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Ciência e Razão

Angela Santos

Angela Santos

Parêntesis

Há dias em
que se acorda com a cabeça repleta,
o peito querendo explodir por todos os seus ângulos,
como se ao regressarmos do fundo da noite,
retornássemos da safra de um qualquer campo que existe
num lugar que não sabemos,
onde revisitamos os lugares só possíveis enquanto
o manto da noite cobre a razão, amacia ânsias,
disfarça nas vestes do sonho
medos, limites e nos devolve à luz da manhã,
vindos dessa "terra de ninguém
e do todo", renovados, renascidos,
já que cada dia se morre um pouco, e se
renasce em igual medida.

O pensamento em suas pausas,
deixa então que me sente junto á corrente do coração,
sempre a transbordar.
Há muito que busco esse diálogo que não é
concorrente,
antes cooperante, da razão e das emoções.
Em seus avanços o coração galga as margens
e os limites do espaço
do possível, porque nele não é contido.
Por vezes não sei, se nesses instantes regresso à infância,
ao domínio absoluto do sonho e do imaginário,
ou a um qualquer tipo de consciente demência,
que me induz a surrealizar,
tão certa de ser essa a brecha por onde a minha sanidade mental
e o meu equilíbrio,
obrigatoriamente devem passar.
Não chego nunca a entender
(e para que preciso?)
se é o lado melhor do pensar misturado com o sentir
que ali se mesclam, já que esse é o instante
que nos torna maiores,
e nos faz pairar numa dimensão
onde a rosa dos ventos enlouqueceria
no seu imparávelrodopiar.

Momentos de tudo ser, tudo sentir. Mistura-se o
pretérito, o instante e o que desejamos que venha.
E o que há-de vir virá.
Mesmo se o que quisemos se transmuda e surge como
o que não esperávamos.
Ainda assim, surge o que haveria de vir.
Não vou dar às palavras a toada de
um qualquer "fatum", nem adorná-las de um qualquer determinismo:
se o que esperamos não se revela
com a face do esperado, é
porque confundimos a mascara com o rosto,
ou porque o verdadeiro rosto só o lapidará o tempo.

A luz entra de repente pela janela do meu
habitáculo. Faço de novo um parêntesis no curso
do meu pensamento, no instante em que estava
de novo tentada a parar,
ou pairar sobre os episódios da dimensão
"o que poderia ter sido".
Não quis ficar suspensa
sobre esses momentos em que em rewind surgiam
os momentos em que esperei "acontecer"
e acabei por viver o inesperado.
Suspendo a corrente do pensar,
sentindo esse chamado da luz para as coisas simples.

A nesga de sol me distrai da corrente sem norte
e sem lei , onde mergulho.
Receio, por vezes o destino dos navios que sulcam
os mares de sargaços.
A ousadia me seduz a descer, ou a subir
(como sabê-lo?),
já que se faz caminho ao andar.
É no compasso do passo que é
preciso ficar atenta,
é no movimento invisível das coisas
que tudo se joga e esse só o entende quem está atento
de uma outra forma.

Um dia de sol...é um dia de sol, talvez não seja
melhor nem pior do que um dia de chuva.
Afinal na sua sabedoria umas vezes simples,
chã, outras nem tanto,
Pessoa dizia que ambos são bons porque
existem. Aí reside quiçá a razão de tudo
ter razão de ser.
Mas um dia de sol, faz a diferença:
é que é de luz que vivem meus olhos,
porque é no calor que vibram meus nervos
e é nesse morno caldo em que estão mergulhadas, que sobrevivem
minhas células.
Um dia de sol a descoberto, é um dia de sol e
isso eu sinto-o por dentro de mim,
sem outra explicação.
E eu sei que todos os dias são dias de sol.
Mesmo que não o seja no lugar onde eu esteja.
É que um dia de sol que se descobre diante dos meus olhos,
existe aos meus olhos
e por dentro de mim.
E nada é igual à luz de um sol que se não abriu.
Quem sabe se um dia não velei o sol,
nos templos dos druidas, ou fui simples
adoradora da luz primordial?

Despertar assim, trazendo a cabeça e o peito
repletos de coisas, vagas ou não,
depois de atravessar esse campo imenso
onde se dilui a consciência em alerta,
requer uma espécie de exercício de equilibrista.
O dia nos toma inteiros, nos chamando,
requerendo a nossa atenção permanente.
É o vermelho que aparece ao cruzar de uma rua,
o choro ou riso de uma criança que atravessa nossa parede,
esse imenso mar de gente em que mergulhamos,
o louco vai e vem desse todo indefinido
sem contornos da multidão,
que nos dilui no seu atropelo, onde de repente
não somos mais nós,
somos mais um; as pequenas solicitações do quotidiano,
no encadeamento de actos, escolhas e decisões,
em que a cada momento construímos futuro.
E longe, diluídos na torrente do dia e de suas repetições,
o eco dos sonhos maiores, pacientemente
aguardando a vez na fila de espera.

