
intelectuais semi para-intelectuais e sindicalistas
quantos quintais de verbo imolámos ao porvir.
Meus amigos todos do mundo inteiro que nunca conheci que nem hei de conhecer
meus inimigos e mesmo os menos amigos
toda a charanga da imprensa escrita e da falada
e mais a do cochicho e a do dizquedizque também.
Todos.
Ah meus amigos meus inimigos
nós que inventámos a computação de bolso e o laser
nós que viajamos no imo do invisível
nós que fazemos a carambola com neutrões
nós que manipulamos a ADN como um castelo de Lego
nós mesmos que bordejamos as costas do cosmos
nós os que glorificamos
nós os que descreditamos
nós os que desacreditámos da democracia
e quisemos o mundo livre e melhor
nós que gravamos no perfeito absoluto da matéria
a perpetuidade do Hino à Alegria
nós que operámos tanta maravilha.
Nós que fazemos Jugoslávias e permitimos Somálias e Timore
e que incubámos novas suásticas
sob a asa da nossa inconsciência.
Nós que por lucro e desleixo fazemos marés negras
e por conveniência e hipocrisia
ousámos admitir que dos falos fumegantes da indústria
era Juno mesma que se ejaculava
em jactos de progresso sobre as nações da Terra.
Nós que criamos as chuvas ácidas
cuspindo para o ar nossa arrogância
nós que satisfeitos e inconsequentes
multiquotidianamente abrimos a porta do frigorífico
e que de higiénicos tanto apertámos o desodorizante
que mesmo daqui debaixo
rasgámos as cuecas de S. Pedro.
Nós que nem mesmo já precisamos de alma
para sermos humanos e imortais.
Nós que já nem de nós mesmos conseguimos dizer as maravilhas.
Nós operámos o inoperável
e arrotando à glória de Deus realizámos o impossível.

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Hermes Fontes

Hermes Fontes

Rosa

Rosa do meu Jardim, que ardes na minha Jarra,
filha do meu afã, mártir do meu amor!
Minha grande paixão egoísta te desgarra
as pétalas, te aspira o segredo interior.

Pois que estamos a sós — eu volúvel cigarra,
tu, borboleta rubra estacionada em flor —
deveras ter comigo uma folha de parra,
a fim de preservar-te a beleza e o pudor...

Pois que! tão nua assim, tão fresca e tão punícea,
rosa da Tentação, rosa da Impudicícia,
és o próprio Pecado: e há virtude em pecar...

— Pecar morrendo em ti, sangrando em teus espinhos,
remindo num Desejo os desejos mesquinhos,
gozando pelo Olfato e amando pelo Olhar...


Poema integrante da série Segunda Parte: As Flores.

In: FONTES, Hermes. Microcosmo. Rio de Janeiro: Livr. Leite Ribeiro & Maurillo, 1919. p.55-5
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José Albano

José Albano

III [Amar é desejar o sofrimento

Amar é desejar o sofrimento
E contentar-se só de ter sofrido,
Sem um suspiro vão, sem um gemido,
No mal mais doloroso e mais cruento.

É vagar desta vida tão isento
É deste mundo enfim tão esquecido,
É pôr o seu cuidar num só sentido
E todo o seu sentir num só tormento.

É nascer qual humilde carpinteiro,
De rudes pescadores rodeado,
Caminhando ao suplício derradeiro.

É viver sem carinho nem agrado,
É ser enfim vendido por dinheiro,
E entre ladrões morrer crucificado.


Publicado no livro Antologia Poética (1918). Poema integrante da série Dez Sonetos Escolhidos Pelo Autor.

In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.58. (Série Revisões, 3
2 831 3
Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

Hino à Preguiça

...Viridi projectus in antro...
VIRGÍLIO


Meiga Preguiça, velha amiga minha,
Recebe-me em teus braços,
E para o quente, conchegado leito
Vem dirigir meus passos.

Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d'água, que jorra
Do próximo rochedo.

Mas vamos perto; à orla solitária
De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
Sempre por bom caminho.

Aí, vendo cair uma por uma
As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: — são as horas,
Que aos poucos lá se vão. —

Feita esta reflexão sublime e grave
De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
Vogar a fantasia,

Até que ao doce e tépido mormaço
Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
Conciliar o sono.

Para dormir à sesta às garras fujo
Do ímprobo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
Buscar doce agasalho.

Caluniam-te muito, amiga minha,
Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
Na horrenda comitiva.

O que tens de comum com a soberba?...
E nem com a cobiça?...
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
Lhana e santa Preguiça?

Com a pálida inveja macilenta
Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranquila, tens as faces
Tão nédias e vermelhas?

Jamais a feroz ira sanguinária
Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
Não tens ódio mortal.

Com a luxúria sempre dás uns visos,
Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
Fazer vida de monge.

Quando volves os mal abertos olhos
Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!... que eflúvios vertes
De mórbida indolência!...

És discreta e calada como a noute;
És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
Se esbate pela veiga.

(...)

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Publicado no livro Folhas do Outono (1883).

In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
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John Donne

John Donne

A pulga

Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.

Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
E embora possas dar-me fim, não dês:
É suicídio e sacrilégio, três
Pecados em três mortes de uma vez.

Mas tinge de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegres de dizes que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
Então, tua cautela é desmedida.
Tanta honra hei de tomar, se concedida,
Quanto a morte da pulga à tua vida.

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Heinrich Heine

Heinrich Heine

Que mundo grosso

Que mundo grosso, gente avara,
– E mais e mais sem mais sabor!
Diz de você... o quê, amor?
Que não tem vergonha na cara.

Mundinho avaro, mundo cego,
Sempre disposto a julgar mal.
Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.

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Pedro Lemebel

Pedro Lemebel

Manifesto (Falo por minha diferença)

