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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Edmir Domingues

Edmir Domingues

À cadelinha navegante do espaço

Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.

Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.

Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.

Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.

Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.

Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.

Mas nunca foste só no teu caminho.

Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.

Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.

Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

À cadelinha navegante do espaço

Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.

Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.

Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.

Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.

Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.

Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.

Mas nunca foste só no teu caminho.

Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.

Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.

Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Os esquecidos azuis de cobalto

No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.

É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.

Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.

Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.

Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.

Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.

Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Das não vindas barcas

Eis-nos cansados do cansaço enorme
que nos penetra os músculos do sono
e em mansa sonolência nos abate
- esperamos as naus que não vieram
cantando uma cantiga muito velha.

As naus de porcelana que trocamos
pelas canções compostas sob o outono,
que há sete dias estariam vindas
não fosse o triste encanto que as deteve
acaso, acaso as luas de naufrágio
dos bruscos temporais que as naus abatem.

Há sete dias estariam vindas.
Há sete dias nossos pés de chumbo
pelos seus frágeis chãos descansariam
de inúteis passos dados sobre o tempo
que ao fim do tempo a nada nos levaram.

Mas se vindas não foram não partiram
e em não terem chegado não levaram
nossos longos cabelos desgrenhados
por longos sete dias de distância,
que a distância seria o pão de trigo
da vida que ficou, porquanto a espera

de espera não passou, nos olhos foscos
não houve conclusão que outra não fosse
que ser na própria essência de inconclusa.

De quando as barcas nossas muito frágeis,
cascos de porcelanas importada
das índias, muito mais do que longínquas,
velas de seda pálida de alguma
península da China, a mais distante,
nos não levaram para aquelas rotas
que Andrômeda ilumina à luz da noite.

Ficamos neste porto imensurável,
maior que as nossas mágoas mais profundas.

Ficamos entre as bússolas inúteis
e os velhos instrumentos de partida,
entregues para sempre à insuficiência
dos nossos pés mais fracos do que as barcas.

E ao nosso amor, que dorme nestas sombras
enroscado entre os galgos do silêncio,
e entre a vaga esperança de que um dia
as naus trocadas toquem neste porto
e inesperadamente se emaranhem
nas magras e enredosas pontas dos
nossos longos cabelos desgrenhados.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

A brisa terral


                                                              Baseado em crônica de Rubem Braga
Congelemos sentimentos.
Joaquina me atormenta,
e eu que não posso guardá-la!
e eu que não quero perdê-la!
A solução: congelemos.
Congelemos promissórias
(também a literatura)
a voz mansa da cantora
e o vento manso do mar .

Quando, insensato, esse vento
percorre-me a casa toda
onde estou posto em sossego;
vem falar-me de viagens,
fabulosas aventuras,
me conta o mito distante
da virgem nua do Báltico,
me conta no meu ouvido
o murmúrio da sereia
que está lânguida de amor
numa pequena ilha grega,
ai de mim, que ela me espera,
que me espera e eu lá não vou.

Feito o que, pela janela
sai levando-me a fumaça
do cigarro que eu fumava
e a paz que a minh alma tinha.

Fico imóvel, cai a noite,
chega-me o vento da terra,
me diz que em alguma curva
de qualquer obscuro rio
dos confins deste país,
um galho de ingá repousa
pendurado no remanso;
junto o mugido de um boi
o ranger de uma porteira
o pio triste das aves
mulheres fazendo esteiras
de quem as faces não vejo;
são escuras, vejo apenas
cabelos negros e lisos
elas falam muito baixo
das suas vozes me chega
apenas leve murmúrio.
Homens há, consertam redes,
tiram água da cacimba.

Então toca o telefone
e eis que estou no apartamento
presa de tempo e de espaço;
preciso por a gravata
e o paletó e sair.
Urge tomar providências
enquanto pessoas outras
preferem tomar maconha.

De eficiência me visto
envio flores às damas
parabéns aos cavalheiros
para sentir-me distinto.
Mas quando o garçon pergunta
o que desejo beber
eu minto, pedindo uísque
quando uisque não queria.
Queria aquela caneca
azul, de flores vermelhas,
apanhar na talha escura
a água que há na cacimba.

Não congelemos mais nada
e nada reestruturemos.

Pois há uma leve brisa
com cheiro quente de mato.
Há grilos na noite. E a vida
é uma coisa natural.
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