De esperas e adiamentos se faz o correr da vida.
Porque há momentos e eles surgem do nada.
Não os esperamos e aí estão diante de nós,
puxando-nos para a vivência do inesperado,
vestindo outras vestes e
de um modo tal irreconhecíveis
que nem damos conta de que chegou o que
vivemos a esperar, trazendo em si outras esperas.
E a cabeça, que exige respostas simples se questiona,
sem devolução de resposta e cede, aguardando
um lampejo que chegue pela via da lucidez pressentida.

E é assim que podemos chegar a esse ponto da
existência, cujo estádio se não define claramente,
porque nada necessita de grande clarificação:
as coisas são, tal como são, nem sempre as entendemos,
e aceitar não saber é de algum modo
um certo começo de sabedoria.
Não é indiferença, não é renuncia,
nem resignação,
o que sobrevem ao tumulto do coração,
à rebelião da carne, à fome de querer e não
ter.
Não tem nome porque se dê esse momento,
em que sobre a vida se abre um parêntesis e nele
contido fica talvez o essencial, porque sem resposta.
Quem sabe,
se a elementar razão de todo o resto ser.

823
Angela Santos

Angela Santos

Do Livro e do Saber

na Era Comunicacional

Na era da Comunicação
global, do derrube de fronteiras imposto pelas sociedades da informação,
em que o poder prevalecente é o da imagem, coloca-se a questão
de saber que lugar ocupa a palavra escrita e consequentemente o livro,
nas culturas de massificação.
O
acervo de informação à disposição
de uma considerável parte da humanidade, pelo menos da que vive
em sociedades que dispõe de condições que permitem
aos seus cidadãos o acesso aos meios massificados da informação,
não nos pode fazer esquecer que uma outra fatia, não menos
considerável da humanidade, das estepes à Ásia
e ao grande continente africano, permanece analfabeta.
A
universalização e democratização do ensino,
tendo diminuído o fosso entre letrados e iletrados, não
nos conduziu necessariamente a um estágio de maior conhecimento:
a humanidade não se revela mais sábia, apesar de termos
as mais consagradas bibliotecas ao alcance da mão, na comodidade
de nossas casas, os museus mais conceituados do mundo ou os dados mais
recentes da ciência, disponíveis nas redes informáticas
e a que acedemos através de um simples click.
Em
grandes discursos de meras intenções políticas,
os que governam os destinos do mundo elevam suas vozes, tanto em defesa
do ambiente que ao ritmo de poluição a que está
sujeito, acabará sufocando e nós com ele, como da necessidade
de tornar universal o acesso ao conhecimento, e da escola como meio
privilegiado da formação dos indivíduos, portanto
de cidadãos. Educar para a cidadania, implicaria dar de novo
ênfase e importância a determinadas áreas de formação,
que tanto gregos como romanos – para de algum modo apelar a dois dos
grandes pilares de nossa estrutura civilizacional – sublinhavam como
as traves-mestras do edifício educacional do habitante da "polis".
As áreas de formação cívica, ao longo das
ultimas décadas foram sendo despromovidas em favor das áreas
tecnológicas e cientificas, sem sombra de dúvida caminhos
de evolução e progresso, para a humanidade, mas não
os únicos.
Pensar
que no dealbar do um novo milênio, as manchas de pobreza no planeta
se alargam, que o anafabetismo, não foi irradicado, que os nacionalismos
mais ferozes ainda matam, que a carta magna dos Direitos Universais
do Homem, é letra morta, para milhares de homens, mulheres e
crianças que conhecem a condição infra-humana da
existência, deveriam fazer pensar. Progresso é um
conceito que nos traz à memória um processo de eliminação
da bárbarie, e por todo o planeta há sinais de que ela
tende a crescer e de que os conceitos de progresso e evolução
deveriam ser revistos.
Educar
para a cidadania deveria ser o lema de quem dirige os destinos de um
país, porque é no ensino que se aposta positivamente no
futuro, ou pelo contrário o individamos. Progresso está
intimamente ligado a um outro conceito: EDUCAR!
Porque
falamos de ensino, é pertinaz lembrar que em nossas escolas parece
surgir como um verdadeiro drama as relações quase traumáticas
que uma elevada percentagem de alunos vive com algumas disciplinas,
nomeadamente a matemática e a língua materna. De uma forma
geral as pessoas falam cada vez pior, e a formação de
uma mente racional e lógica também se perde, pelas dificuldades
que enfrentam nossos estudantes.
O
sucesso escolar, e a aquisição do conhecimento, que se
realiza durante a passagem pela escola, ou faculdade, está diretamente
ligado à boa preparação dos docentes, que mais
do que ensinar se deveriam preocupar com a capacidade de incutir o gosto
por aprender e o insucesso escolar liga-se quer a fraca preparação
dos professores como á escolha de um conjunto de matérias
ministradas aos vários níveis do ensino que desmotivam
o aluno pela fraca relação que estabelecem entre a escola
e a vida. Motor por excelência da formação dos indivíduos,
a escola veio gradualmente desvalorizando as disciplinas das áreas
ditas cívicas ou humanistas ao longo das últimas décadas
em favor das tecnologias e áreas cientificas. Desde quando a
ética, o conhecimento, formação do indivíduo
para a cidadania, e formação de um espirito abrangente
e critico sobre o seu meio, se revelou incompatível com o ensino
das ciências? Porquê então a excessiva cientifização
do curriculuns escolares em detrimento da formação humanistica
dos alunos? Exigências de uma sociedade, que deixou de colocar
o Homem no seu centro. A crise de valores de que tanto se fala, poderá,
quem sabe de algum modo explicar-se à luz da questão acabada
de colocar.
Uma
sociedade crescendo em globalização, promovendo métodos
de organização cada vez mais uniformizadores, e contraditoriamente
parecendo dar uma ênfase particular ao indivíduo, vem criando
condições para a produção de um homem-padrão,
essencialmente movido pela idéia de sucesso, que se tornou um
dos ícones endeusados de nossos tempos. Os mídia e os
interesses por si veiculados têm operado "maravilhas" no tocante
a esta questão: o bombardeio diário da falácia
de um mundo de bem-estar ao alcance de todos, a velocidade vertiginosa
a que a informação corre sem permitir uma digestão
crítica das mensagens subliminares, a desvirtualização
da função primeira dos meios de comunicação,
informar, vai-nos transformando em meros receptores passivos e prontos
para a filosofia consumista e as sociedades do "Fast".
Mais
do que servir os públicos e informar, a televisão que
dispõe de um meio de incomensurável poder, quer pelos
públicos que atinge, quer pela influencia que exerce sobre eles,
se parece preocupar mais com os picos de audiências. Neste jogo
do vale tudo, a imagem "shock" vence ao knock-out a palavra,
ou não fosse tão popular, e certamente eficaz, a expressão
corrente: "uma imagem vale por mil palavras". Parece, pois, que os meios
que por excelência poderiam estar ao serviço da informação
e formação dos indivíduos, se encontram enredados
numa lógica de sobrevivência, em que os fins justificam
os meios.
Seria
importante lembrar que nossas sociedades e nossas culturas se ergueram
e mantiveram pela palavra: pela oralidade que durante milhares de anos
foi passando de homem a homem, tribo a tribo os conhecimentos dos mais
velhos, a memória e a História ciosamente guardadas pela
escrita, em pedras, papiros, e papel. A palavra, desde os tempos dos
cidadãos livres helênicos ao "corner speacher" do Hide
Park em Londres, tem sido utensílio de explicitação
do mundo, de expressão livre de idéias, de passagem de
testemunhos e de saber ao longo do tempo.
Sabemos
que o domínio da palavra, a capacidade de "manipular" e concatenar
conceitos é sobremaneira revelador de inteligência e que
a verborreia, o lugar comum que nada traduzem de novo, antes
reproduzem a mesmidade e a uniformização, em si mesmos
são empobrecedores. O fenômeno da globalização
e a atual caraterística das sociedades atuais me parecem estar
contribuindo de forma rápida e decisiva para este estado de coisas.
E
é neste contexto das sociedades "Fast", que vamos perdendo a
capacidade de entender a história que perpassa cada contexto
ou conjuntura temporal, e de ao jeito de Janus, com sua cabeça
bifurcada, encarar o futuro sem deixar de olhar para o passado que nos
explica o presente.
É
um momento único na História da
723
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Venham admirar

