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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Postal Para Catherine

Paris pede postais
para Catherine.
Rápido, que a menina
espera no hospital.
Comprem no jornaleiro da esquina
lagoas e corcovados
escrevam do outro lado
um beijo
mandem para Catherine
à morte no hospital.
Ela quer ver o mundo
pintado de outra cor
não branco de parede
o branco desolado
sem qualquer imagem.
Telefonem para Minas
peçam postais de serras
pairando no fim do azul,
de estalactites, vacas
pastando sonho na campina.
Pinheiros-do-paraná saúdem
verticalmente Catherine.
A flor mais triunfal
aberta em bandeja sobre a água
siga do Norte para Catherine.
Coqueiral do Nordeste,
rumo a Paris onde a garota
viaja imóvel
vendo passar a Terra
plastificada em postal.
Canoa de Búzios
alpendre missioneiro do Rio Grande
talha de ouro da Bahia
procissões de navegantes
frevos, rodas de samba
gostocor do Brasil
ao natural
saltos, corredeiras
correi de avião para perto
da cama numerada de Catherine
a que vai morrer e olha
para longe do número
o espetáculo em flor
da vida no postal.
(O postal seleciona
o que vale ser visto
pela que diz adeus
à vida no geral.
Nada de imagem rude
em clichê de jornal
mostrando em branco e preto
o que já se adivinha
no quadrado do quarto
de hospital.)
Catherine morrendo
leva consigo a antologia
de sítios amoráveis
ilhas de prazer
e verduras felizes
(o capricho de Deus)
entre festas ingênuas
que celebram a vida
e a graça de viver
(o capricho do homem).
Empresa dos Correios,
não atrase a remessa
da chuva de postais
à menina, que o prazo
que a leucemia abriu
aos olhos esperantes
é um prazo fatal.
… A Cacilda aqui perto
de nós e sem olhar
que fale de um desejo,
sem voz que nos devolva
as suas trinta vidas
de trinta personagens
no quarto angustiado
à espera de Godot
à espera da esperança,
que daremos senão
amor amor em pânico
se ela não pede nada?
683
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Postal Para Catherine

Paris pede postais
para Catherine.
Rápido, que a menina
espera no hospital.
Comprem no jornaleiro da esquina
lagoas e corcovados
escrevam do outro lado
um beijo
mandem para Catherine
à morte no hospital.
Ela quer ver o mundo
pintado de outra cor
não branco de parede
o branco desolado
sem qualquer imagem.
Telefonem para Minas
peçam postais de serras
pairando no fim do azul,
de estalactites, vacas
pastando sonho na campina.
Pinheiros-do-paraná saúdem
verticalmente Catherine.
A flor mais triunfal
aberta em bandeja sobre a água
siga do Norte para Catherine.
Coqueiral do Nordeste,
rumo a Paris onde a garota
viaja imóvel
vendo passar a Terra
plastificada em postal.
Canoa de Búzios
alpendre missioneiro do Rio Grande
talha de ouro da Bahia
procissões de navegantes
frevos, rodas de samba
gostocor do Brasil
ao natural
saltos, corredeiras
correi de avião para perto
da cama numerada de Catherine
a que vai morrer e olha
para longe do número
o espetáculo em flor
da vida no postal.
(O postal seleciona
o que vale ser visto
pela que diz adeus
à vida no geral.
Nada de imagem rude
em clichê de jornal
mostrando em branco e preto
o que já se adivinha
no quadrado do quarto
de hospital.)
Catherine morrendo
leva consigo a antologia
de sítios amoráveis
ilhas de prazer
e verduras felizes
(o capricho de Deus)
entre festas ingênuas
que celebram a vida
e a graça de viver
(o capricho do homem).
Empresa dos Correios,
não atrase a remessa
da chuva de postais
à menina, que o prazo
que a leucemia abriu
aos olhos esperantes
é um prazo fatal.
… A Cacilda aqui perto
de nós e sem olhar
que fale de um desejo,
sem voz que nos devolva
as suas trinta vidas
de trinta personagens
no quarto angustiado
à espera de Godot
à espera da esperança,
que daremos senão
amor amor em pânico
se ela não pede nada?
683
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cabaré Palácio

A história de Minas passa um momento na Rua Guaicurus
— é noite, a luz espanta lobisomens —
sobre a escada sonora, e no salão repleto,
entre ruivas, louras, morenas, índias e mulatas
vindas de Montevidéu, Buenos Aires, Madri e Tremedal,
saúda respeitosamente
Madame Olímpia Vazquez Garcia,
senhora da Galiza e do puteiro belo-horizontino.

