Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Abrilmente
Abril, rosa e gazel em nome de il:
dá-nos tempo melhor que o mês de março.
Torna o Rio mais doce, meigo abril,
chega de lama e de calor esparso.
Prorrogar esta coisa é tão atroz
como o que vem tramando o Antônio Horácio:
prorrogar os mandatos… Ai de nós,
e que virá depois de tal prefácio?
Vem o fim deles mesmos, prorrogados,
autoeleitos, em autos reluzentes,
enquanto que o eleitor — os tristes gados —
vai no calcante e sonha um Tiradentes.
O cai-não-cai das casas vê se evitas,
que já ficou difícil de morar
entre zonas seguras e interditas,
e garantia, mesmo, só no mar.
De mim não peço muito: alguns instantes
em que eu possa ficar lendo, enlevado,
as nuvens de Ipanema, tal como antes
a Madona de Cedro, de Callado.
Traze um pouco de fé ao bom Negrão,
alcaide nosso um tanto já blasé,
que se queixa de um ano todo “não”.
Dureza — ensina — escreve-se com dê.
(Dê duro nas mazelas, feche a cara,
pouse na chapeleira o seu Gelot
e faça reflorir na Guanabara
a esperança que há muito se apagou.)
Eleição em São Paulo? Está-se vendo
o que, presságio escuro, pinta no ar.
Todo acionista cobra dividendo:
a rima de Ademar é João Goulart.
Quero telefonar, mas a tarifa
(a meu Anjo da Guarda) não dá jeito.
Cismo, no Posto 6, uma outra rifa
da nossa igreja. Prêmio: um bom prefeito.
Mas, salve, morador de Barbacena!
Numa cooperativa telefônica,
ele faz o serviço, e a voz amena
inda me traz assunto para crônica.
Imaginar não custa: o bom exemplo,
como caxumba, pega; e aqui no Rio,
água, transporte, lixo — o que contemplo
é de desvanecer cá o titio.
Tudo limpo, ordenado, satisfeito…
Houve revolução, pelo Brasil?
Não (sorrio daqui ao meu prefeito):
este é dia primeiro. E o mês, abril.
31/03/1957
dá-nos tempo melhor que o mês de março.
Torna o Rio mais doce, meigo abril,
chega de lama e de calor esparso.
Prorrogar esta coisa é tão atroz
como o que vem tramando o Antônio Horácio:
prorrogar os mandatos… Ai de nós,
e que virá depois de tal prefácio?
Vem o fim deles mesmos, prorrogados,
autoeleitos, em autos reluzentes,
enquanto que o eleitor — os tristes gados —
vai no calcante e sonha um Tiradentes.
O cai-não-cai das casas vê se evitas,
que já ficou difícil de morar
entre zonas seguras e interditas,
e garantia, mesmo, só no mar.
De mim não peço muito: alguns instantes
em que eu possa ficar lendo, enlevado,
as nuvens de Ipanema, tal como antes
a Madona de Cedro, de Callado.
Traze um pouco de fé ao bom Negrão,
alcaide nosso um tanto já blasé,
que se queixa de um ano todo “não”.
Dureza — ensina — escreve-se com dê.
(Dê duro nas mazelas, feche a cara,
pouse na chapeleira o seu Gelot
e faça reflorir na Guanabara
a esperança que há muito se apagou.)
Eleição em São Paulo? Está-se vendo
o que, presságio escuro, pinta no ar.
Todo acionista cobra dividendo:
a rima de Ademar é João Goulart.
Quero telefonar, mas a tarifa
(a meu Anjo da Guarda) não dá jeito.
Cismo, no Posto 6, uma outra rifa
da nossa igreja. Prêmio: um bom prefeito.
Mas, salve, morador de Barbacena!
Numa cooperativa telefônica,
ele faz o serviço, e a voz amena
inda me traz assunto para crônica.
Imaginar não custa: o bom exemplo,
como caxumba, pega; e aqui no Rio,
água, transporte, lixo — o que contemplo
é de desvanecer cá o titio.
Tudo limpo, ordenado, satisfeito…
Houve revolução, pelo Brasil?
Não (sorrio daqui ao meu prefeito):
este é dia primeiro. E o mês, abril.
