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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Um Lírio, Por Acaso

E de repente Santa Teresinha
— quem diria? — faz 100 anos.
Ela que tem sempre 24
nas estampas dos gay twenties.

Santa do modernismo brasileiro,
do altar particular de Ribeiro Couto,
a quem curaste de tuberculose,
a tuberculose de que morreste,
santa invocada por Manuel Bandeira:
“Santa Teresa, não, Teresinha.
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!”
Não o atendeste, amiga Teresinha…

O poeta se queixava:
“Fiz tantos versos a Teresinha…
Versos tão tristes nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
era tão pouco! Não era glória…
Nem era amores… Nem foi dinheiro…
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!”

A ti nada pedi, mas simpatizava
com teu jeito simples de ser santa
do nosso tempo de incredulidade,
tempo de ciências exatas, Marx, anarquismo.
(Os ateus brasileiros levam sempre um santinho no bolso,
nossos comunas quando morrem, a família reza missa
de sétimo dia e de trigésimo.)
Simpatizava, simpatizava contigo
lendo tua autobiografia na tradução do padre Lochu
antes que me expulsassem do colégio
com a aprovação do próprio tradutor.

Naquele tempo
as autobiografias dos santos eram censuradas
e eu não sabia que foste
carmelitanamente precursora
do feminismo:
“Ah, pobres mulheres, tão desprezadas!
A todo instante nos proíbem:
Não faça isto, não faça aquilo,
e ameaçam excomungar-nos…”
Suave santa brasileira
por graça do diminutivo
que te fazia baiana, carioca, uberabense
(quem ousou um dia falar Santa Isabelinha, Santa Margaridinha?),
muito mais próxima de nós, em Lisieux,
do que a filha de Capistrano clausurada
ali no Morro,
e tão novinha
que dava oportunidade de dizer
a um senhor de 60 anos, na Avenida:
“Esta santa, mais moça do que eu…”
Então podemos todos ser santos?
Os santos não são apenas medievais,
predestinadíssimos, raríssimos,
para realçar ainda mais
nossa impossibilidade de pureza
ou para resgatá-la?

Vez ou outra eu ruminava essas coisas
enquanto ia chafurdando e esquecendo
a nostalgia de ter tido
o desejo, não digo de ser santo,
mas apenas o franciscano encapuzado
que assiste ao enterro do Conde de Orgaz
junto de Santo Agostinho e Santo Estêvão
na tela fantástica do Greco,
ou um dos pescadores no políptico de São Vicente,
de Nuno Gonçalves ou Hugo van der Goes, que sei eu,
aquele pescador quase de bruços
no painel da esquerda.

Já nem sei, minha santa,
qual o teu papel na Igreja contestante
de setenta,
és talvez, tão bonita, tão menina,
frágil demais para o serviço que se exige
do novo Cristo combatente,
mas a doçura não é arma também,
a seu tempo e seu modo, no combate?

Reparo agora,
já não és menina, és centenária,
ou assim te conta o tempo a vida breve,
e tenho de chamar-te vovozinha,
vovozinha Teresa do Carmelo,
de mel no nome e de ternura acesa
no coração de um distraído agnóstico,
ao abrir o jornal e nele ver
três linhas com teu nome,
entre os nomes de Hanói e de Manágua,
como um lírio nascido por acaso.
1 120
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Casa de Helena

Russa translúcida de sorriso tímido
(assim a contemplo na retrovisão da lembrança),
Helena 1929 enfrenta os poderes burocráticos.
Suavemente,
instaura em Minas o seu sonho-reflexão.

Moças normalistas rodeiam Helena.
Traz um sinal novo para gente nova.
Ensina
a ver diferente a criança,
a descobrir na criança
uma luz recoberta por cinzas e costumes,
e nas mais carentes e solitárias revela
o princípio de vida ansioso de sol.

Helena é talvez uma fada eslava
que estudou psicologia
para não fazer encantamentos; só para viajar
o território da infância e ir mapeando
suas ilhas, cavernas, florestas labirínticas,
de onde, na escuridão, desfere o pássaro
— surpresa —
melodia jamais ouvida antes.

