Citações neste tema
Solidão
Friedrich Nietzsche
Não ouse roubar a minha solidão, se não fores capaz de me fazer real companhia.
66
Friedrich Nietzsche
E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
62
Friedrich Nietzsche
Se vivemos próximos demais a uma pessoa, é como se repetidamente tocássemos uma boa gravura com os dedos nus: um dia teremos nas mãos um sujo pedaço de papel, e nada além disso. Também a alma de uma pessoa, ao ser continuamente tocada, acaba por se desgastar; ao menos assim ela nos parece afinal — nunca mais vemos o seu desenho e a sua beleza originais. — Perde-se sempre no relacionamento íntimo demais com mulheres e amigos; às vezes perde-se a pérola da própria vida.
42
Friedrich Nietzsche
Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente elas são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma — e continua procurando para sempre.
44
Friedrich Nietzsche
Começa-se por desaprender de amar os outros e termina-se por não encontrar nada mais digno de amor em si mesmo.
53
William Shakespeare
Não há criatura que me ame; e se eu morrer, nenhuma alma terá pena de mim. Não, por que a teriam, já que eu mesmo não encontro em mim piedade por mim mesmo?
52
William Shakespeare
Tenho refletido sobre como posso comparar esta prisão que é minha vida com o mundo.
35
William Shakespeare
Pois onde tu estás, ali está o próprio mundo, e onde tu não estás, há desolação.
51
Karl Kraus
Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois neste verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, a minha misantropia degenerou gravemente.
65
Karl Kraus
Não tenho mais colaboradores. Tinha inveja deles. Eles afastam os leitores que eu mesmo quero perder.
57
Karl Kraus
Muitas pessoas com quem mantive contacto ao longo de uma vida variada têm algo contra mim, sabem algo contra mim. E há algo que também poderão provar contra mim: que mantive contacto com elas.
64
Karl Kraus
Durante a semana, conseguimo-nos fechar para o mundo. Mas há um sentimento dominical penetrante do qual não conseguimos escapar nem mesmo num porão, no topo de uma montanha ou dentro de um elevador.
79
Karl Kraus
Não basta à necessidade de solidão que se esteja sentado sozinho a uma mesa. Também precisa haver cadeiras vazias em volta. Quando o empregado de mesa tira uma dessas cadeiras nas quais não há ninguém sentado, sinto um vazio e a minha natureza sociável desperta. Não posso viver sem cadeiras vazias.
72
Karl Kraus
O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.
76
Karl Kraus
Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto delas. Com estas é ainda mais difícil de lidar. E, por fim, há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto de mim mesmo. Isso exige um cuidado especial. No entanto, já tenho uma rotina razoavelmente estabelecida e, pela maneira como não cumprimento, sei expressar de tal modo cada uma destas nuanças que não sou injusto com ninguém.
61
Karl Kraus
Antes um cavalo do campo se acostumar a um automóvel do que um passante da Ringstrasse se acostumar comigo. Pessoas assustadiças já provocaram muitos acidentes.
60
Karl Kraus
Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, encurralados entre pais que jogam cartas, mulheres que berram e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser tomados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento.
51
Karl Kraus
Somos cultos o bastante para evitar restaurantes que são “instituições de engorda”. Porém o pensamento de se deixar arrebatar às esferas celestes na companhia de mais quinhentas pessoas não perturba nenhum dos cultos frequentadores de concertos. Não me oponho a satisfazer as necessidades da vida junto com os meus concidadãos, mas a preço nenhum deste mundo gostaria de me encontrar com um único deles na ilha dos bem-aventurados.
67
Karl Kraus
Olho por uma janela e o horizonte é obstruído por uma cara de basbaque. Isto é trágico. Nada tenho contra o facto de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um porrete. Mas, em todo o caso, saímos prejudicados com a ilusão de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar a misantropia.
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