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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Um Besouro Em Toda Parte

Besourinho escuro
de casco bronzeado,
por que vens de longe
pousar neste muro?

Novas africanas
trazes para mim?
Cifrada mensagem,
no ar, de Idi Amim?

Contas sofrimento,
cantas liberdade,
luta sempre acesa
ou turvo lamento?

Superfícies alvas,
focos de calor
te fascinam, tonto,
seja como for?

Mas quedas inerte
em minha vidraça.
Nem moves as patas.
Isso te diverte?

Vir de tão remotos
céus para ficar
abobado, alheio
à festa solar?

Turista aprendiz
e desinformado,
o vernal dezembro
não te faz feliz?

Já pelas favelas
um rio de som
desliza e deságua
por sobre o Ano Bom.

Este seu caudal
cria vibração,
e de samba e voz
faz-se carnaval.

Não voas, não bailas
na geral ciranda?
Preferes a sesta
em minha varanda?

A parar começas
os teus movimentos
qual se gasolina
te fugisse às peças?

Caíste em letargo
pensando talvez
que é vão todo esforço
neste, em qualquer mês?

A tantas perguntas
nada me respondes.
Desdenhas, calado,
todas elas juntas.

O doutor ao lado
esclarece então:
“O inseto é quietinho,
mas de muita ação.”

Quem o vê tranquilo
não sabe o poder
que ele manifesta
em voraz estilo.

No imobilismo
em que se comporta,
organiza o plano
de comer a horta.

Não corre, não pula,
mas na hora exata
ferra no jardim
o dente da gula.

Numa noite apenas,
o verdor perece,
já no chão vencido
a vagem fenece.

Adeus, lavourinha,
adeus, meu sustento.
Que me livre o céu
da praga daninha.

São dez, não quarenta,
são mil a pastar,
em silêncio e força,
quanto se plantar.

Só inseticida,
do bravo, e a Feema,
conjugados, podem
ganhar a partida.

Mas cuidado: o mal
é maior ainda
se com esse expurgo
nossa vida finda.

Poluição? Inseto?
Por que risco optar?
Hesito, e um bichinho
vejo lá no teto.

Vejo-o nas cortinas,
vejo-o nas paredes.
Vê-o meu vizinho
na sua Mercedes.

Na blusa do broto
e na sua tanga,
joia, dependura-se
o inseto maroto.

No austero papel
da burocracia,
no prato de arroz,
ele passa o dia.

Na vida da gente,
parado ou roendo,
o escuro bichinho
reina, indiferente.
1 451
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

E Aconteceu a Primavera

I

Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que ao menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.

Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no papo branco,
extintas primaveridades.

Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.

E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.

Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.

Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.

Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…


II

— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…

— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.

É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.

Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! no cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.

— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.

(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)

— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.


(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)

— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?

É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)

Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas?
4 110
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

E Aconteceu a Primavera

I

Que alguém te cante e te descante,
ficou urgente, Primavera,
para que ao menos em cantiga,
neste papel aberto às gentes,
a flor antiga se restaure.

Te cantarei em Pernambuco,
onde és cidade, e no Pará,
onde mulheres plantam malva
sob o título municipal,
e em Rondônia cantarei
a corredeira Primavera,
pois nesses nomes de lugares
e num acidente geográfico
tu pousaste como um pássaro,
modesto pássaro cinzento
de asas pretas e cauda preta,
só a lembrar, no papo branco,
extintas primaveridades.

Primavera que tanto habitas
a bráctea rósea da buganvília
(em que jardins à vista ocultos
sob a fumaça que é nosso azul
residual?),
como habitavas, parnasiana,
o soneto crônico e clássico
dos poetas consumidores
de velhos tópicos europeus,
é forçoso que alguém celebre
o ímpeto juvenil da Terra
mesmo poluída, desossada,
Terra assim mesmo, seiva nossa.

E te ofereço, Primavera,
a arvorezinha de brinquedo
em pátio escolar plantada,
enquanto lá fora se ensina
como derrubar, como queimar,
como secar fontes de vida
para erigir a nova ordem
do Homem Artificial.

