Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Edmir Domingues
A brisa terral
Baseado em crônica de Rubem Braga
Congelemos sentimentos.
Joaquina me atormenta,
e eu que não posso guardá-la!
e eu que não quero perdê-la!
A solução: congelemos.
Congelemos promissórias
(também a literatura)
a voz mansa da cantora
e o vento manso do mar .
Quando, insensato, esse vento
percorre-me a casa toda
onde estou posto em sossego;
vem falar-me de viagens,
fabulosas aventuras,
me conta o mito distante
da virgem nua do Báltico,
me conta no meu ouvido
o murmúrio da sereia
que está lânguida de amor
numa pequena ilha grega,
ai de mim, que ela me espera,
que me espera e eu lá não vou.
Feito o que, pela janela
sai levando-me a fumaça
do cigarro que eu fumava
e a paz que a minh alma tinha.
Fico imóvel, cai a noite,
chega-me o vento da terra,
me diz que em alguma curva
de qualquer obscuro rio
dos confins deste país,
um galho de ingá repousa
pendurado no remanso;
junto o mugido de um boi
o ranger de uma porteira
o pio triste das aves
mulheres fazendo esteiras
de quem as faces não vejo;
são escuras, vejo apenas
cabelos negros e lisos
elas falam muito baixo
das suas vozes me chega
apenas leve murmúrio.
Homens há, consertam redes,
tiram água da cacimba.
Então toca o telefone
e eis que estou no apartamento
presa de tempo e de espaço;
preciso por a gravata
e o paletó e sair.
Urge tomar providências
enquanto pessoas outras
preferem tomar maconha.
De eficiência me visto
envio flores às damas
parabéns aos cavalheiros
para sentir-me distinto.
Mas quando o garçon pergunta
o que desejo beber
eu minto, pedindo uísque
quando uisque não queria.
Queria aquela caneca
azul, de flores vermelhas,
apanhar na talha escura
a água que há na cacimba.
Não congelemos mais nada
e nada reestruturemos.
Pois há uma leve brisa
com cheiro quente de mato.
Há grilos na noite. E a vida
é uma coisa natural.
614
Edmir Domingues
Soneto de Arquiduques
Arquiduques de um reino soterrado
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
672
Edmir Domingues
Elegia aos céus de Maralinga
Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.
Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.
Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,
bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
680
Edmir Domingues
Pedra do navio
Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
231
Edmir Domingues
Pedra do navio
Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
231
Edmir Domingues
Pedra do navio
Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).
Mas porquê, como e quando?
Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?
O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.
Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)
Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.
Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.
Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.
0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.
Negra, a nave navega.
Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.
Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.
Que vê, de madrugada?
Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
231
Edmir Domingues
Galope sobre as águas
E fomos todos nós à beira d´água
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços
a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados
presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,
ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
542
Edmir Domingues
O abandono do campo, horto e casa
Por fim sopraram forte os favoráveis
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
723
Edmir Domingues
O abandono do campo, horto e casa
Por fim sopraram forte os favoráveis
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
sem que houvera o holocausto e o sacrifício,
e dormiam no porto os mastros todos
entre palpitações tanto mais grandes
quanto o tempo era grande aos olhos nossos
em que de favoráveis não sopravam.
E havia, e era sabido, entre os anseios
o da busca do amor que era o mistério,
crido de repousado na distância
que abraço pelo mar faria em nada
porquanto destruiria o movimento
sentido e essência e forma e qualidade.
Donde parto à aventura nestes trajes
(levando o barco e a noite sobre os ombros)
quando ficar devera nesta areia
onde resido e morro a pouco e pouco,
que a morte vez por outra nos visita
e a qual de cinza cobre os meus cabelos.
Fomos nados aqui, nestas paragens
de muitas sugestões e muitas águas,
donde o sentido mítico que damos
aos fumos deste mar, que nos rodeiam,
que por trás das palavras sempre fomos
o espírito pairando sobre as águas.
Mas dorme qualquer coisa de repulsa
ao mundo das areias e dos gessos
nos meus olhos marinhos e atrevidos.
Faz-se mister que parta àquelas vivas
na superfície líquida das noites.
Tomo apenas do pouso os instrumentos
que inúteis se farão, que os outros deixo,
de bússolas não quero por que seja
a esperada aventura mais completa,
não havendo o sabor da residência
e outro serei, por novo e irrevelado.
Nos ventos que hão levar-me, eis-me nascido
nova flor para o espanto dos presentes,
entre nuvens gerada, leve e oculta,
cultivada na frieza dos asfaltos,
que ao mar se faz, de noite, em barco a vela,
se há liberado à luz da madrugada
os soturnos galés que eram nos remos
Parte-se e é tudo, e nada mais se diga
senão que é noite e os gêmeos peregrinam.
Pela poesia parte-se de noite
que é sabido que há séculos imensos
dormem na sombra as asas do mistério.