Cessam
tricas e futricas do jogo político das Alterosas,
lamentos de esmagados, filáucias de proponentes,
rumor de escravos escavando ouro e morte nas galerias de Morro Velho,
procissões de formigas cuiabanas tosando meticulosamente talos verdes,
fantasmas de mulas de latim debruçados sobre ex-alunos do Caraça,
tiros à sorrelfa (letais) nas emboscadas de Manhuaçu.
Cessa tudo que a vida morna ostenta,
que outro valor, de Vigo, se alevanta
e acolhe a prosternada
turibulação mineira de pau duro
ou já deficitária, não importa,
mas sempre a Eros erguendo novas aras.

Conspícuos pais da pátria,
flamívomos tribunos,
banqueiros, coronéis, beneméritos da Santa Casa de Misericórdia,
algum Secretário da Fazenda encapuzado
em hidrófilo sigilo,
respeitáveis chefes de família respeitabilíssima
ofertam a Madame Olímpia a catleia de louvor
que ela recebe altiva e sagrada qual Minerva.

Sua ampla testa lisa
encarna o poder
sobre rebanhos, apólices e complexos de Minas Gerais
e a procissão noturna espoca em febre
de bolhas beijos bolinações babas de batom.

Salve,
Imperatriz da farra honesta dos montanheses
que de dia cultivam Platão, o Dever, a Democracia,
tropeçando nos quartos sanguinolentos de Tiradentes,
e à noite estendem a vossos pés galegos
sua vocação de orgia e aniquilamento no esperma.
813
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cabaré Palácio

A história de Minas passa um momento na Rua Guaicurus
— é noite, a luz espanta lobisomens —
sobre a escada sonora, e no salão repleto,
entre ruivas, louras, morenas, índias e mulatas
vindas de Montevidéu, Buenos Aires, Madri e Tremedal,
saúda respeitosamente
Madame Olímpia Vazquez Garcia,
senhora da Galiza e do puteiro belo-horizontino.

Cessam
tricas e futricas do jogo político das Alterosas,
lamentos de esmagados, filáucias de proponentes,
rumor de escravos escavando ouro e morte nas galerias de Morro Velho,
procissões de formigas cuiabanas tosando meticulosamente talos verdes,
fantasmas de mulas de latim debruçados sobre ex-alunos do Caraça,
tiros à sorrelfa (letais) nas emboscadas de Manhuaçu.
Cessa tudo que a vida morna ostenta,
que outro valor, de Vigo, se alevanta
e acolhe a prosternada
turibulação mineira de pau duro
ou já deficitária, não importa,
mas sempre a Eros erguendo novas aras.

Conspícuos pais da pátria,
flamívomos tribunos,
banqueiros, coronéis, beneméritos da Santa Casa de Misericórdia,
algum Secretário da Fazenda encapuzado
em hidrófilo sigilo,
respeitáveis chefes de família respeitabilíssima
ofertam a Madame Olímpia a catleia de louvor
que ela recebe altiva e sagrada qual Minerva.

Sua ampla testa lisa
encarna o poder
sobre rebanhos, apólices e complexos de Minas Gerais
e a procissão noturna espoca em febre
de bolhas beijos bolinações babas de batom.

Salve,
Imperatriz da farra honesta dos montanheses
que de dia cultivam Platão, o Dever, a Democracia,
tropeçando nos quartos sanguinolentos de Tiradentes,
e à noite estendem a vossos pés galegos
sua vocação de orgia e aniquilamento no esperma.
813
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cabaré Palácio

A história de Minas passa um momento na Rua Guaicurus
— é noite, a luz espanta lobisomens —
sobre a escada sonora, e no salão repleto,
entre ruivas, louras, morenas, índias e mulatas
vindas de Montevidéu, Buenos Aires, Madri e Tremedal,
saúda respeitosamente
Madame Olímpia Vazquez Garcia,
senhora da Galiza e do puteiro belo-horizontino.

Cessam
tricas e futricas do jogo político das Alterosas,
lamentos de esmagados, filáucias de proponentes,
rumor de escravos escavando ouro e morte nas galerias de Morro Velho,
procissões de formigas cuiabanas tosando meticulosamente talos verdes,
fantasmas de mulas de latim debruçados sobre ex-alunos do Caraça,
tiros à sorrelfa (letais) nas emboscadas de Manhuaçu.
Cessa tudo que a vida morna ostenta,
que outro valor, de Vigo, se alevanta
e acolhe a prosternada
turibulação mineira de pau duro
ou já deficitária, não importa,
mas sempre a Eros erguendo novas aras.