31/03/1957
1 166
Carlos Drummond de Andrade
Abrilmente
Abril, rosa e gazel em nome de il:
dá-nos tempo melhor que o mês de março.
Torna o Rio mais doce, meigo abril,
chega de lama e de calor esparso.
Prorrogar esta coisa é tão atroz
como o que vem tramando o Antônio Horácio:
prorrogar os mandatos… Ai de nós,
e que virá depois de tal prefácio?
Vem o fim deles mesmos, prorrogados,
autoeleitos, em autos reluzentes,
enquanto que o eleitor — os tristes gados —
vai no calcante e sonha um Tiradentes.
O cai-não-cai das casas vê se evitas,
que já ficou difícil de morar
entre zonas seguras e interditas,
e garantia, mesmo, só no mar.
De mim não peço muito: alguns instantes
em que eu possa ficar lendo, enlevado,
as nuvens de Ipanema, tal como antes
a Madona de Cedro, de Callado.
Traze um pouco de fé ao bom Negrão,
alcaide nosso um tanto já blasé,
que se queixa de um ano todo “não”.
Dureza — ensina — escreve-se com dê.
(Dê duro nas mazelas, feche a cara,
pouse na chapeleira o seu Gelot
e faça reflorir na Guanabara
a esperança que há muito se apagou.)
Eleição em São Paulo? Está-se vendo
o que, presságio escuro, pinta no ar.
Todo acionista cobra dividendo:
a rima de Ademar é João Goulart.
Quero telefonar, mas a tarifa
(a meu Anjo da Guarda) não dá jeito.
Cismo, no Posto 6, uma outra rifa
da nossa igreja. Prêmio: um bom prefeito.
Mas, salve, morador de Barbacena!
Numa cooperativa telefônica,
ele faz o serviço, e a voz amena
inda me traz assunto para crônica.
Imaginar não custa: o bom exemplo,
como caxumba, pega; e aqui no Rio,
água, transporte, lixo — o que contemplo
é de desvanecer cá o titio.
Tudo limpo, ordenado, satisfeito…
Houve revolução, pelo Brasil?
Não (sorrio daqui ao meu prefeito):
este é dia primeiro. E o mês, abril.
31/03/1957
dá-nos tempo melhor que o mês de março.
Torna o Rio mais doce, meigo abril,
chega de lama e de calor esparso.
Prorrogar esta coisa é tão atroz
como o que vem tramando o Antônio Horácio:
prorrogar os mandatos… Ai de nós,
e que virá depois de tal prefácio?
Vem o fim deles mesmos, prorrogados,
autoeleitos, em autos reluzentes,
enquanto que o eleitor — os tristes gados —
vai no calcante e sonha um Tiradentes.
O cai-não-cai das casas vê se evitas,
que já ficou difícil de morar
entre zonas seguras e interditas,
e garantia, mesmo, só no mar.
De mim não peço muito: alguns instantes
em que eu possa ficar lendo, enlevado,
as nuvens de Ipanema, tal como antes
a Madona de Cedro, de Callado.
Traze um pouco de fé ao bom Negrão,
alcaide nosso um tanto já blasé,
que se queixa de um ano todo “não”.
Dureza — ensina — escreve-se com dê.
(Dê duro nas mazelas, feche a cara,
pouse na chapeleira o seu Gelot
e faça reflorir na Guanabara
a esperança que há muito se apagou.)
Eleição em São Paulo? Está-se vendo
o que, presságio escuro, pinta no ar.
Todo acionista cobra dividendo:
a rima de Ademar é João Goulart.
Quero telefonar, mas a tarifa
(a meu Anjo da Guarda) não dá jeito.
Cismo, no Posto 6, uma outra rifa
da nossa igreja. Prêmio: um bom prefeito.
Mas, salve, morador de Barbacena!
Numa cooperativa telefônica,
ele faz o serviço, e a voz amena
inda me traz assunto para crônica.
Imaginar não custa: o bom exemplo,
como caxumba, pega; e aqui no Rio,
água, transporte, lixo — o que contemplo
é de desvanecer cá o titio.
Tudo limpo, ordenado, satisfeito…
Houve revolução, pelo Brasil?
Não (sorrio daqui ao meu prefeito):
este é dia primeiro. E o mês, abril.