Helena reúne
os que não se conformam com a vida estagnada
e os mandamentos da educação de mármore.
Leva com eles para o campo
uma ideia-sentimento
que faz liga com as árvores
as águas
os ventos
os animais
o espaço ilimitado de esperança.

Fazenda do Rosário: a fazendeira
alma de Minas se renova
em graça e amor, sem juros,
amor ciente de seus fins
de liberdade e criação.
E essa pastora magra, quase um sopro,
uma folha talvez (ou uma centelha
que não se apaga nunca?) vai pensando
outras formas de abrir, no chão pedrento,
o caminho de paz para o futuro.

Helena sonha o mundo de amanhã,
recuado sempre, mas factível
e em mínimas sementes concentrado:
estes garotos pensativos,
esse outro ali, inquieto, a modelar
engenharias espaciais com mão canhota,
aquele mais além, que se revolta
procurando a si mesmo, e não se encontra
no quadro bitolado dos contentes.
Viajantes sem pouso
no albergue corriqueiro,
Helena os chama e diz: Vou ajudá-los.

Não presidente, não ministro,
aos 80 anos dirige um mundo-em-ser.
A casa de Helena é a casa de daqui a 20 anos,
de daqui a 50, ao incontável.
Casa pousada em nós, em nosso sangue.
Podemos torná-la real: o risco de Helena
fica estampado na consciência.
E quando Helena 1974 se cala
na aparência mortal,
seu risco viçoso e alegre e delicado perdura,
lição de Helena Antipoff mineira universal.
2 382
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Casa de Helena

Russa translúcida de sorriso tímido
(assim a contemplo na retrovisão da lembrança),
Helena 1929 enfrenta os poderes burocráticos.
Suavemente,
instaura em Minas o seu sonho-reflexão.

Moças normalistas rodeiam Helena.
Traz um sinal novo para gente nova.
Ensina
a ver diferente a criança,
a descobrir na criança
uma luz recoberta por cinzas e costumes,
e nas mais carentes e solitárias revela
o princípio de vida ansioso de sol.

Helena é talvez uma fada eslava
que estudou psicologia
para não fazer encantamentos; só para viajar
o território da infância e ir mapeando
suas ilhas, cavernas, florestas labirínticas,
de onde, na escuridão, desfere o pássaro
— surpresa —
melodia jamais ouvida antes.

Helena reúne
os que não se conformam com a vida estagnada
e os mandamentos da educação de mármore.
Leva com eles para o campo
uma ideia-sentimento
que faz liga com as árvores
as águas
os ventos
os animais
o espaço ilimitado de esperança.

Fazenda do Rosário: a fazendeira
alma de Minas se renova
em graça e amor, sem juros,
amor ciente de seus fins
de liberdade e criação.
E essa pastora magra, quase um sopro,
uma folha talvez (ou uma centelha
que não se apaga nunca?) vai pensando
outras formas de abrir, no chão pedrento,
o caminho de paz para o futuro.

Helena sonha o mundo de amanhã,
recuado sempre, mas factível
e em mínimas sementes concentrado:
estes garotos pensativos,
esse outro ali, inquieto, a modelar
engenharias espaciais com mão canhota,
aquele mais além, que se revolta
procurando a si mesmo, e não se encontra
no quadro bitolado dos contentes.
Viajantes sem pouso
no albergue corriqueiro,
Helena os chama e diz: Vou ajudá-los.

Não presidente, não ministro,
aos 80 anos dirige um mundo-em-ser.
A casa de Helena é a casa de daqui a 20 anos,
de daqui a 50, ao incontável.
Casa pousada em nós, em nosso sangue.
Podemos torná-la real: o risco de Helena
fica estampado na consciência.
E quando Helena 1974 se cala
na aparência mortal,
seu risco viçoso e alegre e delicado perdura,
lição de Helena Antipoff mineira universal.
2 382
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pedro Nava a Partir do Nome

Nava
campo raso planície intermontana
onde os Nava plantaram seu brasão
Ponti di Nava
Nava del Rey
de chocolate e vinho incandescentes
Navas de Oviedo
manando água sulfúrea sob o olhar
de romanos de pés dominadores
Navas de Tolosa
onde os reis de Navarra, de Castela e de Aragão
dobraram para sempre
a cerviz dos almóadas
Navarino enseada helênica
de que partem os bélicos navarcos
em naves agressivas

Navarre
colégio douto modelando
o menino Bossuet, o garoto Richelieu
navajos
confinando a glória antiga nas reservas
de papel passado e desprezado pelos brancos
e nos filmes ferozes de Hollywood
Navarrete
(Domingo Hernandez) obstinado
teólogo debatedor de ritos chineses
Nava
navio sulcando europas maranhões
cearás alencarinos
cruzando mares de serras e cerrados
até chegar à angra tranquila
de Juiz de Fora
onde a 5 de julho de 1903
desembarca o infante Pedro Nava.

