Poemas neste tema
Humor e Ironia
Fernando Pessoa
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário.
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece —
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo —
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
1 326
Fernando Pessoa
Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
2 044
Fernando Pessoa
THE GIANTESS
I saw a comic giantess
At a tremendous feast alone,
Striving to eat some gorgeous mess
That formed a hard whole, as a stone.
But for her mouth it was too much
That, her avidity being such,
It doubled her void wish's hell;
And her mouth's wide, impotent clutch
Would have made laugh, did it not quell
Laughter with being horrible.
At her impossible, void feast
I saw her and, seeing her despair,
«What's that too large thing that to eat
You idly strive?» I asked of her ;
And I laughed out serene and rude.
She wept wild tears and said, «This meat
That by its greatness doth elude
My constant gaping, wild and sore,
Is Beauty whole and complete.»
I looked at her and laughed no more,
But I wept, for I understood.
At a tremendous feast alone,
Striving to eat some gorgeous mess
That formed a hard whole, as a stone.
But for her mouth it was too much
That, her avidity being such,
It doubled her void wish's hell;
And her mouth's wide, impotent clutch
Would have made laugh, did it not quell
Laughter with being horrible.
At her impossible, void feast
I saw her and, seeing her despair,
«What's that too large thing that to eat
You idly strive?» I asked of her ;
And I laughed out serene and rude.
She wept wild tears and said, «This meat
That by its greatness doth elude
My constant gaping, wild and sore,
Is Beauty whole and complete.»
I looked at her and laughed no more,
But I wept, for I understood.
1 400
Fernando Pessoa
Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.
Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.
Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
1 346
Fernando Pessoa
Ora porra!
Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
2 705
Fernando Pessoa
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.
1 151
Fernando Pessoa
ORIGEM METAFÍSICA DO PADRE MATTOS
(Intuicionado depois da leitura dum artigo de «A Palavra»)
O nome vão que há tempo nos intruja,
O sujo Deus da humanidade suja,
Esse hiperindivíduo ora estagnado
Para além do céu plácido e estrelado
Ora biblicamente doido e vário,
Fazendo tudo mal e ao contrário…
Pois bem, essa figura de destaque
Um dia (triste dia!) deu um traque.
… E o triste efeito dos divinos flatos
Caindo em terra onde mijavam gatos,
Brotou dali espontaneamente o padre Mattos.
O nome vão que há tempo nos intruja,
O sujo Deus da humanidade suja,
Esse hiperindivíduo ora estagnado
Para além do céu plácido e estrelado
Ora biblicamente doido e vário,
Fazendo tudo mal e ao contrário…
Pois bem, essa figura de destaque
Um dia (triste dia!) deu um traque.
… E o triste efeito dos divinos flatos
Caindo em terra onde mijavam gatos,
Brotou dali espontaneamente o padre Mattos.
1 406
Fernando Pessoa
A Rainha D. Amélia
A Rainha D. Amélia
Se se dissesse que arrélia,
Rimava, mal seria
O mais certo é que arrelia.
Se se dissesse que arrélia,
Rimava, mal seria
O mais certo é que arrelia.
1 368
Fernando Pessoa
BEIJA-MÃO
Então dizem que o Barão
Que ocupa o lugar cruel
De chefe da situação
Beijou ao Ramiro o anel…
Foi para levar a cabo
Tudo a bem.
Que ocupa o lugar cruel
De chefe da situação
Beijou ao Ramiro o anel…
Foi para levar a cabo
Tudo a bem.
1 322
Fernando Pessoa
E ao acabar estes versos
E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
1 130
Fernando Pessoa
Fica o coração pesado
Fica o coração pesado
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
1 522
Fernando Pessoa
Este é o riso daquela
Este é o riso daquela
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.
1 051
Fernando Pessoa
Tu és Maria da Graça,
Tu és Maria da Graça,
Mas a que graça é que vem
Ser essa graça a desgraça
De quem a graça não tem?
Mas a que graça é que vem
Ser essa graça a desgraça
De quem a graça não tem?
1 231
Fernando Pessoa
No dia de Santo António
No dia de Santo António
Todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?
Todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?
1 928
Fernando Pessoa
Deixaste cair no chão
Deixaste cair no chão
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
987
Fernando Pessoa
Deram-me, para se rirem,
Deram-me, para se rirem,
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.
1 292
Fernando Pessoa
THE SPEECH
Before a poor, ignorant crowd
A wild propagandist loud
Shrieked a socialistic speech,
But such pompous terms and thick,
Artistic, scientific
Went with each oratoric screech
That the crowd in silence heard
Wishing of course to applaud,
But expecting a strong word
They could understand, to laud.
«Procrastinators, banditti
Reactionary, servile,
Full‑considerately vile!ª
In this way, pompously witty
He talked and the crowd heard on.
«You», he continued, «each Don
Of financial bloated leer,
I excommunicate here
Before Justice throne severe;
You I detest, I abhor…»
Here a laugh applauding rough
The wide air from the crowd tore.
«That word», they cried in a roar,
«We understand well enough!»
A wild propagandist loud
Shrieked a socialistic speech,
But such pompous terms and thick,
Artistic, scientific
Went with each oratoric screech
That the crowd in silence heard
Wishing of course to applaud,
But expecting a strong word
They could understand, to laud.
«Procrastinators, banditti
Reactionary, servile,
Full‑considerately vile!ª
In this way, pompously witty
He talked and the crowd heard on.
«You», he continued, «each Don
Of financial bloated leer,
I excommunicate here
Before Justice throne severe;
You I detest, I abhor…»
Here a laugh applauding rough
The wide air from the crowd tore.
«That word», they cried in a roar,
«We understand well enough!»
1 074
Fernando Pessoa
A tua irmã é pequena,
A tua irmã é pequena,
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?
1 701
Fernando Pessoa
Cortaste com a tesoura
Cortaste com a tesoura
O pano de lado a lado.
Porque é que todo teu gesto
Tem a feição de engraçado?
O pano de lado a lado.
Porque é que todo teu gesto
Tem a feição de engraçado?
1 980
Fernando Pessoa
Quando me deste os bons-dias
Quando me deste os bons-dias
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
889
Fernando Pessoa
Comes melão às dentadas
Comes melão às dentadas
Porque assim não deve ser.
Não sei se essas gargalhadas
Me fazem rir ou sofrer.
Porque assim não deve ser.
Não sei se essas gargalhadas
Me fazem rir ou sofrer.
1 356
Fernando Pessoa
JUSTICE
There was a land, which I suppose,
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
1 758
Fernando Pessoa
FRATERNITY?
I have no reason to love mankind,
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
Nor, alas! mankind one to love me;
To all its vileness I am not blind,
And all vileness it well can see.
If my hatred in words ne'er wreak
I know, as none do, ununderstood
It is of all men; were I to speak,
As unknown of them remain it would.
So, all in instinct, a mutual hate,
Hid under smiling, we bear each other.
All mankind's kindness well I can rate;
And I hate each man, and call him brother'.
1 518
Fernando Pessoa
Dos montes, dos vales,
Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
1 463