Poemas neste tema
Relações e Família
Edmir Domingues
Dístico para as portas do Recife
A quem vem se diga:
percorra a cidade
como quem afaga
o corpo despido
da mulher amada.
Que o faça pois com
carinho e cuidado.
percorra a cidade
como quem afaga
o corpo despido
da mulher amada.
Que o faça pois com
carinho e cuidado.
1 572
2
Nuno Júdice
Pedro e Inês
Desfizeram-se estrelas num azul de queixa;
choraram nebulosas nos fios do crepúsculo.
Para onde fogem os amantes mortos? Em que
eternidade repousam os cansados corpos?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 32 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
choraram nebulosas nos fios do crepúsculo.
Para onde fogem os amantes mortos? Em que
eternidade repousam os cansados corpos?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 32 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
2 117
2
Martha Medeiros
A fita métrica do amor
Como se mede uma pessoa?
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ela é enorme para você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado.
É pequena para você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto.
É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos e clichés.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições?
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.
Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.
Ela é enorme para você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado.
É pequena para você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.
Uma pessoa é gigante para você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto.
É pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos e clichés.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições?
Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.
Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.
2 365
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eis-Me
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente
3 103
2
Nuno Júdice
O amor, dizes-me
Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
suspenso dos gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o seu próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso deste sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzindo em
breves palavras a sua silenciosa verdade.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 17 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
suspenso dos gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o seu próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso deste sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzindo em
breves palavras a sua silenciosa verdade.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 17 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 651
2
Florbela Espanca
O Meu Soneto
Em atitudes e em ritmos fleumáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos os brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos...
E os meus olhos serenos, enigmáticos,
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos...
As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d’amor trazem de rastos...
E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!...
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos os brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos...
E os meus olhos serenos, enigmáticos,
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos...
As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d’amor trazem de rastos...
E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!...
2 865
2
José Tolentino Mendonça
A Ciência do Amor
O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria
Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam
Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria
Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam
Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam
2 469
2
Nuno Júdice
Amor com figura metafórica
As tuas mãos pousadas na baça memória
da mesa, abertas no rasgão fulvo da tarde, e soltas
à luz que te salta dos olhos: como as lembro,
presas nos dedos da vida, e de súbito rompendo
a incerteza de palavras inúteis!, as tuas mãos
que se levantam deste silêncio, desta pausa
do mundo, e emprestam à pedra a sua forma,
agarram-me, puxando-me para o corpo ausente
no corpo da noite. Como se essas mãos me
ensinassem o caminho dos rios, ao encontro de águas
opostas no mais largo dos estuários, bebo
por elas o líquido fresco do início. Toco o seu
fundo mais seco com os lábios; e sigo as
suas linhas até esse prado onde pastam os
rebanhos da alma. Ouço os seus passos
contrários nos caminhos da terra. Acompanho
a sua obstinação por entre chávenas e copos,
até esse rebordo onde pousaste o braço
numa hesitação de abraço. Deixo-me guiar
por um pastor de sombra, esperando
que o sol as limpe do teu rosto. Aprendo
contigo um rumo de conchas e fendas,
uma permanência de margens de algas. Perco-me
na pensativa pose da tua melancolia,
no sorriso de anjo inquieto que me
emprestas. Quando o devolverei? Em que casulo
de secreta agonia?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", pág. 122 | Quetzal Editores, Lisboa, 1999
da mesa, abertas no rasgão fulvo da tarde, e soltas
à luz que te salta dos olhos: como as lembro,
presas nos dedos da vida, e de súbito rompendo
a incerteza de palavras inúteis!, as tuas mãos
que se levantam deste silêncio, desta pausa
do mundo, e emprestam à pedra a sua forma,
agarram-me, puxando-me para o corpo ausente
no corpo da noite. Como se essas mãos me
ensinassem o caminho dos rios, ao encontro de águas
opostas no mais largo dos estuários, bebo
por elas o líquido fresco do início. Toco o seu
fundo mais seco com os lábios; e sigo as
suas linhas até esse prado onde pastam os
rebanhos da alma. Ouço os seus passos
contrários nos caminhos da terra. Acompanho
a sua obstinação por entre chávenas e copos,
até esse rebordo onde pousaste o braço
numa hesitação de abraço. Deixo-me guiar
por um pastor de sombra, esperando
que o sol as limpe do teu rosto. Aprendo
contigo um rumo de conchas e fendas,
uma permanência de margens de algas. Perco-me
na pensativa pose da tua melancolia,
no sorriso de anjo inquieto que me
emprestas. Quando o devolverei? Em que casulo
de secreta agonia?
