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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desfile

Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
1 103
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desfile

Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
1 103
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desfile

Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
1 103
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desfile

Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
1 103
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Brinquedos

Olha só as moedinhas de 50,
de 200,
500,
talvez de 5000.
Um jogo na calçada já se inventa
e diverte os garotos do Brasil
sem a menor despesa ou prejuízo,
pois, se rola no ralo tal dinheiro,
ninguém que o perca ficará mais liso,
embora seja quase verdadeiro.
Eu por mim guardo todas pra meu neto
menorzito, sem cofre nem escrínio.
Brincará no escritório, mui quieto,
com esses brinquedinhos de alumínio.
Outros brinquedos, mas que cospem fogo,
dos bolsos dos senhores deputados
tira Bilac, a rogo
dos instintos vitais tão desprezados.
Quer detonar o verbo lá na Câmara?
Faça, mas não detone aquela tâmara
de que o amigo tem estoque na algibeira
à guisa de eloquência derradeira.
Parlamento, excelência
— não se zangue —
não pode ser saloon de bang-bang.
(Seria tão melhor que esse desarme
não parasse no coldre, e que o gendarme
rigoroso, eficaz, de cada qual
consistisse no impulso fraternal
ante meu semelhante, sobre as siglas
do desentendimento partidário,
sobre a diversidade de narizes,
projetos, diretrizes.)
E esse outro brinquedo ameaçado,
o fardão diplomático? pomposa
fantasia fugida à passarela
— diz Vasconcelos Torres no Senado —,
carece ser guardada no baú
do Império
Serrano
e ser usada uma só vez por ano,
sob pena e castigo de andar nu.
Meu receio, caríssimo Athayde,
é que o fero gesto chegue à Academia,
cassando ao espadim
o grato retintim
e os fardões arquivando no cabide.
E se mais além? Se os uniformes
garbosos, medalhosos, são levados
a um saudoso Museu da Indumentária,
que conte da vaidade a sorte vária?
Sem galas e galões, a vida
fica mais triste, menos colorida
a passagem do homem sobre a Terra.
Ai, tenho medo
de perdermos a ideia de brinquedo.
11/04/1965
908
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Brinquedos

Olha só as moedinhas de 50,
de 200,
500,
talvez de 5000.
Um jogo na calçada já se inventa
e diverte os garotos do Brasil
sem a menor despesa ou prejuízo,
pois, se rola no ralo tal dinheiro,
ninguém que o perca ficará mais liso,
embora seja quase verdadeiro.
Eu por mim guardo todas pra meu neto
menorzito, sem cofre nem escrínio.
Brincará no escritório, mui quieto,
com esses brinquedinhos de alumínio.
Outros brinquedos, mas que cospem fogo,
dos bolsos dos senhores deputados
tira Bilac, a rogo
dos instintos vitais tão desprezados.
Quer detonar o verbo lá na Câmara?
Faça, mas não detone aquela tâmara
de que o amigo tem estoque na algibeira
à guisa de eloquência derradeira.
Parlamento, excelência
— não se zangue —
não pode ser saloon de bang-bang.
(Seria tão melhor que esse desarme
não parasse no coldre, e que o gendarme
rigoroso, eficaz, de cada qual
consistisse no impulso fraternal
ante meu semelhante, sobre as siglas
do desentendimento partidário,
sobre a diversidade de narizes,
projetos, diretrizes.)
E esse outro brinquedo ameaçado,
o fardão diplomático? pomposa
fantasia fugida à passarela
— diz Vasconcelos Torres no Senado —,
carece ser guardada no baú
do Império
Serrano
e ser usada uma só vez por ano,
sob pena e castigo de andar nu.
Meu receio, caríssimo Athayde,
é que o fero gesto chegue à Academia,
cassando ao espadim
o grato retintim
e os fardões arquivando no cabide.
E se mais além? Se os uniformes
garbosos, medalhosos, são levados
a um saudoso Museu da Indumentária,
que conte da vaidade a sorte vária?
Sem galas e galões, a vida
fica mais triste, menos colorida
a passagem do homem sobre a Terra.
Ai, tenho medo
de perdermos a ideia de brinquedo.
11/04/1965
908
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Brinquedos

