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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Epístola

E veio a primavera, João, mas veio
com este surto de gripe, que anda feio.
Das frutas do Brasil hoje a mais cara
é o limão — tão querida quanto rara.
Falam que a dúzia vai a mil cruzeiros…
(Olha a Cofap plantando limoeiros.)
Mas a “asiática” tem seu lado amigo:
nada de trabalhar, este é o perigo.
Repouso, vitamina, e saia apenas
a ver a Gladys Zender e centenas
de brotos fabulosos que a cidade
nos brinda sempre. Resistir quem há de?
E não pare na porta da Colombo,
que é Dia do Velhinho. Ouça, não zombo:
é melhor não ganhar nenhum presente
e a mocidade ter na alma da gente.
E ser moço é ser livre. Já te cansas,
ó liberdade, de sofrer no Arkansas
esse golpe mil vezes repetido
aos direitos do homem. Tens erguido
o braço, e a esse teu gesto vêm do céu
paraquedistas mil, num escarcéu:
anjos fulminadores, em defesa
da lei como da própria natureza.
Falar em liberdade: o rádio ainda
é “coisa” do governo; quando finda
entre nós o controle da palavra,
que de rainha vai passando a escrava?
São donos da verdade, são sagrados
nossos chefes — e os mais fiquem calados?
Outras pungências vêm à tona: serras
e vales tremem por questões de terras.
Vai roendo o Paraná enorme “grilo”.
Não há ninguém para acabar com aquilo?
Um rio já se vê fluir: é sangue
de gente humilde e, grosso, cria um mangue
onde vão cruelmente se atolando
justiça e paz, ante o poder nefando.
De qualquer modo, João, é primavera
(onde, não sei) e reverdece a hera,
e o galo-de-campina alça a vermelha
plumária floração. Feito uma coelha,
a croniquinha pasta a doce grama
do azul, e azul é tudo quanto se ama.
29/09/1957
995
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Coisas de Maio

Era um límpido azul, vero azul-gaio,
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?

Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…

O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.

Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
1 379
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Coisas de Maio

Era um límpido azul, vero azul-gaio,
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?

Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…

O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.

Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
1 379
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
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Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 094
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cantiga

Claro janeiro antigo e sempre novo,
segue a esperança, fluida, no teu rumo.
Por que, entre as alvíssaras do povo,
aumentar-nos o imposto de consumo?

As rosas de Iemanjá, na praia cheia,
no mar ignoto, enquanto a noite gira,
são preces amorosas sobre a areia,
meiga verdade, feita de mentira.

Não desencantes tanto encantamento
a florir no céu mágico e nas almas.
Aqui te deixo meu requerimento:
dá-nos manhãs azuis e tardes calmas.

Dá-nos, janeiro, paz (não muita, ou morta,
que o coração exige certo fogo):
faze que esteja aberta a grande porta
ao que for belo e bom, eis nosso rogo.

Para os dois garotinhos inda à espera
que a justiça abra os olhos, meu janeiro,
dá-lhes as mães exatas, primavera
a se multiplicar pelo ano inteiro.

Aos dez mais e às dez mais… que lhes darias,
se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência
para aumentar a sucessão dos dias
ocos, por sob a frívola aparência?

Aos milhões menos, nada lhes prometas
que não queiras cumprir: janeiro, é sábio
acabar de uma vez com velhas tretas
e, à falta de canção, cerrar o lábio.

Mas não quero cerrá-lo sem que peça
nove dias de sol para um de chuva,
um compromisso idoso ao dr. Lessa,
menos mosquito e mais laranja e uva.

Não aumentes, janeiro, o meu cinema,
leva contigo o tal cinemascópio,
mas deixa em Laranjeiras e Ipanema
a barateza alegre deste ópio.

E finalmente, amigo, sê cordato,
superlegal e, sobretudo, ordeiro:
batendo o 31, passa o mandato
ao nosso caro mês de fevereiro.
01/01/1956
1 062
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cantiga

Claro janeiro antigo e sempre novo,
segue a esperança, fluida, no teu rumo.
Por que, entre as alvíssaras do povo,
aumentar-nos o imposto de consumo?