Não sou Pasolini pedindo explicações
Não sou Ginsberg expulso de Cuba
Não sou uma bicha disfarçada de poeta
Não preciso de disfarces
Aqui está minha cara
Falo por minha diferença
Defendo o que sou
E não sou tão esquisito
Me repugna a injustiça
E suspeito dessa dança democrática
Mas não me fale do proletariado
Porque ser pobre e bicha é pior
Há que ser ácido para suportar
É ter que dar voltas nos machinhos da esquina
É um pai que te odeia
Porque o filho desmunheca
É ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro
Envelhecidas de limpeza
Embalando de doença
Por maus modos
Por má sorte
Como a ditadura
Pior que a ditadura
Porque a ditadura passa
E vem a democracia
E desvia para o socialismo
E então?
Que farão com nossos companheiros?
Irão nos amarrar às tranças em fardos
com destino a um sidário cubano?
Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma
Como no barco do general Ibáñez
Onde aprendemos a nadar
Mas ninguém chegou até à costa
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas
Por isso as casas de caramba
Brindaram com uma lágrima negra
Aos carneiros comidos pelos caranguejos
Este ano que a Comissão de Direitos Humanos
Não lembra
Por isso companheiro te pergunto
Existe ainda o trem siberiano
da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
Quando minha voz fala demasiado doce
E você?
Que fará com essa lembrança de meninos
Nos pajeando e outras coisas
Nas férias de Cartagena?
O futuro será em preto e branco?
O tempo correrá noite e dia
sem ambiguidades?
Não haverá uma bichona em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu novo homem?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil eu deixo a você
Que tem o sangue frio
E não é medo
O medo foi indo embora de mim
Atacando com facadas
Nos inferninhos sexuais onde andei
E não se sinta agredido
Se te falo dessas coisas
E te olho o volume
Não sou hipócrita
Acaso os peitos de uma mulher
Não o faz baixar os olhos?
Você não acredita
Que sozinhos na serra
Algo nos aconteceria?
Embora depois me odiasse
Por corromper sua moral revolucionária
Tem medo que se homessexualize a vida?
E não falo de te enfiar e tirar
e tirar e te enfiar somente
Falo de ternura companheiro
Você não sabe
Como custa encontrar o amor
Nestas condições
Você não sabe
O que é carregar essa lepra
As pessoas ficam à distância
As pessoas compreendem e dizem:
É viado mas escreve bem
É viado mas é um bom amigo
Super-boa-onda
Eu não sou boa-onda
Eu aceito o mundo
Sem lhe pedir essa boa-onda
Mas ainda assim riem
Tenho cicatrizes de risos nas costas
Você acredita que eu penso com o pau
E que à primeira parrillada da CNI
Eu ia soltar tudo
Não sabe que a masculinidade
Nunca a aprendi nos quartéis
Minha masculinidade me ensinou a noite
Atrás de um poste
Essa masculinidade de que você se gaba
Te enfiaram em um regimento
Um milico assassino
Desses que ainda estão no poder
Minha masculinidade não recebi do partido
Porque me rechaçaram com risadinhas
Muitas vezes
Minha masculinidade aprendi militando
Na dureza desses anos
E riram da minha voz afeminada
Gritando: vai cair, vai cair
E embora você grite como homem
Não conseguiu que caísse
Minha masculinidade foi amordaçada
Não fui ao estádio
E me peguei aos trancos pelo Colo Colo
O futebol é outra homossexualidade encoberta
Como o boxe, a política e o vinho
Minha masculinidade foi morder as provocações
Engolir a raiva para não matar todo mundo
Minha masculinidade é me aceitar diferente
Ser covarde é muito mais duro
Eu não dou a outra face
Dou o cu companheiro
E esta é a minha vingança
Minha masculinidade espera paciente
Que os machos fiquem velhos
Porque a esta altura do campeonato
A esquerda corta seu cu flácido
No parlamento
Minha masculinidade foi difícil
Por isso não subo nesse trem
Sem saber aonde vai
Eu não vou mudar pelo marxismo
Que me rechaçou tantas vezes
Não preciso mudar
Sou mais subversivo que vocês
Não vou mudar somente
Pelos pobres pelos ricos
Ou outro cachorro com esse osso
Tampouco porque o capitalismo é injusto
Em Nova Iorque as bichas de beijam na rua
Mas esta parte deixo para você
Que tanto se interessa
Que a revolução não se apodreça completamente
A vocês entrego esta mensagem
E não é por mim
Eu estou velho
E sua utopia é para as gerações futuras
Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada
E eu quero que voem companheiro
Que sua revolução
Dê a eles um pedaço de céu vermelho
Para que possam voar
(tradução de Nina Rizzi)
.
.
.
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Bárbara Heliodora

Bárbara Heliodora

Conselhos a Meus Filhos

Meninos, eu vou dictar
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.

Neste tormentoso mar
D'ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.

Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Ha bixinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.

Quem quer males evitar
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguem os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.

Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.

Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.

Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sabio piloto
Nas regras de calcular.

Se vos mandarem chamar
Pâra ver uma funcção,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.

Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.

Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.

Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!

Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.
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Georg Trakl

Georg Trakl

AOS EMUDECIDOS

Oh a loucura da grande Cidade, quando à noite
junto ao muro negro aleijadas árvores se erguem boquiabertas,
e por uma máscara de prata o Espírito do Mal se ri;
a luz com flagelo magnético a pétrea noite expulsa.
Oh, o submerso dobrar dos sinos pelo anoitecer.

Prostituta, que em convulsões de gelo pares uma criança morta.
A ira de Deus chicoteia a fronte do homem possesso,
purpúrea pestilência, fome, verdes olhos quebra.
Oh, o horrendo riso do ouro.

Mas quieta na caverna escura uma humanidade mais silente sangra,
forja no duro metal a redentora cabeça.

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