Venham,
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental

Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.

Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.

Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.

Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.

Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.

Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.

Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.

Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.

817
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Fora da História

Loucos
monumentos de pedra e tijolo
erguidos a deuses cruéis e a reis insanos
guerras inglórias, impérios exaustos
heróis, profetas e santos
todos povoam o passado,
gravemente.

Tudo é lógico, tudo está registrado em pedras, em papéis, em lendas,
explicam guias turísticos e professores de História
enquanto olhamos pela janela.

Os poderosos venceram batalhas, construíram impérios
massacraram, escravizaram, consolidaram reinos,
salvaram seus povos, fizeram palácios, muralhas e estradas,
sua glória final erguida em pirâmides para os mortos,
gigantescos palácios, templos para os deuses que os protegeram.

Os práticos venceram a Natureza drenando pântanos,
lendo os calendários escritos pelas estrêlas,
ensinando o cultivo de plantas,
construindo canais e cidades,
buscando a imortalidade na cura das doenças,
reescrevendo a superfície da Terra.

Os bons e sábios venceram o Mal,
falaram com a voz da santidade,
convertendo milhões com a sua dor e a sua palavra
(quando tudo isto já for vaga memória
e a maldade tiver reconquistado as almas,
poderemos ainda olhar suas estátuas de olhar solene
e seus coloridos vitrais).

Mas, mas, mas
e os apaixonados felizes,
os que faziam loucuras à espera de um olhar,
que não entendiam diferenças
entre noite e dia, entre sonhar e viver,
e sua felicidade, incontáveis gotas de chuva
a se armazenar em secretos lençóis,
onde estão as lembranças de seus feitos?

