Poemas neste tema
Natureza e Elementos
António Ramos Rosa
A Esperança do Livro
Como um painel, soerguendo-se da névoa marinha, um busto vermelho, carcomido, a boca hiante, de um mistério vazio. A meus pés, um exército de formigas negras procura, num árido frenesim, o caminho para a pedra. A orla branca de espuma, as vagas que rolam violentas, impedem o acesso do negro exército de insectos.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
1 011
António Ramos Rosa
Presença Solar E Sólida Fugidia…
… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
542
António Ramos Rosa
Olhar Sem Olhar
Em qualquer parte, talvez, uma palavra arde. Um acto do universo, não uma palavra, mas uma palavra ainda: a chuva cai sobre as cores, lava os pórticos, refresca os deuses. O que me atrai são os confusos indícios de uma prosa marinha, os fluxos, os matizes, as pausas, as minúcias de uma música que se esvai ao mesmo tempo que se abate sobre a muralha a grande ressaca de uma outra escrita ou contra-escrita. Quero seguir o bulício mais vivo de uma outra cidade que nunca vi. As manchas das casas revelariam as relações que só se distinguem nos indefiníveis intervalos em que a morte de súbito se extingue e um rosto intacto se entremostra. Há uma limpidez exacta e uma vivacidade mate nos murmúrios e nas cenas, nas sombras e surpresas. Então, num impulso de atenção outra, cega e vidente, a mão levanta-se e compreende o intenso e inenarrável momento de aliança completa entre o corpo e a terra, entre as sombras e a claridade.
1 040
António Ramos Rosa
Palavras Para Viver
Afluem do vento as velas
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
1 109
António Ramos Rosa
Palavras Para Viver
Afluem do vento as velas
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
de uma alegria
primeira
palavras e palavras mais que cinza
despertam um fogo calmo
uma clareira se abre densa e verde
o sossego da terra é um barco imóvel
mais do que as imagens
sóbrios novos
os vocábulos são indícios e veios
de vida
mais viva por viver
Fibras afluentes estrela cega
as mãos unindo
a cabeça do sol nas águas
Boca espessa no caminho
do vento
e do verde
Ondula a boca no navio da boca
caminha a pedra
a espessa cabeleira sobre a água
Um barco desce ao fundo sol da água
Um corpo quer viver
uma haste
quer respirar equilibrada firme
quer viver no silêncio quer
a sua própria chama
levantada
silencioso chão
silenciosa frescura
silenciosa chama
1 109
António Ramos Rosa
A Distracção do Vento
A distracção do vento ou a despreocupação pelos obstáculos até à dissipação no ar. Vento, esquecimento vivo, cegueira activa do ar. As palavras terão alguma vez esta respiração fluida de uma dança rebelde, livre? A sede do ar sufoca as palavras ou liberta-as? É o branco sempre, errante e puro, que lavra este grande lábio mutilado que é a palavra no limiar do vazio e do silêncio? A linguagem é um animal equívoco que voa sobre a areia do deserto num voo raso de elipse ou a sombra de um puro momento de ruptura indescritível? A ausência devasta a linguagem, até que ela se torne o sopro da brancura e da única vida que não soçobra na sua própria sombra? Os vocábulos respiram quando a distância os liberta da sua presença opaca restituindo-os à fragilidade de um sopro e de uma transparência livre e nunca literal. No corpo das palavras pressente-se o imperceptível ardor de um fluxo discreto, mínimo, como a pulsação de um pulso de insecto, indemonstrável, secreto.
