Poemas neste tema
Ciência e Razão
Fernando Pessoa
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
Quer verdade, e não sorte.
Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
E não do que deseja.
1 584
Fernando Pessoa
Para quê complicar inutilmente,
Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 472
Fernando Pessoa
Tarda o verão. No campo tributário
Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
Do moribundo tudo.
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
Do moribundo tudo.
1 355
Fernando Pessoa
TO A MATERIALIST
Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 370
Fernando Pessoa
12 - If I could carve my poems in wood
If I could carve my poems in wood,
By children they would be understood,
So near to the sense things have in God
Are both my poems and children's thought.
For a child knows that logic and meaning
Are only nothing nothing screening,
And a child is one divinely aware
That all things are toys and all things are fair,
That a thimble, a stone and a cotton‑reel
Are things we can quite divinely feel,
And that, if we make men out of those things,
They are really men, not imaginings.
I would therefore l could take my verse
Out of mere ideas and better it worse
To visible carving or drawing or what
My verses could be resembling that.
Then would I be the children's poet,
And, though perhaps I might never know it
With the outer sense that makes life sadder,
In every innocent face made gladder
God would be giving my soul the sense,
Lost back of knowledge, of recompense -
The sense of children more children still
When, acting my poems at their glad will,
They, playing with toys, with legs incurled,
Lightly err the visible world.
By children they would be understood,
So near to the sense things have in God
Are both my poems and children's thought.
For a child knows that logic and meaning
Are only nothing nothing screening,
And a child is one divinely aware
That all things are toys and all things are fair,
That a thimble, a stone and a cotton‑reel
Are things we can quite divinely feel,
And that, if we make men out of those things,
They are really men, not imaginings.
I would therefore l could take my verse
Out of mere ideas and better it worse
To visible carving or drawing or what
My verses could be resembling that.
Then would I be the children's poet,
And, though perhaps I might never know it
With the outer sense that makes life sadder,
In every innocent face made gladder
God would be giving my soul the sense,
Lost back of knowledge, of recompense -
The sense of children more children still
When, acting my poems at their glad will,
They, playing with toys, with legs incurled,
Lightly err the visible world.
1 853
Fernando Pessoa
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
1 260
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
929
Fernando Pessoa
A água de aqui é boa, não é?
A água de aqui é boa, não é?
Se é! Quantos vinhos que julguei melhores bebi!
A água de aqui — a verdade!
A verdade não — a melhor aparência dela...
Quando, em grandes praças de eu distra[ído],
Apregoam em torno de mim os jornais todos e eu durm[o]
Se é! Quantos vinhos que julguei melhores bebi!
A água de aqui — a verdade!
A verdade não — a melhor aparência dela...
Quando, em grandes praças de eu distra[ído],
Apregoam em torno de mim os jornais todos e eu durm[o]
962
Fernando Pessoa
WOE SUPREME
A friend said once to me: «All that thou writest,
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!
´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»
Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet
Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!
´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»
Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet
Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
1 398
Fernando Pessoa
THOUGHT
How great a thing is thought! as through the gloom
Of stormy skies the sudden lightning curls,
As slow the storm in patience grim unfurls
Its mighty volume of resounding boom,
Thought comes, more bright than Reason's sun which hurls
Its constant beams around till verge of doom -
Or as the silver‑chequered shades which loom
'Neath Fancy's moon in windy queerest whirls.
Thought comes, but blinds the glaring mental sight,
But shakes our mind with echoes of its roar
And bears its force beyond our visual scope;
Horrible beauty and unpitying might
That often kills and tears, to rise no more,
The frailest fabric of a dreary hope.
Of stormy skies the sudden lightning curls,
As slow the storm in patience grim unfurls
Its mighty volume of resounding boom,
Thought comes, more bright than Reason's sun which hurls
Its constant beams around till verge of doom -
Or as the silver‑chequered shades which loom
'Neath Fancy's moon in windy queerest whirls.
Thought comes, but blinds the glaring mental sight,
But shakes our mind with echoes of its roar
And bears its force beyond our visual scope;
Horrible beauty and unpitying might
That often kills and tears, to rise no more,
The frailest fabric of a dreary hope.
1 050
Fernando Pessoa
Não sei se os astros mandam neste mundo,
Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas —
As de jogar ou as do Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.
Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.
Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante.
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite. —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...
Por enquanto
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro.
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...
Nem se as cartas —
As de jogar ou as do Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.
Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.
Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante.
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite. —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...
Por enquanto
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro.
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...
1 505
Fernando Pessoa
HORROR
In the darkness of my soul,
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
1 853
Fernando Pessoa
Diálogo na treva?
Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
1 352
Fernando Pessoa
A CRIME
Do you know the crime I committed
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
1 576
Fernando Pessoa
THE WORLD OFFENDED
I said unto the world one day:
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
1 337
Fernando Pessoa
FAUSTO: O casamento
A separação (...) em si
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
[ANTÓNIO?]
Sim, mas os génios?
FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.
Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.
Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
[ANTÓNIO?]
Sim, mas os génios?
FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.
Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.
Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
1 970
Fernando Pessoa
O segredo da Busca é que não se acha.
O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses,
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e deuses vai a luz incerta
Da suprema verdade.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses,
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e deuses vai a luz incerta
Da suprema verdade.
1 471
Fernando Pessoa
Sempre que penso uma coisa, traio-a.
Sempre que penso uma coisa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela.
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma coisa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe verdadeiramente para o pensamento e não para os olhos.
Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela.
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma coisa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe verdadeiramente para o pensamento e não para os olhos.
Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.
961
Fernando Pessoa
Todas as teorias, todos os poemas
Todas as teorias, todos os poemas
Duram mais que esta flor.
Mas isso é como o nevoeiro, que é desagradável e húmido,
E maior que esta flor...
O tamanho, a duração não têm importância nenhuma...
São apenas tamanho e duração...
O que importa é a flor a durar e ter tamanho...
(Se verdadeira dimensão é a realidade)
Ser real é a única coisa verdadeira do mundo.
Duram mais que esta flor.
Mas isso é como o nevoeiro, que é desagradável e húmido,
E maior que esta flor...
O tamanho, a duração não têm importância nenhuma...
São apenas tamanho e duração...
O que importa é a flor a durar e ter tamanho...
(Se verdadeira dimensão é a realidade)
Ser real é a única coisa verdadeira do mundo.
1 374
Fernando Pessoa
JULIANO EM ANTIOQUIA [b]
Agir, sabendo
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
994
Fernando Pessoa
II - Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
II
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
1 337
Fernando Pessoa
O papagaio do paço
O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
2 309
Fernando Pessoa
Pese a sentença igual da ignota morte
Pese a sentença igual da ignota morte
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
Em cada breve corpo, é entrudo e riem,
Felizes, porque em eles pensa e sente
A vida, que não eles.
De rosas, inda que de falsas, teçam
Capelas veras. Escasso, curto é o espaço
Que lhes é dado, e por bom caso em todos
Breve nem vão sentido.
Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouco diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sós! Leixai
Viver os moribundos!
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