Citações neste tema
Literatura e Palavras
Mário Quintana
Estranho animal, o escriba, que lhe não basta ver, sentir... mas é-lhe preciso escrever isso tudo e outras coisas, para só então mais intensamente viver. Daí, o seu ar de sobrevivente. De quem ao mesmo tempo está e não está aqui. E, ao encontrar-te, ele sempre te estende a mão como em despedida, já com saudades de agora.
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Mário Quintana
Pensar nos leitores — ou num determinado leitor prejudica a naturalidade, de sorte que a única maneira de um autor não fazer pose é escrever para ninguém. E muito menos para si mesmo.
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Mário Quintana
Não deveria caber a um poeta o extrovertido e saltitante encargo de Relações-Públicas. E sim de Relações íntimas. Isto é, comunicação... a sós.
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Mário Quintana
É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.
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Mário Quintana
Com essa leitura dinâmica, decerto nem chegarão a me enxergar... Que sobrará de mim eu que só escrevo para os que gostam de ler nas entrelinhas? Que escrevo, como bem sabem os meus fregueses, apenas para os gulosos, e jamais para os glutões.
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Mário Quintana
O crítico é um camarada que contorna uma tapeçaria e vai olhá-la pelo lado avesso.
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Mário Quintana
A vida? Pode ser que seja um sonho. A poesia, não. A “possessão poética” não tem sentido passivo. É o mesmo que no palco: um ator, para bem desempenhar o papel de ébrio, deve estar inteiramente sóbrio.
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Mário Quintana
As rimas ricas acabaram morrendo por falta de recursos. Havia algumas que só eram quatro, o estritamente necessário para os dois quartetos do sonetista. Outras, nem isso... pobre do Emílio de Menezes! Creio que foi a mesma rimatite que esfrangalhou irremediavelmente os nervos de Edmond Rostand. Mas esse, ao menos, conseguiu executar soberbamente os seus números. E — acreditem — não morreu de entorse. Veio a morrer de tanto tour-de-force. Sob o aplauso entusiástico das arquibancadas.
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Mário Quintana
Clair de lune , chiaro de luna , claro de luna ... mas os franceses, os italianos e os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só?
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Mário Quintana
Os versos, em geral, são versos de embalar, como eu às vezes os tenho feito, não sei se por simples complacência... ou pura piedade. Contudo, os verdadeiros versos não são para embalar — mas para abalar. Mesmo a mais simples canção, quando a canta um Garcia Lorca, desperta-te a alma para um mundo de espanto.
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Mário Quintana
Boates, toaletes, quitinetes, ateliês, e assim por diante... E como essas palavras, universalmente usadas, ficam difíceis de reconhecer... E trotoar, como é possível fazer trotoar? Ah, trottoir... agora sim! E depois, se vamos aportuguesar desse modo todas as palavras estrangeiras, a gente acaba perdendo o pouco de cultura que ainda tem.
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Mário Quintana
Um poema que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
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Mário Quintana
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
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Mário Quintana
E esses que evitam cuidadosamente os “quês” (parece que o toque de caixa foi dado pelo velho Castilho) o que estão, afinal, é desossando este nosso rude e doloroso idioma... Um idioma durão!
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Mário Quintana
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
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Mário Quintana
Costumava-se distinguir entre creação e criação. Exemplo: a creação de um poema, a criação de galinhas. Era limpo e nítido. Nada de confusões. Mas agora que tudo é um, como diziam os clássicos, ficou irremediavelmente perdido o que escrevi, um dia: “Deus creou o mundo e o diabo criou o mundo.” E agora? Para explicar tudo isso em mais palavras o que seria um verdadeiro crime — imaginem os circunlóquios que eu teria de fazer... Não faço!
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Mário Quintana
Sempre achei que a semente de onde germina todo verdadeiro poema é uma interjeição. Isto é, um sentimento muito elementar, instintivo. Mas um sentimento, sempre. O eterno romantismo! E depois disto, minha filha, hás de sair dizendo por aí que o nome feio é a forma mais espontânea da poesia.
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Mário Quintana
— Mas por que falar em poesia concretista? Diga-se “concretismo”, apenas, e estará ressalvada a poesia.
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