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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Georges Brassens

Georges Brassens

O malandro arrependido

Ela tinha uma cintura bem torneada
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.

Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.

Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,

Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.

Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.

Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?

Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.

Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.

Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!

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Rosy Feros

Rosy Feros

Dedos do silêncio

Vem...
     Me toma à beira da noite,
     caminha por mim
     com seus passos molhados,
     despeja seu rio no meu cálice
     – pois minha emoção é só água.

Vem...
     Que eu lhe dou um trago
     deste meu vinho guardado,
     destas minhas uvas
     frescas de inverno...
     Que eu derramo em gotas meu perfume
     pelos quatro cantos do seu corpo,
     vestindo sua pele com a camurça
     da nudez e do silêncio.

Vem...
     Deita e me canta,
     sente meu desejo
     se esgueirando pelos seus dedos,
     veleja sem bússola
     pelos meus sentidos,
     me olha como quem pede lua...

     Deixa eu sussurrar minhas folhas,
     soprar minhas pétalas
     pelo seu peito de relva,
     pelo seu solo macio.
     Vem... Não volta,
     esquece a hora morta
     do cotidiano de sempre.
     Me toca feito música
     e deixa eu cantar meu bolero
     pelas suas curvas de carne...

     Sinto-me inocência
     passeando por suas alturas,
     por seus andares cheios
     da mais noturna noite densa.

     Desvenda essa face molhada
     e me mostra a sua vertente original
     de emoção-fêmea pura...
     Que eu o espero na branca paz
     do meu ventre adormecido,
     dos meus braços plenos
     de fogueiras e cantigas.

Vem...
     Que eu desfolho
     toda essa sua vontade nua,
     que eu desperto
     todo esse seu lado cigano...
     pois o meu leite é morno
     e é rosa franca meu sorriso.
     Deixa seu barco
     navegar pelo meu leito,
     que eu carrego no peito a ânsia
     de hastear a bandeira do infinito...

Vem...
     Deita... Me namora...
     Me afoga no espelho de luz
     dessa madrugada afora,
     me diz que no nosso tempo
     não há tempo nem hora,
     que eu não agüento
     a flor do sexo que arde
     nas entranhas de mim...

     Deixa que eu amanheça
     na espuma dessa sua onda quente,
     deixa sua emoção fluir
     da garganta num repente...
     Que eu carrego nos olhos de relento
     a voz que lhe pede a terra
     e que lhe entrega o mar.

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Rosy Feros

Rosy Feros

Dedos do silêncio

Vem...
     Me toma à beira da noite,
     caminha por mim
     com seus passos molhados,
     despeja seu rio no meu cálice
     – pois minha emoção é só água.

Vem...
     Que eu lhe dou um trago
     deste meu vinho guardado,
     destas minhas uvas
     frescas de inverno...
     Que eu derramo em gotas meu perfume
     pelos quatro cantos do seu corpo,
     vestindo sua pele com a camurça
     da nudez e do silêncio.

Vem...
     Deita e me canta,
     sente meu desejo
     se esgueirando pelos seus dedos,
     veleja sem bússola
     pelos meus sentidos,
     me olha como quem pede lua...

     Deixa eu sussurrar minhas folhas,
     soprar minhas pétalas
     pelo seu peito de relva,
     pelo seu solo macio.
     Vem... Não volta,
     esquece a hora morta
     do cotidiano de sempre.
     Me toca feito música
     e deixa eu cantar meu bolero
     pelas suas curvas de carne...

     Sinto-me inocência
     passeando por suas alturas,
     por seus andares cheios
     da mais noturna noite densa.

     Desvenda essa face molhada
     e me mostra a sua vertente original
     de emoção-fêmea pura...
     Que eu o espero na branca paz
     do meu ventre adormecido,
     dos meus braços plenos
     de fogueiras e cantigas.

Vem...
     Que eu desfolho
     toda essa sua vontade nua,
     que eu desperto
     todo esse seu lado cigano...
     pois o meu leite é morno
     e é rosa franca meu sorriso.
     Deixa seu barco
     navegar pelo meu leito,
     que eu carrego no peito a ânsia
     de hastear a bandeira do infinito...

Vem...
     Deita... Me namora...
     Me afoga no espelho de luz
     dessa madrugada afora,
     me diz que no nosso tempo
     não há tempo nem hora,
     que eu não agüento
     a flor do sexo que arde
     nas entranhas de mim...

     Deixa que eu amanheça
     na espuma dessa sua onda quente,
     deixa sua emoção fluir
     da garganta num repente...
     Que eu carrego nos olhos de relento
     a voz que lhe pede a terra
     e que lhe entrega o mar.

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