Ah, Primavera, me desculpa
se corto em meio uma floresta
latifoliada, pois tenho pressa
de correr na estrada de Santos.
Não te zangues se já não vês
em teu perene séquito lírico
aquele sininho-flor, descoberto
em longes tempos por George Gardner
e que soava só no Brasil:
foi preciso (teria sido?)
matar o verde, substituí-lo
pela neutra cor uniforme
que é uniforme do Progresso.

Primavera, primula veris,
em palavra quedas intacta,
em palavra pois te deponho
a minha culpa coletiva,
o meu citadino remorso,
minha saudade de água, bicho,
terra encharcada de promessas,
e visões e asas e vozes
primitivas e eternas, como
eterno (e amoroso) é o homem
ligado ao quadro natural.

Primavera, fiz um discurso?
Primavera, tu me perdoas?…


II

— 22 de setembro, mina minha.
Vamos curtir a primavera
em compact cassete tape, meu morango?
Bota aí o Botticelli
estereoutransfigurado em Debussy
e vê (primeiro fecha os olhos) Simonetta
Vespucci toda flor
florentil florindamente
(bulcão?) entre corolas e resinas
da flora da Tijuca…

— Não. Prefiro o Sacré du Printemps
que transa a primavera mais primeva.
Assim, no sala-e-escuro
dos sala-e-quarto conjugados
os dois ficamos respeitando
um princípio de seiva e de nenúfar,
enquanto a chuva — plic — tamborina
seu samba de uma nota só
na área de serviço.

É primavera, broto-brinco:
saiu no jornal,
a TV anunciou,
o Governo consentiu,
o Congresso aplaudiu
o comércio vendeu
arranjos de ikebana
e em algum lugar florescem três-marias
que são muitas marias, muitos nomes.

Vamos também curtir os nomes
(são presentes do povo à gente-bem):
riso-do-prado
(cadê o prado?),
amor-de-estudante
(pobre! no cursinho
que vira cursão
e invade o Brasil),
unha-de-gato
(envenenado
no Passeio Público?),
sempre-viçosa…
isto! A esperança
pousa na balança
o seu peso-pluma.

— Você tá esquecido
da maria-branca,
da pombinha-das-almas
e da noivinha…
Asas-pseudônimos
de primavera.

(Ah, vero barato
esse de brincar
de estação das flores
de concreto-objeto!)

— Oi, depressa, vamos
semear canteiros,
preparar estacas
e mergulhões,
plantar tubérculos
de cromo-gladíolos,
túberas de dálias
e tinhorões,
repicar sementeiras,
controlar lagartas,
ácaros e trips,
dizimar pulgões.


(Ui, primavera é fogo
se levada a sério!)

— Vamos pintar de verde
as áreas crestadas,
pôr na parede
a árvore genealógica,
comprar um sabiá
mecânico,
sortear
o beija-flor de beijar cimento?

É primavera, escuta o Burle Marx:
diz que havia jardins
em torno das casas,
havia matas
a cavaleiro das cidades,
florestas
onde o jacarandá e o mogno conversavam
a conversa de séculos.
(Fecharam o bico,
chegado o eucalipto.)

Broto gentil, a primavera
será um sonho de sonhar-se
na fumaça
no grito
no sem azul deserto
das cidades mortas que se julgam vivas?
4 110
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Grande Manchete

Aproxima-se a hora da manchete:
O PETRÓLEO ACABOU.
Acabaram as alucinações
os crimes, os romances
as guerras do petróleo.
O mundo fica livre
do pesadelo institucionalizado.

Atirados ao lixo
motores de combustão interna
e lataria colorida,
o Museu da Sucata exibe
o derradeiro carro carrasco.
Tem etiqueta de remorso:
“Cansei a humanidade”.

Ruas voltam a existir
para o homem
e as alegrias de estar junto.
A poluição perdeu
seu aliado fidelíssimo.
A pressa acabou.

Acabou, pessoal! o congestionamento,
o palavrão,
a neurose coletiva.
A morte violenta entre ferragens
com seu véu de óleo
e chamas
acabou.

Milhões de árvores meninas irrompem do asfalto
e da consciência
em carnaval de sol.
Dão sombra grátis
ao papo dos amigos,
à doçura do ócio no intervalo
do batente,
do amor antes aprisionado sob o capô
ou esmigalhado pelas rodas,
à vida de mil formas naturais.
Pessoas, animais,
confraternizam: Milagre!