Olha só as moedinhas de 50,
de 200,
500,
talvez de 5000.
Um jogo na calçada já se inventa
e diverte os garotos do Brasil
sem a menor despesa ou prejuízo,
pois, se rola no ralo tal dinheiro,
ninguém que o perca ficará mais liso,
embora seja quase verdadeiro.
Eu por mim guardo todas pra meu neto
menorzito, sem cofre nem escrínio.
Brincará no escritório, mui quieto,
com esses brinquedinhos de alumínio.
Outros brinquedos, mas que cospem fogo,
dos bolsos dos senhores deputados
tira Bilac, a rogo
dos instintos vitais tão desprezados.
Quer detonar o verbo lá na Câmara?
Faça, mas não detone aquela tâmara
de que o amigo tem estoque na algibeira
à guisa de eloquência derradeira.
Parlamento, excelência
— não se zangue —
não pode ser saloon de bang-bang.
(Seria tão melhor que esse desarme
não parasse no coldre, e que o gendarme
rigoroso, eficaz, de cada qual
consistisse no impulso fraternal
ante meu semelhante, sobre as siglas
do desentendimento partidário,
sobre a diversidade de narizes,
projetos, diretrizes.)
E esse outro brinquedo ameaçado,
o fardão diplomático? pomposa
fantasia fugida à passarela
— diz Vasconcelos Torres no Senado —,
carece ser guardada no baú
do Império
Serrano
e ser usada uma só vez por ano,
sob pena e castigo de andar nu.
Meu receio, caríssimo Athayde,
é que o fero gesto chegue à Academia,
cassando ao espadim
o grato retintim
e os fardões arquivando no cabide.
E se mais além? Se os uniformes
garbosos, medalhosos, são levados
a um saudoso Museu da Indumentária,
que conte da vaidade a sorte vária?
Sem galas e galões, a vida
fica mais triste, menos colorida
a passagem do homem sobre a Terra.
Ai, tenho medo
de perdermos a ideia de brinquedo.
11/04/1965
908
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Brinquedos

Olha só as moedinhas de 50,
de 200,
500,
talvez de 5000.
Um jogo na calçada já se inventa
e diverte os garotos do Brasil
sem a menor despesa ou prejuízo,
pois, se rola no ralo tal dinheiro,
ninguém que o perca ficará mais liso,
embora seja quase verdadeiro.
Eu por mim guardo todas pra meu neto
menorzito, sem cofre nem escrínio.
Brincará no escritório, mui quieto,
com esses brinquedinhos de alumínio.
Outros brinquedos, mas que cospem fogo,
dos bolsos dos senhores deputados
tira Bilac, a rogo
dos instintos vitais tão desprezados.
Quer detonar o verbo lá na Câmara?
Faça, mas não detone aquela tâmara
de que o amigo tem estoque na algibeira
à guisa de eloquência derradeira.
Parlamento, excelência
— não se zangue —
não pode ser saloon de bang-bang.
(Seria tão melhor que esse desarme
não parasse no coldre, e que o gendarme
rigoroso, eficaz, de cada qual
consistisse no impulso fraternal
ante meu semelhante, sobre as siglas
do desentendimento partidário,
sobre a diversidade de narizes,
projetos, diretrizes.)
E esse outro brinquedo ameaçado,
o fardão diplomático? pomposa
fantasia fugida à passarela
— diz Vasconcelos Torres no Senado —,
carece ser guardada no baú
do Império
Serrano
e ser usada uma só vez por ano,
sob pena e castigo de andar nu.
Meu receio, caríssimo Athayde,
é que o fero gesto chegue à Academia,
cassando ao espadim
o grato retintim
e os fardões arquivando no cabide.
E se mais além? Se os uniformes
garbosos, medalhosos, são levados
a um saudoso Museu da Indumentária,
que conte da vaidade a sorte vária?
Sem galas e galões, a vida
fica mais triste, menos colorida
a passagem do homem sobre a Terra.
Ai, tenho medo
de perdermos a ideia de brinquedo.
11/04/1965
908
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mosaico

Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 170
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mosaico

Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 170
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mosaico

Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 170
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fmi

Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.

Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?

Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?

Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.

De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.

Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.

Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fmi

Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.

Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?

Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?

Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.

De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.

Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.

Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fmi

Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.

Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?

Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?

Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.

De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.

Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.

Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fmi

Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.

Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?

Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?

Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.

De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.

Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.

Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 227
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Santos de Junho

Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?

O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.

Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.

Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?

Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.

Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.

E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?

Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.

E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)

Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira

que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.

Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.

E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.

Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.

E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.

Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.

No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.

Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 102
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Santos de Junho

Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?

O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.

Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.

Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?

Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.

Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.

E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?

Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.

E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)

Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira

que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.

Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.

E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.

Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.

E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.

Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.

No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.

Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 102
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Candidatos

São tantos candidatos! Quantos mil?
Escolher, meu amigo, é bem sutil.
A música lhe inspira encanto vago?
Então o senador é Mozart (Lago),
e reserve na Câmara um lugar
de líder ao maestro Eleazar.
A pintura lhe apraz? Faça, tranquilo,
Miranda vereador, pois que é Murilo.
Em demanda do Gral, onde se esconda,
o João Batista Stávola (Redonda)
vai despertando sonhos medievais.
E que me diz do Mendes de Morais?
Eu cá não digo, dizem; pois sou mero
ouvinte do silêncio do Lutero,
que, sendo o mais ausente deputado,
senadeará bem longe do Senado.
Tanto melhor: se acaso for eleito,
transfigura em virtude esse defeito.
O Magalhães (Raimundo), enquanto escreve,
os seus votinhos cava, bem de leve.
Um nome que doutrina e que é bandeira,
serena, quase só: João Mangabeira.
E volta o grego Eurípedes (Meneses)
e surge em meio a nomes portugueses
um que se diz “O Inglês” — o velho craque,
imaginando fazer gol de araque.
Coronel Alencastro terá chance?
Este oráculo foge a meu alcance.
Epaminondas, general tebano,
de sobrenome Santos, mor engano
não sei que o da política: repara
que a faixa quase sempre é feia, cara.
Que o homem é Levi Neves, já foi dito
mil vezes, e repete-o um periquito.
Mas a matéria é de alta relevância,
levemo-la ao Concílio de Numância
(aliás não convocado, mas que importa?).
A metáfora bate à nossa porta:
Milton Lago Ilhas Fontes — adutora
em pessoa, promessa sedutora!
E, contra a corrupção, Adauto assesta
as baterias, e tudo que não presta,
que é contrabando ou fraude, se desvenda:
possa ele continuar na dura senda.
Este, não sei se diga… Digo? Digo.
Discurso de Hélio Gracie é um perigo:
como quem tira poeira do colete,
leva o aparteante, célere, ao tapete.
Mas, pensando da pátria nos destinos,
eis um bom democrata: Afonso Arinos.
De caminhão, lutando, ele conquista
pouco a pouco o eleitor quemimportista.
E esta Noralinda? É Nora Ney?
Não, senhor, e tampouco é Loreley.
Ah, candidatos muitos… Tantos mil!
Se não descrês, amigo, do Brasil,
e o queres melhorado, toma tento:
nada de escolha como escolhe o vento.
Não faças com teu voto um mau Congresso,
é tudo, humildemente, que te peço.
14/09/1958
766
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Busto

Mário Melo, Mário Melo,
que levantas contra o busto
do mago Poeta o martelo
demolidor, e que o susto

espalhas pela cidade
das letras: porque tamanha
ausência de amenidade,
mais própria de uma piranha?