31/03/1957
1 166
Carlos Drummond de Andrade
Verão
Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
2 414
Carlos Drummond de Andrade
Balanço de Agosto
Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
650
Carlos Drummond de Andrade
Balanço de Agosto
Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
650
Carlos Drummond de Andrade
Balanço de Agosto
Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
650
Carlos Drummond de Andrade
Balanço de Agosto
Lá se foi agosto, composto
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
de mágoa e mel (é o ano inteiro!).
Demitiu-se, por mal dos índios,
Darcy Ribeiro.
Entre quatro angustas paredes,
Tônia empolgando, no Dulcina.
Anedota: quase vai presa
a Ópera China.
O dólar baixa dois milímetros,
que bom! que mau, sonha o Senado
um projeto que impeça ao uísque
ser importado.
Pistola a gás lacrimogêneo
virou lei contra jornalista.
Acham pouco? O líder promete
algo nazista.
Mas chega Azul profundo: o verso
de Henriqueta Lisboa, mágico,
cerra-se em concha, e nos redime
do instante trágico.
Regina Simone (São Paulo)
e seu Voo enterrado: livro
onde um pássaro subterrâneo
dorme, cativo.
Perdão se esqueço outros autores
agostininos, com temor
de que não caibam neste metro
ou no louvor.
Vejo Isabel Monteiro, ansiosa
— pende uma lágrima dos cílios —
a procurar em vão e sempre
os seus dois filhos.
Onde estás, justiça dos homens
ou das pedras: não te comove
a mãe errante, ludibriada?
É noite, e chove
sobre sentenças descumpridas
e sobre afetos sem destino.
Que alguém descubra essa garota
e esse menino.
Do tribunal fogem os gatos
à ordem severa do juiz.
Quando há ratos por toda parte…
Que é que me diz?
Vai abaixo o Hotel Avenida,
a Brasileira vira banco.
Esfarinha-se o Rio de ontem,
num solavanco.
E nós, antigos moradores,
aguardando demolição,
onde esconder nossas memórias?
No ar ou no chão.
Mas agosto se foi, sol-posto,
encanto grave… O que relembro
zumbe cá dentro, inseto de ouro.
Viva setembro.
02/09/1956
650
Carlos Drummond de Andrade
Quase Elegia
No tempo dos afonsinhos
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
1 242
Carlos Drummond de Andrade
Quase Elegia
No tempo dos afonsinhos
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
1 242
Carlos Drummond de Andrade
Quase Elegia
No tempo dos afonsinhos
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.
Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.
Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.
Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.
Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.
Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.
Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.
Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.
Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.
Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.
Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.
Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,
pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irônica, tanto mais zine.
Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.
Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.
Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.
Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.
Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.
Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”
Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.
Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)
As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.
Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?
E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.
Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.
Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.
Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)
Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.
18/02/1954
1 242
Carlos Drummond de Andrade
De 7 Dias
Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
566
Carlos Drummond de Andrade
De 7 Dias
Começou festiva a semana:
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
espiávamos por uma frincha
a vitória, e eis que ela fulgura,
rosa aberta ao pé de Garrincha.
Ai, emoções de Gotemburgo!
Futebol que nos arrebatas,
esse rugir de alto-falante
vale mozartianas sonatas.
E torço firme a vosso lado,
cidadãos que morais no assunto,
embora entenda de pelota
simplesmente o que vos pergunto.
Quem ganhou foi o Botafogo,
canta o severiano, alma leve.
Exclama junto um pena-boto:
— É, e quem perdeu foi Kruschev.
Entre estouros, risos, foguetes,
assustado, lá foge o pombo
que bicava milho na praça,
mas surge Adalgisa Colombo,
escultura, graça alongada,
e a seus munícipes ensina
que entre todos os bens da terra
a beleza é graça divina.
E talento é a suprema dádiva:
penso nisso ao ver Pinga-fogo
no Dulcina, e a rara Cacilda
em seu sutilíssimo jogo
de emoção: a infância pisada,
um murmúrio de pai a filho,
diálogo obscuro das almas
para quem o sol é sem brilho.
E que delícia O protocolo,
velho Machado sempre novo!
Nosso teatro já floresce,
não é pinto a sair do ovo.
Mas nem tudo foram ditosas
horas no tempo brasileiro:
o vento no Convair, e a chuva.
