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Poemas neste tema

Ciência e Razão

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

HORROR

In the darkness of my soul,
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
        Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.

And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.

More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
        The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.

Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.

The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.

‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
        Yet if it did so bring
        Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
        Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
        More than is known in terror,
        More than is dreamt of fright.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Diálogo na treva?

Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em     (...)  naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.

Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
                                      Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO: O casamento

A separação  (...)    em si
Nada valem. Perante o pensamento
São fórmulas vazias. Mas o homem,
Na sua vida humana e colectiva,
Não vive em metafísica. O real
Puerilidade tem, contradições
Necessárias a ele. O pensamento
Não, a lei da vida. Tu não vês
Que o mais real que há, base de tudo,
O movimento, uma contradição
Suprema é e [...]. Tu não leste
De que formas de elixir (...)
O próprio ser, a própria vida são
Qual fórmulas perante o pensamento?
Pertence aos ignorantes e aos doidos
Desfazer convenções...
                [ANTÓNIO?]
                        Sim, mas os génios?
                FAUSTO:
Esses, porque são doidos. Ignorando
As leves e ligeiras convenções
Que excessos do útil e do usual
As fórmulas são às necessidades
Da vida do homem. Só a decadência
Generaliza e se despreza.

Mas eu, se frio estou e confrangido
Até ao seio d'alma, não perdi
O sentimento de dever perante
Os homens pr’a que busque vãos e inúteis
Impossíveis progressos, semi-doido
Semi-inconsciente da loucura.
E o raciocínio em mim não dorme nunca
E esse obriga-me a desdenhar as fracas,
Vazias teorias que pretendem
Por sentimentos a verdade obter
E por razões vãs de sentimento nadas.
Nojo, sim tudo, filho! nojo, nojo!
O homem vive em inconsciência, nasce
E vive e morre inconscientemente
Sem sequer do mistério aperceber-se,
Mais perto que palavras, do que o cerca.
Pensar, sentir, amar — ah, se tu visses
Como eu o fundo da inconsciência vã
Em que tudo se move. Se pudesses
Compreender...
                        Bem sei, António,
Mal transpuseste o limiar da porta
Já meus (...) argumentos desdenhaste.
Ou por doido me tens, ou por muito
Escravo do passado. Eu! Mas assim é:
Consciente só... (ia a dizer eu) sim,
Conscientes poucos.

Havendo isto, há a vida; não a havendo
Mais vida já não há. E assim de todas
As vidas existimos — da do mundo
À da sociedade humana, António.
                                Impulsos jovens
Que roubam a capa ao pensamento
E parecem ao longe raciocínios,
Mas a quem o pensamento não conhece.
Eu que levei a vida a conhecê-lo
Em tão débeis palavras não me engano.
É [...] a ilustração,
António, mas é certa. A humanidade
E as suas mágoas, dores está acima
De nossa frágil preocupação
De novidade e (...) progresso.
Eu amo a humanidade — antes amei-a
(Que eu já não amo nada) se inda sinto
Como que amor por ela é por lembrança
Ou instinto daquilo que senti.
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