E os amargurados,
a olhar sem ver as ondas em algum cais,
a beber sem notar um vinho entre estranhos,
e suas lembranças, reflexos do sol no orvalho
que temem perder com o calor do dia,
doloridas farpas infeccionadas que lhes restam,
em que estranhos templos suas memórias repousarão,
que ruínas conhecerão as suas sombras?

Mas a História a êles não registra,
aos que atravessaram o ar com palavras,
suaves promessas eternas,
para que macias mãos pousassem nas suas,
aos que possuíam longos silêncios
que não conseguiam mais carregar,
quadros de tristeza e dor pintados dentro de si
com lágrimas há muito secas.

Não eram poderosos,
não eram práticos,
não eram bons nem sábios,
nada sabemos deles
mas os entendemos
e estes, sim
fizeram tudo.

934
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Bispo de Pádua

Seria frade, é certo.
Mas que doce e estável céu aberto
Então, o meu destino !
Seguiria, talvez, Tomás dAquino
E outros claros sóis
Da teologia.
E por fecundo amor à luz do dia,
Feroz, destroçaria
O pérfido Averrois
Recalcitrante,
Com trinta silogismos de lógica esmagante,
Excedendo, porventura, o próprio Frade Angélico
No meu santo furor aristotélico !
E na maturidade,
Atingida aquela obesidade
Que deve ter um frade,
Dotaria as conclusões a minha inteligência
Sobre Potência
e Acto
Ao mundo estupefacto
De tal clarividência.
Após, o irmão copista,
Um precioso artista,
Paciente por excelência,
Copiaria o muito que eu pensava
No bárbaro latim da decadência,
Iluminando as frases ressequidas
Com galantes maiúsculas refloridas.
Em Pádua, subiria a ser reitor,
Por virtude e fulgor
Da minha erudição;
E, firme desde início,
Recusaria o sólio pontifício
No transe aflitivo de Avinhão.
Já então,
Por antecipação,
Nas forjas legendárias
Onde o bisonho Vulcano temperou
As cóleras incendiárias
Do Júpiter Tonante,
Um bando rutilante,
Ingénuo e palrador,
De serafins, cantando,
Estaria burilando,
Com gemas siderais
E trémulos orvalhos matinais,
O fulvo resplendor
Da minha santidade.
Entre santos e santas veneráveis,
Nos paços inefáveis
Da bem-aventurança,
Como um rio que transborda o leito,
A nova correria, sem tardança,
De haver um novo eleito;
E a excelsa e moderada academia
Entre si disputaria
A rara regalia
Da minha vizinhança.
Teimoso e resistente como um cedro,
Que fortes argumentos não teria
O indomável Pedro ?
E Paulo, o das epístolas ardentes ?
E a trigueira Maria de Magdala,
De que os olhos, carvões incandescentes,
São, mais que a muda boca, eloquentes ?
Mas um Santo que fora em vida grego,
E, dizem, muito lido em história antiga,
Prudente, acalmaria os imprudentes,
Lembrando que fora por intrigas,
Por miseráveis brigas,
Que outrora tivera o seu ocaso
A glória dos Deuses no Parnaso.

.......................

Paris,
Burgo cinzento,
Da cor do pensamento,
Vestiria de luto
Um hermético céu de nuvens negras,
Sombrio e triunfal,
Por esse velho astuto,
Malabarista arguto
Das mil e uma regras
Da lógica formal.
E esse velho,
Por quem chorava o meigo céu da França,
De olhar agudo, como o dum judeu,
Cortante, como o ferro duma lança,
Esse velho, esse velho era eu.

.......................

Da Gália
- A Doutora,
A muito sabedora -
Partiria, entretanto,
Um certo santo
Esfomeado de azul,
De rumo para a Itália.

.......................

Combatera uma bula,
Fora reitor em Pádua,
Prelado de Mogúncia
(E Papa não fora
Por um triz...)
E saía de Paris
Em lazarenta mula,
Viúvo de ambições
E noivo da renúncia.

.......................

O céu dessa manhã gloriosa
Dir-se-ia, de ambarino e pouco azul,
Cavado numa pétala de rosa...
Já então o degelo abraçava
No seu harém de cristal
O corpo nu das montanhas
- Hirtas, distantes,
Impossuíveis e místicas amantes
Raptadas a um convento das Espanhas.
E ao longo das cogulas concubinas,
Violadas, sem esperanças,
A água deslisava como um choro,
Tombava, toda a desfazer-se em tranças...
Pensativas,
Em voos circulares de procissão
Dum estranho ritual,
As nuvens punham, nos cumes das cativas,
Grinaldas de Irreal.

.......................

Ora o céu não é um pálio
Para a passagem de quem
Vai para o trono da morte
Desde as entranhas da mãe,
Nem o mundo coroação,
Nem as vidas que pisamos
Poeira erguida, ao de leve,
Pelo manto que envergamos,
Nem Deus o erro prudente,
Degrau de altura do trono,
Osso de esprança atirado
À boca dos cães sem dono.
Nós somos mais, porque vamos
Lutando contra o capricho
Que fez de nós uma estrela
Num firmamento de lixo.

.......................

