Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Edmir Domingues
Oferta para a amiga estrangeira
Dar-te-ei a água morna destes mares,
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
610
Edmir Domingues
Cidade Submersa
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam o seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
748
Edmir Domingues
Memória da ilha
A casa aberta ao sol, ao vento, e à voz do mar
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
816
Nuno Júdice
O deitar de safo
Desistiu da lira. Despeja o perfume
que irá espalhar sobre o corpo,
antes se enrolar no lençol.
Pousa os pés na pele de tigre
que lhe serve de tapete; e ouve
a música de tambores subir-lhe à
à cabeça, como se a chamassem
para a caça. Mas o seu alvo
é outro: a fera que se esconde
debaixo da cama, e que a treva
irá soltar, quando a noite
se apoderar do seu espírito.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 69 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que irá espalhar sobre o corpo,
antes se enrolar no lençol.
Pousa os pés na pele de tigre
que lhe serve de tapete; e ouve
a música de tambores subir-lhe à
à cabeça, como se a chamassem
para a caça. Mas o seu alvo
é outro: a fera que se esconde
debaixo da cama, e que a treva
irá soltar, quando a noite
se apoderar do seu espírito.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 69 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 144
Nuno Júdice
Ouvindo o violino
Com o pé na cadeira, prepara-se para se
vestir; e o homem do violino nem repara que
ela está em cima da mesa, onde ainda ficou
a garrafa que ele quase esvaziou, até
ela lhe pedir que tocasse, enquanto
se veste para a noite de S. João. Aí,
nas aldeias junto aos lagos, as raparigas
fogem para as florestas, à espera do escuro
que não há-de chegar; mas não é para isso
que ela se veste. A sua juventude esvazia-se,
como o vinho na garrafa; e ao olhar para
o músico, o que ela pensa é se ele não
será uma pura abstracção, inventando a melodia
que ela gostaria de ouvir. E também poderia
sair atrás dele, para o meio da floresta onde
iria acender uma fogueira, antes que as amigas
chegassem. Mas a roupa que tem não serve
para uma festa; e o cabelo curto descobre-lhe
o pescoço, que a luz envolve, embora o
homem do violino não se preocupe com
a sua presença. Assim, ela sairá de cima da
mesa, deixando-o acabar a sua peça; e
meter-se-á na cama, enterrando os olhos
na almofada para não ver o sol que ainda
entra pela janela, depois do dia acabar, e
de todas as amigas se perderem na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 88 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
vestir; e o homem do violino nem repara que
ela está em cima da mesa, onde ainda ficou
a garrafa que ele quase esvaziou, até
ela lhe pedir que tocasse, enquanto
se veste para a noite de S. João. Aí,
nas aldeias junto aos lagos, as raparigas
fogem para as florestas, à espera do escuro
que não há-de chegar; mas não é para isso
que ela se veste. A sua juventude esvazia-se,
como o vinho na garrafa; e ao olhar para
o músico, o que ela pensa é se ele não
será uma pura abstracção, inventando a melodia
que ela gostaria de ouvir. E também poderia
sair atrás dele, para o meio da floresta onde
iria acender uma fogueira, antes que as amigas
chegassem. Mas a roupa que tem não serve
para uma festa; e o cabelo curto descobre-lhe
o pescoço, que a luz envolve, embora o
homem do violino não se preocupe com
a sua presença. Assim, ela sairá de cima da
mesa, deixando-o acabar a sua peça; e
meter-se-á na cama, enterrando os olhos
na almofada para não ver o sol que ainda
entra pela janela, depois do dia acabar, e
de todas as amigas se perderem na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 88 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 081
Nuno Júdice
Proserpina (variante)
É na terra que se encontra a matéria do poema,
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
709
Nuno Júdice
Proserpina (variante)
É na terra que se encontra a matéria do poema,
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
709
Nuno Júdice
Proserpina (variante)
É na terra que se encontra a matéria do poema,
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
709
Nuno Júdice
Ouvindo o pássaro
Às vezes, um pássaro parece cantar
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 073
Nuno Júdice
Ouvindo o pássaro
Às vezes, um pássaro parece cantar
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 073
Nuno Júdice
Ouvindo o pássaro
Às vezes, um pássaro parece cantar
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 073
Nuno Júdice
A mulher das flores
No meio das flores, a mulher encontra o
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 83 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 83 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 170
Nuno Júdice
Regresso do baile
Falo de poesia pura, como se de pura
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.