Nuno Júdice | "Teoria Geral do Sentimento", pág. 122 | Quetzal Editores, Lisboa, 1999
2 252
2
Florbela Espanca
Mentiras
“Ai quem me dera
uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!”
J. Dantas
Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?
Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito...
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!”
J. Dantas
Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?
Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito...
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
3 727
2
Florbela Espanca
Mentiras
“Ai quem me dera
uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!”
J. Dantas
Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?
Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito...
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!”
J. Dantas
Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?
Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito...
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
3 727
2
Fernando Pessoa
AVE-MARIA [2]
À minha mãe
Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura!
Vós que sois cheia de graça,
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa!
O Senhor, que é vosso filho,
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho.
Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra;
E vossa alma só encerra
Doce imagem de alegria!
Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!
Gloriosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus
Velai por mim cada dia!
Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores!
Orai agora, oh Mãe querida,
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida!
Avé Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.
Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura!
Vós que sois cheia de graça,
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa!
O Senhor, que é vosso filho,
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho.
Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra;
E vossa alma só encerra
Doce imagem de alegria!
Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!
Gloriosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus
Velai por mim cada dia!
Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores!
Orai agora, oh Mãe querida,
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida!
Avé Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.
3 698
2
Bruno Kampel
O convite
Se vieres...
...esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço
sobre-humano
uma estrada
e seu atalho
uma valsa
e seu compasso
uma dança
na esperança
de que a noite
cheire a vinho
e tenha gosto
e que o encontro
seja um pacto
e tenha essência.
Se quiseres...
...esta noite teremos
nossa pele
dedilhando suores
nossas mãos
visitando os calores
nossas bocas
cheirando sabores
nossa urgência
implorando favores
nossa cama
hospedando os clamores
nossos ais
declamando os ardores
nosso amor
desenhando os louvores.
Se deixares...
...esta noite veremos
os silêncios cantando
sem palavras
os poemas tremendo
de alegria
as estrelas gemendo
sem vergonha
a emoção delirando
docemente
a canção galopando
sem arreios
a ternura gerando
gestos quentes
eloquentes
dementes
frementes
urgentes.
Se pedires...
...esta noite
será então
um planeta
sem fronteiras
a pergunta
e a resposta
um delírio
sem limites
dois amantes
e seus jogos
o desejo
realizado
um encontro
de mutantes
sem idade
procurando
sem receio
prometendo
sem descanso
conjugando
grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua
e sua esquina
uma noite
ensolarada
o deserto
e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.
Esta noite
então...
se vieres
e quiseres...
se deixares
e pedires...
...esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço
sobre-humano
uma estrada
e seu atalho
uma valsa
e seu compasso
uma dança
na esperança
de que a noite
cheire a vinho
e tenha gosto
e que o encontro
seja um pacto
e tenha essência.
Se quiseres...
...esta noite teremos
nossa pele
dedilhando suores
nossas mãos
visitando os calores
nossas bocas
cheirando sabores
nossa urgência
implorando favores
nossa cama
hospedando os clamores
nossos ais
declamando os ardores
nosso amor
desenhando os louvores.
Se deixares...
...esta noite veremos
os silêncios cantando
sem palavras
os poemas tremendo
de alegria
as estrelas gemendo
sem vergonha
a emoção delirando
docemente
a canção galopando
sem arreios
a ternura gerando
gestos quentes
eloquentes
dementes
frementes
urgentes.
Se pedires...
...esta noite
será então
um planeta
sem fronteiras
a pergunta
e a resposta
um delírio
sem limites
dois amantes
e seus jogos
o desejo
realizado
um encontro
de mutantes
sem idade
procurando
sem receio
prometendo
sem descanso
conjugando
grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua
e sua esquina
uma noite
ensolarada
o deserto
e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.
Esta noite
então...
se vieres
e quiseres...
se deixares
e pedires...
996
2
Bruno Kampel
O convite
Se vieres...
...esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço
sobre-humano
uma estrada
e seu atalho
uma valsa
e seu compasso
uma dança
na esperança
de que a noite
cheire a vinho
e tenha gosto
e que o encontro
seja um pacto
e tenha essência.
Se quiseres...
...esta noite teremos
nossa pele
dedilhando suores
nossas mãos
visitando os calores
nossas bocas
cheirando sabores
nossa urgência
implorando favores
nossa cama
hospedando os clamores
nossos ais
declamando os ardores
nosso amor
desenhando os louvores.
Se deixares...
