Citações neste tema
Emoções e Sentimentos
Karl Kraus
O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada carantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala? Como podemos exagerar se os factos se transformam em caricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta é o seguinte: “O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu mais uma vez?”. Quando se diz isso, não se pensa no facto de B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredita que A, consciente do seu próprio delito, alguma vez pudesse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido. Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que somente A cometeu, justifica a jocosa confusão: “Imagine só o senhor do que B não é capaz!”. No dia seguinte, publica-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de ser corretamente compreendido, confessou a sua falta sob a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a justa compensação e silenciar. O que constitui a comicidade do caso não é a indignação contra aquilo que também se fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por conseguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no máximo para motivo de farsa.
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Karl Kraus
Posso provar que os alemães são mesmo o povo dos poetas e dos pensadores. Tenho um volume de papel higiénico, publicado em Berlim, que em cada folha traz uma citação de um clássico apropriada à situação.
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Karl Kraus
Eros tem sorte no amor. O desperdício proporciona-lhe crescimento; a ofensa, honra. Magoe-o, e isso ser-lhe-á um prazer; difame-o, e isso ser-lhe-á útil. Podes fazer-lhe de tudo, só não lhe dizer a tua opinião na cara. Ele não é queixoso, mas também não é ávido de saber. Ele só é curioso e quer descobrir as coisas por conta própria. Ainda que saibas tudo melhor do que ele, sabe isto: ele toma parte de tudo no mundo, só não toma parte no tédio. O que dele escondes, ele partilhará contigo; mas ele desdenha a tua ciência.
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Karl Kraus
Eros tem sorte no amor. O desperdício proporciona-lhe crescimento; a ofensa, honra. Magoe-o, e isso ser-lhe-á um prazer; difame-o, e isso ser-lhe-á útil. Podes fazer-lhe de tudo, só não lhe dizer a tua opinião na cara. Ele não é queixoso, mas também não é ávido de saber. Ele só é curioso e quer descobrir as coisas por conta própria. Ainda que saibas tudo melhor do que ele, sabe isto: ele toma parte de tudo no mundo, só não toma parte no tédio. O que dele escondes, ele partilhará contigo; mas ele desdenha a tua ciência.
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Karl Kraus
Woodie, um cãozinho de pelo comprido que conheci pessoalmente — ele ria quando as pessoas conversavam com ele e chorava porque não podia conversar com elas, e o seu olhar era em si e para elas a gratidão da criatura —, foi atropelado por um automóvel. Quem teria tanta pressa? Deveria o pouquinho de espaço entre os corpos humanos que um transeunte desses exigia — ele podia encolher-se como uma cobra — ser melhor empregado? Os dignos pagam para que os outros continuem vivendo indignamente. E para quê, afinal, já que esse exemplo não melhora os maus? Ele seguia o seu caminho e morreu por isso. Quando a mulher se voltou, ele jazia ao sol. Quando a vida não tem palavras, resta tanto silêncio.
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Karl Kraus
O ser humano objeta ao cão o facto de buscar a sujeira. O que o desacredita ainda mais é o facto de buscar o ser humano. Em todo o caso, o cão dá provas da sua superioridade por não correr à Dreimäderlhaus.
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Karl Kraus
Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois neste verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, a minha misantropia degenerou gravemente.
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Karl Kraus
Um professor de literatura afirmou que os meus aforismos são apenas a inversão mecânica de frases feitas. Isto é inteiramente correto. Só que ele não apreendeu o pensamento que impele a mecânica: o facto de que da inversão mecânica de frases feitas resulta mais do que da repetição mecânica. Este é o segredo da época atual, e é preciso tê-lo experimentado. Ao mesmo tempo, a frase feita ainda se distingue, para sua vantagem, de um professor de literatura, de quem não sai nada se eu o deixar no seu lugar e menos ainda se o inverter mecanicamente.
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Karl Kraus
A compreensão do meu trabalho é dificultada pelo conhecimento do meu material. As pessoas não compreendem que aquilo que aí está precisa de ser inventado primeiro, e que vale a pena inventá-lo. Assim como também não compreendem que um satírico para quem as pessoas existem como se ele as tivesse inventado precisa de mais força do que aquele que inventa as pessoas como se existissem.
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Karl Kraus
Conheci alguém que levava a sua formação no bolso do colete porque ali havia mais espaço do que na cabeça.
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Karl Kraus
A maioria dos críticos escreve críticas que são dos autores sobre os quais escreve críticas. Isto ainda não seria o pior. Só que a maioria dos autores também escreve obras que são dos críticos que escrevem críticas sobre elas.
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Karl Kraus
Uma velha crença de idiotas concede ao “satirista” o direito de fustigar as fraquezas do forte. Só que a fraqueza mais fraca do forte ainda é mais forte do que a força mais forte do fraco, e por isso o satirista que se encontra no topo dessa concepção é um sujeito sórdido, e o facto de ser tolerado, um verdadeiro estigma da sociedade. Foi da necessidade infame da sociedade de tratar as personalidades como seus iguais e, por meio da sua degradação ao próprio nível, se tranquilizar acerca da sua baixeza, que surgiram os jornais humorísticos. Todas as carecas brilham porque Bismarck não tinha mais do que três fios de cabelo. Essa maldade enfadonha, a partir da qual o jornal humorístico acode à necessidade de vingança da sociedade, é por ela chamada de “inofensiva”. Porém ela abomina o homem positivo que destroça um mundo sem deuses. Não suspeita que o satirista seja alguém que apenas fustiga as fraquezas dos fracos e não vê as dos fortes porque elas não existem, e se existissem, as cobriria respeitosamente. Para as pessoas, a sátira é algo que alguém pode exercer como um segundo emprego, por exemplo, quando é oficial publicamente e possui humor em segredo. Mais autêntico, por certo, é praticar a sátira publicamente e ser um guerreiro em segredo. Pois, na verdade, a sátira só é compatível com uma função, a do homem, e ela até parece realmente exigi-la. O facto de o satirista ser um homem já é provado tão-só pela impertinência satírica da qual ele próprio precisa se defender. Pois o satirista não tolera brincadeiras. Mas se ele matar o inseto que tem em mira as suas “fraquezas”, todos se espantam e perguntam por que afinal, e dizem que alguém que é ele próprio satirista também deveria tolerar que um outro — e assim por diante in infinitum da banalidade humana.
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Karl Kraus
O ciúme da matéria informe que diariamente se balança e se esfrega, transborda e tagarela diante do meu nariz, o ciúme de pessoas que infelizmente ainda existem, mas que ainda não foram criadas, dificilmente poderá ser compreendido por uma delas.
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Karl Kraus
A tristeza e a vergonha deveriam cobrir todas as pausas da verdadeira virilidade. Fora da criação, o artista tem a experimentar apenas a sua insignificância.
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Karl Kraus
Ainda não tentei, mas acho que para ler um romance eu precisaria primeiro encorajar-me e então fechar bem os olhos.
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Karl Kraus
Sentado de noite à escrivaninha, num estágio avançado de deleite intelectual, eu sentiria a presença de uma mulher como sendo algo mais incómodo do que a intervenção de um germanista no quarto de dormir.
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