Nava
o novo sentido da palavra
agora poesia
de distintas maneiras naviexpressa
em verso múltiplo, eis salta do verbo
para navianimar membros rígidos inertes
de gente sofredora
e reacender-lhes o ritmo do gesto
no baile de viver.
Versa depois outro caminho e cria
na superfície nívea as formas coloridas
do objeto pictórico
assim como quem não quer, mas tão sabido
que a arte o denuncia em toda parte,
e regressando ao porto de partida
navioceanigráfico navega
a descobrir tesouros submersos insuspeitados
no mais fundo da língua portuguesa.

Nava navipoeta
naviprosista
que a névoa do tempo descerrando
exibe ao nosso pasmo
as navetas de prata da memória
onde em linhas de nuvem se condensam
os externos e internos movimentos
do corpo brasileiro repartido
em clãs, em escrituras, em sussurros
de alcova, que, navissutil,
Nava recolhe e grava:
sensível retrato do Brasil
pulsando em navicinza do passado.

Nava
fugindo n’alva dos setent’anos.
803
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Céu Livre da Fazenda

Das loucas festas na fazenda da Jaguara
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.

A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.

E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.

Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.

Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
1 306
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Céu Livre da Fazenda

Das loucas festas na fazenda da Jaguara
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.

A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.

E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.

Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.

Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
1 306
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ouro Preto, Livre do Tempo

Ouro Preto fala com a gente
de um modo novo, diferente.

Outras cidades se retraem
no ato primeiro da visita.
Depois desnudam-se, confiantes,
e seus segredos se oferecem
como café coado na hora.

Há mesmo cidades sensuais,
concentradas na espera ansiosa
de quem, macho, logo as domine.
Abrem-se as portas de tal modo
que são coxas, braços abertos.

Em Ouro Preto, redolente,
vaga um remoto estar presente.

Há em Ouro Preto, escondida,
uma cidade além-cidade.
Não adianta correr as ruas
e pontes, morros, sacristias,
se não houver total entrega.

Entrega mansa de turista
que de ser turista se esqueça.
Entrega humílima de poeta
que renuncie ao vão discurso
de nomes-cor, palavras-éter.

A hera e a era, gravemente,
aqui se apagam, na corrente.

De nada servem manuscritos
de verdade amarelecida.
Não é lendo nem pesquisando
que se penetra a ouro-pretana
alma absconsa, livre do tempo.

É deixando correr as horas
e, das horas no esquecimento,
escravizar-se todo à magia
que se impregna, muda, no espaço
e no rosto imóvel das coisas.

Pois tudo aqui é simplesmente
lucilação do transcendente.

A metafísica tristeza
que rói as vestes do passado
desaparece ante a serena
sublimação de todo crime,
lance heroico e lance romântico.

Ouro Preto, a se desprender
da sua história e circunstância,
é agora ser de beleza,
completo em si, de todo imune
ao que lhe inflija o ser humano.

A ruína ameaça inutilmente
essa ideia não contingente.

Quem entende Ouro Preto sabe
o que em linguagem não se exprime
senão por alusivos códigos,
e que pousa em suas ladeiras
como o leve roçar de um pássaro.

Ouro Preto, mais que lugar
sujeito à lei de finitude,
torna-se alado pensamento
que de pedra e talha se eleva
à gozosa esfera dos anjos.

Ouro Preto bole com a gente.
É um bulir novo, diferente.
3 685
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ouro Preto, Livre do Tempo

Ouro Preto fala com a gente
de um modo novo, diferente.

Outras cidades se retraem
no ato primeiro da visita.
Depois desnudam-se, confiantes,
e seus segredos se oferecem
como café coado na hora.