...esta noite veremos
os silêncios cantando
sem palavras
os poemas tremendo
de alegria
as estrelas gemendo
sem vergonha
a emoção delirando
docemente
a canção galopando
sem arreios
a ternura gerando
gestos quentes
eloquentes
dementes
frementes
urgentes.
Se pedires...
...esta noite
será então
um planeta
sem fronteiras
a pergunta
e a resposta
um delírio
sem limites
dois amantes
e seus jogos
o desejo
realizado
um encontro
de mutantes
sem idade
procurando
sem receio
prometendo
sem descanso
conjugando
grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua
e sua esquina
uma noite
ensolarada
o deserto
e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.
Esta noite
então...
se vieres
e quiseres...
se deixares
e pedires...
...esta noite seremos
um canto gregoriano
o azul mediterrâneo
um esforço
sobre-humano
uma estrada
e seu atalho
uma valsa
e seu compasso
uma dança
na esperança
de que a noite
cheire a vinho
e tenha gosto
e que o encontro
seja um pacto
e tenha essência.
Se quiseres...
...esta noite teremos
nossa pele
dedilhando suores
nossas mãos
visitando os calores
nossas bocas
cheirando sabores
nossa urgência
implorando favores
nossa cama
hospedando os clamores
nossos ais
declamando os ardores
nosso amor
desenhando os louvores.
Se deixares...
...esta noite veremos
os silêncios cantando
sem palavras
os poemas tremendo
de alegria
as estrelas gemendo
sem vergonha
a emoção delirando
docemente
a canção galopando
sem arreios
a ternura gerando
gestos quentes
eloquentes
dementes
frementes
urgentes.
Se pedires...
...esta noite
será então
um planeta
sem fronteiras
a pergunta
e a resposta
um delírio
sem limites
dois amantes
e seus jogos
o desejo
realizado
um encontro
de mutantes
sem idade
procurando
sem receio
prometendo
sem descanso
conjugando
grito e eco
olho e brilho
dia e lua
uma rua
e sua esquina
uma noite
ensolarada
o deserto
e seus camelos
vela e vento
cruz e espada.
Esta noite
então...
se vieres
e quiseres...
se deixares
e pedires...
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2
Fernando Pessoa
O moinho de café
O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh’alma é
Moeu quem me deixa só.
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh’alma é
Moeu quem me deixa só.
6 946
2
Florbela Espanca
Filhos
À Exma. Sra. D. Glória Lomba
Filhos são as nossas almas
Desabrochadas em flores;
Filhos, estrelas caídas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilreiam
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aguenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p’los filhos seus!
Filhos! Na su’alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...
Filhos são as nossas almas
Desabrochadas em flores;
Filhos, estrelas caídas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilreiam
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aguenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p’los filhos seus!
Filhos! Na su’alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...
4 905
2
Florbela Espanca
Filhos
À Exma. Sra. D. Glória Lomba
Filhos são as nossas almas
Desabrochadas em flores;
Filhos, estrelas caídas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilreiam
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aguenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p’los filhos seus!
Filhos! Na su’alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...
Filhos são as nossas almas
Desabrochadas em flores;
Filhos, estrelas caídas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilreiam
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aguenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p’los filhos seus!
Filhos! Na su’alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...
4 905
2
Florbela Espanca
Filhos
À Exma. Sra. D. Glória Lomba
Filhos são as nossas almas
Desabrochadas em flores;
Filhos, estrelas caídas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilreiam
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aguenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p’los filhos seus!
Filhos! Na su’alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...
Filhos são as nossas almas
Desabrochadas em flores;
Filhos, estrelas caídas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilreiam
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aguenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p’los filhos seus!
Filhos! Na su’alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...
4 905
2
Florbela Espanca
Verdades Cruéis
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
3 064
2
Florbela Espanca
Verdades Cruéis
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
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Florbela Espanca
Verdades Cruéis
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
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Florbela Espanca
Noite de Chuva
Chuva... Que gotas grossas! ... Vem ouvir:
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu...
Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frêmito... a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...
Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...
Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu...
Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frêmito... a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...
Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...
Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!
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Florbela Espanca
As Quadras D’Ele Iii
[1]
Há em tudo quanto fitas
Pureza igual à dos céus,
Até são belos meus olhos
Quando lá poisam os teus!
[2]
Que filtro embriagante
Me deste tu a beber?
Até me esqueço de mim
E não te posso esquecer!...
[3]
Está tudo quanto olho
Na ’scuridão mais intensa,
Faltou de teus olhos lindos
A luz profunda e imensa...
[4]
Viver sozinha no mundo
É a minha triste sorte.
