Poemas neste tema

Casamento

José Afonso

José Afonso

Entrudo

Ó entrudo Ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
as mocinhas ao solheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é queu estou bem
Que no monte é queu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém
Que no monte é queu estou bem

Estas casa são caiadas
Estas casa são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira

1 926
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Dade-M'alvíssara, Pedr'agudo

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
e oimais sodes guarido:
       vossa molher há bom drudo,
baroncinho mui velido.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
e cresca-vos end'o gabo:
       vossa molher há bom drudo,
que fode já em seu cabo.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
esto seja mui festinho:
       vossa molher há bom drudo,
e já nom sodes maninho.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.

Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
e gram dereito faredes:
       vossa molher há bom drudo,
que herda em quant'havedes.
       Dade-m'alvíssara, Pedr'Agudo,
       vossa molher há bom drudo.
675
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Pois [Que] Vos Vós Cavidar Nom Sabedes

Pois [que] vos vós cavidar nom sabedes
deste marido com que vós seedes,
mostrar-vos quer'eu como vos vinguedes
del, que vos faz com mal dia viver:
maa noite vos mando que lhi dedes,
       pois que vos el mal dia faz haver.

Pois vos Deus deu tamanha valentia
de vos vingar, se [me] creverdes, tia,
deste marido, que vos dá mal dia,
mostrar-vos-ei gram dereit'a prender:
maa noite lhi dade todavia,
       pois que vos el mal dia faz haver.

Direi-vos eu a negra da verdade,
se mi a creverdes; e, se nom, leixad'e
del, que vos dá mal dia, vos vingade;
pois vos en Deus deu tamanho poder,
oimais, tia, negra noite lhi dade,
       pois que vos el mal dia faz haver.

Por Deus, tia, que vos fez seer nada,
nom se ria pois de vós na pousada
este marido que vos tem coitada;
porque vos faz mal dia padecer,
negra noite lhi dade e escurada,
       pois que vos el mal dia fez haver.
538
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Confissão

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

"Henry!"

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de

dizer
podem agora
ser ditas:

eu te
amo.
1 078
Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

Desengano

A pensionista pálida que gosta
(Fundada pretensão!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;

Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos..., pela posta;

Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo... oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!

Com um pançudo burguês, uma alimária
Que não a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanhã na Candelária.

1873


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 178
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Costureira

minha primeira esposa fazia seus próprios vestidos,
e eu achava isso legal.
eu a via com frequência sentada diante de sua
máquina de costura
montando um novo vestido.
estávamos ambos trabalhando e eu achava
ótimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
então certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuário,
falando que ela parecia
“cafona”.
“você acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem é esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“você não pode, ele é homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortá-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles não lhe caíam nem de longe tão bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegância.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
você gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“você fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“não, mas o que você prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a máquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.
1 130
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Confissões

esperando pela morte
como um gato
que vai pular na
cama
lamento muitíssimo pela
minha esposa
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo uma vez, então
talvez
de novo:
“Hank!”
Hank não vai
responder
não é a minha morte que
me preocupa, é a minha esposa
deixada sozinha com este
monte
de nada.
eu quero que
ela saiba
no entanto
que todas as noites
dormindo
a seu lado
e mesmo as inúteis
discussões
foram coisas
totalmente esplêndidas
e as palavras
duras
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.
1 071
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Alô, Barbara

25 anos atrás
em Las Vegas
eu me casei
pela única vez.
ficamos lá por
somente uma hora.
dirigi o caminho todo
de ida e o caminho
todo de volta
para L.A.
e mesmo assim
não me senti
casado e
continuei
me sentindo assim
por dois anos
e meio até que
ela se divorciou
de mim.
então conheci
uma mulher
que tinha formigas
de estimação e
as alimentava
com açúcar.
eu a
engravidei.
depois disso
houve
várias outras
mulheres.
mas
outro dia
um sujeito
que andou examinando
meu passado
disse: “eu
tenho o
número do telefone
da sua
ex-mulher”.
eu o coloquei
na gaveta
da minha cômoda.
então me
embebedei certa
noite
tirei o
número da gaveta
e
liguei para ela.
“ei, bebê,
sou eu!”
“eu sei que é
você”, ela disse
com aquela mesma
voz gélida.
“como cê
tá?”
“estou bem”,
ela respondeu.
“você ainda tá
morando naquela
granja?”
“sim”, ela
disse.
“bem, eu estou
bêbado.
só me deu vontade
de lhe fazer
uma breve
ligação.”
“então você está
bêbado de novo”,
ela disse com
aquela mesma
voz gélida.
“sim. bem,
tá certo,
vou dar
tchau agora...”
“tchau”, ela
falou e
desligou.
eu fui
me servir um
novo drinque.
depois de 25 anos
ela ainda
me odiava.
eu não achava
que eu era tão
ruim.
claro,
caras como eu
quase nunca
acham.
1 109
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Centro Tranquilo

