Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Manuel Bandeira
Enquanto Morrem as Rosas
Morre a tarde. Erra no ar a divina fragrância.
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
1 572
Marina Colasanti
Um toque de garança no mar
Eu vi um navio
cor-de-rosa
apartando o oceano
sobre um trilho.
O trilho não se via,
na precisão do rumo estava incluso.
Era um rosa tão vivo
ou um vermelho apagado
um toque de garança.
E tudo no navio era quadrado.
Era um navio
era um quadro
um Mondrian flutuante.
Containers empilhados
esquadradas gruas
e o casco reto
limpo como um traço.
Eu vi esse navio
antes que a ilha
na linha do horizonte
abrisse a imensa boca
e no ventre de pedra
o recolhesse.
cor-de-rosa
apartando o oceano
sobre um trilho.
O trilho não se via,
na precisão do rumo estava incluso.
Era um rosa tão vivo
ou um vermelho apagado
um toque de garança.
E tudo no navio era quadrado.
Era um navio
era um quadro
um Mondrian flutuante.
Containers empilhados
esquadradas gruas
e o casco reto
limpo como um traço.
Eu vi esse navio
antes que a ilha
na linha do horizonte
abrisse a imensa boca
e no ventre de pedra
o recolhesse.
1 038
Marina Colasanti
Casa di campo nei tropici
Se una volta non vengo
se ne va tutto in fumo
il giardino
il prato
e l’ordine curato.
Dietro al profumo
c’è la selva
in agguato.
se ne va tutto in fumo
il giardino
il prato
e l’ordine curato.
Dietro al profumo
c’è la selva
in agguato.
1 058
Marina Colasanti
Casa di campo nei tropici
Se una volta non vengo
se ne va tutto in fumo
il giardino
il prato
e l’ordine curato.
Dietro al profumo
c’è la selva
in agguato.
se ne va tutto in fumo
il giardino
il prato
e l’ordine curato.
Dietro al profumo
c’è la selva
in agguato.
1 058
Marina Colasanti
Tão clara a água
Naquele verão
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
1 030
Manuel Bandeira
Oceano
Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.
E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.
— Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.
E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.
— Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...
1 023
Marina Colasanti
Entre nosso olhar e
A luz sobre o lago é
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
um biombo chinês
que se desdobra
entregando transparências
que se recolhe
em sedas superpostas
anteparo irredutível
que estremece
entre nosso olhar
e as montanhas.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 075
Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 220
Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 220
Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 220
Marina Colasanti
Era um jardim
Macacos se fartam
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
1 062
Marina Colasanti
Era um jardim
Macacos se fartam
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
1 062
Marina Colasanti
Como nada
No quinto degrau
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
1 207
Marina Colasanti
Primavera em Bellagio
Nevou à noite nas
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
1 132
Marina Colasanti
Primavera em Bellagio
Nevou à noite nas
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
1 132
Marina Colasanti
Primavera em Bellagio
Nevou à noite nas
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
1 132
Marina Colasanti
Primavera em Bellagio
Nevou à noite nas
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
altas montanhas além do lago
mas no jardim
as glicínias fingiram ignorar
o inaudível cair dos flocos.
Mais forte era o chamado
que as conduzia à floração.
Agora
ao sol da manhã
a neve se desfaz
quase nuvem pousada no topo
cintilar breve que estava
e não está
enquanto as glicínias
abrem de par em par
o corpo de suas flores
e túrgidas
escorrem pela escarpa.
1 132
Marina Colasanti
Mas lhe sou estranha
Fecho a porta do banheiro
e por trás do roupão atoalhado
a lagartixa escapa.
Está com medo de mim que
não lhe quero mal
mas lhe sou estranha.
Quatro dedos abertos no azulejo
quatro patas grudadas na parede.
Os olhos não se movem
ou se movem e não sei
parados pontos de pupila apenas
ônix em riste na cabeça erguida.
Pulsam escuros órgãos sob a pele.
No corpo falsamente transparente
a fuga está presente
e não se vê.
E eu me pergunto
se a lagartixa
espera o meu mover
ou se está atenta ao
canto das cigarras que
da janela jorra
em cima dela.
e por trás do roupão atoalhado
a lagartixa escapa.
Está com medo de mim que
não lhe quero mal
mas lhe sou estranha.
Quatro dedos abertos no azulejo
quatro patas grudadas na parede.
Os olhos não se movem
ou se movem e não sei
parados pontos de pupila apenas
ônix em riste na cabeça erguida.
Pulsam escuros órgãos sob a pele.
No corpo falsamente transparente
a fuga está presente
e não se vê.
E eu me pergunto
se a lagartixa
espera o meu mover
ou se está atenta ao
canto das cigarras que
da janela jorra
em cima dela.
1 067
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 086
Marina Colasanti
De encrespado dorso
Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 086
Marina Colasanti
Dois talhos de luz
Na taça de vidro
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
1 129
Marina Colasanti
E rainúnculos
Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 123
Marina Colasanti
Livres à noite
Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
1 009
Marina Colasanti
Tinnitus auricularis
Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 140