Há mesmo cidades sensuais,
concentradas na espera ansiosa
de quem, macho, logo as domine.
Abrem-se as portas de tal modo
que são coxas, braços abertos.

Em Ouro Preto, redolente,
vaga um remoto estar presente.

Há em Ouro Preto, escondida,
uma cidade além-cidade.
Não adianta correr as ruas
e pontes, morros, sacristias,
se não houver total entrega.

Entrega mansa de turista
que de ser turista se esqueça.
Entrega humílima de poeta
que renuncie ao vão discurso
de nomes-cor, palavras-éter.

A hera e a era, gravemente,
aqui se apagam, na corrente.

De nada servem manuscritos
de verdade amarelecida.
Não é lendo nem pesquisando
que se penetra a ouro-pretana
alma absconsa, livre do tempo.

É deixando correr as horas
e, das horas no esquecimento,
escravizar-se todo à magia
que se impregna, muda, no espaço
e no rosto imóvel das coisas.

Pois tudo aqui é simplesmente
lucilação do transcendente.

A metafísica tristeza
que rói as vestes do passado
desaparece ante a serena
sublimação de todo crime,
lance heroico e lance romântico.

Ouro Preto, a se desprender
da sua história e circunstância,
é agora ser de beleza,
completo em si, de todo imune
ao que lhe inflija o ser humano.

A ruína ameaça inutilmente
essa ideia não contingente.

Quem entende Ouro Preto sabe
o que em linguagem não se exprime
senão por alusivos códigos,
e que pousa em suas ladeiras
como o leve roçar de um pássaro.

Ouro Preto, mais que lugar
sujeito à lei de finitude,
torna-se alado pensamento
que de pedra e talha se eleva
à gozosa esfera dos anjos.

Ouro Preto bole com a gente.
É um bulir novo, diferente.
3 685
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Um Contemporâneo

I — o sábio sorriso

Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.

Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.

Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.

Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem da espera esperança.

Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.


II — alceu na safira dos oitent’anos


E chega o momento de olhar para o amigo
devagar, bem nos olhos
e sorrir para ele, sem dizer
nenhum desses vanilóquios de todo dia.
Dizemos alguma coisa para a fonte?
Alguma coisa para o ar?
Chega o momento de sentir
o amigo em estado de natureza,
e toda a limpidez
e toda a transparência
da alma se projeta
no que parece um vulto e é uma essência.

Alceu da Casa Azul do Cosme Velho,
onde ricocheteavam as “balas de Floriano”
na Revolta da Armada
sem que a paz do jardim se anuviasse.
Alceu menino penetrando
a mina profunda e sinuosa do morro
como depois penetraria as almas
ansiosas de verdade,
essa alguma verdade pelo menos
que nossos dedos tentam alcançar
entre liquens, lagartos, seixos-navalha.
“Sou um terrível
(guardo tua palavra de há 40 anos)
pesquisador de almas.
Amo as almas como o avarento
ama suas moedas.
Ainda não cheguei à caridade
de amá-las por amor, só por amor,
amo-as por avidez do mistério,
insatisfação do que já sei,
do que já vi e desfolhei.”

A mina desemboca
no ponto matinal
em que a luz espadana
sobre a frente e o dorso da vida.
Alceu, chegaste às cores da manhã
no alto do Corcovado
sobre a cidade dos homens confusos,
sobre as suas rixas e descaminhos,
suas angústias disfarçadas em dança e tóxico,
suas esperanças machucadas,
suas frustrações latejantes na mudez,
a cidade geral — o mundo é uma cidade,
uma aldeia global, a casa em crise.

Na claridade que te envolve
és cada vez menos uma pessoa,
estátua bordada, professor
supostamente aposentado,
com CPF, cartão do IFP,
domiciliado entre palmeiras.
És cada vez, cada vez mais
o pensamento aberto
à comunicação dos seres pelo amor
que exclui injustiça e as formas todas
de inumano tornar o ser humano.

Alceu, fiel ao nome
do cantor de Mitilene que à alegria
juntava o amor à liberdade,
e ensinas a maravilhosa devoção
do homem a seu destino criador,
sem as peias do medo e as farpas do ódio.
Alceu, amigo de fitar nos olhos
como se fita na árvore antiga
o primeiro verdor de sombra e sumo.