Casa: com o rumor das dunas e das aves
que se alongam imóveis nas paredes.
Alguém que toque vibrando os olhos fulvos
está no centro tranquilo unindo as folhas.

Acendem-se os contornos devagar
e às mãos chega um sabor a veias e a lábios.
Tudo está completo num secreto
repouso que acolhe o sonho exacto.

Tão simples são as minúcias deste solo
quase mágico mas no sossego das corolas.
Alguém apaga a febre com a palma serena
e reúne as mãos e as folhas num gesto nupcial.
521
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Amor

já vi velhos casais
sentados em cadeiras de balanço
um diante do outro
sendo felicitados e celebrados
por estarem juntos há 50 ou 60
anos
que muito
tempo atrás teriam
aceitado qualquer outra
coisa
mas o destino
o medo e as
circunstâncias
os amarraram,
e quando lhes falamos
como são maravilhosos
em seu grandioso e duradouro
amor
só eles
realmente sabem
mas não podem nos dizer
que desde o momento em que
se conheceram
em diante
não significou
tanto assim
como
esperar pela morte
agora.
é mais ou menos o
mesmo.
1 272
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Epitalâmio

Para Márcia e Luís Hamilton


Musas latinas, musas gregas, musas
do velho Olimpo e do moderno mundo,
com alto sopro bafejai-me a lira
e dai-lhe o sentimento mais profundo.

Tenho a cumprir nobre missão de bardo,
devo cantar o amor naquele instante
miraculoso, antigo e sempre novo,
de transpassar em luz o peito amante.

Hoje Márcia gentil, neta de Horácio
(poeta ele também, por seus cabelos
de argêntea messe, e ardente coração),
une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los,

sinto surdir de oculta fonte o som
de música celeste, que às esferas
sublimes reconduz o ser humano,
e impregna de doçura as próprias feras;

o som da força cósmica, movente
do sol e das estrelas, conhecida,
que o florentino pôs em nobre verso,
e no meu tosco verso eis refletida:

o som do amor, o som do ameno grito
melodioso e santo e grave e jovial,
dramático, dolente, sobre-humano,
trazendo à vida uma razão geral.

Vai, Márcia, sê feliz, e teu esposo
contigo de mãos dadas, tempo afora,
um só sejam os dois, de tal maneira
que pouse a eternidade em cada hora.

Vosso himeneu, dos astros protegido,
seja lição de bem amar, oferta
a quantos, imaturos, desnorteados,
em vão tentam seguir a rota certa.

O sonho em vós se cristaliza e assume
o contorno sensível da existência.
Cada palavra e beijo que trocardes
dos deuses conterá a pura essência.

Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos,
os da alegria ritos celebrando,
despedem-se de vós. Eia, a caminho.
Tende por certo: amar se aprende amando.
1 211
Barrie Phillip Nichol

Barrie Phillip Nichol

Poema do primeiro livro deThe Martyrology

dos santos que conhecemos a listagem segue
santinhoca desposou santoró
deu à luz santisse e santave
das famílias eis a mais antiga
santisse desposou santrio
deu à luz santlector
que desposou santagnes
deu à luz santargem
santave desposou santeto
deu à luz santrangulo
que não desposou
das outras famílias
estas mencionamos
santoente desposou santova
deu à luz sanjunção & santesta
sanjunção não desposou
santesta desposou santan
deu à luz seu filho
o sem registro
a esposa de santadaga caiu no olvido
deu à luz santruco& santeneja
deu à luz nenhúguem
perecendo no fogo que lector ateara
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
of those saints we know the listing follows
saint orm married saint rain
gave birth to saint iff and saint ave
this is the oldest family
saint iff married saint rive
gave birth to saint reat
who married saint agnes
gave birth to saint rand
saint ave married saint raits
gave birth to saint ranglehold
who did not marry
of the other families
these we mention
saint ill married saint ove
gave birth to saint and& saint rike
saint and did not marry
saint rike married saint ain
gave birth to their son
the nameless one
saint aggers wife is now forgotten
gave birth to saint ump & saint rap
gave birth to noone
dying in the fire reat had set
(from Martyrology 1)
446
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de A.G., a Mulher da Penumbra

