Vida e Existência
Nuno Júdice
Poema (arredores)
dos ossos, em contraste com a terra argilosa,
com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar
leite, papel, cal,
e também as tuas mãos - frias. Bebo o seu brilho
numa nocturna memória. Uma contaminação de corpos
não reduz a minha solidão; nem a música,
nem o riso, nem o vinho. Lágrimas
numa plenitude de idade. O amor era uma paisagem. A voz
fundia-se numa perspectiva de vento. Palavras perdidas
como coisas, a travessia da tua pele num barco de lábios,
o traçado obscuro dos epitáfios da alma. Caminho
para te dizer uma determinação de sentido,
um destino ignorante dos fragmentos passados em que surges,
de pé, contra a janela, recebendo no rosto a luz
da primavera - imagem
póstuma em que te encontro triste,
e o teu sorriso me faz desejar a morte.
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972-1985", pag. 252 | Quetzal Editores, 1999
Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética I
A loja dos barros fica numa pequena rua do outro lado da praça. Fica depois da taberna fresca e da oficina escura do ferreiro.
Entro na loja dos barros. A mulher que os vende é pequena e velha, vestida de preto. Está em frente de mim rodeada de ânforas. À direita e à esquerda o chão e as prateleiras estão cobertos de louças alinhadas, empilhadas e amontoadas: pratos, bilhas, tigelas, ânforas. Há duas espécies de barro: barro cor-de-rosa pálido e barro vermelho-escuro. Barro que desde tempos imemoriais os homens aprenderam a modelar numa medida humana. Formas que através dos séculos vêm de mão em mão. A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor. Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar o olhar.
A beleza da ânfora de barro pálido é tão evidente, tão certa que não pode ser descrita. Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual ela não pode ser separada. Não falo de uma beleza estética mas sim de uma beleza poética.
Olho para a ânfora: quando a encher de água ela me dará de beber. Mas já agora ela me dá de beber. Paz e alegria, deslumbramento de estar no mundo, religação.
Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.
Olho para a ânfora igual a todas as outras ânforas, a ânfora inumeravelmente repetida mas que nenhuma repetição pode aviltar porque nela existe um princípio incorruptível.
Porém, lá fora na rua, sob o peso do mesmo sol, outras coisas me são oferecidas. Coisas diferentes. Não têm nada de comum nem comigo nem com o sol. Vêm de um mundo onde a aliança foi quebrada. Mundo que não está religado nem ao sol nem à lua, nem a Ísis, nem a Deméter, nem aos astros, nem ao eterno. Mundo que pode ser um habitat mas não é um reino.
O reino agora é só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece.
Este é o reino que buscamos nas praias de mar verde, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do orégão. Semelhante ao corpo de Orpheu dilacerado pelas fúrias este reino está dividido. Nós procuramos reuni-lo, procuramos a sua unidade, vamos de coisa em coisa.
É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade.
Notas: Arte Poética I foi publicado pela primeira vez na revista "Távola Redonda", Dezembro 1962. Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em "Geografia", 1967
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sacode As Nuvens Que Te Poisam Nos Cabelos
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que tu respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Espera-Me
Deixarei que o teu nome se perca repetido
Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.
Manuel António Pina
Nos 74 anos do Manuel
Notícia completa:
https://www.publico.pt/2017/11/18/culturaipsilon/noticia/espolio-de-manuel-antonio-pina-vai-ser-digitalizado-1792911
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Luz Oblíqua
Morre e arde
Nas vidraças.
Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.
A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo.
A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Luz Oblíqua
Morre e arde
Nas vidraças.
Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.
A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo.
A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.
Al Berto
chegaram as máquinas
das águas cresce a obra do homem, ouve-se um lento grito d'espuma e
suor
na memória ficaram os sinais dos bosques ceifados, as dunas desfeitas e algumas casas abandonadas
estenderam-se tubos prateados, onde escorre o negro líquido
levantaram-se imensas chaminés, serpenteiam auto-estradas na paisagem
irreconhecível do teu rosto
onde estarão as tâmaras maduras de tuas palmeiras?
e o perfume intenso das flores debruçando-se ao sol ?
que murmúrios terão as pedras do teu silêncio?
a memória é hoje uma ferida onde lateja a Pedra do Homem, hirta como uma sombra num sonho
e as aves? frágeis quando aperta a tempestade...migraram como eu?
aonde caminhas, doce Moura Encantada?