Conspícuos pais da pátria,
flamívomos tribunos,
banqueiros, coronéis, beneméritos da Santa Casa de Misericórdia,
algum Secretário da Fazenda encapuzado
em hidrófilo sigilo,
respeitáveis chefes de família respeitabilíssima
ofertam a Madame Olímpia a catleia de louvor
que ela recebe altiva e sagrada qual Minerva.

Sua ampla testa lisa
encarna o poder
sobre rebanhos, apólices e complexos de Minas Gerais
e a procissão noturna espoca em febre
de bolhas beijos bolinações babas de batom.

Salve,
Imperatriz da farra honesta dos montanheses
que de dia cultivam Platão, o Dever, a Democracia,
tropeçando nos quartos sanguinolentos de Tiradentes,
e à noite estendem a vossos pés galegos
sua vocação de orgia e aniquilamento no esperma.
813
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Grande Manchete

Aproxima-se a hora da manchete:
O PETRÓLEO ACABOU.
Acabaram as alucinações
os crimes, os romances
as guerras do petróleo.
O mundo fica livre
do pesadelo institucionalizado.

Atirados ao lixo
motores de combustão interna
e lataria colorida,
o Museu da Sucata exibe
o derradeiro carro carrasco.
Tem etiqueta de remorso:
“Cansei a humanidade”.

Ruas voltam a existir
para o homem
e as alegrias de estar junto.
A poluição perdeu
seu aliado fidelíssimo.
A pressa acabou.

Acabou, pessoal! o congestionamento,
o palavrão,
a neurose coletiva.
A morte violenta entre ferragens
com seu véu de óleo
e chamas
acabou.

Milhões de árvores meninas irrompem do asfalto
e da consciência
em carnaval de sol.
Dão sombra grátis
ao papo dos amigos,
à doçura do ócio no intervalo
do batente,
do amor antes aprisionado sob o capô
ou esmigalhado pelas rodas,
à vida de mil formas naturais.
Pessoas, animais,
confraternizam: Milagre!

Dura 5 (?) minutos a festa
da natureza com a cidade.
Irrompem
formas eletrônicas implacáveis,
engenhos teleguiados catapúlticos
de máximo poder ofensivo
e reconquistam o espaço
em que a vida bailava.

Recomeça o problema de viver
na cidade-problema?

De que valeu cantar
o fim da gasolina de alta octanagem?

Enquanto não vem a formidável manchete,
vamos curtindo
outras manchetinhas a varejo.
Vamos curtindo
a visão do caos e do extermínio
na rua, na foto,
no sono atormentado:
mais 400 carros por dia nas pistas
que encolhem, encolhem, são apenas
enfumaçada fita de rangidos.
Mais loucura, mais palavrão e mais desastre.

E lemos Ralph Nader:
a cada 10 minutos
morre uma pessoa em acidente
de carro; a cada 15 segundos
sai alguém ferido
na pátria industrial dos automóveis.
Vamos imitá-la?
Vamos vencê-la em desafio
de quem mata mais e morre mais?
Ou vamos ficar apenas
engarrafados sem garrafa
no ar poluído e constelado
de placas, de sinais
que assinalam o grande entupimento?

Perguntas estas são mensagem
também ela espremida na garrafa
que boia no alto-mar de ondas surdas
e cegas
à espera do futuro que as responda.
898
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Grande Manchete

Aproxima-se a hora da manchete:
O PETRÓLEO ACABOU.
Acabaram as alucinações
os crimes, os romances
as guerras do petróleo.
O mundo fica livre
do pesadelo institucionalizado.

Atirados ao lixo
motores de combustão interna
e lataria colorida,
o Museu da Sucata exibe
o derradeiro carro carrasco.
Tem etiqueta de remorso:
“Cansei a humanidade”.

Ruas voltam a existir
para o homem
e as alegrias de estar junto.
A poluição perdeu
seu aliado fidelíssimo.
A pressa acabou.

Acabou, pessoal! o congestionamento,
o palavrão,
a neurose coletiva.
A morte violenta entre ferragens
com seu véu de óleo
e chamas
acabou.