Sobre um declive juncado
De podres pássaros mortos,
Desço os atalhos que, tortos,
Sobem a Deus.
E cego aos voos parados
Que o mesmo frémito impele
E um só cansaço frustrou,
Lúcido e louco, prossigo
Pra exaltação e castigo
De quem não sou.

.......................

E um terror satânico e antigo,
O que nasceu comigo
À hora em que acordei
Para a miséria da minha condição,
Ergue-se todo,
Num garrote de lodo
E solidão...

.......................

No horto das consciências desfolharam-se os deuses.
Vastos devastadores
- A Paixão e a Dúvida -
Disputaram às raízes
Os pedúnculos airosos,
E um longo estio de indiferença
Evaporou nas seivas
As ilusões piedosas.
Já a morte não abre
Para encruzilhada
Dos dois caminhos eternos.

.......................

Mais do que mitos infernais ou laços
Dum sobre-humano engenho aterrador,
Proíbem-me os umbrais, cujo transpor
É todo o fim dos meus perdidos passos.

.......................

Porquê ? Porque hei-de ver apenas isto ?
Eu que sou autêntico, que existo
Sem símbolos, real, naturalmente ?

.......................

Deuses, inferno e céu, foi tudo em vão;
Mito após mito, ergueu-se o ígneo horror
Do Eterno sem Deus, e com ele o esplendor...
Ao cabo, os homens são o que homens são.

1 471
Bocage

Bocage

Pena de Talião

Ao Padre José Agostinho de Macedo

Tu nihil invita dices, faciesve Minerva.
Horácio, Arte Poética, V, 385

Invidia rumpantur ut ilia Codro.
Virgílio, Écloga VII

(. . .)

Refalsado animal, das trevas sócio,
Depõe, não vistas de cordeiro a pele.
Da razão, da moral o tom que arrogas,
Jamais purificou teus lábios torpes,
Torpes do lodaçal, donde zunindo
(Nuvens de insetos vis) te sobem trovas
À mente erma de idéias, nua de arte.

(. . .)

Sanguessuga de pútridos autores,
Que vais com cobre vil remir das tendas,
Enquanto palavroso impõe aos néscios
E a crédulo tropel, roncando, afirmas
Que resolveste o que roçaste apenas
(Falo das Artes, das Ciências falo);
Enquanto a estátua da Ignorância elevas,
Os dias eu consumo, eu velo as noites
Nos desornados, indigentes lares;
Submisso aos fados meus ali componho
À pesada existência honesto arrimo,
Coa mão, que Febo estende aos seus, a
poucos.
Ali deveres, que não tens, nem prezas,
Com fraternal piedade acato, exerço;
Cultivo afetos à tua alma estranhos,
Dando à virtude quanto dás ao vício.
Não me envilece ali de um frade o soldo,
Ali me esforça ao gênio as ígneas asas
Coração benfazejo, e tanto e tanto
Que a ti, seu depressor, protege, acolhe;
Que em redondo caráter te propaga
A rapsódia servil, poema intruso,
Pilhagem que fizeste em mil volumes,
Atulhado armazém de alheios fardos,
Onde a Monotonia os mexe, os volve,
E onde teimosa Apóstrofe se esfalfa,
Já coos Céus intendendo e já coa Terra.

(. . .)

Prossegue em detrair-me, em praguejar-me,
Porque Délio dos prólogos te exclui:
Pregoa, espalha em sátiras, em lojas
Que Zoilos não mereço, e sê meu Zoilo:
Chama-me de Tisífone enteado,
Porque em fêmeo-belmírico falsete
Não pinto os zelos, não descrevo a morte;
Erra versos, e versos sentencia;
Condena-me a cantar de Ulina e danos.
Agrega o magro Elmano ao fulho Esbarra;
Ignora o baquear, que é verbo antigo,
Dos Sousas, dos Arrais somente usado;
Metonímias, sinédoques dispensa;
Dá-me as pueris antíteses, que odeio;
De estafador de anáforas me encoima;
Faze (entre insânias) um prodígio, faze
Qual anda o caranguejo andar meus versos;
Supõe-me entre barris, entre marujos
(De alguns talvez teu sangue as veias honre):
Mas não desmaies na sua carreira; avante,
Eia, ardor, coração . . . vaidade, ao menos!
As oitavas ao Gama esconde embora,
Nisso não perdes tu nem perde o mundo;
Mas venha o mais: epístolas, sonetos,
Odes, canções, metamorfoses, tudo . . .
Na frente põe teu nome, e estou vingado.

