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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema

Tu és bela, minha amiga, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.

Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.

Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.

São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.

Coro das raparigas de Jerusalém

Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?

Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.

Coro das raparigas de Jerusalém

Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.

Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?

Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.

Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.

Um rei está fascinado pela tua cabeleira.

Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.

Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.

E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.

— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.

As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.

Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema

Tu és bela, minha amiga, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.

Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.

Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.

São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.

Coro das raparigas de Jerusalém

Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?

Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.

Coro das raparigas de Jerusalém

Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.

Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?

Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.

Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.

Um rei está fascinado pela tua cabeleira.

Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.

Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.

E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.

— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.

As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.

Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema

Ouço o meu amado.
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.

Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»

Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.

— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.

Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.

O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.

De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.

Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.

— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
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Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema

Ouço o meu amado.
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.

Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»

Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.

— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.

Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.

O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.

De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.

Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.

— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
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Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema

Sou morena mas bela, ó raparigas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.

Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.

Coro das raparigas de Jerusalém

Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.

Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.

Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.

Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.

Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.

As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.

Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.

Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.

Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.

Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.

— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema

Sou morena mas bela, ó raparigas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.

Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.

Coro das raparigas de Jerusalém

Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.

Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.

Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.

Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.

Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.

As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.

Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.

Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.

Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.

Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.

— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.

O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.

— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

M

Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá para ver que o mundo é muito feito de construções de papel — celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefônica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas. Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você tem um dedo em mim, porque para chegar no telhado do aqueduto é preciso percorrer a estreita escadaria de pedra e é impossível não esfregar as costas nas paredes úmidas. Porque atingir o ponto de rebuçado significa simplesmente abandonar todas as coisas e dedicar-se só à concentração, mesmo que todas as coisas sejam um olho preto e um olho castanho e sua dissociação seja a possível causa para a avalanche. Porque a palavra Bushboy não existia até aqui mas agora sim, porque fazer equilibrismo sobre a corda amarela dentro do apartamento é tudo o que já imaginávamos que ia ser, mesmo antes de acontecer. Porque no interior do pulmão do cervo tem a carne que brilha, brilha tanto como o sol que se espelha na ponta da seta. Porque acreditamos, você e eu, que a razão final é que a erva cresça muito acima de nossas cabeças.
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