Dura 5 (?) minutos a festa
da natureza com a cidade.
Irrompem
formas eletrônicas implacáveis,
engenhos teleguiados catapúlticos
de máximo poder ofensivo
e reconquistam o espaço
em que a vida bailava.

Recomeça o problema de viver
na cidade-problema?

De que valeu cantar
o fim da gasolina de alta octanagem?

Enquanto não vem a formidável manchete,
vamos curtindo
outras manchetinhas a varejo.
Vamos curtindo
a visão do caos e do extermínio
na rua, na foto,
no sono atormentado:
mais 400 carros por dia nas pistas
que encolhem, encolhem, são apenas
enfumaçada fita de rangidos.
Mais loucura, mais palavrão e mais desastre.

E lemos Ralph Nader:
a cada 10 minutos
morre uma pessoa em acidente
de carro; a cada 15 segundos
sai alguém ferido
na pátria industrial dos automóveis.
Vamos imitá-la?
Vamos vencê-la em desafio
de quem mata mais e morre mais?
Ou vamos ficar apenas
engarrafados sem garrafa
no ar poluído e constelado
de placas, de sinais
que assinalam o grande entupimento?

Perguntas estas são mensagem
também ela espremida na garrafa
que boia no alto-mar de ondas surdas
e cegas
à espera do futuro que as responda.
898
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Antibucólica 1972

— Até a clorofila?…

— Sim, senhor:
até a clorofila entra na fila
dos poluidores. Diz-nos um doutor
de Illinois que, em matéria de monóxido
de carbono, a graminha é uma parada.

Aparemo-la então, que em disparada
a relva, no jardim ou em depósito
no quarto de dormir (sei lá) é o mesmo
que automóvel queimando gasolina.

— A sina, pois, do mundo, é sem remédio?
Se da fumaça escapo, e rodo a esmo
pelos parques cisneiros da cidade,
trato de preparar meu epicédio,
pois o verde de amigo fez-se inimigo
e me leva, com toda a falsidade,
para o último hotel, vulgo jazigo.

Nó mais, verde, nó mais, que a língua tenho
(Camões que me perdoe, com seu engenho)
acidulada e a voz enrouquecida.
Já tusso, já sufoco, já me vejo
na horizontal postura inarredável
só de papar um mísero legume
ou de alecrim cheirar meigo perfume
que esconde no seu seio algo terrível.

Ah, natureza má que me enganavas,
fingindo-te benigna: vai às favas
e que as favas te sejam bem letais,
que de árvores, arbustos, tenras folhas,
tudo isso que polui, não quero mais
saber. Não são usinas gigantescas,
bombas, resíduos mil, restos largados
à flor das águas em sinistras bolhas
que corrompem a vida que vivemos.
É a grama, o capim, leve, ondulante,
forma que o vento curva a seu talante,
e que, ao perecer, nos envenena
o ar, desprendendo o tóxico tremendo.
É grama, é folha, é rama, ó Tom, é planta,
são as flores de março… mas que pena.

Bonito, vegetais; é isso aí?
Em vez de fotossíntese, vocês
fotossujeira operam na atmosfera?
Já era a pura estampa virgiliana
sub tegmine fagi (leia-se: oiti),
nos braços de Amarílis ou de Inês?
Emudece a canção, flauta de cana,
e foge, pastor meu, dos verdes campos,
previne os bois, avisa os pirilampos,
que a coisa não está de brincadeira.

A poluição, sabe-se agora, é velha
mais do que o homem. E não será o homem
freguês da poluição, em vez de autor?
Por pessimista, rogo, não me tomem,
nem quero ser tachado de farsista:
se tudo é poluição, até na flor,
no vergel, no quintal, seja o que for,
tratemos com a máxima presteza
de redigir político tratado:
teremos cativado a natureza,
convindo em que convivam lado a lado
o homem e a poluição fazendo amor.
1 173
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ultratelex a Francisco

Francisco, bom dia no seu dia!
O dia de sua morte… Quem falou?
Imagino um afresco de Giotto:
Aves riscam os quatro ventos do céu,
formam cruzes de plumas. Entre elas,
sobe o poeta a conversar com os anjos.
Ninguém repara em suas mãos transparentes
o signo de cinco cravos sangrentos.
Cruzes e cravos que amor transmuda
em alegria superior a sofrimento.
Não é morte. É dia pleno.

