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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice - 1

Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.

No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?

Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Ruy Belo

Ruy Belo

Intervalo de vida

Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses

Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas

E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos

Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo

a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias

Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças

A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
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Ruy Belo

Ruy Belo

Intervalo de vida

Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses

Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas

E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos

Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo

a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias

Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças

A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
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