Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Eduardo Pitta
Está um rapaz a arder
Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
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1
Eduardo Pitta
Está um rapaz a arder
Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.
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1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema
Tu és bela, minha amiga, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
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Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema
Tu és bela, minha amiga, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
981
1
João Rasteiro
Deus, ecce deus
“Penso no que o medo vai ter
e tenho medo que é justamente
o que o medo quer”
Alexandre O’Neill
Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca a rosa.
*
Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.
*
À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?
*
Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!
Março, 2020
e tenho medo que é justamente
o que o medo quer”
Alexandre O’Neill
Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca a rosa.
*
Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.
*
À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?
*
Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!
Março, 2020
660
1
João Rasteiro
Deus, ecce deus
“Penso no que o medo vai ter
e tenho medo que é justamente
o que o medo quer”
Alexandre O’Neill
Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca a rosa.
*
Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.
*
À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?
*
Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!
Março, 2020
e tenho medo que é justamente
o que o medo quer”
Alexandre O’Neill
Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca a rosa.
*
Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.
*
À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?
*
Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!
Março, 2020
660
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Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema
Ouço o meu amado.
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
1 156
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema
Ouço o meu amado.
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
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1
Reynaldo Bessa
como figurinhas coladas
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
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Reynaldo Bessa
como figurinhas coladas
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
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Matilde Campilho
Quando (A) E (B) Se Sentam No Degrau da Banca de Jornal Para Conversar Sobre Pormenores Supradimensionados
A: estava chovendo.
B: você jura?
A: estava chovendo.
B: mas não era preciso.
A: estava chovendo.
B: tem certeza?
A: escute, quando chove
todo mundo escorrega.
B: se machucou?
A: não muito, não.
B: mas era necessário?
A: estava chovendo.
B: em março sempre acontece.
A: eu escorreguei.
B: que bom que não se machucou.
A: não muito, não.
B: porque fez isso?
A: foi só uma vez.
B: não acha meio despropositado?
A: só liguei uma vez.
B: já passou tanto tempo.
A: acho que, quando a gente telefona
fora de época, é porque está dando
uma ligadinha para o passado. não
para a pessoa realmente.
B: foi porque estava chovendo?
A: em março sempre acontece.
B: conseguiu falar?
A: deixei recado: “alô, é do passado?
queria pedir uma pizza, por gentileza.”
B: atendeu?
A: estava chovendo.
B: mas…
A: não atendeu, ainda bem. eu
nem gosto mais de pizza.
B: vá para dentro, você vai pegar
um resfriado.
A: parou de chover.
B: você jura?
A: estava chovendo.
B: mas não era preciso.
A: estava chovendo.
B: tem certeza?
A: escute, quando chove
todo mundo escorrega.
B: se machucou?
A: não muito, não.
B: mas era necessário?
A: estava chovendo.
B: em março sempre acontece.
A: eu escorreguei.
B: que bom que não se machucou.
A: não muito, não.
B: porque fez isso?
A: foi só uma vez.
B: não acha meio despropositado?
A: só liguei uma vez.
B: já passou tanto tempo.
A: acho que, quando a gente telefona
fora de época, é porque está dando
uma ligadinha para o passado. não
para a pessoa realmente.
B: foi porque estava chovendo?
A: em março sempre acontece.
B: conseguiu falar?
A: deixei recado: “alô, é do passado?
queria pedir uma pizza, por gentileza.”
B: atendeu?
A: estava chovendo.
B: mas…
A: não atendeu, ainda bem. eu
nem gosto mais de pizza.
B: vá para dentro, você vai pegar
um resfriado.
A: parou de chover.
1 587
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema
Sou morena mas bela, ó raparigas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
702
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema
Sou morena mas bela, ó raparigas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
702
1
Matilde Campilho
Coqueiral
A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca
E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão — terno é o seu rosto
Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca
E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão — terno é o seu rosto
Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.
1 117
1
Martim Codax
Eno Sagrado Em Vigo
Eno sagrado em Vigo
bailava corpo velido.
Amor hei!
Em Vigo, no sagrado
bailava corpo delgado.
Amor hei!
Bailava corpo velido
que nunc'houver'amigo.
Amor hei!
Bailava corpo delgado
que nunc'houver'amado.
Amor hei!
Que nunc'houver'amigo
ergas no sagrad'em Vigo.
Amor hei!
Que nunc'houver'amado
ergas em Vigo no sagrado.
Amor hei!
bailava corpo velido.
Amor hei!
Em Vigo, no sagrado
bailava corpo delgado.
Amor hei!
Bailava corpo velido
que nunc'houver'amigo.
Amor hei!
Bailava corpo delgado
que nunc'houver'amado.
Amor hei!
Que nunc'houver'amigo
ergas no sagrad'em Vigo.
Amor hei!
Que nunc'houver'amado
ergas em Vigo no sagrado.
Amor hei!
1 244
1
Herberto Helder
I A
A uma devagarosa mulher com a boca
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
1 157
1
Martim Codax
Quantas Sabedes Amar Amigo
Quantas sabedes amar amigo,
treides comig'a lo mar de Vigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Quantas sabedes amar amado,
treides comig' a lo mar levado
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar de Vigo
e veeremo' lo meu amigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar levado
e veeremo' lo meu amado
e banhar-nos-emos nas ondas.
treides comig'a lo mar de Vigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Quantas sabedes amar amado,
treides comig' a lo mar levado
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar de Vigo
e veeremo' lo meu amigo
e banhar-nos-emos nas ondas.
Treides comig' a lo mar levado
e veeremo' lo meu amado
e banhar-nos-emos nas ondas.
1 087
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Conclusão
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
518
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Conclusão
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
518
1
Matilde Campilho
M
Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá para ver que o mundo é muito feito de construções de papel — celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefônica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas. Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes úmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todas as coisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche. Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem a carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
1 705
1
Pedro Amigo de Sevilha
Amiga, Muit'amigos Som
Amiga, muit'amigos som
muitos no mundo por filhar
amigas, polas muit'amar;
ma[i]s já Deus nunca mi perdom
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Pode voss'amigo dizer,
amiga, ca vos quer gram bem
e quer-vo-lo; mais eu por en
nunca veja do meu prazer
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Vi-m'eu com estes olhos meus
amigo d'amiga que lh'é
muit'amigo, per bõa fé;
mais nom mi valha nunca Deus
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
muitos no mundo por filhar
amigas, polas muit'amar;
ma[i]s já Deus nunca mi perdom
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Pode voss'amigo dizer,
amiga, ca vos quer gram bem
e quer-vo-lo; mais eu por en
nunca veja do meu prazer
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
Vi-m'eu com estes olhos meus
amigo d'amiga que lh'é
muit'amigo, per bõa fé;
mais nom mi valha nunca Deus
se nunca eu vi tam amigo
d'amiga come meu amigo.
681
1
Eduardo Pitta
Toda a noite a luz multiplicou
Toda a noite a luz multiplicou
o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.
Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.
o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.
Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.
998
1
Mário de Sá-Carneiro
Rodopio
Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d’oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas —
Um lenço, fitas, dedais…)
Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas —
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d’oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas —
Um lenço, fitas, dedais…)
Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas —
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
298
1
Mário de Sá-Carneiro
Rodopio
Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d’oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas —
Um lenço, fitas, dedais…)
Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas —
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d’oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas —
Um lenço, fitas, dedais…)
Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas —
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
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