Oi, Francisco, perito em alegrias especiais!
A maior: não possuir nada de nada.
Nem mesmo o burel castanho: é para rasgar e distribuir.
Nem mesmo o corpo: reservado
aos estigmas da divina predileção.

Francisco operário madrugador na construção de igrejas
(não de edifícios de renda, longe disso):
tantas coisas para lhe contar, daqui de baixo.
Mas você não cansou, em sete séculos e meio,
de ouvir a eterna queixa, o monocórdio estribilho
de nossa falta de humildade cortesia ternura nudez?

Veja por exemplo os bichos. (Só a eles me refiro
porque não falam por si.) Arvoro-me em secretário
do mico-estrela, da tartaruga, da baleia,
de todos, todos. Dos mais espetaculares aos mínimos,
tão míseros.
De irmãos você os chamava. Repare: aterrorizados,
fogem de nós, com muita razão e longos medos.
De um e outro, isolados,
gostamos. Coisa nossa, brinquedo. É gosto sem gostar,
feito de posse-domínio.
Veja as infinitas coleções
de animais que padecem em todos os chãos e águas da Terra
e não podem dizer que padecem, e por isso padecem duas vezes,
sem o suporte da santidade.

Pior, Francisco: o padecimento deles
é de responsabilidade nossa — humana? desumana.
Pois nós os torturamos e matamos
por hábito de torturar e de matar
e de tornar a fazê-lo, esporte
com halalis, campeonatos, medalhas, manchetes,
ouro pingando sangue.

Repiso estas coisas meio encabulado.
Tão velhas!
Tão novas sempre, secamente.
Técnicas letais varejam o fundo do mar
e o velho tiro, a velha lâmina
estão sempre caçando o irmão-bicho.

Lembrar que terrível penúria de amor
lavra nos corações convertidos em box
de supermercado de crueldades?
E penúria logo de amor,
essa matéria-prima, essa veste inconsútil de sua vida, Francisco?

Calo-me, santinho nosso,
mas antes faço-lhe um apelo:
providencie urgente sua volta ao mundo
no mesmo lugar, em lugar qualquer,
principalmente onde se comercia a santa esperança dos homens,
para ver se dá jeito,
jeito simples, franciscano, jeito descalço
de consertar tudo isso. Os bichos,
por este secretário, lhe agradecem.
1 049
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Chave

E de repente
o resumo de tudo é uma chave.

A chave de uma porta que não abre
para o interior desabitado
no solo que inexiste,
mas a chave existe.

Aperto-a duramente
para ela sentir que estou sentindo
sua força de chave.
O ferro emerge de fazenda submersa.
Que valem escrituras de transferência de domínio
se tenho nas mãos a chave-fazenda
com todos os seus bois e os seus cavalos
e suas éguas e aguadas e abantesmas?
Se tenho nas mãos barbudos proprietários oitocentistas
de que ninguém fala mais, e se falasse
era para dizer: os Antigos?
(Sorrio pensando: somos os Modernos
provisórios, a-históricos...)

Os Antigos passeiam nos meus dedos.
Eles são os meus dedos substitutos
ou os verdadeiros?
Posso sentir o cheiro de suor dos guardas-mores,
o perfume-Paris das fazendeiras no domingo de missa.
Posso, não. Devo.
Sou devedor do meu passado,
cobrado pela chave.
Que sentido tem a água represa
no espaço onde as estacas do curral
concentram o aboio do crepúsculo?
Onde a casa vige?
Quem dissolve o existido, eternamente
existindo na chave?

O menor grão de café
derrama nesta chave o cafezal.

A porta principal, esta é que abre
sem fechadura e gesto.
Abre para o imenso.
Vai-me empurrando e revelando
o que não sei de mim e está nos Outros.
O serralheiro não sabia
o ato de criação como é potente
e na coisa criada se prolonga,
ressoante.
Escuto a voz da chave, canavial,
uva espremida, berne de bezerro,
esperança de chuva, flor de milho,
o grilo, o sapo, a madrugada, a carta,
a mudez desatada na linguagem
que só a terra fala ao fino ouvido.
E aperto, aperto-a, e, de apertá-la,
ela se entranha em mim. Corre nas veias.
É dentro em nós que as coisas são,
ferro em brasa — o ferro de uma chave.
1 766
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Relógio do Rosário

Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
1 366
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Céu Livre da Fazenda

Das loucas festas na fazenda da Jaguara
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.