Ai quem me dera trocá-la
Embora fosse p’la morte!
[5]
Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.
[6]
Quando um peito amargurado
Adora seja quem for,
Por muito infame que seja
Bendito seja esse amor!
[7]
Tenho por ti uma paixão
Tão forte e acrisolada,
Que até adoro a saudade
Quando por ti é causada.
[8]
Às vezes quando anoitece
Cai em meu peito tal mágoa!...
Quero cantar. E num instante
Sinto os olhos rasos d’água!
[9]
Quando me não quiseres mais
Mata-me por piedade!
Deixares-me a vida, sem ti
É bem maior crueldade!
[10]
Queria ser a erva humilde
Que pisasses algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.
[11]
Há beijos na tua boca
Pode colhê-los quem quer.
Só eu não posso. Vê tu
Que desgraçada mulher!
[12]
Quem me dera um coração
Que por mim bata somente.
Dai-me essa esmola, Senhor,
Para que eu morra contente.
[13]
Há no fado das vielas
Notas tão sentimentais,
Tão delicadas, tão belas,
Que não s’esquecem jamais!
[14]
Andam teus olhos de luto;
Sempre eles de negro andaram,
Pelas feridas que fizeram
Pelas mortes que causaram.
[15]
Olhos negros, noite infinda
Sede meu norte, meu guia,
Ó noite escura e bendita
Sê o meu sol, o meu dia!
[16]
Gosto imenso dumas flores
Muito escuras, quase pretas,
Modestas, lindas graciosas
Que se chamam violetas.
Por isso quando eu morrer,
Em prova do teu amor
Inunda de violetas
O caixão aonde eu for.
[17]
Não sei que têm meus versos;
Alegres quero fazê-los
Mas ficam-me sempre tristes
Como a cor dos teus cabelos.
Há em tudo quanto fitas
Pureza igual à dos céus,
Até são belos meus olhos
Quando lá poisam os teus!
[2]
Que filtro embriagante
Me deste tu a beber?
Até me esqueço de mim
E não te posso esquecer!...
[3]
Está tudo quanto olho
Na ’scuridão mais intensa,
Faltou de teus olhos lindos
A luz profunda e imensa...
[4]
Viver sozinha no mundo
É a minha triste sorte.
Ai quem me dera trocá-la
Embora fosse p’la morte!
[5]
Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.
[6]
Quando um peito amargurado
Adora seja quem for,
Por muito infame que seja
Bendito seja esse amor!
[7]
Tenho por ti uma paixão
Tão forte e acrisolada,
Que até adoro a saudade
Quando por ti é causada.
[8]
Às vezes quando anoitece
Cai em meu peito tal mágoa!...
Quero cantar. E num instante
Sinto os olhos rasos d’água!
[9]
Quando me não quiseres mais
Mata-me por piedade!
Deixares-me a vida, sem ti
É bem maior crueldade!
[10]
Queria ser a erva humilde
Que pisasses algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.
[11]
Há beijos na tua boca
Pode colhê-los quem quer.
Só eu não posso. Vê tu
Que desgraçada mulher!
[12]
Quem me dera um coração
Que por mim bata somente.
Dai-me essa esmola, Senhor,
Para que eu morra contente.
[13]
Há no fado das vielas
Notas tão sentimentais,
Tão delicadas, tão belas,
Que não s’esquecem jamais!
[14]
Andam teus olhos de luto;
Sempre eles de negro andaram,
Pelas feridas que fizeram
Pelas mortes que causaram.
[15]
Olhos negros, noite infinda
Sede meu norte, meu guia,
Ó noite escura e bendita
Sê o meu sol, o meu dia!
[16]
Gosto imenso dumas flores
Muito escuras, quase pretas,
Modestas, lindas graciosas
Que se chamam violetas.
Por isso quando eu morrer,
Em prova do teu amor
Inunda de violetas
O caixão aonde eu for.
[17]
Não sei que têm meus versos;
Alegres quero fazê-los
Mas ficam-me sempre tristes
Como a cor dos teus cabelos.
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Florbela Espanca
Minha Terra
A. J. Emídio Amaro
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa...
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu...
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada...
Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite...
Terra, quero dormir... dá-me pousada!
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa...
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu...
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada...
Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite...
Terra, quero dormir... dá-me pousada!
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Florbela Espanca
Minha Terra
A. J. Emídio Amaro
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa...
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu...
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada...
Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite...
Terra, quero dormir... dá-me pousada!
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa...
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu...
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada...
Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite...
Terra, quero dormir... dá-me pousada!
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