2 105
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

O observador privilegiado

O espólio intelectual de Alexandre Eulálio, que vem surgindo em publicações post-mortem, entre as quais o substancial Livro Involuntário, seleção de Carlos Augusto Calil e Maria Eugenia Boaventura, revela-se precioso. Os organizadores, pela inteligente classificação do material, surpreenderam a ordem secreta na aparente aleatoriedade dos múltiplos interesses eulalianos. As oito partes são precedidas pelo texto A Imaginação do Passado e complementadas por posfácio, notas e índices. Assim, o espírito meticuloso do autor parece homenageado: nos detalhes obsessivos, distingue-se o mestre de um método oculto.
A Imaginação do Passado defende uma organicidade subterrânea de escritos ocasionais, mas estes não se contrapõem ao que o autor chama de nobre gueto universitário. Ele defende as mediações e nega a oposição maniqueísta entre modos de operar diversos. Defende ainda que análise formal e interpretação histórica se defrontem numa instância dialógica, que anularia os feixes de intersecção de diacronia e sincronia. Contra as generalizações, Alexandre exige ainda referenciamentos objetivos e aparato filológico, chegando ao corolário: A abrangência da história intelectual como história das formas é antes de mais nada história das idéias. Nessa utopia, enxerga o perfil ideal da crítica.
Os interesses plurais de Alexandre podem ser rastreados através das várias partes da publicação. A primeira, Crônicas do Brasil, parte do começo dos começos, a carta de Pero Vaz de Caminha, cujo cine-olho, segundo o autor, o identifica como um Flaherty quinhentista. Nesse deslocamento metonímico, comparando Caminha ao documentarista cinematográfico, se espelha um dos aspectos do método eulaliano de aproximação crítica. Do mesmo modo, quando aborda uma das suas paixões, o livro Minha Vida de Menina, de Helena Morley, retira uma lição crítica de evocações descritivas da inglesinha. Naquele livro se surpreenderia um interesse sociológico como crítica ao ambiente da província, onde coexistiam dois mundos culturais divergentes (o britânico protestante-liberal e o ibero-católico, mal saído da escravidão) que se contemplam e se julgam no interior de um eu tornado harmonioso pelo equilíbrio mesmo das suas contradições.
É este método de se retirar lições que se manifesta ainda, na seção Desejo de História, nos vários retratos de Tiradentes, que se torna apenas a tragédia individual de um homem, que seria ainda mais imponente dentro de suas limitações, observação que poderia caber também ao perfil de Tomás Antonio Gonzaga, logo adiante. Observe-se ainda a extrema isenção quanto ao prisma ideológico quando se refere ao folhetim de Joaquim Felício dos Santos, As Páginas do Ano de 2000, uma das mais violentas sátiras escritas ao reinado de Pedro 2º. A capacidade de dissociar valores crítico-literários e valores históricos, sem entrar num juízo pessoal, seria mesmo um dos melhores atributos críticos de Alexandre Eulálio.
Esta isenção se emaranha ainda em maior complexidade quando trata da personalidade dúplice de Paulo Prado, que conciliava um apaixonado da pesquisa histórica e um entusiasta de movimentos artísticos de vanguarda. O Retrato do Brasil seria próspera sementeira de questões e problemas, que se revelaria como um valor em si mesmo.
Os textos de uma coluna em O Globo em 1965 estão em Matéria e Memória, título que evoca o filósofo Henri Bergson. É matéria filtrada pela memória, passando pelo filtro de Marcel Proust, para o qual mais se inclinaria o autor. As admirações envolvem do irônico estilista mexicano Júlio Torri e os seus aforismos satíricos, passando pelo louvor de Bocage, ou, antes, os vários Bocages que o autor conheceu, e chegando ao Artur Azevedo da revista teatral O Tribofe, óculo de alcance de um observador privilegiado. Destaque-se a nota sobre Thomas de Quincey e o seu Confessions of an English Opium Eater, que revela o apego do crítico às pesquisas de um imaginário em liberdade, em contraposição a convenções da época e preconceitos do próprio De Quincey.
No centro do livro, Talento Maior nos revela um Alexandre talvez inesperado para os que não o conheceram, voltado para questões interpretativas genéricas. Em Noble Brutus, o que importa é o dilema psicológico entre o homem privado e o público, o novo conceito de liberdade e o conceito grego de predestinação conciliados e, enfim, a possibilidade de tudo fazer, que seria a grande contribuição de Shakespeare ao teatro moderno. Esta possibilidade é o centro da questão em O Édipo de Gide. Mais além do Édipo prometéico gideano, dividido entre a predestinação e a afirmação humana contra o deus, mais do que a questão literária entre liberdade & predestinação, o crítico vê o conflito real entre submissão e autoridade, simbolizado na luta de Édipo contra Tirésias.
Das ambiguidades, retira o autor a lição de que a solução para um problema proposto é só aquela solução e mais nada. Não há receitas genéricas. Disso pode-se pular para o extremamente particular, que é o poético no breve ensaio Maio em São Cristóvão. O poeta é Clarice Lispector no conto Mistério em São Cristóvão. Descrevendo-o, Alexandre se torna ele mesmo um crítico-poeta, ao propor que do cotidiano prosaico se passa para a ante-sala do desconhecido, através de uma imprevista colocação de peças no tabuleiro de xadrez.
As formas e relações violentamente novas criariam o clima de alucinação do conto clariceano. Ou seja, a ficção como química verbal, alquimia do verbo rimbaudiana.
Machado, as Mais das Vezes, reúne textos dedicados a um dos seus ídolos, Machado de Assis. Alexandre escolhe, com Esaú e Jacó em Inglês, o viés da visão de fora, um viés universalista para um Machado que abandonara os aspectos fundamentalmente éticos dos romances anteriores (Quincas Borba, Dom Casmurro) em favor de um realismo simbólico, que tinha raiz (na) fria maravilha que é o Brás Cubas. Esse viés prossegue em Aspiral Ascendente, pela visão de Jean-Michel Massa da formação jovem de Machado, onde se vêem transmutações (...) pouco perceptíveis a olho nu.
Em contraste com a pesquisa crítica de La Jeunesse de Machado de Assis, estão os quatro volumes de Vida e Obra de Machado de Assis, de R. Magalhães Júnior, com o seu enorme luxo de minúcias, ou seja, a lupa faiscante da história pequena (com h minúsculo: petite histoire). Contudo, o que mais o interessa é a paixão crítica, ao expor a argúcia de um crítico de fora, o inglês John Gledson em Machado de Assis: Ficção e História, desvendando no mestre a intrincada teia de alusões e referências do discurso ficcional. O breve estudo final, A Estrutura Narrativa de Quincas Borba, vê em Machado uma muito mais radical e duradoura denúncia contra imposturas e mistificações do tempo.
Notas de uma Agenda será, para certa classe de leitores, uma leitura de mais particular fascínio. Vêem-se evocações sartreanas a propósito de Cruz e Souza e sua negritude; o encontro do decadentista mineiro Severiano de Resende com Miguel Angel Astúrias e sua prosa impregnada da forma simbolista, e, por tabela, o encontro de Astúrias com James Joyce (entrevisto/observado com curiosidade numa vitrine de antiquário); o encontro de Carlos Felipe (Saldanha), criador do personagem Capitão Fantasma e uma velhinha que abominava toda poesia (Je la déteste, vraiment je la déteste); as minúcias linguísticas da Lição de Coisas de Carlos Drummond de Andrade e o seu inventário do atingir o sussurro do ptyx, arco mallarmaico, alegoria arbitrária (...) de significado ocluso; o pedido para se acentuar a última sílaba de Caniboswáld, comentário do Oswald canibal de Benedito Nunes, para não confundir Oswáld (de Andrade) e o assassino indigitado do primeiro Kennedy (Lee Ôswald), mas sim evocar o tempestuoso herói da Corinne, de Madame de Stael, e outras relações faiscantes pelo arguto jogo de referências e pelo discretíssimo humor eulaliano. Finalmente, anote-se que em Um Sentido Mais Puro (de Mallarmé) Alexandre revela nã
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Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Augusto dos Anjos e a Escola do Recife