A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.

E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.

Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.

Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
1 302
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canções de Alinhavo

I

Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.

II

Stéphane Mallarmé esgotou a taça do incognoscível.
Nada sobrou para nós senão o cotidiano
que avilta, deprime. Real, se existes fora
da órbita dos almanaques, não sei. Há de haver uma região
de todas as coisas. E nela nos encontraremos
como antes em cafés, bares, livrarias
hoje proscritos do planeta. E nos reconheceremos todos,
Aníbal Machado entre os dominicais. E, Martine Carol a seu lado,
são dois alpinistas escalando a vertente
de uma favela. As nádegas de Martine,
meigas ao tato do escritor que a ampara na subida.
O som do candomblé infiltra-se na assembleia de amigos.
Deve ser isso o eterno?

III

Assustou-se o Cônego Monteiro possuído pelo Maligno
à espera de morrer, explodindo maldições
contra tudo e todos, principalmente a Mulher.
Era um velho bibliófilo pobre, a tarde escorria
sobre lombadas carcomidas, sua batina
tinha velhice de catedral. Conversávamos.
Por fim, na cama de hospital, revirando-se,
olhar aceso, língua a desmanchar-se em labaredas,
ele renegava os serões literários, as magnas academias
e anunciava sua próxima chegada ao Inferno.
Que homem nele era o principal, eu não atinava.
Minha visita foi revelação do que se reserva aos santos,
expiação de pecados que não cometeram
mas desejariam, quem sabe, cometer
e Deus não permitiu. Persignei-me sem convicção.
O Cônego sorriu. O Diabo sorria em suas rugas.

IV

Passeio no Antigo Testamento sempre que possível
entre duas crônicas de jornal
com hora marcada de entrega.
O que me seduz nesses capítulos
é Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
Parece que todos os deuses eram assim
e por isto se faziam amar
entre mortais instigados pelo terror.
Gostaria de ver Milton Campos debatendo polidamente com Deus
as razões de sua fereza. Talvez o demudasse
de tanta crueldade. Vejo
florir a primeira violeta africana
no vaso do balcão, presente de Marcelo Garcia.
Sestro de flores: aparecem quando não esperadas.
Deveríamos esperá-las sempre e com urgência,
reclamando nova floração a cada momento do dia.
Moisés me intriga. Rei ou servo do Senhor?

V

Condenado a escrever fatalmente o mesmo poema
e ele não alcança perfil definitivo.
Talvez nem exista. Perseguem-me quimeras.
O problema não é inventar. É ser inventado
hora após hora e nunca ficar pronta
nossa edição convincente. O hotel de Barra do Piraí
era ao mesmo tempo locomotiva e hospedaria.
O trem passava, fumegante, no refeitório,
as paredes com aves empalhadas iam até o mato virgem.
Tínhamos medo de a composição sair sem apitar
e ficarmos irremediavelmente ali, lugar sem definição.
Jamais poema algum se desprenderia da ambição de poema.
Compreenda quem possa. Naquele tempo não usava
existirem mulheres. Tudo abstração. Sofria-se muito.
Entre Schopenhauer e Albino Forjaz de Sampaio,
leituras ardiam na pele. Quem sabia de Freud?
A Avenida Atlântica situa essas coisas numa palidez de galáxia.

VI

O Vampiro resume as assombrações que me visitavam
no tempo de imagens. Enfrento-o cara a cara,
aperto-lhe a mão, proponho-lhe em desafio minha carótida.
Ele quer outra coisa. Sempre outra coisa me rogavam
sem que dissessem e eu soubesse qual.
Crime, loucura, danação,
todas hipóteses. Nunca descobri a verdadeira.
Lúcia Branco, o piano, tentou iniciar-me na Rosa-Cruz,
um dia invoquei, mudos, os espíritos.
Não sou digno, eu sei, de transcendência,
e há rios no atlas que fluem contra o oceano,
voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento.
Compreendo: são o avesso do rio.
Mas a vida não é o avesso da vida. É o avesso absoluto
se tentamos codificá-la. Cerejas ao marasquino, você gosta?
Devorei potes inteiros, e os fantasmas insistindo
com o pedido indecifrável.
O Vampiro aceita café. Iremos juntos ao cinema do bairro.