No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.
Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 98 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
abstracção estivessem a tratar as mãos
que despem este corpo. E quando passo de um verso
a outro, sabendo que a imagem vai nascendo
deste movimento em que as palavras
dançam na página, limito-me a seguir
os dedos que abrem botão após
botão, e desfazem laço
após laço, até descobrirem o que
sabíamos que existia, sem nunca o ter visto:
o belo, na sua exacta proporção.
No centro do quadro, onde uma janela
se abre para o que é, talvez, uma paisagem,
o olhar distrai-se do significado que
o gesto constrói. E quem passa o limite,
e se confronta com a sombra, perde
a possibilidade de um regresso a este
instante luminoso, em que num simples
eco a música da noite se concentra,
enchendo os ouvidos que se habituaram
ao silêncio.
Por isso, espero que o trabalho
chegue ao fim, para que a mulher se volte,
e dê à dança o argumento
da sua nudez.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 98 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
958
Nuno Júdice
Estudo de mulher
Esta mulher simplesmente deitada, e colhida com
a colher da tarde, é o fruto que ficou na árvore onde
os pássaros o procuram, e passam de lado, como se
o não sentissem. É o fruto que me resta olhar, com
a sua pele tecida pelos ventos do verão, e a polpa
a sair, como se a terra estivesse pronta para a
receber. Estendo-a com a sua frescura de nuvem,
que pinto com a cor tensa do amanhecer, ouvindo
a música dos seus lábios descer-me para o fundo
da alma, onde lhe dou a guarida dos amantes. É
ela o centro da cedilha que ponho no intervalo
de cada frase, para que um sopro de silêncio se
instale no coração da primavera. E se um
murmúrio o rompe, levem-no os ouvidos em que
pousou, para que alguém o repita, e noutros
lábios se faça o que aqui se vê, e já passou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 73 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
a colher da tarde, é o fruto que ficou na árvore onde
os pássaros o procuram, e passam de lado, como se
o não sentissem. É o fruto que me resta olhar, com
a sua pele tecida pelos ventos do verão, e a polpa
a sair, como se a terra estivesse pronta para a
receber. Estendo-a com a sua frescura de nuvem,
que pinto com a cor tensa do amanhecer, ouvindo
a música dos seus lábios descer-me para o fundo
da alma, onde lhe dou a guarida dos amantes. É
ela o centro da cedilha que ponho no intervalo
de cada frase, para que um sopro de silêncio se
instale no coração da primavera. E se um
murmúrio o rompe, levem-no os ouvidos em que
pousou, para que alguém o repita, e noutros
lábios se faça o que aqui se vê, e já passou.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 73 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 302
Nuno Júdice
Ouvindo Schumann
Na rua, com o calor, não se pode estar; e
dentro de casa o piano martela a cabeça, trazendo
à superfície os piores sentimentos. Porém, escolho
a melancolia: e vejo a alma magoada sair
do espelho da parede e sentar-se no meio
da sala, segurando a cabeça entre as mãos
para que a falta de certezas não a destrua.
E a música insiste: uma peça romântica,
onde é visível a noção de um sentido que desenha
todo o campo abstracto do sofrimento. E ao fechar
os olhos, quem a ouve imagina o gesto preciso
de cada um dos dedos sobre as teclas,
procurando chegar ao fim, mas sabendo que
esse fim não é mais do que o princípio.