Invocas a lei suprema
de Pernambuco: só morto
o autor do mais belo poema
faz jus a estátua no horto.

Ele está vivo? Que espeto,
pois só admiras defunto.
Para a glória do soneto,
queres um cadáver junto.

Não percebes que este caso
repele comparativo:
que, rompido o humano vaso,
o poeta sempre está vivo,

e em tais condições, ó Mário,
jamais o celebraremos:
o seu fado extraordinário
é não morrer, se morremos.

Laurel aos vivos, concedo,
saca em branco contra a História;
também tenho muito medo
da praga bajulatória.

Mas quem é quem? (se consentes
uma pergunta indiscreta).
O poder dos presidentes
não é o poder do poeta.

Ele é banqueiro? milico?
dá cartório? é bispo? influi?
Não é nada disso, rico
de ouro divino, que flui

e que, sobre bens fungíveis,
sobre os grandes do momento,
conduz a mais altos níveis
o verbal encantamento.

Ou não amas a poesia?
Disseram isso; não creio.
Em qualquer lugar e dia,
ela faz parte do asseio.

Nunca te seduz um verso,
seu ritmo não te conforta?
Não decifras o universo
de Pasárgada na porta?

Ou temes que bardos pecos
— três, quatro, cinco, seis, onze —
em praças, ruas e becos
reclamem todos seu bronze?

Calma: uma postura basta,
que exija, para ter busto,
entre a concorrência vasta,
ser, como este poeta, augusto.

Pernambucano à distância,
vai pouco ao Recife — alegas.
Mas Recife é sua estância
interior, e em suas pregas

morais, no cerne, no suco,
outra imagem não distingo
senão a de Pernambuco,
impressa em claro domingo.

A “Evocação do Recife”
já leste? Que pena. Vale,
sozinha, um busto. Paquife
haverá que se lhe iguale

como brasão afetivo
de uma cidade? Não erra
quem neste Poeta um cativo
enxergar, de sua terra.

Pelo seu lirismo tenso,
que ensina amor aos amantes;
pela brancura de lenço
de sua vida, hoje e antes;

pela ternura e mistério
que de seus livros se evola;
e o tocante ministério
implícito em sua viola,

não pode erguer-se-lhe em vida
um monumento singelo,
sem que, face embrabecida,
nos convoques a duelo?

Mário Melo, Mário Melo,
não tornes Recife ingrato.
Larga a vara de marmelo,
descansa a pena de pato,

e, mesmo que não te agrade,
permite que a prazenteira
alma de sua cidade
honore Manuel Bandeira.
20/04/1958
1 317
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destino: Brasília

Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.

Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.

Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.

Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.

Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.

Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.

Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.

Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.

Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.

Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?

Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.

Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?

Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.

Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.

É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…

Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.

Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,

Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.

Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.

E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.

Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 598
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destino: Brasília

Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.

Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.

Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.

Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.

Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.

Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.

Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.

Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.

Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.

Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?

Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.

Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?

Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.

Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.

É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…

Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.

Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,

Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.

Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.

E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.

Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 598
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destino: Brasília

Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.

Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.

Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.

Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.

Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.

Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.

Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.

Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.

Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.

Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?

Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.

Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?

Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.

Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.

É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…

Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.

Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,

Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.

Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.

E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.

Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 598
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destino: Brasília

Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.

Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.

Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.

Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.

Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.

Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.

Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.

Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.

Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.

Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?

Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.

Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?

Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.

Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.

É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…

Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.

Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,

Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.

Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.

E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.

Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 598
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destino: Brasília

Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.

Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.

Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.

Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.

Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.

Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.

Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.

Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.

Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.

Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?

Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.

Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?

Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.

Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.

É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…

Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.

Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,

Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.

Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.

E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.

Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
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