As rosas de Iemanjá, na praia cheia,
no mar ignoto, enquanto a noite gira,
são preces amorosas sobre a areia,
meiga verdade, feita de mentira.

Não desencantes tanto encantamento
a florir no céu mágico e nas almas.
Aqui te deixo meu requerimento:
dá-nos manhãs azuis e tardes calmas.

Dá-nos, janeiro, paz (não muita, ou morta,
que o coração exige certo fogo):
faze que esteja aberta a grande porta
ao que for belo e bom, eis nosso rogo.

Para os dois garotinhos inda à espera
que a justiça abra os olhos, meu janeiro,
dá-lhes as mães exatas, primavera
a se multiplicar pelo ano inteiro.

Aos dez mais e às dez mais… que lhes darias,
se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência
para aumentar a sucessão dos dias
ocos, por sob a frívola aparência?

Aos milhões menos, nada lhes prometas
que não queiras cumprir: janeiro, é sábio
acabar de uma vez com velhas tretas
e, à falta de canção, cerrar o lábio.

Mas não quero cerrá-lo sem que peça
nove dias de sol para um de chuva,
um compromisso idoso ao dr. Lessa,
menos mosquito e mais laranja e uva.

Não aumentes, janeiro, o meu cinema,
leva contigo o tal cinemascópio,
mas deixa em Laranjeiras e Ipanema
a barateza alegre deste ópio.

E finalmente, amigo, sê cordato,
superlegal e, sobretudo, ordeiro:
batendo o 31, passa o mandato
ao nosso caro mês de fevereiro.
01/01/1956
1 062
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cantiga

Claro janeiro antigo e sempre novo,
segue a esperança, fluida, no teu rumo.
Por que, entre as alvíssaras do povo,
aumentar-nos o imposto de consumo?

As rosas de Iemanjá, na praia cheia,
no mar ignoto, enquanto a noite gira,
são preces amorosas sobre a areia,
meiga verdade, feita de mentira.

Não desencantes tanto encantamento
a florir no céu mágico e nas almas.
Aqui te deixo meu requerimento:
dá-nos manhãs azuis e tardes calmas.

Dá-nos, janeiro, paz (não muita, ou morta,
que o coração exige certo fogo):
faze que esteja aberta a grande porta
ao que for belo e bom, eis nosso rogo.

Para os dois garotinhos inda à espera
que a justiça abra os olhos, meu janeiro,
dá-lhes as mães exatas, primavera
a se multiplicar pelo ano inteiro.

Aos dez mais e às dez mais… que lhes darias,
se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência
para aumentar a sucessão dos dias
ocos, por sob a frívola aparência?

Aos milhões menos, nada lhes prometas
que não queiras cumprir: janeiro, é sábio
acabar de uma vez com velhas tretas
e, à falta de canção, cerrar o lábio.

Mas não quero cerrá-lo sem que peça
nove dias de sol para um de chuva,
um compromisso idoso ao dr. Lessa,
menos mosquito e mais laranja e uva.

Não aumentes, janeiro, o meu cinema,
leva contigo o tal cinemascópio,
mas deixa em Laranjeiras e Ipanema
a barateza alegre deste ópio.

E finalmente, amigo, sê cordato,
superlegal e, sobretudo, ordeiro:
batendo o 31, passa o mandato
ao nosso caro mês de fevereiro.
01/01/1956
1 062
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Libertação

Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.

Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.

Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.

Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.

O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.

JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.

Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!

Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.

À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas

(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.

Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.

Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.

Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?

Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.

Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.

Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.

Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.

Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.

Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)

Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
840
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Libertação

Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.

Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.

Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.

Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.

O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.

JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.

Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!

Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.

À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas

(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.

Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.

Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.

Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?

Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.

Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.

Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.

Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.

Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.

Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)

Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
840
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Libertação

Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.

Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.

Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.

Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.

O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.

JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.

Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!

Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.

À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas

(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.

Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.

Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.

Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?

Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.

Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.

Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.

Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.

Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.

Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)

Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
840
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Libertação

Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.

Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.

Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.

Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.

O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.

JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.

Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!

Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.

À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas

(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.

Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.

Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.

Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?

Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.

Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.

Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.

Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.

Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.

Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)

Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
840
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Libertação

Baixa o sopro da montanha
como rumor intestino.
É tudo que o ouvido apanha:
Libertemos Juscelino.

Grito de guerra? Nem tanto.
Arturzinho, ao proclamá-lo,
não quer, bem-posto em seu canto,
meter-se a pular o valo.

Libertemos, mas com jeito,
o cativo presidente.
Pastilhas de muito efeito
não curam só dor de dente.

Talvez mudando um tiquinho…
Na forma: riso ou sapato.
Em vez de Juca, Chiquinho;
o teiú, em vez do gato.

O mais fique a mesma cousa,
que só a cara é importante.
Dizia Manuel de Sousa:
a melhor marca é a barbante.

JK, enfim liberto
das torturas do Catete,
esquadrinha ali por perto
um sítio menos cacete.

Remanso das Laranjeiras,
brisa da Gávea Pequena,
tornai-lhe as horas fagueiras,
entre uma e outra quinzena!

Mesmo a essas abadias
chega o murmúrio da rua?
Ai, Artur, que o não previas:
liberdade, só na lua.

À falta de engenho a jato
que o transporte aos selenitas,
o presidente, coato,
farto de batatas fritas

(batata assim é exagero),
procura, por trás do biombo,
provar as de outro tempero
empadinhas da Colombo.

Ou vai pelos céus, insone,
sem ruga no paletó,
contemplar, com microfone,
a ponte do Tororó.

Mas vai preso… Nesta vida,
um carcereiro feroz
mostra não haver saída
que não nos devolva a nós.

Libertemos Juscelino!
De quê? Pra quê? Eu sei lá
se não lhe apraz o destino,
como a casca ao baobá?

Cadeias há de veludo,
grilhões de puro rubi.
Quem diz “poder” disse tudo,
é o que no mundo aprendi.

Poder, mesmo não podendo,
dá gosto à gente. Que importa?
Mesmo o bocejo é estupendo…
Quem vem atrás feche a porta.

Libertemos, sim, os tristes
apaixonados sem cura.
Liberdade, se é que existes,
liberta o amor da amargura.

Abre a gaiola aos canários,
aos recalques, aos temores.
Que os caminhos sejam vários,
sem muros inibidores.

Livra o poeta, que fareja
a glória da Academia.
E tudo quanto ele almeja
se dissolva, em luz, no dia.

Aos barnabés livra enfim
de sua mesquinha estória.
(À mesa, em vez de pudim,
comem nota promissória.)

Prezado Arturzinho, o mal
é o velho ser ou não ser.
Pois Juscelino, afinal,
liberto… que vai fazer?
08/07/1956
840
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Relatório

Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
699
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Relatório

Quais são as novidades? me perguntas.
Não posso responder-te, pois são tantas
que não me caberiam no papel
(um palmo de coluna, por sinal).
Não falta só espaço: falta leite,
pão matinal, açúcar, mas a Laite
essa não falta ao fim de cada mês,
embora nos domingos falte gás.
Faltam-me inspiração, engenho e arte
para a vida pintar e a rude sorte
da cidade que segue ao deus-dará,
e até o Guandu se muda em Tororó.
Mas não desanimemos: com o prefeito
de escolha popular, tudo é biscoito,
e se nada funciona resta o mar,
o verde das montanhas, e mulher.
Verde não resta muito: sobre a Urca,
o jornal luminoso a vista abarca,
e é triste, na paisagem do bom Deus,
ver surgirem anúncios fantasmais.
Um clarão nas favelas: lá no Pinto,
o fogo é urbanista, em dor e espanto,
e o que a gente não soube ainda fazer
a labareda faz, mas onde ir
o morador humilde e seus tarecos,
na civilização feita de cacos?
Outra notícia má: o bom Mariz
de Morais lá se foi: como é atroz
ver o enfarte levar a gente moça
para quem estudar é prêmio e graça.
Em compensação, nasce Beatriz
(e aqui apuro a rima: sê feliz).
As mulheres estão extraordinárias
nesta vaga estação. Mire-as, remire-as
o vago escoliasta de Platão:
“A beleza é a verdade” (Gostou, hein?).
Há no frio uma astúcia feminina:
encorpa-se em veludo a porcelana.
E como vão flanando, de chapéu,
tão emperiquitadas… Nada mau.
Chapeuzinho Vermelho, dentro em breve,
animando o Tablado. Não é suave
na rua surpreender, safira ao sol,
Glória Drummond e seu cabelo azul?
Os homens, meio giras, discutindo
como deflacionar, inflacionando.
Notas de cinco mil? Isso jamais:
antes cinco milhões, em caracóis,
pela caixa de fósforo, sem troco,
que o nosso cruzeirinho diz: Tou fraco.
O professor calou-se na tevê,
enquanto os vereadores: Tá-tá-tá…
Lygia Fagundes Telles, traduzida
ao luso linguajar, não perde nada,
que a Ciranda de pedra é pura flor:
mudem-lhe embora o nome, impregna o ar.
E ante o exemplo da flor vou-me calar.
19/08/1956
699
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Morte de Neco Andrade

