Citações neste tema
Cidade e Cotidiano
Karl Kraus
Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele poderia responder: “Isto serve para ter em conta o senso de beleza”. Se eu perguntasse a um catador de papéis quem é representado num monumento, ele poderia responder: “O homem fez algo pela educação”. Certo, isto são abominações da civilização. Mas com o tempo também ficámos fartos das vantagens dela que gozamos em Viena quando a estas perguntas recebemos sempre a mesma resposta: “Que te importam os frisos, seu fedelho imbecil!”.
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Karl Kraus
Às vezes lemos que uma cidade tem tantas centenas de milhares de “almas”, mas isso soa exagerado. Pela mesma razão, também se deveria romper finalmente com o sistema de recenseamento por “cabeças”. Mas não alimentaríamos mais desconfiança em relação à estatística das cifras gigantescas se uma outra parte do corpo fosse empregada como unidade de contagem. Ninguém mais poderia dizer que semelhante estimativa — no caso de uma metrópole como Viena, por exemplo — é exagerada. A assimilação e a eliminação do alimento são indiscutivelmente os interesses mais importantes que podem determinar a vida intelectual de uma população. Triste é apenas o facto de ela própria dominar tão mal aquilo que lhe é mais importante. A cultura dessa atividade vital não avança de forma alguma, e ainda que seja uma vantagem ser um bom garfo, não é vantagem alguma ser um garfo barulhento e se comportar de tal maneira que se ouçam os ruídos de bem-estar até no exterior.
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Karl Kraus
É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que as suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo facto de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir do seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errónea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Perante essa solidez que se mede em quilos, toda a imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.
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Karl Kraus
Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, encurralados entre pais que jogam cartas, mulheres que berram e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser tomados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento.
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