Milhões de árvores meninas irrompem do asfalto
e da consciência
em carnaval de sol.
Dão sombra grátis
ao papo dos amigos,
à doçura do ócio no intervalo
do batente,
do amor antes aprisionado sob o capô
ou esmigalhado pelas rodas,
à vida de mil formas naturais.
Pessoas, animais,
confraternizam: Milagre!

Dura 5 (?) minutos a festa
da natureza com a cidade.
Irrompem
formas eletrônicas implacáveis,
engenhos teleguiados catapúlticos
de máximo poder ofensivo
e reconquistam o espaço
em que a vida bailava.

Recomeça o problema de viver
na cidade-problema?

De que valeu cantar
o fim da gasolina de alta octanagem?

Enquanto não vem a formidável manchete,
vamos curtindo
outras manchetinhas a varejo.
Vamos curtindo
a visão do caos e do extermínio
na rua, na foto,
no sono atormentado:
mais 400 carros por dia nas pistas
que encolhem, encolhem, são apenas
enfumaçada fita de rangidos.
Mais loucura, mais palavrão e mais desastre.

E lemos Ralph Nader:
a cada 10 minutos
morre uma pessoa em acidente
de carro; a cada 15 segundos
sai alguém ferido
na pátria industrial dos automóveis.
Vamos imitá-la?
Vamos vencê-la em desafio
de quem mata mais e morre mais?
Ou vamos ficar apenas
engarrafados sem garrafa
no ar poluído e constelado
de placas, de sinais
que assinalam o grande entupimento?

Perguntas estas são mensagem
também ela espremida na garrafa
que boia no alto-mar de ondas surdas
e cegas
à espera do futuro que as responda.
898
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Antibucólica 1972

— Até a clorofila?…

— Sim, senhor:
até a clorofila entra na fila
dos poluidores. Diz-nos um doutor
de Illinois que, em matéria de monóxido
de carbono, a graminha é uma parada.

Aparemo-la então, que em disparada
a relva, no jardim ou em depósito
no quarto de dormir (sei lá) é o mesmo
que automóvel queimando gasolina.

— A sina, pois, do mundo, é sem remédio?
Se da fumaça escapo, e rodo a esmo
pelos parques cisneiros da cidade,
trato de preparar meu epicédio,
pois o verde de amigo fez-se inimigo
e me leva, com toda a falsidade,
para o último hotel, vulgo jazigo.

Nó mais, verde, nó mais, que a língua tenho
(Camões que me perdoe, com seu engenho)
acidulada e a voz enrouquecida.
Já tusso, já sufoco, já me vejo
na horizontal postura inarredável
só de papar um mísero legume
ou de alecrim cheirar meigo perfume
que esconde no seu seio algo terrível.

Ah, natureza má que me enganavas,
fingindo-te benigna: vai às favas
e que as favas te sejam bem letais,
que de árvores, arbustos, tenras folhas,
tudo isso que polui, não quero mais
saber. Não são usinas gigantescas,
bombas, resíduos mil, restos largados
à flor das águas em sinistras bolhas
que corrompem a vida que vivemos.
É a grama, o capim, leve, ondulante,
forma que o vento curva a seu talante,
e que, ao perecer, nos envenena
o ar, desprendendo o tóxico tremendo.
É grama, é folha, é rama, ó Tom, é planta,
são as flores de março… mas que pena.

Bonito, vegetais; é isso aí?
Em vez de fotossíntese, vocês
fotossujeira operam na atmosfera?
Já era a pura estampa virgiliana
sub tegmine fagi (leia-se: oiti),
nos braços de Amarílis ou de Inês?
Emudece a canção, flauta de cana,
e foge, pastor meu, dos verdes campos,
previne os bois, avisa os pirilampos,
que a coisa não está de brincadeira.

A poluição, sabe-se agora, é velha
mais do que o homem. E não será o homem
freguês da poluição, em vez de autor?
Por pessimista, rogo, não me tomem,
nem quero ser tachado de farsista:
se tudo é poluição, até na flor,
no vergel, no quintal, seja o que for,
tratemos com a máxima presteza
de redigir político tratado:
teremos cativado a natureza,
convindo em que convivam lado a lado
o homem e a poluição fazendo amor.
1 173
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pedro Nava a Partir do Nome

Nava
campo raso planície intermontana
onde os Nava plantaram seu brasão
Ponti di Nava
Nava del Rey
de chocolate e vinho incandescentes
Navas de Oviedo
manando água sulfúrea sob o olhar
de romanos de pés dominadores
Navas de Tolosa
onde os reis de Navarra, de Castela e de Aragão
dobraram para sempre
a cerviz dos almóadas
Navarino enseada helênica
de que partem os bélicos navarcos
em naves agressivas