A noite ê cúmplice, em silêncio e sombra,
com as clandestinas idas sobre os buquês
das perdulárias mãos que vão deixando
o seu campo, horto e casa, e os bens que tinham.
723
Edmir Domingues
Lição de abismo
A árvore. Onde estará?
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
644
Edmir Domingues
Fala às flores e aos ventos
Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
691
Edmir Domingues
Fala às flores e aos ventos
Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
691
Edmir Domingues
Notificação à propósito da lua
Aos gringos dos States e das Rússias
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
653
Edmir Domingues
Galope à beira mar
Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
794
Edmir Domingues
Galope à beira mar
Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
794
Edmir Domingues
Canção dos exilados de infância
Exilados de uma terra
que Infância por nome tem
vivemos comendo espera
não sei de que nem de quem.
Murcham-se mastros e velas
morrem convites de além
e de Infância, ai, de Infância
nada a nós jamais nos vem.
Infância dorme na sombra
de um campo molhado e bom
na geografia das cores
nos cantos de leve som,
e é tão distante plantada
que a ela só se vai com
barcos de quilhas de fumo
velas de papel crepom.
País que todos procuram
sem nunca ninguém cansar
cansaço é desesperança
e é sempre bom se esperar,
vestem-se os homens de busca
e seguem rotas de mar
mas há que o mar nunca os leva
jamais a nenhum lugar.
Colecionando horizontes
nas terras mortas de Não
terras de Infância procuram
que nunca mais acharão,
a sombra azul da distância
se derrama pelo chão,
e de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.
Inspira os passos andados
por campo caminho e mar
inusitada evidência
que a ninguém se pode dar,
os que vivem de procura
não têm nada que encontrar
porque os homens sempre sentem
saudades de outro lugar.
Ai, que sempre nos maltratam
as lembranças que nos vêm
dos paraísos perdidos
das terras de mais além.
Se esses países residem
distantes de nós, porém,
somente o clima de Infância
nos poderá fazer bem.
Os povos que Infância buscam
nunca à Infância chegarão,
muda-se o rumo das coisas
nestes campos onde estão,
mas nada morre no entanto
do clima da turbação
porquanto o povo vencido
tem sempre a melhor canção.
Se nada morre no entanto
do clima da turbação,
se aquele povo vencido
tem sempre a melhor canção,
só nos resta esse horizonte
das terras mortas de Não
pois de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.
552
Edmir Domingues
O planetóide
Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.
A mim um planetóide
como único legado.
Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.
Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.
Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.
Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
293
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
791
Edmir Domingues
Vento e conformação
O denso minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
muito de sombra e nada de aventura
nos não foi de surpresa se é costume
tenhamos nossas mãos assim pesadas,
já que em nós pesa o tempo enormemente
quando o vento nos vem e nos procura.
Sabíamos, há tempo, desde quando
eram verdes e mansos calendários,
que os pês seriam pedras de granito,
as mãos já não de plumas porém ferro,
quando tempo de inverno ou minuano
por nosso mal de roupas Se vestira.
E inútil de correr, lembras-te?, um dia
quisemos nossos passos apressados,
e os pés foram tornados de aderência,
para que todo o esforço se perdesse
por vão, que nunca o espaço obedecia
aos nossos gestos de buscá-lo ao longe.
Por isso o minuano desta tarde
muito de sombra e nada de aventura,
em alma e corjio a nós nos terá todo
na sua mais pesada densidade
E nos somos de entrega. 0 céu é preto,
a nuvem cpiase preta, o chão cinzento.
E nós, de olhos azuis - azuis por dentro,
por fora negros são, como os objetos
da noite improvisada nesta tarde
nós, de olhos sempre azuis, nos conformamos
porque nos resta o abraço praticável
ternura de que a noite é causadora,
mesmo quando a incerteza é quem a assopra
e a traz consigo para o lado nosso.
Daí, o grito morto, o não protesto,
o abandono de antigos calendários,
e a busca de que às mãos retornem plumas
apesar deste vento, desta tarde
toda de sombra e um pouco de aventura
791
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
699
Edmir Domingues
Atmosfera de aventura
E tínhamos os olhos dissolvidos
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
nos mares de procura e desconforto,
doze velas velavam por um morto, o
amigo que não vira o céu do porto
de ter olhos de bálsamos ungidos
e estar o cais dos ventos abatidos
além dos nossos tímidos sentidos
longe das formas deste mundo torto.
Então para o recôncavo, onde as ilha
felizes são banhadas de andarilhas
vagas que são de amor nunca abandono.
E medo, se a tormenta é sempre amarga
e há sete corvos negros entre a carga,
de lá chegar a luz dizendo outono
699
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
783
Edmir Domingues
Ao infante navegador
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
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Edmir Domingues
Ao infante navegador
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
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