Citações neste tema
Natureza e Elementos
William Shakespeare
Quão doce é o luar que repousa sobre esta margem! Aqui nos sentaremos e deixaremos os sons da música entrarem devagar nos nossos ouvidos: a suave quietude e a noite combinam-se com os toques de uma doce harmonia.
57
Karl Kraus
Conheci um cão que era tão grande quanto uma pessoa, tão ingénuo quanto uma criança e tão sábio quanto um ancião. O tempo que parecia ter era tanto que não caberia numa vida humana. Quando tomava sol e observava alguém enquanto isso, era como se quisesse dizer: “Porque têm tanta pressa?”. E certamente o diria; bastaria que se esperasse.
49
Karl Kraus
Woodie, um cãozinho de pelo comprido que conheci pessoalmente — ele ria quando as pessoas conversavam com ele e chorava porque não podia conversar com elas, e o seu olhar era em si e para elas a gratidão da criatura —, foi atropelado por um automóvel. Quem teria tanta pressa? Deveria o pouquinho de espaço entre os corpos humanos que um transeunte desses exigia — ele podia encolher-se como uma cobra — ser melhor empregado? Os dignos pagam para que os outros continuem vivendo indignamente. E para quê, afinal, já que esse exemplo não melhora os maus? Ele seguia o seu caminho e morreu por isso. Quando a mulher se voltou, ele jazia ao sol. Quando a vida não tem palavras, resta tanto silêncio.
70
Karl Kraus
O ser humano objeta ao cão o facto de buscar a sujeira. O que o desacredita ainda mais é o facto de buscar o ser humano. Em todo o caso, o cão dá provas da sua superioridade por não correr à Dreimäderlhaus.
73
Karl Kraus
Um poeta alemão chamou o barulho das metralhadoras de “música das esferas” e um poeta austríaco observou como “todos os caules estão em posição de sentido”. Se os poetas obedecerem dessa forma, o cosmos e a natureza começarão a rebelar-se.
69
Karl Kraus
Em torno da bela senhora, saltavam os cães como se fossem os pensamentos dele, e se deitavam aos pés dela como os desejos dele o faziam.
65
Karl Kraus
A mais dolorosa imagem da civilização: um leão que estava acostumado com o cativeiro é devolvido à selva e nela caminha de um lado para outro como se estivesse atrás das grades.
65
Karl Kraus
Nessa espelunca em que ladrões de cavalo húngaros trocam as suas hipóteses, nessa fumaceira de tabaco e usura, ouço subitamente entre teschek e betschkerek a palavra: Glaucope. Dita por um boca-aberta, mas com um efeito que me arrasta através dos milénios. Volto rapidamente a mim quando me ocorre que a deusa devia ser um cavalo de corrida.
62
Karl Kraus
O Sol tem visão de mundo. A Terra move-se. Contradições no artista são contradições no observador, que não experimenta o dia e a noite ao mesmo tempo.
68
Karl Kraus
Durante a semana, conseguimo-nos fechar para o mundo. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo de uma montanha ou dentro de um elevador.
79
Karl Kraus
Observei que as borboletas estão em extinção. Ou será que elas são vistas apenas pelas crianças? Quando eu tinha dez anos, convivia nos prados de Weidlingau exclusivamente com almirantes-vermelhos. Posso dizer que foi o convívio mais soberbo da minha vida. Antíopas, pavões-reais-diurnos e borboletas-limão também coloriam a vida da infância. Vanessa io, Vanessa cardui — vanitas vanitatum! Quando voltei depois de alguns anos, todas tinham desaparecido. O sol do meio-dia vibrava como antes, mas não se via nenhum fulgor colorido; em compensação, havia pedaços de jornal pelo prado. Mais tarde, fiquei a saber que a madeira dos bosques fora utilizada para produzir papel de impressão e que o excesso de informação não deixara muitas linhas para as borboletas. Um amigo do nosso jornal enviou-nos a última borboleta e um dos nossos colaboradores teve a oportunidade de a espetar na pena e lhe perguntar pelas causas da sua solidão. O mundo foge das cores da personalidade, as pessoas protegem-se ao organizarem-se. Apenas as borboletas deixaram de se organizar. É por isso que agora vemos redatores e folhetinistas iridescentes a bebericar nos cálices das flores. Mesmo as monótonas borboletas-da-couve, com as quais o jornalismo, graças a um certo parentesco, ainda poderia ter entrado num acordo, tiveram de fugir. A luta de extermínio contra as criaturas aladas significa o triunfo da cultura do jornal. As borboletas e as mulheres, a beleza e o espírito, a natureza e a arte passaram a sentir o facto de uma edição dominical ter cento e cinquenta páginas. A humanidade persegue as borboletas com matamoscas. Ela esfrega a poeira colorida dos dedos. Eles precisam de estar limpos para tocar na tinta de impressão.
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