VII

O homem sem convicções pode passar a vida honradamente.
Alguém o prova, é só olhar-se no espelho
com vaidade perversa.
Passar a vida será viver? Que é honradamente?
Rodrigo Melo Franco de Andrade não conheceu descanso
enquanto ruíam campanários, pinturas parietais descascavam
e ele consumia os olhos na escrita miúda
de impugnações e embargos
ao vandalismo e à traficância dos simoníacos.
Chega a hora de escalpelar ilusões,
e esta ainda é uma ilusão, que nos embala no espaço inabitado.
Perder, aprendi, também é melodioso. Declaro-me guerreiro vencido.
São guerras surdas, explosões no centro mesmo da Terra.
Imbricado em tudo isto, distingue-se talvez o violino
que revive a Idade de Ouro
e a prolonga no caos.
Adagietto, maior delícia para ouvidos surdos
que adivinham a seu modo a tessitura lenta.
Não sinto falta de grandes timbres orquestrais.
O entardecer me basta.

VIII

Aparição, diurna aparição,
à luz opõe sua neblina: desde sempre
me sei parceiro deste jogo, sem que o entenda.
Projeção de lado oculto de mim mesmo
ou fenômeno visual como o arco-íris,
pouco importa. Este fantasma existe.
Chamei Abgar Renault para comprová-lo. Comprovou.
Exibe-se na Praça Paris ao meio-dia.
No Corcovado mostra-se. Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, vago espéculo.
As coisas injustificadas adoram ser injustificadas.
Esta, ou este não sei quê, mantém-se imóvel.
Eis que algo se mexe
impressentido em sua nebulosidade: pulvínulo.
Penso, terceira hipótese: amigos mortos
revezam-se, divertem-se em vapor.
Um dia os chamarei pelos nomes. O meu, entre eles.
E se alegrarão vendo que os reconheci.
E me alegrarei vendo que afinal me conheço.
O dia-sol invade todos os cubículos.

IX

L’indifferent de Watteau é um gato acordado. Os gatos
são indiferença armada. Inútil considerá-los
superfícies elásticas de veludo e macieza de existir.
Tantas vezes me arranhei ao contato deles que hoje
eu próprio me arranho e firo, felino maquinal.
Penso o gato e sua destreza, o gato e seu magnetismo.
Sua imobilidade contém todas as circunstâncias
e ângulos de ataque. Assim me seduz
o possível de um gato dormindo. Mulheres que nunca me olharam
levam consigo gestos de paixão, de morte e êxtase.
Mas os gestos pensados são mármore. O gato é mármore.
A vida toda espero desprender-se — um minuto! — a estátua,
e, a menos que me torne igualmente estátua, jamais saberei
o interior da mudez. A pouca ciência da vida
não esclarece os fatos inexistentes, muito mais poderosos
que a história do homem em fascículos. Datas, como vos desprezo
em vossa arrogância de marcos da finitude.
Uma noite, em companhia de Emílio Guimarães Moura,
identifiquei o sertão. Eram duas pupilas de fogo
e hálito de terra seca em boca desdentada.

X

Alfa, Beta e Gama de Pégaso no céu de outubro
presidem com sabedoria o destino do passante
velado pela nebulosa de Andrômeda.
Grato é saber que nada se decide aqui embaixo
nas avenidas do homem e sua perplexidade.
Que o dedo anular, ao mover-se,
é ditado por um sistema de estrelas. Nossa casa, nossa comida,
o firmamento. Abandono-me a vós, constelações.
E a ti, nobre Virgílio,
peço-te que me conduzas à Nubécula Mínor,
de onde ficarei mirando a Terra e seus erros abolidos.
Será soberbo desatar-me de laços precários
que em mim e a mim me prendem e turvam
a condição de coisa natural. Não serei mais eu,
nenhum fervor ou mágoa me percorrendo. Plenitude
sideral do inexistente indivíduo
reconciliado com a matéria primeira.
A alegria, sem este ou qualquer nome. Alegria
que nem se sabe alegria, de tão perfeita.
Minha canção de alinhavo resolve-se entre cirros.
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