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Poemas neste tema

Humor e Ironia

Pablo Neruda

Pablo Neruda

V - Chegou a Frota

Quando chega a frota
norte-americana
esfuma-se a bandeira
pastoril
da Itália.
Termina o azul e as guitarras
ali onde estão? Aquela
onda de mel e luz
que envolve
seres, conversas, monumentos,
tudo se esconde, só
as presenças de aço na baía,
lentos répteis,
línguas
malditas da guerra,
e no alto
a bandeira
do invasor
com suas barras de cárcere
e suas estrelas roubadas.
Os prostíbulos
crescem,
e ali de tombo em tombo
os marinheiros civilizadores
transitam,
derrubam-se,
entram aos murros
nos pobres lares da margem,
exatamente como
antes aconteceu em Havana,
no Panamá, em Valparaiso,
na Nicarágua, no México.
Quando parte
a frota
segue um barco pela terra.
Em trens, em caminhões
se dirige a um prostíbulo
ao novo porto em que os barcos cinzentos
vão para defender a cultura.
Ai, que dificuldades!
Faltam hotéis onde
situar às mulheres
de maneira estratégica no porto!
Ah mas para isso
todo o governo se mobilizou.

Corre o senhor de Gásperi vestido
com seu fraque mais tétrico,
e o ministro da polícia
varre os quartos
para que tudo
se desenvolva
com eficácia extrema.
Depois
os senhores ministros italianos
se reúnem,
se felicitam
e o Presidente do Conselho, débil
e funeral como um caixão de morto,
declara com voz suave:
“Ultrapassando as dificuldades
temos cumprido com nossos deveres
para com a frota norte-americana.
Ademais esta tarde, com orgulho
o declaro,
proibi uma exposição de pintura,
expulsei um poeta perigoso
e pus na fronteira
o corpo de balé de Leningrado.
Assim
mostramos como aqui na Itália
defendemos
a cultura cristã”.
Enquanto isso nos portos
a pastoril bandeira,
a claridade da Itália
se esconde, e a sombra
dos encouraçados
dorme na água, como
nos pútridos charcos da selva
esperam os répteis.
No entanto
azul é o céu da Itália,
generosa sua terra pobre,
largo o peito do povo,
valente sua estatura
e o que conto existe,
mas não será eterno.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Recordações da Amizade

Era uma tal obstinação
a de meu amigo Rupertino
que dedicou seu desinteresse
a empresas sempre inúteis:
explorou reinos explorados,
fabricou milhões de buracos,
abriu um clube de viúvas heróicas
e vendia fumaça engarrafada.

Eu desde criança me fiz de Sancho
contra meu sócio quixotesco:
argumentei com força e prudência
como uma tia protetora
quando quis plantar laranjeiras
nos tetos de Notre Dame.
Logo, cansado de aturá-lo,
eu o deixei em nova indústria:
“Bote Ataúde”, “Lancha Sarcófago”
para presuntos suicidas.
Minha paciência não aguentou
e abandonei sua vizinhança.

Quando meu amigo foi eleito
Presidente de Costaragua
me nomeou Generalissimo,
a cargo de seu território:
era sua ordem invadir
as monarquias cafeeiras
regidas por reis furiosos
que ameaçavam sua existência.

Por fraqueza de caráter
e amizade antiga e pueril
aceitei aquele comando
e com quarenta involuntários
avancei sobre as fronteiras.

Ninguém sabe o que é
morder o pó da derrota:
entre Marfil e Costaragua
derreteram de calor
meus aguerridos combatentes
e eu fiquei só, cercado
por cinquenta reis raivosos.

Voltei arrependido das guerras,
sem título de General.
Busquei meu amigo quixoteiro:
ninguém sabia onde estava.

Logo o encontrei no Canadá
vendendo penas de pinguim
(ave implume por excelência,
o que não tinha importância
para meu compadre obstinado).

No dia em que menos se espere
pode aparecer em sua casa:
acredite em tudo o que conta
porque depois de tudo é ele
o que sempre teve razão.

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