Citações neste tema
Arte
Karl Kraus
Na arte, pode ser custoso distinguir a autenticidade do embuste. Reconhecemos o embuste, quando muito, pelo facto de exagerar a autenticidade. A autenticidade, quando muito, pelo facto de o público não se deixar enganar por ela.
76
Karl Kraus
Num escritor podemos observar sintomas que deixariam um grande negociante maduro para a internação.
62
Karl Kraus
O bom senso diz que “ainda acompanha” um artista até determinado ponto. O artista deveria recusar a companhia mesmo até aí.
78
Karl Kraus
Um excelente pianista, mas a sua execução precisa superar os arrotos da boa sociedade após um jantar.
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Karl Kraus
Pestes e terremotos são grandes temas. Como é mesquinho reconhecer dores articulares como sintomas da peste e se deter junto à turvação da água de uma fonte que indica um terremoto! Como é mesquinho sentir nojo do mundo quando passa um poetastro!
63
Karl Kraus
Um pintor inescrupuloso que, sob o pretexto de possuir uma mulher, a atrai ao seu ateliê e lá a retrata.
79
Karl Kraus
Subestimam o meu comodismo quando dizem que antipatias pessoais me levaram a declarar que determinado literato é um charlatão. Ora, não vou gastar o meu ódio para liquidar uma mediocridade literária!
64
Karl Kraus
Posso julgar o valor estético e cultural de um desfile ou de certa espécie de peças teatrais apenas quando não os assisti. Caso contrário, sucumbo a uma reação nervosa qualquer e falo das cores como faz o cego. A música suborna a crítica, e com que facilidade um repicar de sinos pode levar alguém a tolerar uma nulidade! Assim, para conservar um juízo objetivo, não posso deixar de ficar conscienciosamente longe do espetáculo.
62
Karl Kraus
Quão limitada é a perfeição, quão ralo o bosque, quão insípida a poesia! Aula prática para os limitados, os ralos e os insípidos.
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Karl Kraus
No começo era o exemplar para recensão, e alguém o recebeu da editora. Então escreveu uma recensão. Então escreveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como exemplar para recensão. O próximo que o recebeu fez o mesmo. Assim nasceu a literatura moderna.
64
Karl Kraus
Ficar triste da vida por haver encontrado no seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas a sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até às entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até ao instante em que ele dá a sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão da minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de o servir: assim pretende mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura a minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta das suas imperfeições, esse leitor considera que a sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem aos seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico aos meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade dos meus partos e a dificuldade do meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e divertem-se na sociedade. Eu divirto-me à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se esta ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
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Karl Kraus
Uma fábrica de guarda-chuvas expõe ao gosto público um cartaz que mostra Rómulo e Remo com guarda-chuvas abertos. Refleti muitas vezes sobre esse simbolismo. Sempre cheguei a essa mesma e triste explicação: em razão do mau tempo, a fundação de Roma foi suspensa.
71
Karl Kraus
Desde que maçãs podres serviram certa vez de estímulo no drama alemão, o público receia usá-las como meio de intimidação.
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Karl Kraus
O seu marido permite que ela faça teatro — a boemia não teria permitido que ela casasse. Portanto, na sociedade ainda há mais liberdade do que na boemia, que tem as suas normas imutáveis.
64
Karl Kraus
A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser meritório contar com o facto de que o céu é azul e o prado é verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um artista, diz a verdade.
72
Karl Kraus
O facto de um tema ser artístico não o deve prejudicar necessariamente junto do público. Superestima-se o público ao acreditar que ele leva a mal a excelência da representação. Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com tranquilidade coisas valiosas desde que o objecto casualmente corresponda a um interesse vulgar.
63
Karl Kraus
Uns acham isso belo, outros acham aquilo. Mas eles precisam “achá-lo”. Procurar ninguém quer.
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Karl Kraus
Antes os cenários eram de cartão e os atores eram de verdade. Agora os cenários são completamente convincentes, e os atores, de cartão.
62
Karl Kraus
O trabalho intelectual assemelha-se tanto ao acto da volúpia que nele também obedecemos, de maneira involuntária, à convenção da vida sexual. Agimos discretamente, e quando recebemos a visita de uma mulher durante o trabalho, não a deixamos entrar para evitar um encontro embaraçoso. O filisteu ocupa-se com uma mulher, o artista corteja uma obra.
67
Karl Kraus
Vi um poeta a correr atrás de uma borboleta num relvado. Pôs a rede sobre um banco em que um rapaz lia um livro. É uma infelicidade que normalmente seja o contrário.
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Karl Kraus
O imitador segue os passos do original e espera que em algum momento o segredo da originalidade lhe seja revelado. Porém, quanto mais se aproxima dele, tanto mais se afasta da possibilidade de aproveitá-lo.
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Karl Kraus
A linguagem é o material do artista literário; porém, ela não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusivamente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeitamente para os pensamentos que têm para comunicar entre si. É permitido lambuzar as nossas roupas sem cessar com tinta a óleo?
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