Humor e Ironia
Nuno Júdice
O brilho das cinzas
O vento agita os ramos altos do cipreste;
no escuro mármore lê-se ainda o meu nome.
Morto, mas subitamente mais vivo,
ouço os vastos barulhos terrestres e o
anúncio subterrâneo da próxima catástrofe.
Rindo-me para os bichos de quem sou a fria
morada, abro e fecho os ossos do rosto
num esgar de gozo. "Em breve o meu corpo
regressará à superfície. Encontrar-me-eis,
ó gente humana, nas idênticas circunstâncias do Juízo." Nessa noite, os coveiros notaram
uma insólita agitação no fundo da terra.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 157 | Quetzal Editores, 1999
Fernando Pessoa
N'um mar de mijo havia um penico sem tampa
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
D'um malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
Fernando Pessoa
D. PEDRO V
Longe de má pessoa, com acinto
Ao bem e à verdade se cingia
Assobiou e resmungou «errei
Lá vai este destoar, por ser bom rei,
D'aquela estuporada dinastia
Que eu destinara a exempli[fi]car
Perante o mundo o mal da monarquia
Nada, volva a infâmia ao seu lugar
Se não com este era a obra desfeita
Da infâmia completa de governar
Que nos Bragança ia tão perfeita.»
Matou-o novo pois para não destoar.
Fernando Pessoa
O soslaio do operário estúpido para o engenheiro doido —
O engenheiro doido fora da engenharia —
O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo entre os normais...
(Quando me olham cara a cara não os sinto sorrir).
Fernando Pessoa
«Mau, Maria!» — tu disseste
Quando a trança te caía.
Qual «Mau, Maria», Maria!
«Má Maria!» «Má Maria!»
Fernando Pessoa
O laço que tens no peito
Parece dado a fingir.
Se calhar já estava feito
Como o teu modo de rir.
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - VII
Whate'er it is, with great attention
I read, although 'tis rather dull;
And, to speak true, not to deceive,
These words synthetise the impression
That from your bull I did receive: -
How much of that do you believe?
Fernando Pessoa
Pia número SEIS
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
Fernando Pessoa
EPIGRAMS- VI
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
Fernando Pessoa
O SOBA DE BIKÁ — TRAJÉDIA
Constantemente usava um admirável trajo
Que era feito de pele e de coisa nenhuma.
Havia uma harmonia entre ele e o trajo; em suma,
O soba de Biká, ou de noite ou de dia,
Era sempre da cor do trajo que vestia.
Mas o soba, coitado!, um dia em sua casa,
Sentou-se por descuido em cima de uma brasa,
E, em vez de gritar «Ai, minhas calças!», «Uh!»,
Gritou ele, esquecendo o trajo, «ai o meu cu!»
Fernando Pessoa
Disseste-me quase rindo:
«Conheço-te muito bem!»
Dito por quem me não quer,
Tem muita graça, não tem?
Fernando Pessoa
Não me digas que me queres
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.
Fernando Pessoa
RONDEAU - Faz noite em meu coração.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
Fernando Pessoa
Tu, ao canto da janela,
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?
Fernando Pessoa
POEMA PIAL
Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.
Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.
Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.
Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.
Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.
Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.
Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.
Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.
Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.
Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.
Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.
E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
Fernando Pessoa
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
Fernando Pessoa
Boca que o riso desata
Numa alegria engraçada,
És como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata.
Fernando Pessoa
Ouves-me sem me entender.
Sorris sem ser porque falo.
É assim muita mulher.
Mas nem por isso me calo.
Fernando Pessoa
Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
Fernando Pessoa
Ris-te de mim? Não me importo.
Rir não faz mal a ninguém.
Teu rir é tão engraçado
Que, quando faz mal, faz bem.
Fernando Pessoa
COMEDY
Once in a theatre comic
’Tween acts I pondered to see
On a column sculptured, wide and comic,
The grinning mask of Comedy;
And broad and wild in satyr-glee,
The grinning face of Comedy.
II.
«Ah,» said I, «face merry and comic,
There is happiness in thee,
Few faces like thine, wide-mouth'd and comic,
Oh, grinning face of Comedy;
Boisterously wrinkled, ugly and free,
The grinning mask of Comedy.»
III.
But as I gazed at the face that smiled,
With mine eyes half-dreamfully,
«Ah,» said I, «it is forced and wild,
Untrue smile of pitiless glee;
Forcedly wrinkled, unreal, unfree,
Hard-grinning mask of Comedy.»
IV.
And I trembled — now it no longer smiled,
It had forcedly smiled — now not even so.
Oh, fearful face, terribly wild,
Terribly silent face or woe;
Worn, hysterical, mad, unfree,
Woe-twisted face of Comedy.
Fernando Pessoa
Castanhetas, castanholas —
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.