O tema que trago à consideração dos que compõem este Conselho Estadual de Cultura tem sido tocado, apenas, de leve, por quantos se interessam pela vida e pela obra do maior dos poetas paraibanos - Augusto de Carvalho Rodrigues dos anjos - cujo centenário de nascimento todo o Brasil, este ano, comemora.
De fato, Agripino Grieco chama-o, de passagem, "epígono retardado da Escola do Recife" (1); Ferreira Gullar alude ao contato de Augusto com o "espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do Recife, a partir de Tobias Barreto" (2); Jamil Almansur Haddad proclama que a "geração de Augusto dos Anjos ainda é herdeira da escola do Recife, do pontificado de Sílvio Romero e Tobias Barreto e acaba sendo um florescimento brasileiro da poesia científica" (3); Pinto Ferreira, em considerações sobre a Escola do Recife, reconhece ter sido Augusto, "não diretamente ligado ao magistério de Tobias, porém influenciado pelo evolucionismo, dentro do clima ideológico da Escola". (4)
O tema, pois, não é original. Cabe-me, apenas, o esforço de tratá-lo mais demoradamente e, pela primeira vez, na província.
Dito isso, perguntaríamos: Que aproximações poderiam ser estabelecidas entre Augusto dos Anjos e a Escola do Recife? Que influências teria o nosso grande vate recebido daquele movimento? Quais os sinais dessas influências na obra de Augusto?
Para responder a tais perquirições e para exata compreensão das influências recebidas por Augusto das idéias em voga, ao seu tempo, no Recife, creio necessário expor, inicialmente, o que foi a Escola do Recife, suas figuras luminares, suas fases, as teorias nela discutidas.