1 069
António Ramos Rosa
Aqui Está Um Arbusto E a Sua Luz
Aqui está um arbusto e a sua luz
tão branca O seu volume
é leve surpreendente intacto
Se o trabalharmos sobre a terra parda
não saberemos não adivinhamos
a surpresa da flor vermelha
mas saberemos que insectos o assaltam
Ao vento à chuva
as flores tornam-se negras
são negras e todas hão-de arder
tão branca O seu volume
é leve surpreendente intacto
Se o trabalharmos sobre a terra parda
não saberemos não adivinhamos
a surpresa da flor vermelha
mas saberemos que insectos o assaltam
Ao vento à chuva
as flores tornam-se negras
são negras e todas hão-de arder
1 025
António Ramos Rosa
A Superfície da Água Móvel
A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 113
António Ramos Rosa
A Superfície da Água Móvel
A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca
O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 113
António Ramos Rosa
Escrever a Um Outro Nível de Crescimentos Simples De
Escrever a um outro nível de crescimentos simples de
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo
Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece
Uma ampla textura de energia e movimento
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo
Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece
Uma ampla textura de energia e movimento
926
António Ramos Rosa
Um Jardim Um Jardim Obscuro
Um jardim um jardim obscuro
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
1 103
António Ramos Rosa
Um Jardim Um Jardim Obscuro
Um jardim um jardim obscuro
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
É da luz que vem o obscuro
Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar
Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
1 103
António Ramos Rosa
Secreta a Amadurecer E Abrindo-Se
Secreta a amadurecer e abrindo-se
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento
São linhas ou corpos indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
quando a noite é a folhagem
Diria flor ou pétala mas não
Este segredo é de água une-se ao vento
São linhas ou corpos indecidida
resta a palavra que não segue a imagem
Entre uns e outros respira-se talvez
e uns caem separados na distância
e outros formam o volume branco
que une o obscuro à claridade
1 042
António Ramos Rosa
Quando
Quando
não há sinal na noite em que se escreve o clarão é branco
alucinante o traço nulo marca no vazio o caminho
talvez um túnel ou descampado
a órbita branca oscila
a noite é que governa as sílabas
Há uma surpresa e um equilíbrio na intensidade
o vento treme o obscuro emigra
um aglomerado de pedras
e a torre de palavras e de fogo
não há sinal na noite em que se escreve o clarão é branco
alucinante o traço nulo marca no vazio o caminho
talvez um túnel ou descampado
a órbita branca oscila
a noite é que governa as sílabas
Há uma surpresa e um equilíbrio na intensidade
o vento treme o obscuro emigra
um aglomerado de pedras
e a torre de palavras e de fogo
1 086
António Ramos Rosa
Talvez Cante Um Pássaro E o Céu Talvez Seja Na Aparente
Talvez cante um pássaro e o céu talvez seja na aparente
tranquilidade um liso tecido
Mas não se sabe como nomeá-lo indefinido vago
móvel sem as formas nítidas através do vidro
Talvez seja mais tarde o céu de novo em seus
pedaços ou o que através da palavra se mudou num
tecto imponderável
tranquilidade um liso tecido
Mas não se sabe como nomeá-lo indefinido vago
móvel sem as formas nítidas através do vidro
Talvez seja mais tarde o céu de novo em seus
pedaços ou o que através da palavra se mudou num
tecto imponderável
1 093
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 036
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 036
António Ramos Rosa
Húmido Como a Névoa
Húmido como a névoa
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
1 125
António Ramos Rosa
Húmido Como a Névoa
Húmido como a névoa
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
assim ainda se diz
Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa
Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura
Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
1 125
António Ramos Rosa
O Lugar Onde o Lugar
O lugar onde o lugar
com a face da noite em pleno dia
o lugar onde passa o insecto
e o horizonte
Um pequeno círculo a clareira
onde se respira a luz
dividida em sílabas de seixos
e nas lagartixas que atravessam rápidas
Estamos perto do corpo da ínfima
nudez
Há curvas inesperadas um atalho secreto
O lugar não é aqui onde o designamos
com a face da noite em pleno dia
o lugar onde passa o insecto
e o horizonte
Um pequeno círculo a clareira
onde se respira a luz
dividida em sílabas de seixos
e nas lagartixas que atravessam rápidas
Estamos perto do corpo da ínfima
nudez
Há curvas inesperadas um atalho secreto
O lugar não é aqui onde o designamos
1 101
António Ramos Rosa
Não Deusas Habitam Este Átrio
Não deusas habitam este átrio
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde
A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura Já não vejo
a montanha na altura escrevo
na rarefacção do texto inexorável
Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde
A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura Já não vejo
a montanha na altura escrevo
na rarefacção do texto inexorável
Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
1 009
António Ramos Rosa
Terra de Um Sabor Denso
Terra de um sabor denso
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva
A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições
A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva
A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições
A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
1 028
António Ramos Rosa
O Fogo Sob Os Passos Vibra Verde
O fogo sob os passos vibra verde
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
1 157
António Ramos Rosa
As Coisas Que Olhamos São Às Vezes Olhares
As coisas que olhamos são às vezes olhares
rostos Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar
O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já
Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
rostos Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar
O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já
Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
1 123