Navarre
colégio douto modelando
o menino Bossuet, o garoto Richelieu
navajos
confinando a glória antiga nas reservas
de papel passado e desprezado pelos brancos
e nos filmes ferozes de Hollywood
Navarrete
(Domingo Hernandez) obstinado
teólogo debatedor de ritos chineses
Nava
navio sulcando europas maranhões
cearás alencarinos
cruzando mares de serras e cerrados
até chegar à angra tranquila
de Juiz de Fora
onde a 5 de julho de 1903
desembarca o infante Pedro Nava.

Nava
o novo sentido da palavra
agora poesia
de distintas maneiras naviexpressa
em verso múltiplo, eis salta do verbo
para navianimar membros rígidos inertes
de gente sofredora
e reacender-lhes o ritmo do gesto
no baile de viver.
Versa depois outro caminho e cria
na superfície nívea as formas coloridas
do objeto pictórico
assim como quem não quer, mas tão sabido
que a arte o denuncia em toda parte,
e regressando ao porto de partida
navioceanigráfico navega
a descobrir tesouros submersos insuspeitados
no mais fundo da língua portuguesa.

Nava navipoeta
naviprosista
que a névoa do tempo descerrando
exibe ao nosso pasmo
as navetas de prata da memória
onde em linhas de nuvem se condensam
os externos e internos movimentos
do corpo brasileiro repartido
em clãs, em escrituras, em sussurros
de alcova, que, navissutil,
Nava recolhe e grava:
sensível retrato do Brasil
pulsando em navicinza do passado.

Nava
fugindo n’alva dos setent’anos.
803
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Um Contemporâneo

I — o sábio sorriso

Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.

Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.

Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.

Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem da espera esperança.

Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.


II — alceu na safira dos oitent’anos


E chega o momento de olhar para o amigo
devagar, bem nos olhos
e sorrir para ele, sem dizer
nenhum desses vanilóquios de todo dia.
Dizemos alguma coisa para a fonte?
Alguma coisa para o ar?
Chega o momento de sentir
o amigo em estado de natureza,
e toda a limpidez
e toda a transparência
da alma se projeta
no que parece um vulto e é uma essência.

Alceu da Casa Azul do Cosme Velho,
onde ricocheteavam as “balas de Floriano”
na Revolta da Armada
sem que a paz do jardim se anuviasse.
Alceu menino penetrando
a mina profunda e sinuosa do morro
como depois penetraria as almas
ansiosas de verdade,
essa alguma verdade pelo menos
que nossos dedos tentam alcançar
entre liquens, lagartos, seixos-navalha.
“Sou um terrível
(guardo tua palavra de há 40 anos)
pesquisador de almas.
Amo as almas como o avarento
ama suas moedas.
Ainda não cheguei à caridade
de amá-las por amor, só por amor,
amo-as por avidez do mistério,
insatisfação do que já sei,
do que já vi e desfolhei.”

A mina desemboca
no ponto matinal
em que a luz espadana
sobre a frente e o dorso da vida.
Alceu, chegaste às cores da manhã
no alto do Corcovado
sobre a cidade dos homens confusos,
sobre as suas rixas e descaminhos,
suas angústias disfarçadas em dança e tóxico,
suas esperanças machucadas,
suas frustrações latejantes na mudez,
a cidade geral — o mundo é uma cidade,
uma aldeia global, a casa em crise.

Na claridade que te envolve
és cada vez menos uma pessoa,
estátua bordada, professor
supostamente aposentado,
com CPF, cartão do IFP,
domiciliado entre palmeiras.
És cada vez, cada vez mais
o pensamento aberto
à comunicação dos seres pelo amor
que exclui injustiça e as formas todas
de inumano tornar o ser humano.

Alceu, fiel ao nome
do cantor de Mitilene que à alegria
juntava o amor à liberdade,
e ensinas a maravilhosa devoção
do homem a seu destino criador,
sem as peias do medo e as farpas do ódio.
Alceu, amigo de fitar nos olhos
como se fita na árvore antiga
o primeiro verdor de sombra e sumo.


Alceu jovial e forte
— força de testemunhar, e proclamar
o que filtrado foi na consciência,
Alceu fraterno e puro, na safira
dos oitent’anos,
na graça
da vida plena,
que é doação e luta e paz no coração.
1 123