Alceu jovial e forte
— força de testemunhar, e proclamar
o que filtrado foi na consciência,
Alceu fraterno e puro, na safira
dos oitent’anos,
na graça
da vida plena,
que é doação e luta e paz no coração.
1 123
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Triste Horizonte

Por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia
e continua, branda: Volta lá.
Tudo é belo e cantante na coleção de perfumes
das avenidas que levam ao amor,
nos espelhos de luz e penumbra onde se projetam
os puros jogos de viver.
Anda! Volta lá, volta já.
E eu respondo, carrancudo: Não.
Não voltarei para ver o que não merece ser visto,
o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser.
Não o passado cor-de-cores fantásticas,
Belo Horizonte sorrindo púbere núbil sensual sem malícia,
lugar de ler os clássicos e amar as artes novas,
lugar muito especial pela graça do clima
e pelo gosto, que não tem preço,
de falar mal do Governo no lendário Bar do Ponto.
Cidade aberta aos estudantes do mundo inteiro, inclusive Alagoas,
“maravilha de milhares de brilhos vidrilhos”
mariodeandrademente celebrada.
Não, Mário, Belo Horizonte não era uma tolice como as outras.
Era uma provinciana saudável, de carnes leves pesseguíneas.
Era um remanso muito manso
para fugir às partes agitadas do Brasil,
sorrindo do Rio de Janeiro e de São Paulo: tão prafrentex, as duas!
e nós lá: macio-amesendados
na calma e na verde brisa irônica…

Esquecer, quero esquecer é a brutal Belo Horizonte
que se empavona sobre o corpo crucificado da primeira.
Quero não saber da traição de seus santos.
Eles a protegiam, agora protegem-se a si mesmos.
São José, no centro mesmo da cidade,
explora estacionamento de automóveis.
São José dendroclasta não deixa de pé sequer um pé de pau
onde amarrar o burrinho numa parada no caminho do Egito.
São José vai entrar feio no comércio de imóveis,
vendendo seus jardins reservados a Deus.
São Pedro instala supermercado.
Nossa Senhora das Dores,
amizade da gente na Floresta,
(vi crescer sua igreja à sombra do Padre Artur)
abre caderneta de poupança,
lojas de acessórios para carros
papelaria, aviário, pães de queijo.
Terão endoidecido esses meus santos
e a dolorida mãe de Deus?
Ou foi em nome deles que pastores
deixam de pastorear para faturar?
Não escutam a voz de Jeremias
(e é o Senhor que fala por sua boca de vergasta):
“Eu vos introduzi numa terra fértil,
e depois de lá entrardes a profanastes.
Ai dos pastores que perdem e despedaçam
o rebanho da minha pastagem!
Eis que os visitarei para castigar a esperteza de seus desígnios.”

Fujo
da ignóbil visão de tendas obstruindo as alamedas do Senhor.
Tento fugir da própria cidade, reconfortar-me
em seu austero píncaro serrano.
De lá verei uma longínqua, purificada Belo Horizonte
sem escutar o rumor dos negócios abafando a litania dos fiéis.
Lá o imenso azul desenha ainda as mensagens
de esperança nos homens pacificados — os doces mineiros
que teimam em existir no caos e no tráfico.
Em vão tento a escalada.
Cassetetes e revólveres me barram
a subida que era alegria dominical de minha gente.
Proibido escalar. Proibido sentir
o ar de liberdade destes cimos,
proibido viver a selvagem intimidade destas pedras
que se vão desfazendo em forma de dinheiro.
Esta serra tem dono. Não mais a natureza
a governa. Desfaz-se, com o minério,
uma antiga aliança, um rito da cidade.
Desiste ou leva bala. Encurralados todos,
a Serra do Curral, os moradores
cá embaixo. Jeremias me avisa:
“Foi assolada toda a serra; de improviso
derrubaram minhas tendas, abateram meus pavilhões.
Vi os montes, e eis que tremiam.
E todos os outeiros estremeciam.
Olhei para a terra, e eis que estava vazia,
sem nada nada nada.”

Sossega, minha saudade. Não me cicies outra vez
o impróprio convite.
Não quero mais, não quero ver-te,
meu Triste Horizonte e destroçado amor.
1 447