Eu, Amélia Garcia, aos dezessete anos
casei-me com um homem com sombra,
fugindo de pais que tinham sombra,

e de sombra em sombra cheguei à melhor de todas.

969
Isabella Motadinyane

Isabella Motadinyane

Quieta bebê

Quieta bebê
anda alta
assovios aqui e ali
sorrindo feito estrela
com o rosto redondo
bebê de covinhas na bochecha
que prendem os olhos
nós vimos seu trabalho aqui
no campo
aqueles que dizem
que você é feia
são uns tolos
deixe-os no equívoco deles
brilha bela e ensolara
ho ha
quieta bebê
ho ha
a propósito
você é a número 1
anda alta bebê
brilha bela e ensolara
quieta bebê
ho ha
donde você se vai
ficam para trás estrelas
fala clã de Mohlakwana
fala clã de Mofokeng
nós vimos seu trabalho
presentes de núpcias
estão a caminho
vai irmã deixe-os zonzos
deixe-os tontos boneca
eles chegaram agora
os que tocarão sax para você

(paráfrase de Ricardo Domeneck)

:

Hoshe ngwana
Isabella Motadinyane

Hoshe ngwana
qata o qatoge
melodi kafa le fa
ngwana dikoti marameng
pososelo eka naledi
sefahlelo sone
botjhitja bo kgatlang mahlo
re bone mesebetsi ya hao
naheng mona
ba reng
o sekobo
ke baikaketsi
ba lese ba iphore jaalo
shine bright sunbeam
hoha
kana wena o motswa mantlha
qata o qatoge thope
shine bright sunbeam
hoshe thope
hoha
moo o fetileng
ho sala dinaledi
thebetha Mohlakwana
thebetha Mofokeng
re bone mesebetse ya hao
digaboi di dizzie ousie
slaat hulle giddy poppy
ba fehlile jwale
ba ho bapallang

.
.
.
893
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Nieta Nava

O poeta Pedro Nava quando
Se casou, não imaginava
Que assim se estava completando
Um lindo nome — Nieta Nava.
1 116
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No dia em que te casares

No dia em que te casares
Hei-de te ir ver à Igreja
Para haver o sacramento
De amar-te alguém que ali esteja.
1 335
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Lua de mel em Veneza

Na mesa à minha esquerda
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
1 092
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Vida de Borodin

na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
1 074
Marina Colasanti

Marina Colasanti

O perigo é quando

No ano de mil quinhentos e quarenta e dois
cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.

O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.

Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.

Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.

À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua sua cama
e possuí-la.


no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.
1 091
Odylo Costa Filho

Odylo Costa Filho

Cantigas

Meu Deus, como é amarga esta paz,
paz de veias somadas, mas rompidas,
e em que o sangue se junta para chorar como outrora
se juntaram nossos corpos de marido e mulher.

Dai-nos, para consolo e esquecimento,
não alegrias quentes, exaltantes,
mas as ternuras do ressuscitar:
telhados velhos em cidades pobres,
cemitérios com poetas enterrados,
cadeiras de balanço em frente ao mar.

Livrai do incontido choro as nossas noites.
Meu Deus, livrai do incontido choro as nossas noites.
Dai-nos antes miúdas mãos, pés pequeninos
pisando flores no capim molhado,
nomes maternos na saudade densa,
cantigas, algumas cantigas.

Dai-nos cantigas descendo o rio
como canoas descendo o rio.

Cantigas de dor mansa, simples, humilde.
Tão mansa que não quer dizer nada.
Tão simples que não sabe dizer nada.
Tão humilde que nada ousa pedir a Deus.


Poema integrante da série A Visita do Anjo.