oiço o ciciar dos canaviais do sono, adivinho teu caminhar de beijos no rumor das águas
tuas mãos de neve recolhem conchas, estrelas secretas, luas incendiadas...que o mar esconde na respiração das marés
estremecem-se nas mãos os insectos cortantes do medo, em meu peito doído ergue-se esta raiva dos mares-de-leva
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. (Antinoos de Delphos)
Teus cabelos em anel que sacudias como crina
Teu torso inchado de ar como uma vela
Teu queixo redondo tua boca pesada
Tua pesada beleza
Teu meio-dia nocturno
Tua herança dos deuses que no Nilo afogaste
Tua unidade inteira com teu corpo
Num silêncio de sol obstinado
Agora são de pedra no museu de Delphos
Onde montanhas te rodeiam como incenso
Entre o austero Auriga e a arquitrave quebrada
Delphos, Maio de 1970
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. (Antinoos de Delphos)
Teus cabelos em anel que sacudias como crina
Teu torso inchado de ar como uma vela
Teu queixo redondo tua boca pesada
Tua pesada beleza
Teu meio-dia nocturno
Tua herança dos deuses que no Nilo afogaste
Tua unidade inteira com teu corpo
Num silêncio de sol obstinado
Agora são de pedra no museu de Delphos
Onde montanhas te rodeiam como incenso
Entre o austero Auriga e a arquitrave quebrada
Delphos, Maio de 1970
Sophia de Mello Breyner Andresen
Depois da Cinza Morta Destes Dias
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Carta Aos Amigos Mortos
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver
Agora estais perdidos para mim
— O olhar não atravessa esta distância —
Nem irei procurar-vos pois não sou
Orpheu tendo escolhido para mim
Estar presente aqui onde estou viva
Eu vos desejo a paz nesse caminho
Fora do mundo que respiro e vejo
Porém aqui eu escolhi viver
Nada me resta senão olhar de frente
Neste país de dor e incerteza
Aqui eu escolhi permanecer
Onde a visão é dura e mais difícil
Aqui me resta apenas fazer frente
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça
A lucidez me serve para ver
A cidade a cair muro por muro
E as faces a morrerem uma a uma
E a morte que me corta ela me ensina
Que o sinal do homem não é uma coluna
E eu vos peço por este amor cortado
Que vos lembreis de mim lá onde o amor
Já não pode morrer nem ser quebrado
Que o vosso coração que já não bate
O tempo denso de sangue e de saudade
Mas vive a perfeição da claridade
Se compadeça de mim e de meu pranto
Se compadeça de mim e de meu canto
Manuel António Pina
Separação do corpo
O corpo tem abóbodas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar -
do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.
A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
"Tomai e comei", pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 312 e 313 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Separação do corpo
O corpo tem abóbodas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar -
do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.
A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
"Tomai e comei", pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 312 e 313 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Separação do corpo
O corpo tem abóbodas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar -
do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.
A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
"Tomai e comei", pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 312 e 313 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Separação do corpo
O corpo tem abóbodas onde soam os
sentidos se tocados de leve ecoando longamente
como memórias de outra vida.
O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, nervos,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.
Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais - pois o preço
era muito alto para o que podíamos pagar -
do silêncio das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto. E, quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o mais que conseguimos.
A beleza do corpo amado é, eu sei,
lixo orgânico; e usura, de novo usura;
com o oiro e com o mármore
dos dias harmoniosos construímos
quartos de banho e balcões de bancos;
e grandes gestos, agora, nem nos romances,
quanto mais nos versos! E de amor
melhor é não falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.
Corpo, corpo, porque me abandonaste?
"Tomai e comei", pois sim, mas quando
a química não chega para adormecer
a que divindades nos acolheremos
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta História,
tanta Psicologia e tanta Antropologia?
A memória, sem o corpo, não cintila nem exalta
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos enfim calar-nos
sem temer a solidão nem a culpa
porque já não há tais palavras.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 312 e 313 | Assírio & Alvim, 2012
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ingrina
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ingrina
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Catilina
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.
De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu — coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.
Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.
E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sinto Os Mortos No Frio Das Violetas
E nesse grande vago que há na lua.
A terra fatalmente é um fantasma,
Ela que toda a morte em si embala.
Sei que canto à beira de um silêncio,
Sei que bailo em redor da suspensão,
E possuo em redor da impossessão.
Sei que passo em redor dos mortos mudos
E sei que trago em mim a minha morte.
Mas perdi o meu ser em tantos seres,
Tantas vezes morri a minha vida,
Tantas vezes beijei os meus fantasmas,
Tantas vezes não soube dos meus actos,
Que a morte será simples como ir
Do interior da casa para a rua.