QUANDO MATARAM
Neco Andrade, não pude sentir bastante emoção porque tinha de representar no teatrinho de amadores, e essa responsabilidade comprimia tudo.
A faca relumiou no campo — assim a vislumbrei, ao circular a notícia — e Neco, retorcendo-se, tombou do cavalo, e o assassino se curva para verificar a morte, e a tarde se enovela em vapores escuros, e
desce a umidade.
Caminhei para o palco temeroso de não lembrar a frase longa e difícil que me cabia proferir. O mau amador vive roído de dúvidas. Receava a desa-
provação do auditório, e sua prévia reflexão em mim já frustrava o gesto, já tolhia a produção do mais autêntico.
O CAVALO
erra alguns instantes na planície, dedicação sem alvo. O assassino pondera o entardecer. E vela os despojos, enquanto mede as possibilidades
de fuga. Evêm aí os soldados, atraídos pelo vento, pelo grito final do Andrade, pela secreta abdicação do criminoso, que, na medula, se sabe perdido. Não podemos matar nosso patrão; de ventre vasado, êle se vinga.
O cadáver de Neco atravessa canhestramente o segundo ato, da esquerda para a direita, volta, hesita, sai, instala-se nos bastidores em baixo da escada. As deixas perdem-se, o diálogo atropela-se, Neco está
se esvaindo em silêncio e eu, seu primo, não sei socorrê-lo.
OASSASSINO
chega preso, a multidão açode à cadeia, todos o contemplam a um metro, nem isso, de distância. Joana roça-lhe a manga do paletó, sujo de terra. Está sentado, mudo. Na casa de Neco. em frente à ponte, luzes se armam em velório, e a escada é toda sonora de botas e botinas rinchando.
Agora o palco ficou vazio para caber a forma baia e ondulante que progride, esmagando palavras. Da montaria de Neco pendem as caçambas de Neco. Vai pisar em mim. Afastou-se, no trote deserto.
SERIA REMORSO
por me consagrar ao espetáculo quando já o sabia morto? Não, que o espetáculo é grande, e seduzia para além da ordem moral. E nossos ramos de família nem se davam. Pena de perdê-lo, nutrida de alguma velha lembrança particular, que floresce mesmo entre clãs adversários? Pena comum, que toda morte violenta faz germinar? Nem isso. Mas o ventre vasado, como se fosse eu que o vasasse, eu menino, desarmado. Intestinos de Neco, emaranhados, insolentes, à vista de estranhos. Vede o interior de um homem, a sede da cólera; aqui os prazeres criaram raiz, e o que é obscuro em nosso olhar, encontra explicação.
E TUDO
se desvenda: sou responsável pela morte de Neco e pelo crime de Augusto, pelo cavalo que foge e pelo coro de viúvas pranteando. Não posso
representar mais; por todo o sempre e antes do nunca sou responsável, responsável, responsável, responsável. Como as pedras são responsáveis, e os anjos, principalmente os anjos, são responsáveis.
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