«Sim, digo-te, vem comigo até ao campo,
e escolhe a árvore sem raízes - a que nos irá
abrigar, sob o silêncio dos seus ramos.» Devagar,
deitas a melancolia para o chão, e segues-me,
confundindo o som do piano com um ritmo
de passos que, por fim, a terra engolirá.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 109 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
dentro de casa o piano martela a cabeça, trazendo
à superfície os piores sentimentos. Porém, escolho
a melancolia: e vejo a alma magoada sair
do espelho da parede e sentar-se no meio
da sala, segurando a cabeça entre as mãos
para que a falta de certezas não a destrua.
E a música insiste: uma peça romântica,
onde é visível a noção de um sentido que desenha
todo o campo abstracto do sofrimento. E ao fechar
os olhos, quem a ouve imagina o gesto preciso
de cada um dos dedos sobre as teclas,
procurando chegar ao fim, mas sabendo que
esse fim não é mais do que o princípio.
«Sim, digo-te, vem comigo até ao campo,
e escolhe a árvore sem raízes - a que nos irá
abrigar, sob o silêncio dos seus ramos.» Devagar,
deitas a melancolia para o chão, e segues-me,
confundindo o som do piano com um ritmo
de passos que, por fim, a terra engolirá.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 109 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 105
Nuno Júdice
Guia
Irei bater-lhe à porta; e se não me abrir,
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.
Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.
Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.
Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.
Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
687
Nuno Júdice
A caminho da feira
Deito à sorte a sorte que se abre
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
929
Nuno Júdice
A arte da melancolia
O olhar desloca-se para as rosas que estão
em primeiro plano, como se tivessem sido acabadas
de colher. A mulher, porém, tem outras
flores na mão; e obriga-nos a hesitar entre o pote
de onde nascem as rosas e o colo em que pousam
as flores. Trata-se de uma hesitação breve,
porque logo o seu rosto leva-nos a divagar
acerca da paisagem. Vemo-la ao fundo,
num semicírculo que tem a forma perfeita
do seio que o vestido esconde, e se poderia
confundir com uma visão do paraíso se
a mulher nos aparecesse como um anjo. Mas
não tem asas; e o seu corpo empurra para
longe a transcendência, mesmo que o seu rosto
se perca numa vaga tristeza que as flores
caídas acentuam. No entanto, se em vez desse
mórbido acento me fixar no brilho das primeiras
rosas, posso transferir a cor das pétalas
para cada uma das faces, e ela levantar-se-á
com uma pose de anjo, transformando
a paisagem, ao fundo, na imagem do paraíso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 96 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
em primeiro plano, como se tivessem sido acabadas
de colher. A mulher, porém, tem outras
flores na mão; e obriga-nos a hesitar entre o pote
de onde nascem as rosas e o colo em que pousam
as flores. Trata-se de uma hesitação breve,
porque logo o seu rosto leva-nos a divagar
acerca da paisagem. Vemo-la ao fundo,
num semicírculo que tem a forma perfeita
do seio que o vestido esconde, e se poderia
confundir com uma visão do paraíso se
a mulher nos aparecesse como um anjo. Mas
não tem asas; e o seu corpo empurra para
longe a transcendência, mesmo que o seu rosto
se perca numa vaga tristeza que as flores
caídas acentuam. No entanto, se em vez desse
mórbido acento me fixar no brilho das primeiras
rosas, posso transferir a cor das pétalas
para cada uma das faces, e ela levantar-se-á
com uma pose de anjo, transformando
a paisagem, ao fundo, na imagem do paraíso.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 96 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 148
Nuno Júdice
No Verão (estudo)
A propósito da arte, o melhor que se pode fazer
é fixar este rosto, e ver o que irrompe dos
seus olhos, mesmo que nem sempre o seu fundo
nos dê a transparência de que precisamos para
atingir a alma, isto é, o mistério que
envolve a natureza humana. Recorro a uma
simples comparação: se esta mulher fosse
como a fonte, e dela se pudesse beber o filtro
de onde emana a essência da vida, conhecer-se-ia
o sabor que fica na boca e se infiltra
pelas palavras que dizemos, para que