A morte estava num pinheiro.
A morte estava à espera, surda,
cega a toda humana piedade.
E esse indecifrável mistério,
inscrição chinesa no jade,
faz baixar um crepe silente
sobre os gaios fogos votivos.
Que João e Pedro, das alturas,
suavizem a pena dos vivos.
E vem outro, mais outro dia.
Paira a esperança, junto à fé.
A bola em flor no campo: joia,
e seu ourives é Pelé.
22/06/1958
566
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 391
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 391
Carlos Drummond de Andrade
À Deriva
Aposentada musa domingueira,
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
põe o suéter e vem, ao sol franzino,
distrair-nos em tom de brincadeira.
Já pipoca no céu todo o junino
aparato de bombas de hidrogênio
e mal nos deixa ouvir, puro, o violino
na Nona sinfonia, com que o gênio
reestruturou em música este mundo.
(Viva a OSB: há mais de um decênio
ninguém ouvia aqui todo o profundo
mar beethoveniano, salvo em disco,
Elvis Presley, primeiro; ele, segundo.)
Musa, vais ao teatro? Eu não me atrevo.
A noite é fria, é bom quedar em casa
lendo ou cismando aquilo que não devo.
Nessa quietude os sonhos criam asa,
passeiam sem programa, e não te conto
o que brota de luz na mente rasa.
Mas não vão muito longe; neste ponto
vejo Baby na Alfândega, detida
até que o dono pague, conto a conto,
forte taxa aduaneira, que é devida
(uns cento e trinta e tantos mil pacotes).
Baby, uma cokerzinha… Puxa vida.
Meu espanto, porém, Musa, não notes.
Coisas há de mais tomo, no momento,
que chamarei, pedante, de litotes.
Estou me referindo ao movimento
de pacificação cá no terreiro,
que diz “sim”, pensa “não”, feito de vento.
JK abraçado ao Brigadeiro,
e todos de mãos dadas, em ciranda?
A paz baixou ao Rio, anjo-craveiro?
Se os partidos não lutam, como isso anda?
E, sem oposição, que é do regime
democrático, aqui e em Samarcanda?
Calma, doutores, pois todo o sublime
palavreado, viu-se, era conversa
com olho na eleição, que alarma o time.
Musa, nesta crônica dispersa,
cabe uma palavrinha a Portugal
de Camões, de Pessoa, que alicerça
a nossa fé no espírito, fanal
de um povo livre e novas glórias, quando
delas chegar o tempo, em monte e val.
Assunto e mais assunto vai passando
e eu nada disse, amiga, do Marceau
e do Bip, que em pouco vêm chegando.
Ensinarão ao líder de Nonô
que mímica é melhor do que discurso?
Adeus, musa, meu número acabou
e sigo o tempo (é tempo) no seu curso.
09/06/1957
1 391
Carlos Drummond de Andrade
Um, Dois, Três
Escrever é difícil: pena dura,
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
1 046
Carlos Drummond de Andrade
Um, Dois, Três
Escrever é difícil: pena dura,
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
1 046
Carlos Drummond de Andrade
Um, Dois, Três
Escrever é difícil: pena dura,
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
mão sem molejo. Então, o Benedito
quer que apenas se tome a assinatura
ao votante. Não é de xurupito?
Assinar? É demais! — protesta o Armando.
O voto, para ser bom e secreto,
repele um artifício tão nefando.
Só quem pode votar é o analfabeto.
Minha gente, com calma — diz o Arruda
(Esmeraldino), olhem de frente os fatos:
Eleições, mas pra quê? A pátria é muda.
Vale mais prorrogar nossos mandatos…
Muito bem! Muito bem! ulula o coro.
E, fugida a razão, foge o decoro.
08/09/1957
1 046
Carlos Drummond de Andrade
Sete Dias
Ó Musa semanária, que divisas
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
579
Carlos Drummond de Andrade
Sete Dias
Ó Musa semanária, que divisas
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
579
Carlos Drummond de Andrade
Epístola
E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
995
Carlos Drummond de Andrade
Epístola
E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
995
Carlos Drummond de Andrade
Epístola
E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
995
Carlos Drummond de Andrade
Epístola
E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
995