In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
1 252
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Intelectual

ela escreve
sem parar
como um grande bocal
espalhando jatos
pelo ar,
e ela discute
sem parar;
não há nada
que eu possa dizer
que não pertença realmente
a outra pessoa,
então,
parei de falar;
e ela finalmente
saiu discutindo
porta afora
dizendo
algo como –
não estou tentando
causar uma impressão
em você.
mas eu sei
que ela
voltará, elas
sempre voltam.
e
às 5 da tarde
ela batia a minha porta.
deixei-a entrar.
não vou ficar muito tempo, ela disse,
se você não me quiser.
tudo bem, eu disse,
preciso tomar um
banho.
ela entrou na cozinha e
começou a lavar a
louça.
é como ser casado:
você aceita
tudo
como se
nada tivesse acontecido.
1 054
Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

A Cancela da Estrada

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Cavaleiro, à disparada,
Lá vai no cavalo ardente.
Cavaleiro em descuidada
Marcha, lá vem indolente.

Passa, ondeia levantada
A poeira, toldando o ambiente.

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Bate, e exaspera-se e brada
Ou chora contra o batente:
(Ninguém lhe ouve na arrastada,
Roufenha voz o que sente)

— "Minha vida desgraçada
Repouso não me consente;
Vivo a bater nesta estrada
Constantemente."

Moços, moças, de tornada
De alguma festa, em ridente
Chusma inquieta e alvoroçada,
Passaram ruidosamente.

Desta inda se ouve a risada,
Daquele o beijo... Plangente

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Agora, é noiva coroada
De capela alvinitente;
Segue o noivo a sua amada,
Um carro atrás, outro à frente.

Agora, é uma cruz alçada...
Um enterro. Quanta gente!

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Bate ao vir a madrugada,
Bate, ao ir-se o sol no poente;
(Das sombras pela calada
Seu bater é mais dolente)

Bate, se é noite enluarada,
Se escura é a noite e silente;

Bate a cancela da estrada
Constantemente.

Nossa vida é aquela estrada,
Com os que passam diariamente
E após si da caminhada
A poeira deixam somente.

Coração, como a cansada
Cancela de som gemente,

Bates a tua pancada
Constantemente.


Publicado no livro Poesias, 1912/1925: quarta série (1927). Poema integrante da série Alma e Céu.

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. v.3. (Fluminense
2 880
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Luís Jardim

Louvo o Padre, louvo o Filho,
Louvo o alto Espírito Santo.
Após quê, Pégaso ensilho
E, para mundial espanto,
Remonto à paragem calma
Onde, em práticas sem fim,
Deambulam as Musas: na alma
De Lula — Lula Jardim.

Um jardim de muitas flores
e sem espinhos nenhuns.
Jardim da Ilha dos Amores
Replanto em Garanhuns.
Louvo o desenhista exato:
Maneje lápis, carvão
Ou pena, trace retrato
Ou paisagem, é sua mão

Segura, certeira, leve:
Nunca vi tão leve assim.
E é assim também quando escreve
Romance ou conto o Jardim.
Faz igualmente bom teatro,
Ótima crítica. Tem
Arte e engenho como quatro...
Deus conserve-o tal, amém!

Um dia a menina Alice
No País das Maravilhas
Passeava. Lula lhe disse:
“Vamos ter filhos e filhas?
Casemo-nos!” E casaram-se.
Mas os filhos não vieram.
Lula e Alice conformaram-se.
Foi o melhor que fizeram.

Pois louvo Lula de novo
E louvo Alice também.
Louvo o Padre, o Filho louvo
E o Espírito Santo. Amém!
961
Marcelo Perrone

Marcelo Perrone

Serás feliz

Far-te-ei muito feliz.Te darei tudo o que precisares.

Aguçarei meu faro para saciar tuas necessidades.antes que tu possas notá-las.

Saciarei tua fome com frutosda minha horta de amor que regasdiariamente com teu olhar.

Encherei nosso quarto de flores todas as noitesSó para ver-te saindo do banheiro de camisolaE quando fores deitar-te tomarás cuidado para não amarrotar as rosas.

Não morrerei por ti...Morrerei contigo.Assim abraçadinho.Pois não deixareinem a morte machucar-te.

Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-

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