os ouvidos as recebam sob a forma do mais
doce dos venenos. O que ela me diz, porém,
é que o seu coração é como a ave que perdeu
o rumo; e pede-me que lhe indique o eixo
do divino, por onde passam as constelações
migratórias do ocaso. Dou-lhe a bússola do poema;
e ela olha-a, como se fosse um espelho,
e o seu rosto tivesse o perfil de um mapa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 84 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
é fixar este rosto, e ver o que irrompe dos
seus olhos, mesmo que nem sempre o seu fundo
nos dê a transparência de que precisamos para
atingir a alma, isto é, o mistério que
envolve a natureza humana. Recorro a uma
simples comparação: se esta mulher fosse
como a fonte, e dela se pudesse beber o filtro
de onde emana a essência da vida, conhecer-se-ia
o sabor que fica na boca e se infiltra
pelas palavras que dizemos, para que
os ouvidos as recebam sob a forma do mais
doce dos venenos. O que ela me diz, porém,
é que o seu coração é como a ave que perdeu
o rumo; e pede-me que lhe indique o eixo
do divino, por onde passam as constelações
migratórias do ocaso. Dou-lhe a bússola do poema;
e ela olha-a, como se fosse um espelho,
e o seu rosto tivesse o perfil de um mapa.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 84 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 389
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice (5)
Como se o sol não trouxesse com ele a hostilidade
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.
Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.
Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do dia! E o seu esplendor não comprometesse a recordação
que me enche, e o desejo com que a mão procura a mão
que lhe falta! As estações prosseguem o seu ciclo; a um inverno
sucede a primavera; e as árvores respiram o primeiro vento
com uma ânsia diferente, anunciando a próxima floração. Eu,
preso às palavras, perco-me no seu labirinto. Ouço-te,
porém: e é sempre no caminho que fica sem saída,
de onde há muito caiu a cal, deixando
as feridas de gesso de onde os meus olhos bebem
o que sobra da tua imagem, que a tua voz me traz a música todos os dias
que não voltarão a nascer.
Talvez não fosse por aí que eu devesse ter
ido; mas que outra saída tem um labirinto senão a que parece
abrir-se num descampado florido, para depois se fechar
em becos, no reino sem futuro das sombras? Diz-me:
adivinhavas o que iria suceder? Ou não ouviste
o que te disse, quando falámos, em frente
desses cafés que arrefeciam, de tudo e nada: o nada
das coisas da vida, as que nos prendem ao instante que passa,
a súbita solidão de um fim de tarde, ou o ruído das crianças,
vindo da rua, que atravessa o espírito até se perder numa obscura
memória de infância; e tudo o resto - esse castelo antigo para que me empurra
um impulso do coração, agora que a taça se esvazia à minha frente
e nenhuma curva de caminho me desvia para o teu rosto.
Então, apago uma a uma as lâmpadas do ocaso? Como
o sacristão louco que avançou pela cripta, derrubando as estátuas
do culto? Não é isso o amor - essa outra religião a que devotamos o mais secreto do ser; a hesitação de uma bailarina
sem saber o lugar que lhe pertence num cenário de conversas; ou
o céu a que aspiramos, nesta terra que nos rouba cada pedaço
de tempo, para o devorar num banquete de astros finais. Podia
explicar-te o que é fictício, o que se perde do outro lado
do que pensamos que seja - a própria vida. Mas ela é
outra coisa: o que se constrói por dentro de nós,
nos intervalos da sensação, e se ergue de todas as horas
solitárias; e o que nos indica, na flor, o que não perece,
para além do seu centro de efémera beleza.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 54 a 56 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 645
Nuno Júdice
Debaixo das bétulas
Na hora amarela do bosque, apanham
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 012
Nuno Júdice
Debaixo das bétulas
Na hora amarela do bosque, apanham
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 012
Nuno Júdice
Debaixo das bétulas
Na hora amarela do bosque, apanham
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 012
Nuno Júdice
Debaixo das bétulas
Na hora amarela do bosque, apanham
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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