A Escola do Recife

O que se convencionou chamar de Escola do Recife foi um movimento cultural de ampla repercussão, congregando pensadores, estudiosos, juristas, sociólogos, poetas, preocupados em debater os mais variados temas dentro de suas respectivas especialidades. A Escola do Recife não teve um ideário próprio e definido. Antes, foi um movimento heterogêneo, um cadinho de filosofias, de sociologias, de correntes literárias e jurídicas. Conforme assinala Pinto Ferreira, o grande esforço válido da Escola do Recife foi o convite ao debate filosófico e cultural.
A Escola teve, primitivamente, três fase, Digo primitivamente porque, consoante ainda Pinto Ferreira, "este movimento de idéias não ficou estacionado no tempo, os segmentos do tempo lhe foram indiferentes". Para o mestre pernambucano, a Escola do Recife "e um movimento dinâmico que sobrevive na atualidade, em uma nova fase de desenvolvimento". (5)
Primitivamente, pois, a Escola teve três fases: a fase poética, a fase crítico-filosófica e a fase jurídica. Durante essas três fases, vários nomes podem ser identificados como exponenciais da Escola: Tobias Barreto, sem dúvida, a maior figura do movimento, Castro Alves, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Martins Junior, Artur Orlando e outros mais.
O primeiro período - da poesia - iniciou-se de 1862 a 1863, conforme esclarece Clóvis Beviláqua. (6) Essa fase corresponde à formação daquela corrente denominada por Capistrano de Abreu, "escola condoreira", integrada por Tobias Barreto e Castro Alves, notadamente, bem como por Vitoriano Palhares, Guimarães Junior, Antônio Alves Carvalho, Xavier Lima (7) e Sílvio Romero. (8)
Lançam-se por essa época os fundamentos da poesia filosófico-científica.
Tobias Barreto embebe-se do panteísmo do "Ahasverus", de Edgar Quinet e em sua poesia já estremece "um brado de revolta de um espírito abalado pelos desgostos e pela filosofia do século". (9) Dessa fase é o poema O Gênio da Humanidade, síntese da evolução humana, provavelmente inspirado no Ahasverus. Outro de seus poemas, Ignorabimus, traz à tona preocupações religiosas do autor:

Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do Universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.

Dizem que Cristo, o filho de Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro!...
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!

Se os reis são sempre os reis, se o povo ignaro
Não deixou de provar o duro freio
Da travessia e da miséria o trato;

Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...

E em outro, intitulado Epicurismo, defende essa filosofia de vida:

Se as crenças são um engodo,
Se falha o verbo da fé,
Se o homem se acaba todo
Com a matéria que ele é,
Se o coração nada aspira,
Se este bater é mentiroso,
Se além não há desfrutar,
Da vida a idéia suprema,
O grande, o sábio problema
É viver muito e gozar...

Também Sílvio Romero cultiva a poesia científica. E mais: foi seu ardente defensor, conforme assinala França Pereira, no Prefácio à segunda edição de A poesia científica, de Martins Junior. (10)
São, assim, Tobias e Sílvio Romero os precursores da chamada poesia filosófico-científica, que vai ter, ainda, na Escola do Recife, um teorizador e praticante apaixonado, na pessoa de Martins Junior, de que falarei adiante.
A segunda fase é a fase crítico-filosófica, iniciada pelos anos de 1868 a 1870 e que se estende até 1882, quando, com o concurso de Tobias Barreto, para professor da Faculdade de Direito, tem começo a fase jurídica da Escola.
Durante a segunda fase têm curso as mais diversas correntes filosóficas, críticas e religiosas, sobressaindo-se como autores mas acatados e discutidos Spencer, Heckel, Hartmann, Schopenhauer, Kant. Mas é fora de discussão que nessa época a Escola elege, por intermédio de Tobias, notadamente, o monismo e o evolucionismo, como as idéias principais de seu pensamento, a ponto de Luís Washington Vita, citado por Pinto Ferreira, observar que a doutrina adotada pelos pioneiros da Escola do Recife foi um somatório daquelas duas teorias. (11)
O evolucionismo teve, como se sabe, em Herbert Spencer um de seus mais importantes defensores. A nota fundamental que o evolucionismo spenceriano distingue na evolução é o progresso. Evolução significa progresso, conforme proclama o filósofo inglês em seu ensaio intitulado Progresso. O progresso, segundo Spencer, investe todos os aspectos da realidade. "Quer se trate - diz ele no ensaio citado - do desenvolvimento da Terra, quer se trate do desenvolvimento da vida na sua superfície ou do desenvolvimento da sociedade, ou do governo, ou da indústria, ou do comércio, ou da linguagem, ou da literatura, ou da ciência, ou da arte, sempre no fundo de todo progresso está a evolução que vai do simples ao complexo através de diferenciações sucessivas". (12)
E nos seus Primeiros Princípios, assim definia a evolução: "A evolução é uma integração da matéria e uma concomitante dissipação de movimento, durante a qual a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e coerente e durante a qual o movimento conservado é passível de uma transformação paralela". (13)
Ao lado do evolucionismo, a outra doutrina, também acatada pelos pensadores foi o monismo, cuja figura maior foi, sem dúvida, o filósofo alemão Ernst Haeckel.
Spencer e Haeckel dominam, por conseguinte, com suas idéias, o ambiente cultural do Recife, de fins do século passado e princípios do atual, graças à ação intelectual de Tobias Barreto, o grande mentor da Escola do Recife, e da dos demais que o acompanhavam naquele movimento.
Finalmente, a terceria fase da Escola, a fase jurídica, inicia-se em 1882, ano em que Tobias presta concurso para professor da Faculdade de Direito do Recife. Despontam nessa fase, além do grande sergipano, as figuras de Clóvis Beviláqua, José Izidro Martins Junior e Artur Orlando, este mais sociólogo que jurista.
Deles
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