Citações neste tema
Literatura e Palavras
Karl Kraus
Emerson: filosofia alemã que, ao ser transportada através dos mares, absorveu um tanto da sua humidade.
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Karl Kraus
O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com a sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em albanês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única premissa que o público não leva a mal, e um autor que humilha o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser recuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inteligente do que o autor culto, pois fica sabendo através da sua revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.
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Karl Kraus
Ficar triste da vida por haver encontrado no seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas a sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até às entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até ao instante em que ele dá a sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão da minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de o servir: assim pretende mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura a minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta das suas imperfeições, esse leitor considera que a sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem aos seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico aos meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade dos meus partos e a dificuldade do meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e divertem-se na sociedade. Eu divirto-me à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se esta ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
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Karl Kraus
Empregar palavras incomuns é um vício literário. Devemos colocar apenas dificuldades de pensamento no caminho do público.
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Karl Kraus
No começo era o exemplar para recensão, e alguém o recebeu da editora. Então escreveu uma recensão. Então escreveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como exemplar para recensão. O próximo que o recebeu fez o mesmo. Assim nasceu a literatura moderna.
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Karl Kraus
O facto de um tema ser artístico não o deve prejudicar necessariamente junto do público. Superestima-se o público ao acreditar que ele leva a mal a excelência da representação. Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com tranquilidade coisas valiosas desde que o objecto casualmente corresponda a um interesse vulgar.
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Karl Kraus
Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua a bater.
64
Karl Kraus
Um cérebro criativo também diz por conta própria aquilo que outro disse antes dele. Em compensação, outro pode imitar pensamentos que apenas mais tarde ocorrerão a um cérebro criativo.
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Karl Kraus
Tal como sempre surgem rostos novos, embora o conteúdo das pessoas pouco se distinga, assim deve haver sempre frases novas para o mesmo material intelectual. Isso dependerá do criador que tiver a capacidade de exprimir a mais ligeira nuance.
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Karl Kraus
Quando lemos um dos seus ensaios mitológico-políticos aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente necessário.
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Karl Kraus
Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas não volta à superfície. Fala sob a terra. Só o escuta quem também cava fundo.
79
Karl Kraus
O público não tolera qualquer coisa. Ele repele com indignação uma obra imoral quando percebe as suas intenções culturais.
63
Karl Kraus
Contar a piada inventada por uma pessoa engenhosa é o mesmo que apanhar uma seta do chão. A citação não diz como foi disparada.
76
Karl Kraus
Literatos alemães: os louros com que um sonha não deixam o outro dormir. Outro, por sua vez, sonha que os seus louros não deixam um outro dormir, e este não dorme porque o outro sonha com louros.
76
Karl Kraus
Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada dos meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu obedeço-lhe à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos obriga-me a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trémulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas fecha-lhe o útero.
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Karl Kraus
Oh deleite das experiências da língua, devorador da medula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento. O que foi que dobrou a esquina ali adiante? Ainda não divisada e já amada! Lança-me nessa aventura.
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Karl Kraus
Um bom autor sempre receará que o público perceba quais foram os pensamentos que lhe ocorreram tarde demais. Mas quanto a isso, o público é muito mais indulgente do que se acredita, e também não percebe os pensamentos que aí estão.
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Karl Kraus
Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos a estrear.
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Karl Kraus
O propósito do jovem Jean Paul era “escrever livros para poder comprar livros”. O propósito dos nossos jovens escritores é ganhar livros de presente para poder escrever livros.
78
Karl Kraus
Muitas vezes é difícil escrever um aforismo quando se é capaz de o fazer. Muito mais fácil é escrever um aforismo quando não se é capaz de o fazer.
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